Segunda-feira, 4 de Março de 2019

432 - Pérolas e Diamantes: A necessidade da ironia

 

 

Há pessoas que procuram a imortalidade reclamando cartazes para os seus túmulos.

 

Para não ferir suscetibilidades não vou falar nem de Saramago e, muito menos, de Lobo Antunes.

 

Por exemplo, Hemingway era extraordinariamente vaidoso. Dizem que preferiu o suicídio ao acidente. Um acidente a limpar a arma teria ido contra tudo aquilo que lhe alimentava a vaidade. Garantem os entendidos que dar um tiro na cabeça com uma espingarda de caça é quase impossível, se não for planeado. Uma pessoa experiente nunca carrega a arma enquanto a limpa. Asseguram também que só um pateta poderia ter sofrido um acidente do género que vitimou o escritor. E todos sabemos que Hemingway não era pateta.

 

Afirmam também que o autor de “Por Quem os Sinos Dobram” era o preferido dos críticos porque nunca mudava de estilo, tema ou história. Não fazia experiências de pensamento nem de emoção. Steinbeck achava que, à semelhança do fotógrafo Robert Capa, criou uma imagem ideal de si próprio e que depois tentou vivê-la. O seu problema é que via os outros escritores vivos não como contemporâneos mas como adversários. Ainda segundo Steinbeck, Hemingway preocupava-se realmente com a sua imortalidade, como se duvidasse dela.

 

Henry James reescrevia textos simples e compreensíveis para os tornar obscuros e difíceis. Há escritores para tudo. Para se escrever bons livros não basta ter ideias, técnica ou competência. É necessário entusiasmo  e fé.

 

E para se escrever com ironia é necessário ter uma consciência profunda da injustiça, sobretudo em relação aos membros da Humanidade que são vítimas dos estúpidos, dos pretensiosos e dos hipócritas.

 

Um dia perguntaram à escritora Dorothy Parker se achava que a estabilidade económica era uma vantagem para o escritor. Ela respondeu que quanto a si, gostaria de ter dinheiro. E também gostava de escrever bem. Desejava até que esses dois elementos pudessem coexistir, mas se fosse demasiado difícil, preferia ter dinheiro. E rematou: “Detesto quase todas as pessoas ricas, mas acho que eu própria seria amorosa se tivesse esse tipo de vida.”

 

Curiosamente, eu penso da mesma maneira.

 

Os fazedores de opinião, vistam eles a roupa que vestirem, apenas se esforçam por domesticar a verdade. Enveredam sempre pelos caminhos de expressão demasiado gastos. É o seu vício. E teimam sempre em nos levar por aí. É difícil resistir-lhes.

 

É da natureza da palavra escrita não só dispensar a nossa presença, como também, em muitos aspetos, as nossas intenções. É isso o que a torna extraordinária.

 

Walter Benjamim afirmou que um livro pode passar mil anos sem ser lido, até o leitor adequado o encontrar. Os livros não têm pressa. O ato criativo não tem pressa.

 

Foi no século XX que descobrimos que as humanidades não conseguiram humanizar. Ou seja, a educação literária pode, pelo contrário, fomentar a crueldade política e a barbárie.

 

O nazismo, o comunismo e o estalinismo demonstraram-nos o paradoxo central: que a cultura literária, a literacia mais sofisticada, todas as técnicas de propaganda e transmissão cultural podem não só acompanhar a violência, a opressão e o despotismo, mas também, de certa maneira, reforçá-los.

 

A leitura deve comprometer-nos com um ponto de vista, deve convocar a humanidade, deve diminuir a nossa capacidade de indiferença. O mal nem sempre está nos outros.

 

Os escritores são todos fascinados pela técnica. Claro que a técnica é importante. Mas existe outro elemento na escrita que também o é: nós mesmos. Henry Miller descobriu que para ele a melhor técnica era técnica nenhuma. Nunca sentiu que tinha de aderir a qualquer tipo de abordagem particular. Tentava permanecer aberto e flexível, pronto para virar com o vento ou a corrente do pensamento.

 

Há uma caricatura da literatura francesa que se baseia na ideia de que existe sempre alguém que está triste e depois se suicida. Esse tipo de pessimismo que diz que a vida não vale a pena ser vivida é moralmente ofensivo.

 

Por vezes sinto que vivo numa espécie de Quinta Dimensão, onde tudo parece armadilhado e traiçoeiro.

 

Emmanuel Carrère conta que certa vez ouviu a uma menina, que se tinha portado mal, perguntar à sua mãe, que lhe dizia para se colocar no lugar das outras pessoas, que se fizesse isso, para onde é que iriam essas pessoas?

 

Dizem que nos devemos sempre colocar no lugar do outro. Eu percebo a intenção pedagógica. Mas a única coisa que podemos fazer é ocupar o nosso próprio lugar, com o máximo de investimento possível, e afirmarmos que estamos a imaginar como seria ser outra pessoa, sem nunca perdermos a noção de que somos nós a imaginar. Nada mais podemos fazer do que isso.


publicado por João Madureira às 07:00
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