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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

18
Fev19

430 - Pérolas e Diamantes: As ervas daninhas

João Madureira

 

 

Há gente sincera que para não ter de modificar as suas opiniões evita todos os encontros com pessoas que pensam de maneira diferente. Colhem os seus pensamentos em conversa com pessoas que pensam da mesma maneira e em livros escritos por pessoas como elas. É o que se chama em física de ressonância.

 

Tudo começa por convicções sem grande significado, mas que depois se combinam e apoiam umas nas outras até um ponto em que se tornam insuportáveis.

 

Por vezes custa-me respigar no caixote do lixo que é a nossa memória. Mas, como agora se diz, o lixo é para reciclar. Não só o lixo, como a desonestidade, a intriga, a maledicência, a mentira, a cobardia, etc.

 

Pode estar o dia mais bonito, mas na nossa memória chove, cai a noite e fica frio. Depois ficamos em apneia.

 

Já há muito que deixei de representar.

 

Lá está o jardinzinho cheio de ervas daninhas, campainhas, grama e uma macieira morta.

 

No televisor LCD lá está o Casablanca, um dos meus filmes preferidos. E lá dentro o Rick diz a Ilsa: “Please trust me!” E o meu coração enche-se de coragem quando ela, a Ilsa, com aqueles lindos luzeiros marejados de lágrimas, lhe responde: “I will!” Tudo a preto e branco como mandam as leis do bom gosto e da tradição. E também a música: “A Time Goes By”.

 

Está visto e ouvido. Posso voltar a ter esperança no ser humano. Aleluia.

 

Não há nada mais detestável do que aquelas pessoas convencidas que têm razão acerca de tudo.

 

A verdade não é como a comida, não se pode exprimir em calorias. Tal como só há uma vida, também há só uma consciência.

 

Em política, as decisões não podem ser apenas justas, têm de ser também eficazes.

 

A grande maioria dos “fazedores de opinião” que por aí escrevinham são apenas delegados de propaganda política, e quase todos maus, apesar de parecerem razoáveis e impolutos. Pretendem inflamar corações e esclarecer cabeças, mas apenas acirram as paixões, raramente as purificam. Dizem-se arautos da vontade coletiva, mas apenas defendem os seus interesses e os da sua família política, quando não da pessoal.

 

Convidam-nos à valentia, pretendendo a nossa valorosa inatividade.

 

Uma coisa podemos constatar: esta mistura política conjuntural, que nem sequer possui oposição válida, exprime mais emoções do que ideias elaboradas. Daí o seu sucesso. Daí o seu futuro fracasso.

 

Passou-se da sujeição à falta de autoridade. As nossas elites são essencialmente agiotas e roubam o povo tendo como aliado o Estado e os seus súbditos, que por cá se intitulam pomposamente de políticos. O que eles são é capatazes dos banqueiros. Mentem e roubam com a maior desfaçatez, encobrindo-se sobre o manto diáfano do serviço público. O dinheiro é público, disso não restam dúvidas, mas os interesses são apenas privados.

 

Escutem o que vos digo: hoje ninguém tem a coragem, ou a dignidade, de dizer a verdade. Ninguém. Nem o presidente da república, nem o primeiro-ministro, nem o ministro das finanças, nem os deputados, nem o presidente do banco de Portugal. Ninguém. Em política todos mentem. Só que uns mentem menos do que outros. As exceções, a existirem, ficam por vossa conta e risco. Acreditar nos políticos é como acreditar no pai natal.

 

O Estado atual limita-se a expandir a organização técnica e a burocracia.

 

Os novos democratas uma coisa conseguiram: eliminar o respeito pelos prestígios tradicionais. Hoje já não há honra, nem palavra dada. É tudo relativo. Dizem eles.

 

Não resisto a lembrar as palavras de Victor Basch, que se seguiram a uma intervenção de Raymond Aron, um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, revestidas de uma tónica patética.

 

“Ouvi-o, Senhor, com um grande interesse; tanto maior quanto não estou de acordo consigo em ponto algum... diria que esse pessimismo não é heroico; diria que para mim, fatalmente, as democracias sempre triunfaram e triunfarão... Há uma regressão hoje em dia, estaremos num vale? Pois bem, subiremos outra vez ao cume. Todavia, para isso é preciso exatamente alimentar a fé democrática e não destruí-la com argumentos tão fortemente e tão eloquentemente desenvolvidos como o senhor fez.”

 

Nem um único dia duvidou da vitória das democracias, nem mesmo quando os milicianos o levaram e à companheira para os assassinarem.

