Quinta-feira, 14 de Março de 2019

Poema Infinito (448): O gosto húmido da terra

 

 

Agora compreendo o voo dos pássaros. E a ondulação das ervas. Na primavera espero que as florzinhas cresçam. Percorro a vida com algum atraso. Mas tudo o que aprendi foi para sempre. Fixo-me nos ranúnculos que florescem. Na primeira vez que cheguei à cidade cheirava a feno. Na aldeia, quando está neve, os sons duram mais tempo. A alegria não tem condições. A solidão é a minha companhia. Escuta-me onde estiveres, não quero cantar inutilmente. Se Deus fosse mulher o que seria considerado pecado? São Jorge emprestou-me o seu cavalo e eu não sei o que fazer com ele. Subo então por uma montanha e desço junto ao leito do rio. As sombras são mais fugidias. Os campos parecem mares. Lembro-me das flores que costumas levar no teu peito. O amor também pode ser uma coisa estranha. Os pássaros morrem de encontro à claridade da manhã. Os prantos dos animais são mais corridos. A absolvição tarda. Os deuses, por vezes, também rezam, parecendo criaturas de sorriso fácil, acreditando ainda no paraíso, nos suspiros e no desgosto, caminhando sempre às voltas, evitando o vento e a eternidade. Os precipícios já não são novidade. Levo na partida a tua luz, o teu desejo. O teu espanto fulminante. As ilusões fazem sempre parte das despedidas. E também as mãos. E os vestígios. Os vestígios dos gestos, do amor, das pequenas palavras, do seu calor, da sua verdade mais sólida, dos sentidos mutilados, da melancolia, do tempo que já esquecemos, da loucura indolor das crianças, do adormecimento da esperança, da silenciosa tristeza das lâmpadas, da água que vibra, das nuvens que parecem velas. Nos jardim despontam as flores adversas. Sinto o teu cheiro a orvalho. O espetáculo da vida é infatigável. Tempos mais versáteis virão. A beleza é inútil. A sua existência é sempre incompleta. Não é preciso provar para perceber o gosto húmido da terra, a insegurança do tempo, o brilho das folhas novas, a voz das madrugadas, o perfume das flores, a lenta anunciação da música. Homens eternos navegarão por cima da água e do vento. Venho de longe e vou ainda para mais longe. Procuro os teus sinais no meu caminho. O céu indica-me a tua trajetória. Os tempos estão muito mais confusos. Os operários de Babel começaram a suicidar-se. Alguém canta. As palavras parecem pássaros escondidos no escuro. O seu canto procura um novo desenho para a claridade. A chuva continua a polir as pedras. Estou longe das horas, dos itinerários mais antigos, dos fantasmas insepultos. O silêncio eleva a morte. O rosto do dia de hoje parece calmo. Os seus olhos estão vazios. Não me apercebi da mudança da alvorada. As raízes tornam o chão mais profundo. Tenho saudade das nuvens rápidas, dos pássaros que não se explicam, dos velhos que andavam ao sol, dos amantes que choravam e se beijavam como se não houvesse amanhã. Começo a esbracejar para não me afogar dentro do meu próprio sonho. O azul escorre dos meus dedos. O dia curva-se de frio. Tenho pena dos barcos que se afogam nas águas perfeitas do mar, das distâncias antigas, do silêncio dos desertos, da velocidade deslocada dos mundos, das vozes das ondas, da eterna solidão das estrelas, do vento plácido que tudo apaga. Acumulo cada vez mais ausências. Os sorrisos ficam suspensos. A névoa tudo encobre.


publicado por João Madureira às 07:00
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