Terça-feira, 30 de Abril de 2019

No Barroso

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Segunda-feira, 29 de Abril de 2019

440 - Pérolas e Diamantes: Rachar lenha

 

 

Pausas também são música. Ou, como costumava dizer José Matoso, não se pode provar que haja um sentido para o mundo. Uma coisa é viver, outra é perceber racionalmente.

 

Estou em crer que a invisibilidade faz parte da função da cultura. Pois, mas o invisível também é real.

 

Portugal, quer queiramos quer não, é um país inculto onde a classe política continua a desprezar arrogantemente a classe intelectual.

 

E criticar, ficam a saber os ressentidos mais imobilistas, também é criar. A metáfora continua a ser um bom modo de espreitar o outro lado da realidade.

 

Onde muita gente vê defeitos, eu deteto virtudes. Mas que se lhe há de fazer? Por isso não sou daqueles que adormecem ao som da sua própria música. Não sou do fado, nem do corridinho. Eu aprecio jazz.

 

Mas, caros amigos, sempre detestei dar conselhos, desde logo por pensar que o que não descobrimos e reconhecemos à nossa custa, pouco nos adianta. O que conta é a experiência.

 

Devido à minha altura, julgaram-me capaz de ser para-raios. Como todos sabemos, além de não me servir tal condição, foi-me chamuscando os dedos e a paciência. Diz-se que cada um é para o que nasce, mas também se afirma que o que é demais é desgoverno. E outras coisas pelo estilo.

 

Sinto-me um independente ativo. Continuo a não gostar que me digam o que devo fazer. Gosto de discordar.

 

Bach e o fundo azul do céu costumam funcionar bem.

 

Por vezes ponho-me a olhar para algumas frases durante um certo tempo tentando descobrir-lhes o sentido escondido. Depois deixo-as lá com o seu mistério antes que me pareçam estranhas.

 

Podemos desconfiar das palavras e do seu sentido, mas apenas nos resta a circunstância de só termos as palavras para procedermos à sua análise .

 

Sinto-me aquilo que sou: um rachador de lenha. E quem está de fora não tem outra hipótese. Eu nem quando estava dentro.

 

Apesar do carnaval ser diferente, as máscaras são as mesmas. O que a maior parte dos que estão dentro não percebe, ou não quer perceber porque não lhes interessa, é que quem está de fora pode rachar lenha mas também possui firmeza e coragem. Não sei se mais, ou menos, mas a bastante para passar a mensagem de que nem tudo são favas contadas.

 

Os nabos estão no nabal à espera de serem arrancados. Todos os anos se semeiam e se colhem. Nabos não faltam, nem a vontade de proliferarem. Nem os nabos, nem as nabiças. Muito menos os tortulhos.

 

A desconfiança anda quase sempre associada a uma certa sede de concreto.

 

Eu acredito no poder. No poder do exemplo. Nesse. E apenas nesse. Na sua razão. Na sua verdade. Nesse poder reside a nossa razão.

 

Atualmente teima-se em domesticar a verdade, em enveredar por caminhos expressivos demasiado gastos.

 

Para mentir lá está a literatura que, na opinião de Julian Barnes, é a melhor maneira de dizer a verdade, produzindo mentiras grandiosas, belíssimas e bem organizadas que revelam mais verdade do que a mera associação de factos.

 

É a inquietação o que nos leva a escrever livros. A condição normal de um escritor é a ansiedade.

 

Mas a verdade é que cada vez me irrita mais esta nossa tendência de vender o país como paródia para o consumo dos outros. Entristece-me quase até às lágrimas a nossa crescente dependência do turismo.

 

Sim, eu sei, é preciso ter cuidado com o focinho do crocodilo no meio dos nenúfares.

 

Julian Barnes disse uma coisa que me ficou: “Não desperdices a falar o que tens para escrever.”

 

Quem se deixa atrasar nos processos acaba por colher os frutos podres ou amargos.

 

Argumentar contra quem não nos quer ouvir é como atirar ervilhas secas contra uma parede.