 

Outra mentira deles: a desigualdade não diminuiu em Portugal. O famoso combate à fraude fiscal e ao desperdício é tudo treta, é argumento para enriquecer alguns e fazer pagar ainda mais impostos aos de sempre. Em Portugal continua-se a viver de baixa tecnologia e de baixos salários.

 

Há ainda a ignorância do cidadão comum, que não percebe o que se passa, e a incúria e a irresponsabilidade dos peritos, que, mesmo percebendo, acham melhor para os seus interesses e para os interesses de quem lhes paga, não dizer nada.

 

Enquanto os portugueses respirarem é só andar para a frente.

14
Fev19

Poema Infinito (444): Morte e ressurreição do desejo

João Madureira

 

 

O desejo está do lado da verdade ou da mentira? O desejo está do lado do desejo. Como se pode fugir do caos? A literatura não pode ser impostura. O corpo acaba. O desejo não. O género não se deseja, tem-se. O desejo nunca foi o Demónio, é Deus. Tanto como Deus deseja o desejo, também o Demónio deseja ser Deus. A blasfémia é o desejo convergente de Deus. E do Demónio. Do Demónio de Deus. A ofensa é um prazer que se perdeu. Resulta daí. A sexualidade é o nosso ponto frágil. Todas as configurações são domesticáveis. O desejo não. O desejo que se foda. O desejo fode-nos. Lidar com o desejo é um problema. O sexo não é um castigo de Deus. O desejo sim. Toda o obediência desobedece ao desejo. O desejo paga-se com desejo. O desejo é a nossa potência e a nossa impotência. Apesar do desejo ter a sua própria língua, escapa à linguagem. O desejo está do lado da verdade. A convenção, não. Ninguém consegue domesticar o desejo. Esse é o castigo de Deus. Por vezes o desejo parece verdadeiramente inverosímil, mas está lá, em tudo o que é iluminado. A religião nunca consegue dar bem conta do pecado. O desejo é um risco de vida. O desejo tem medo do caos e ainda mais dos seus limites. O domínio quase absoluto da razão é praticamente desumano. O desejo é quase irracional. O desejo não obedece à razão. Todos nós sofremos nas mãos do desejo. O mundo empobrece quando o queremos simplificar. O desejo está para além do mundo caótico da verdade. O desejo baseia-se na contradição. O teu estilo é uma ênfase. O desejo vai nu mesmo que vá vestido. O desejo pode ser para o bem e para o mal. Guardo o teu desejo nos meus lábios. Quero desejar-te. Quero o que não tenho. Esse é o erro do acaso. Subitamente dentro de ti cintila o desejo. Esse desejo desejoso de desejar. Agarro-me a ele sobretudo quando me quer deixar. O desejo é como se fosse o meu futuro. O presente esgota-me e esgota-se. O desejo pode matar. O desejo pode matar o desejo. Sonho com vastidões imensas. Sonho com a luz. Com a luz imensa do desejo. O desejo reza. O desejo chora. O desejo de Vénus é a sua cintura estreita, as suas mãos suspeitas, o seu sexo a arder. Também sonho com a solidão impalpável do desejo. Por vezes o desejo sossega sem saber a razão. Também as ondas são breves. E a verdura. A verdura extensa do desejo. As águas lentas encontram-me já exausto. Eu sou o Fausto do meu próprio desejo, a sua esperança gulosa, a sua impaciência, a sua loucura, a sua indecência. O desejo também pode ser um jardim. Observo o teu desejo como se fosse um retrato. Os corpos costumam rodar quando estão insatisfeitos. O fator da tua boca faz-me entrar em pânico. O mesmo pânico que nos assalta quando prendemos uma ave. De onde me vem esse desejo? O teu desejo. O desejo também pode ser obscuro. O desejo vagaroso. O desejo por vezes conversa comigo como se eu fosse uma criança parva. O desejo acorda-me a carne. O meu desejo tem os olhos claros, da cor dos teus. O desejo também pode ser clandestino. Por vezes vela-me. Outras vezes velo-o eu. O teu desejo segue-me noite e dia. Depois de vencido, o desejo tomba de forma dolorosa. O corpo vence-o mesmo quando é vencido por ele. O seu gozo é lânguido. O desejo define-me o prazer. Por vezes prende-me. Outras vezes embala-me. Por vezes sou o seu tesouro e a sua glória. Por vezes sou a sua vitória. A seguir volta a subir por mim acima como se eu fosse a sua árvore. O desejo é a serpente do paraíso. O pecado morre ao lado. E ressuscita no dia seguinte.

