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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Abr19

440 - Pérolas e Diamantes: Rachar lenha

João Madureira

 

 

Pausas também são música. Ou, como costumava dizer José Matoso, não se pode provar que haja um sentido para o mundo. Uma coisa é viver, outra é perceber racionalmente.

 

Estou em crer que a invisibilidade faz parte da função da cultura. Pois, mas o invisível também é real.

 

Portugal, quer queiramos quer não, é um país inculto onde a classe política continua a desprezar arrogantemente a classe intelectual.

 

E criticar, ficam a saber os ressentidos mais imobilistas, também é criar. A metáfora continua a ser um bom modo de espreitar o outro lado da realidade.

 

Onde muita gente vê defeitos, eu deteto virtudes. Mas que se lhe há de fazer? Por isso não sou daqueles que adormecem ao som da sua própria música. Não sou do fado, nem do corridinho. Eu aprecio jazz.

 

Mas, caros amigos, sempre detestei dar conselhos, desde logo por pensar que o que não descobrimos e reconhecemos à nossa custa, pouco nos adianta. O que conta é a experiência.

 

Devido à minha altura, julgaram-me capaz de ser para-raios. Como todos sabemos, além de não me servir tal condição, foi-me chamuscando os dedos e a paciência. Diz-se que cada um é para o que nasce, mas também se afirma que o que é demais é desgoverno. E outras coisas pelo estilo.

 

Sinto-me um independente ativo. Continuo a não gostar que me digam o que devo fazer. Gosto de discordar.

 

Bach e o fundo azul do céu costumam funcionar bem.

 

Por vezes ponho-me a olhar para algumas frases durante um certo tempo tentando descobrir-lhes o sentido escondido. Depois deixo-as lá com o seu mistério antes que me pareçam estranhas.

 

Podemos desconfiar das palavras e do seu sentido, mas apenas nos resta a circunstância de só termos as palavras para procedermos à sua análise .

 

Sinto-me aquilo que sou: um rachador de lenha. E quem está de fora não tem outra hipótese. Eu nem quando estava dentro.

 

Apesar do carnaval ser diferente, as máscaras são as mesmas. O que a maior parte dos que estão dentro não percebe, ou não quer perceber porque não lhes interessa, é que quem está de fora pode rachar lenha mas também possui firmeza e coragem. Não sei se mais, ou menos, mas a bastante para passar a mensagem de que nem tudo são favas contadas.

 

Os nabos estão no nabal à espera de serem arrancados. Todos os anos se semeiam e se colhem. Nabos não faltam, nem a vontade de proliferarem. Nem os nabos, nem as nabiças. Muito menos os tortulhos.

 

A desconfiança anda quase sempre associada a uma certa sede de concreto.

 

Eu acredito no poder. No poder do exemplo. Nesse. E apenas nesse. Na sua razão. Na sua verdade. Nesse poder reside a nossa razão.

 

Atualmente teima-se em domesticar a verdade, em enveredar por caminhos expressivos demasiado gastos.

 

Para mentir lá está a literatura que, na opinião de Julian Barnes, é a melhor maneira de dizer a verdade, produzindo mentiras grandiosas, belíssimas e bem organizadas que revelam mais verdade do que a mera associação de factos.

 

É a inquietação o que nos leva a escrever livros. A condição normal de um escritor é a ansiedade.

 

Mas a verdade é que cada vez me irrita mais esta nossa tendência de vender o país como paródia para o consumo dos outros. Entristece-me quase até às lágrimas a nossa crescente dependência do turismo.

 

Sim, eu sei, é preciso ter cuidado com o focinho do crocodilo no meio dos nenúfares.

 

Julian Barnes disse uma coisa que me ficou: “Não desperdices a falar o que tens para escrever.”

 

Quem se deixa atrasar nos processos acaba por colher os frutos podres ou amargos.

 

Argumentar contra quem não nos quer ouvir é como atirar ervilhas secas contra uma parede.

 

No Talmude existe um ditado repleto de sabedoria que resume grande parte da psicologia humana: “Não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como nós somos.”