 

No Talmude existe um ditado repleto de sabedoria que resume grande parte da psicologia humana: “Não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como nós somos.”

 

As verdades inconvenientes não desaparecem mesmo que as mascaremos com mentiras convenientes.


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Domingo, 28 de Abril de 2019

No Barroso

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Sábado, 27 de Abril de 2019

Na aldeia

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Sexta-feira, 26 de Abril de 2019

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Quinta-feira, 25 de Abril de 2019

Poema Infinito (454): O frio limpo do linho

 

 

 

Coincidimos na poesia. Na sua mordedura. A neblina tomou conta dos rostos dos avós, dos rostos dos pais e de muitos tios. As aves atravessam a manhã. O que importa é escutar. Algumas memórias permanecem límpidas. Outras são inertes e enormes como montanhas. O lume da lareira repete o refúgio dos antigos encontros. Aprendi cedo a saudade das despedidas, a interrupção das coincidências, as paisagens agrestes do Barroso, as nuvens que prometem chuva, o estremecimento súbito das casas, a miragem fatal das tempestades, o medo das tragédias, a ira dos deuses, a morte instalada nas lâminas das facas. Percorro o teu corpo como quem investiga um mapa, como quem descobre ilhas no meio do oceano, com os dedos vagarosos. As mãos escrevem tristes geografias, labirintos de razões improváveis, escarpas que as ondas do mar ajudaram a definhar. Pressinto o tempo, a conjetura das sombras, os muros do desejo. Deitado na cama, ouço a tempestade. A luz define os contornos da noite. O outono não tarda a chegar. Já vejo o frio nos teus olhos. Ao fim da tarde, as sombras crescem como florestas. Nesta altura desenvolvem-se as febres. Os acontecimentos revelam novas teorias sobre a realidade. No entanto, o tempo é outro. A memória devora os reflexos da água. As presenças desfazem-se, tornando todo o esforço inútil. Chegou a altura de me conformar com as ausências, com o lento desmoronamento da vida, com a decadência, com a voz obstinada da decadência, com a decomposição eterna das horas, com a afinidade das alegorias. Os sonhos mágicos possuem agora um sabor amargo. A perfeição não existe para os olhares indecisos. Subimos e descemos pelas ruas mortas. Os olhos dos velhos parecem círios cediços. As suas bocas escondem segredos. Sentem o frio da sua próxima ausência. O seu mundo está cheio de vazio. Já não conseguem distinguir o que tarda e o que chega cedo. Os seus abismos não têm limites. Ocupam-se a reconhecer o indício das sombras, a imobilidade dos prados, a inconstância do sono. Chegou o momento de monitorizar a existência. Não há nenhuma diferença na igualdade. Só monotonia. Possui ela o mesmo constrangimento das casas conhecidas, a mesma sensibilidade da angústia, a mesma calma das cadeiras. Lembro-me agora do frio limpo do linho, da necessidade de perguntar, da disposição irracional para a infelicidade. O tempo cria a angústia das saudades. Fixo-me obstinadamente no tom lento da luz que o soalho envernizado reflete. O meu pensamento adquire a suspensão do pó que a aragem despega dos móveis. Chegou o tempo das grandes estagnações. A água de inverno deixa os campos ainda mais tristes e vagos. Nestas alturas o cheiro dos livros é mais intenso, o sono mais agitado. Tudo parece chegar mais cedo. Os espectros vêm carregados de memórias. Resignamo-nos então à dor, ao regresso da vergonha, ao fardo das palavras. A velhice envolve-nos em indiferença. Dizem que o avô conheceu montanhas geladas, atravessou noites e florestas densas. Dizia que todas as ruínas são provisórias. Agora as escolhas são feitas ao contrário. Por isso, tudo é mais vago. Os homens podem pouco contra a compaixão. Os grandes segredos guardam-se dentro do coração. Sem crianças, o Natal é agora ainda mais doloroso. No entanto, a distância entre a minha e a tua mão deixou de existir.