11
Fev19

429 - Pérolas e Diamantes: Os de cá e os de lá

João Madureira

 

 

Há pessoas que depois de passarem pela vida parecem carvalhos feridos. São aqueles que teimaram em resistir, que insistiram em se sacrificar na defesa do bem público como o faziam os homens de Atenas em nome do ideal de humanidade.

 

Passamos a vida a fazer truncagens discretas, a pôr efeitos especiais nas nossas existências, a montar novamente o filme das nossas vidas. Mas mudar os enquadramentos não altera a história do filme. Uns ficam-se pela realidade trivial. A outros basta-lhes o genérico.

 

Alguns dizem que há dores deliciosas. Esses são os adeptos das grandes peregrinações. Dizem que não lhes interessa o lugar de destino mas o prazer de caminhar. São os que nunca chegam a lado nenhum. Há gente para tudo.

 

Maomé disse que denunciar uma maledicência sobre um amigo a esse amigo é dizer mal dele. Os de cá pensam o contrário. Alá é grande, Deus é misericordioso. Todas as religiões são um jogo de espelhos. Refletem a nossa imagem, mas sempre ao contrário.

 

Está na moda integrar tudo e todos. Curiosamente, cada vez me sinto mais desintegrado. A maior integração é a da idiotice. Dizem que a integração muda tudo. É mentira, não muda nada. Muda é as pessoas de lugar, para se sentirem bem em todo o lado. Quem é de todo o lado, não é de lado nenhum. E esse é o pior sentimento do mundo.

 

Desgraçados dos desenraizados. Desgraçados dos transfronteiriços. Quem não tem chão que possa chamar seu não pode viver descansado, nem pode morrer em paz. Isso dizia a minha avó que sabia sempre o que dizia. E a quem o dizia.

 

A esquerda caviar e todos os burgueses enfatuados gostam de se refugiar no luxo absoluto do despojamento de Marraquexe. Aí é que reside a verdadeira integração. Uns dias de repouso em trabalho e tudo fica resolvido nas suas consciências. No parlamento europeu lá se aprovarão umas leis para os cidadãos cá do continente tomarem consciências dos hologramas que elegeram para os representarem.

 

Os beurs que matem, que se matem, ou que se deixem matar.

 

Os negros são bonitos é na televisão. A andarem de um lado para o outro, sempre no mesmo enredo filmados por brancos que se deliciam em mostrar ao mundo a sua desgraça. Eles ficam tão bem na televisão, sempre tão desamparados, tão desgraçados, tão carentes. Que linda pode ser a desgraça alheia. Que lindos filmes faz, que lindas fotografias dá, que belos telejornais abre. E origina romances inebriantes. E poemas vibratórios. E ensaios pungentes. Há investigações interessantíssimas sobre a desgraça alheia dos beurs.

 

Existe uma certa exasperação no mundo ocidental pelo singelo motivo de os seus líderes serem incapazes de provar que têm razão. Daí o procurarem em vão uma arbitragem. Na ONU é tudo boa gente. Todos bons rapazes. E raparigas. Mas atualmente, onde se encontram opiniões sinceras? Além disso, já ninguém leva a sério as organizações dos enfatuados bem pensantes. As Nações Unidas tornaram-se irrelevantes e inoperantes, por isso têm à sua frente um português que fugiu do pântano português para se ir enterrar nas areias movediças da ONU.

 

Mas os turistas europeus alternativos, os tais que acreditam na ONU, nas ONG’s e na “Alice no País das Maravilhas” desunham-se para irem até ao Magrebe (leia-se Marraquexe, praça de Jemna el-Fna) munidos de trouxa leve, óculos de sol ray-ban de lentes polarizadas anti-UV, calções tipo jogadores de golfe ou calças de algodão ventilado, polos da Lacoste, chinelas de meter no dedo, ou ténis sem atilhos, bolsa de toilette com produtos para o cuidado da pele, leite hidratante après-soleil, creme antirrugas, esfoliante e, sobretudo, o seu complemento intelectual: Rimbaud em formato de bolso. E ali ficam a deliciar-se com a pobreza dos berberes enquanto bebem deliciosos sumos e degustam iguarias próprias dos príncipes da Renascença. Vale-lhes serem União Europeia, espaço Schengen.

 

Como dizem os muçulmanos, esses furadores de fronteiras, sejam elas de que tipo forem, o mundo é um passador de couscous.

 

Como dizia a minha avó: pobre de quem é pobre.

 

Os do lado de lá esperam pacientemente pela recompensa do medo.

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