 

As verdades inconvenientes não desaparecem mesmo que as mascaremos com mentiras convenientes.

25
Abr19

Poema Infinito (454): O frio limpo do linho

João Madureira

 

 

 

Coincidimos na poesia. Na sua mordedura. A neblina tomou conta dos rostos dos avós, dos rostos dos pais e de muitos tios. As aves atravessam a manhã. O que importa é escutar. Algumas memórias permanecem límpidas. Outras são inertes e enormes como montanhas. O lume da lareira repete o refúgio dos antigos encontros. Aprendi cedo a saudade das despedidas, a interrupção das coincidências, as paisagens agrestes do Barroso, as nuvens que prometem chuva, o estremecimento súbito das casas, a miragem fatal das tempestades, o medo das tragédias, a ira dos deuses, a morte instalada nas lâminas das facas. Percorro o teu corpo como quem investiga um mapa, como quem descobre ilhas no meio do oceano, com os dedos vagarosos. As mãos escrevem tristes geografias, labirintos de razões improváveis, escarpas que as ondas do mar ajudaram a definhar. Pressinto o tempo, a conjetura das sombras, os muros do desejo. Deitado na cama, ouço a tempestade. A luz define os contornos da noite. O outono não tarda a chegar. Já vejo o frio nos teus olhos. Ao fim da tarde, as sombras crescem como florestas. Nesta altura desenvolvem-se as febres. Os acontecimentos revelam novas teorias sobre a realidade. No entanto, o tempo é outro. A memória devora os reflexos da água. As presenças desfazem-se, tornando todo o esforço inútil. Chegou a altura de me conformar com as ausências, com o lento desmoronamento da vida, com a decadência, com a voz obstinada da decadência, com a decomposição eterna das horas, com a afinidade das alegorias. Os sonhos mágicos possuem agora um sabor amargo. A perfeição não existe para os olhares indecisos. Subimos e descemos pelas ruas mortas. Os olhos dos velhos parecem círios cediços. As suas bocas escondem segredos. Sentem o frio da sua próxima ausência. O seu mundo está cheio de vazio. Já não conseguem distinguir o que tarda e o que chega cedo. Os seus abismos não têm limites. Ocupam-se a reconhecer o indício das sombras, a imobilidade dos prados, a inconstância do sono. Chegou o momento de monitorizar a existência. Não há nenhuma diferença na igualdade. Só monotonia. Possui ela o mesmo constrangimento das casas conhecidas, a mesma sensibilidade da angústia, a mesma calma das cadeiras. Lembro-me agora do frio limpo do linho, da necessidade de perguntar, da disposição irracional para a infelicidade. O tempo cria a angústia das saudades. Fixo-me obstinadamente no tom lento da luz que o soalho envernizado reflete. O meu pensamento adquire a suspensão do pó que a aragem despega dos móveis. Chegou o tempo das grandes estagnações. A água de inverno deixa os campos ainda mais tristes e vagos. Nestas alturas o cheiro dos livros é mais intenso, o sono mais agitado. Tudo parece chegar mais cedo. Os espectros vêm carregados de memórias. Resignamo-nos então à dor, ao regresso da vergonha, ao fardo das palavras. A velhice envolve-nos em indiferença. Dizem que o avô conheceu montanhas geladas, atravessou noites e florestas densas. Dizia que todas as ruínas são provisórias. Agora as escolhas são feitas ao contrário. Por isso, tudo é mais vago. Os homens podem pouco contra a compaixão. Os grandes segredos guardam-se dentro do coração. Sem crianças, o Natal é agora ainda mais doloroso. No entanto, a distância entre a minha e a tua mão deixou de existir.