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Quarta-feira, 24 de Abril de 2019

No Barroso

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Terça-feira, 23 de Abril de 2019

No Barroso

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Segunda-feira, 22 de Abril de 2019

439 - Pérolas e Diamantes: Do júbilo à vergastada

 

 

Fascinam-me os pré-rafaelitas. Eles defendiam que a arte se começou a degenerar logo após a Idade Média. Ou seja, desde o início do Renascimento a arte separou-se de toda a espiritualidade, tornando-se numa atividade puramente industrial e comercial. Os chamados grandes mestres do Renascimento (Botticeli, Rembrandt ou Leonardo da Vinci)  passaram a comportar-se como simples chefes de empresas comerciais, exatamente como Jeff Koons, Damien Horst, ou a portuguesa Joana Vasconcelos, dirigindo com pulso de ferro oficinas de cinquenta, ou cem assistentes, que produziam em cadeia quadros, esculturas, frescos. Limitando-se eles a pessoalmente fornecerem a orientação geral, a assinar a obra acabada, e, sobretudo, dedicavam-se às relações públicas juntos dos mecenas da altura: os príncipes ou papas.

 

Por falar em civilização, pus-me a ler e a pensar e deparei-me com coisas um pouco estranhas. Ao nativo americano que rezava aos lobos chamaram-lhe selvagem. Ao nativo africano que rezava aos seus antepassados chamaram-lhe primitivo. No entanto, nós, os tais da cultura ocidental, achamos do mais simples senso comum rezarmos a um homem que transformou a água em vinho. Curioso: até nos consideramos uma cultura avançada. Superiores aos outros, em tudo.

 

As almas boas mais tocadas pela fé dizem que nos templos que frequentam praticam a veneração jubilosa do Senhor, que com a ajuda do senhor abade analisam profundamente as escrituras e que até se oferecem à paixão e à catarse. Dizem ainda sentir nesses lugares a presença do Espírito Santo dentro de si.

 

A mim, da Bíblia, para além da transformação da água em vinho por Jesus, que a maior parte da família adorava, tanto a história como a bebida, que apelidavam de sangue de Cristo, divertiram-me muito as histórias de Noé e o dilúvio, de Moisés a separar as águas do Mar Vermelho, de David a esmoucar Golias e Jesus a vergastar os cambistas no templo. Sansão foi o meu primeiro Super-Herói. É impagável um jovem matar centenas e centenas de pessoas apenas com a mandíbula de um burro. Mas a coisa começou a perder a piada com a chegada de Paulo e da sua mania em escrever cartas aos Efésios e a outros povos espalhados pela diáspora.

 

Deus é também um ser ardiloso, cheio de boa vontade, mas um pouco desconfiado, pois muitas vezes costuma colocar os seus seguidores à prova para ver se ultrapassam os obstáculos e continuam determinados na fé de o continuarem a adorar. Jó é o exemplo mais paradigmático.

 

Como devem saber os meus caros amigos, não há ninguém mais escrupuloso em matéria de religião do que um agnóstico, ou um ateu.

 

Quando já com certa idade, e alguma irreverência marxista, fazia algum comentário deste tipo na presença da minha avó, ela perdia momentaneamente a sua atitude conciliatória e admoestava-me dizendo que não me atrevesse a contrariá-la, a contradizê-la, a subestimá-la. O que era ao mesmo tempo uma ordem e uma ameaça.

 

O problema das religiões, sobretudo as monoteístas, na qual podemos, e devemos, incluir o Comunismo, é que se movem pela inércia, trabalham pelo hábito, praticando uma espécie de autoengano pensando que possuem as melhores ideias do mundo. Por incrível que pareça, o que as mantém é o provincianismo e a incultura.

 

As religiões são história. E a história não é uma ciência. É ficção.

 

Tenho de admirar aqueles jovens que ainda teimam em estudar os autores que fazem parte do património da Humanidade: Platão, Ésquilo, Sófocles. E também Racine, Molière, Vítor Hugo. Ou ainda Balzac, Dickens e Flaubert. Além dos românticos alemães e dos romancistas russos. E também de Pessoa e Saramago.