22
Abr19

439 - Pérolas e Diamantes: Do júbilo à vergastada

João Madureira

 

 

Fascinam-me os pré-rafaelitas. Eles defendiam que a arte se começou a degenerar logo após a Idade Média. Ou seja, desde o início do Renascimento a arte separou-se de toda a espiritualidade, tornando-se numa atividade puramente industrial e comercial. Os chamados grandes mestres do Renascimento (Botticeli, Rembrandt ou Leonardo da Vinci)  passaram a comportar-se como simples chefes de empresas comerciais, exatamente como Jeff Koons, Damien Horst, ou a portuguesa Joana Vasconcelos, dirigindo com pulso de ferro oficinas de cinquenta, ou cem assistentes, que produziam em cadeia quadros, esculturas, frescos. Limitando-se eles a pessoalmente fornecerem a orientação geral, a assinar a obra acabada, e, sobretudo, dedicavam-se às relações públicas juntos dos mecenas da altura: os príncipes ou papas.

 

Por falar em civilização, pus-me a ler e a pensar e deparei-me com coisas um pouco estranhas. Ao nativo americano que rezava aos lobos chamaram-lhe selvagem. Ao nativo africano que rezava aos seus antepassados chamaram-lhe primitivo. No entanto, nós, os tais da cultura ocidental, achamos do mais simples senso comum rezarmos a um homem que transformou a água em vinho. Curioso: até nos consideramos uma cultura avançada. Superiores aos outros, em tudo.

 

As almas boas mais tocadas pela fé dizem que nos templos que frequentam praticam a veneração jubilosa do Senhor, que com a ajuda do senhor abade analisam profundamente as escrituras e que até se oferecem à paixão e à catarse. Dizem ainda sentir nesses lugares a presença do Espírito Santo dentro de si.

 

A mim, da Bíblia, para além da transformação da água em vinho por Jesus, que a maior parte da família adorava, tanto a história como a bebida, que apelidavam de sangue de Cristo, divertiram-me muito as histórias de Noé e o dilúvio, de Moisés a separar as águas do Mar Vermelho, de David a esmoucar Golias e Jesus a vergastar os cambistas no templo. Sansão foi o meu primeiro Super-Herói. É impagável um jovem matar centenas e centenas de pessoas apenas com a mandíbula de um burro. Mas a coisa começou a perder a piada com a chegada de Paulo e da sua mania em escrever cartas aos Efésios e a outros povos espalhados pela diáspora.

 

Deus é também um ser ardiloso, cheio de boa vontade, mas um pouco desconfiado, pois muitas vezes costuma colocar os seus seguidores à prova para ver se ultrapassam os obstáculos e continuam determinados na fé de o continuarem a adorar. Jó é o exemplo mais paradigmático.

 

Como devem saber os meus caros amigos, não há ninguém mais escrupuloso em matéria de religião do que um agnóstico, ou um ateu.

 

Quando já com certa idade, e alguma irreverência marxista, fazia algum comentário deste tipo na presença da minha avó, ela perdia momentaneamente a sua atitude conciliatória e admoestava-me dizendo que não me atrevesse a contrariá-la, a contradizê-la, a subestimá-la. O que era ao mesmo tempo uma ordem e uma ameaça.

 

O problema das religiões, sobretudo as monoteístas, na qual podemos, e devemos, incluir o Comunismo, é que se movem pela inércia, trabalham pelo hábito, praticando uma espécie de autoengano pensando que possuem as melhores ideias do mundo. Por incrível que pareça, o que as mantém é o provincianismo e a incultura.

 

As religiões são história. E a história não é uma ciência. É ficção.

 

Tenho de admirar aqueles jovens que ainda teimam em estudar os autores que fazem parte do património da Humanidade: Platão, Ésquilo, Sófocles. E também Racine, Molière, Vítor Hugo. Ou ainda Balzac, Dickens e Flaubert. Além dos românticos alemães e dos romancistas russos. E também de Pessoa e Saramago.

 

E ainda me surpreendem mais os familiarizados com os principais dogmas da fé católica, cujas marcas na cultura ocidental são muito profundas. Em contraste com os seus contemporâneos que sabem mais das aventuras do Homem-Aranha do que da vida de Jesus.

 

De pouco serve a springbok ser o segundo mamífero terrestre mais rápido do mundo já que o primeiro é a chita, que dele se alimenta.

 

Ou seja, pego nas palavras de Saramago e despeço-me por hoje: “Sou um espírito profundamente religioso. É preciso ter-se um altíssimo grau de religiosidade para fazer um ateu como eu.”

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