 

E ainda me surpreendem mais os familiarizados com os principais dogmas da fé católica, cujas marcas na cultura ocidental são muito profundas. Em contraste com os seus contemporâneos que sabem mais das aventuras do Homem-Aranha do que da vida de Jesus.

 

De pouco serve a springbok ser o segundo mamífero terrestre mais rápido do mundo já que o primeiro é a chita, que dele se alimenta.

 

Ou seja, pego nas palavras de Saramago e despeço-me por hoje: “Sou um espírito profundamente religioso. É preciso ter-se um altíssimo grau de religiosidade para fazer um ateu como eu.”


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Domingo, 21 de Abril de 2019

No Barroso

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Sábado, 20 de Abril de 2019

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Barroso - Penedones, ETC, XT1 157 - cópia copy -

 


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Sexta-feira, 19 de Abril de 2019

No Barroso

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Quinta-feira, 18 de Abril de 2019

Poema Infinito (453): A nudez da expansão

 

 

Há tanta claridade nas ilusões. O azul do céu expande-se de forma tão nua, simples e cristalina que chega a ser indecente. Fecho a janela por pudor. Frente ao espelho, olho para mim e sinto que estou a ver alguém diferente. Apesar de estar aqui, estou infinitamente longe. A razão humana não é exata, desorienta-se e engana-se. Já não consigo pesar a calma. São os anjos os responsáveis pela limitação do infinito, pela sua divisão em porções. Por isso é que os antigos sonhavam com eles. Os nomes escutam-se a si mesmos. A tarde de hoje ainda conserva as lágrimas da de ontem. Esta lonjura fecha-me os olhos. A luz do silêncio fica mais doce. Contemplo o teu corpo como se fosse a tua alma. Os caminhos junto ao rio ficaram invisíveis. Os invernos são agora mais imóveis. Até as raízes crescem de outra maneira, enroscadas na terra, como se fossem morrer. Os corpos cedem aos abraços, ao ritmo das viagens, à fadiga do tempo. Ninguém se sustenta apenas de sonhos. Procuro-me nas águas do rio da minha memória. O silêncio dispersa-se em várias direções. Por vezes adquire a forma de pássaro, definindo a aproximação dos sexos e o modo do nosso desejo. É difícil o equilíbrio no meio dos mistérios. A necessidade é uma coisa bem concreta, feita de fisionomias, de pensamentos irrelevantes, de florestas que crescem com febre, de alucinações obstinadas. Os novos acontecimentos necessitam de uma nova linguagem. As horas e as figuras desmoronam-se com uma firmeza irredutível. É triste ver morrer as alegorias como se estivéssemos em guerra. Toda a decadência é amarga. Já não é possível desfolhar a água, nem recolher o poente, nem arrumar os sonhos. O nada é cada vez mais infinito. Apesar disso, os homens ajudam-se e resignam-se aos seus sonhos. Pareço-me cada vez mais com as tuas expressões. Caminho entre fantasmas amigos. Hesito quando subo à sua dimensão. Os grandes montes produzem grandes crepúsculos. Toda a insensibilidade é anónima. Tento afastar o meu desassossego. Deus deixou de ser uma possibilidade. O meu infinito é igual a nada. Procuro a raiz das lágrimas, o eco dos olhares, os gestos do deslumbramento. O pensamento perdeu a sua fisionomia construtiva, tornou-se irrelevante. As minhas memórias acabaram por devorar os teus reflexos. Os espelhos são obstinados em reproduzirem a nossa decadência. Lançarmo-nos na neblina é uma aventura profundamente absurda. Do lado de lá tudo é perfeito e liso. Um poema é a mais sábia de todas as linhas. Foi uma mão de ferro quem escreveu o Antigo Testamento. Depois os apóstolos começaram a escrever epístolas para confundir a cristandade, sem sumário e sem reflexões. Os lábios do prazer, por vezes, parecem feitos de sangue. Sinto gravitar tudo à minha volta. A boca do tempo tem agora a boca cerrada e está rodeada de rugas profundas como regos escavados pela chuva das tempestades. Continuam a acontecer coisas inverosímeis, silogismos, incongruências. A enorme linha do horizonte parece uma parábola amarela. Os seus braços são ilegíveis. Gosto de tudo o que é flexível. Sei agora que até o próprio ar tem matizes. Libertei-me das toxinas do destino. Apesar da luz que projetam, as almas são incuráveis. Todos os dias acabam por ser um só.


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Quarta-feira, 17 de Abril de 2019

No Barroso

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Terça-feira, 16 de Abril de 2019

No Barroso

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Segunda-feira, 15 de Abril de 2019

438 - Pérolas e Diamantes: A nova realidade

 

 

A nossa pretensa modernidade faz-nos viver em permanente sobressalto. E como passamos muito tempo a ver televisão, os sintomas costumam agravar-se.

 

Agora é a poluição. Claro que poluímos em demasia, mas o que vamos fazer? A maior parte das vezes pregamos moral às pessoas. Mas vamos ter de acreditar numa resposta científica para o problema. Temos de dar dinheiro aos investigadores, aos laboratórios e às universidades para podermos resolver o problema numa base sustentável.

 

Afinal, já existem carros elétricos, edifícios inteligentes que reciclam a energia, a água e o lixo. E parece que não é a moral, nem as boas intenções, quem regula isso.

 

Uma coisa é pedirmos a uma criança ou a um adulto ocidental que consumam menos carne. Outra bem distinta é pedir aos chineses ou aos africanos, que começaram a comer um pouco mais de carne, a deixar de a consumir. A moral, que é um alimento apenas espiritual, é boa para uma elite, mas não serve como solução global.

 

Por cá, as pessoas queixam-se amargamente de que não podem ir passar férias ao estrangeiro como se isso fosse um atentado aos direitos humanos. Dantes nem sequer havia férias. Agora até os nossos queridos reformados, que costumavam ser avós tranquilos que ficavam em casa a gozar os rendimentos e a ver televisão, fazem questão de ir a Cuba ou à Tailândia. E também aos restaurantes.

 

Por cá abundam os reformados, a educação é gratuita, a saúde é fortemente subsidiada e a segurança social abrangente. Mas o capitalismo cria necessidades de tal modo fortes que as pessoas pensam que vivem num inferno.

 

Uma das fontes deste mal estar é o individualismo.

 

O individualismo rompeu com o mundo da tradição e da religião, que costumava regular os nossos comportamentos. As pessoas podiam não ser felizes, mas acomodavam-se à situação. Agora não se conformam. Os coletes amarelos aparecem como força reivindicativa num dos países mais avançados e prósperos do mundo: a França. E isso significa alguma coisa.

 

Tocqueville assegurava que existia uma tendência nas sociedades para preferirem a segurança à liberdade. Os movimentos emergentes por esse mundo fora vão nesse sentido.

 

Se as democracias não forem capazes de criar emprego e de oferecer perspetivas de futuro, as pessoas vão poder achar que a democracia não funciona e defenderem, por isso, os sistemas autoritários.

 

Como no capitalismo se criou a sedução pelas férias em lugares exóticos, os políticos democráticos e liberais tentam seduzir o eleitorado com promessas irrealizáveis. Daí resulta o populismo.

 

Antigamente havia o voto de classe. Um operário votava comunista, pois recusava-se a votar na direita. Hoje o eleitorado é pouco ideológico. Olha à sua volta e experimenta. Faz como quando vai ao supermercado, aproveita as promoções.

 

Por incrível que pareça, este individualismo vem do Maio de 68. É filho da contracultura.

 

Este capitalismo emergente, moderno e simpático, não se cansa de criar necessidades, de convidar ao prazer, de renovar constantemente o nosso quadro de vida.

 

O capitalismo, como constatou o filósofo francês Gilles Lipovetsky, é atualmente a grande força revolucionária.

 

A esquerda pode continuar a vociferar, mas não se vislumbra no horizonte uma alternativa motivadora ao capitalismo.

 

Até porque o capitalismo nunca foi hostil a um certo nível de controle. Claro que cria grandes problemas, mas essa é precisamente a sua força. Quando emerge uma crise, corrige. Quando sucede outra, volta a corrigir. Sendo sempre o mesmo sistema, é sempre diferente.

 

O capitalismo criou uma nova realidade, vinda de um individualismo assumido. Mas os profissionais do pensamento não se aperceberam disso. Alguns chamaram-lhe filosofia pop.

 

Bem vistas as coisas, o egoísmo acompanha a história da humanidade. Nisso não há nada de novo. Só que nas sociedades antigas existiam sistemas de referência que enquadravam o indivíduo. Agora existe um vazio difícil de preencher.

 

O consumismo derrotou o comunismo e alterou a nossa forma de viver.

 

Muitas das pessoas que ficaram fora da globalização viram o seu nível de vida a descer e revoltaram-se.

 

Esta é a nova realidade. Vamos ver qual a resposta que o capitalismo lhe dá.  


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Domingo, 14 de Abril de 2019

São Sebastião - Couto Dornelas

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Sábado, 13 de Abril de 2019

Na aldeia

Matança Abobeleira dez 2015 083 - cópia copy.j

 


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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019

São Sebastião - Couto Dornelas

Dornelas-S.Sebastião- 2016 025 - cópia copy.jp

 


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Quinta-feira, 11 de Abril de 2019

Poema Infinito (452): Hesitação

 

 

Tudo o que fazemos é como o vento. A água densa transforma-se em sonho. Lá ao longe choram as sombras secretas. O teu corpo ganhou novas metamorfoses. Os meus olhos vertem melancolia. O vento sopra do lado do mar. O tempo perdeu-se entre os sabugueiros. O prazer morre de sede em frente à tua frescura. As gotas de orvalho já dormem nos canteiros. Conversamos entre os dois extremos da noite. Nem as perguntas, nem as respostas, se reconhecem. As estrelas trémulas inclinam-se sobre as palavras. Os rostos parecem versos andróginos, presos em círculo, chamando por nós em voz alta. As paredes ficaram transparentes. Coitado de quem está sozinho e sonha os vários desejos afligidos. As aves voam dos espelhos à procura da água. O seu gesto de voar é infinito. Preparo alguns versos para os plantar enquanto há luar. A velocidade do vento desmonta o puzzle das cores. O coração continua repleto de incertezas. O tempo que vem do mar é ríspido e amargo. Chora o sentido da sombra. A aflição impõe o seu silêncio fino, as horas desiguais. Deito-me dentro da minha própria fadiga. A necessidade gera caminhos claros e serenos. Os náufragos vêm de longe, envoltos em frio, agitando as suas mãos mais antigas. Acontecem novamente as vozes da incerteza, a possibilidade de outras coisas. Escuto a metafísica. O sol alterou o desenho das sombras. Há céu por todos os lados. A chuva intimidou-se. Sinto de repente uma coisa semelhante à ternura. As pessoas começam a transformar-se em símbolos. Adquirem forma crepuscular. O vento continua a desgastar os insetos, a sustentar as árvores, a anunciar a vertigem dos oceanos. Estou tão breve que me sinto em tudo. Estou entre a asa e o voo, entre o fruto e a doçura, entre o corpo e a cinza. A aldeia já se despiu dos vestígios dos avós e dos pais. Magoa-me a sua saudade. Os frutos das árvores da Ribeira ficaram inacessíveis. As fotografias já beberam toda a sua ternura. Percorremos agora os caminhos de forma inversa. Nem as lágrimas nos defendem. As borboletas soltaram-se dos teus dedos, procurando os lugares mais secretos. A ternura continua a abrir-me feridas. Mergulho os meus dedos na tua transparência. A árvore do inverno ficou transcendente. Respira agora dentro da sua harmonia mortal. Os velhos livros manuscritos estão cheios de gritos. Pertenço a uma geração nostálgica. As crenças nascem dentro da música inorgânica. São a sua forma, a sua inspiração, o seu crepúsculo. A vida está limitada pelos murmúrios. A sua caligrafia é moral. A sua virtude expande-se como se fosse uma metáfora. E mexe. E incendeia todas as coisas. Repouso os meus olhos na quietude do lago e na infinita impressão dos teus. Acho que perdi o endereço dos nossos sonhos. O tempo do regresso é sempre mais demorado do que o tempo da partida. A coragem é sempre temperada pela esperança. Os homens sábios sabem sempre como preencher os seus silêncios. O sol e a água continuam a ser a religião do mundo. Não são as opiniões que fazem crescer as plantas, nem a realidade dos girassóis. O tempo teima em abrir o livro do esquecimento. Sinto o rumor das palavras que vem do fundo da casa. Há hesitação nos teus dedos. As imagens mortas fixam a areia. O barulho das aves vem de encontro a nós. Parece que Deus chegou. Eu apenas escuto o seu silêncio. O seu silêncio infinito.


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Quarta-feira, 10 de Abril de 2019

São Sebastião - Couto Dornelas

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Terça-feira, 9 de Abril de 2019

No Couto de Dornelas

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Segunda-feira, 8 de Abril de 2019

437 - Pérolas e Diamantes: Os bichons e a parte sombria da economia

 

 

Confesso que gosto muito de mapear o território mental de Michel Houellebecq. Foi com ele que me convenci de que a filosofia marxista-leninista não é marxista, nem leninista e muito menos é filosofia.

 

Também foi com Houellebecq que me interessei pela origem dos bichons. Embora a origem destes cães remonte à Antiguidade – pois foram encontradas estátuas de bichons no túmulo do faraó Ramsés II –, a introdução dos bichons bolonheses na corte de Francisco I ficou a dever-se a um presente do duque de Ferrara. Dizem as crónicas da altura que a remessa, acompanhada de duas miniaturas do pintor Correggio, foi imensamente apreciada pelo rei francês, que considerou o animal “mais digno de ser amado que cem donzelas”. Em troca, concedeu ao duque uma ajuda militar decisiva para a conquista do principado de Mântua.

 

Tornou-se então o bichon no cão preferido dos diversos reis de França, principalmente de Henrique II. Depois foi destronado pelo pug carlin e mesmo pelo caniche.

 

Ao contrário de outros cães, como o shetland ou o terrier tibetano, só bem tarde é que ganhou o estatuto de “cão de companhia”, já que desde os primórdios tinha sido apenas um “cão de trabalho”.

 

Ou seja, o bichon, desde a sua origem, foi um cachorro cuja razão de ser nunca ultrapassou a tarefa de levar aos donos alegria e felicidade.

 

E é esta a sua atual função. Que cumpre com perseverança. É também paciente com as crianças e meigo com os velhos, desde há inúmeras gerações.

 

Sofre imenso quando está só, o que deve ser levado em conta quando se é levado a comprar um lá para casa.

 

O bichon encara qualquer ausência do dono como um abandono e todo o seu mundo, a sua estrutura e a sua essência se desmoronam num instante.

 

Está sempre sujeito a crises de depressão severa, o que o leva a recusar alimentar-se. Ou seja, é fortemente desaconselhável deixar um bichon sozinho, mesmo que seja apenas por umas horas.

 

Nos livros de Michel Houellebecq, além de bichons, também podemos encontrar muito sexo. É um escritor fascinado pela sexualidade, até porque considera, tanto o próprio como as suas personagens, que ela é a manifestação mais direta e mais evidente do mal. Desde os primórdios os crimes que não possuem por móbil o sexo, têm por causa o dinheiro. E vice-versa.

 

Parece que a Humanidade continua incapaz de imaginar outra coisa além disso, pelo menos em matéria criminal.

 

Parece também que os seus personagens, além de gostarem de bichons e de sexo, apreciam comer aipo com molho rémoulade. Que eu não sei bem o que é, mas preparo-me para o pesquisar na Internet com a firme intenção de o cozinhar.

 

No entanto, a maioria das personagens do escritor francês, sobretudo as femininas, desconfiam da Economia.

 

As teorias com que os especialistas tentam explicar os fenómenos económicos e prever as suas evoluções, parecem-lhes uniformemente inconsistentes, temerárias. Ou seja, não passam de puro charlatanismo. Sendo até surpreendente que atribuam um prémio Nobel da Economia, como se esta disciplina possa gabar-se da mesma seriedade metodológica e do mesmo rigor intelectual da Química ou da Física.

 

Como é que uma disciplina que nem sequer consegue fazer prognósticos que se confirmem há de poder ser considerada uma ciência?

 

Enquanto as mulheres fazem perguntas com esta pertinência, os homens, nos livros de Michel H., apenas se limitam a olhar para os seios delas, mas abstendo-se de interromper.

 

Ao que tudo indica, parece que elas não leram Popper. Eles, incapazes de responder, limitam-se a pousar as mãos nas coxas delas. Elas, escreve ele, limitam-se a sorrir e depois a dizer que o jantar não tarda a estar pronto.

 

Outra constatação das suas personagens: quase ninguém tem comportamentos de consumo inteiramente racionais. Provavelmente esta indeterminação fundamental das motivações dos produtores, assim como a dos consumidores, é a que torna as teorias económicas tão temerárias e, no fim de contas, tão falsas.

 

Ou seja, a existência de agentes económicos irracionais é definitivamente a “parte sombria”, a falha secreta, de qualquer teoria económica.


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Domingo, 7 de Abril de 2019

No Barroso

Barroso - Penedones, ETC, XT1 120 - cópia copy.j

 


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Sábado, 6 de Abril de 2019

No Barroso

Barroso - abril 2006 158 - cópia copy.jpg

 


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Sexta-feira, 5 de Abril de 2019

No Barroso

Barroso - abril 2006 147 - cópia copy.jpg

 


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Quinta-feira, 4 de Abril de 2019

Poema Infinito (451): Os espelhos e as portas

 

Os espelhos estão cheios de gente invisível que já partiu. Toco nas tuas mãos à procura de alguma memória. Acaricio o teu sorriso e rio-me também.  Desejo pintar o mundo no teu corpo. Diversos caminhos criam diversos destinos. O sol distribuiu as cores pelos campos e transformou os humanos em arco-íris. Serão os animais fruto da nossa imaginação? Nos desertos existiram lagos que pareciam mares. Todos nós somos boca e também bocado. Quem tem a memória longa lembra-se do tempo anterior ao tempo, quando o céu e a terra eram a mesma coisa. Deus primeiro perdeu a paciência com os homens. Depois foram os homens que perderam a paciência com Deus. As primeiras palavras escritas foram baseadas nas pegadas dos pássaros e desenhadas na argila com caninhas afiadas. O fogo que cozeu a argila guardou-as. Quem parte essas tábuas assassina a memória. Houve tempos em que as sacerdotisas eram queimadas vivas por participarem nas conjuras das tabernas. Um dos provérbios mais amigos diz que a cerveja é boa, o que é mau é o caminho. Os homens foram selvagens até descobrirem a cerveja e o pão. Essa era a dieta de Jesus. Sabemos agora que Adão foi tentado pela maçã depois de beber o sumo fermentado de uma uva. O primeiro milagre de Jesus foi transformar em vinho a água de seis talhas. Os antigos sabiam do que falavam: o tempo primeiro dá-nos de mamar, depois come-nos. O rei Gilgamesh recusou-se a morrer. Quis combater o tempo. Diziam-no filho de uma deusa e de um homem. Apesar de ter vontade divina, o seu destino era humano. Tanto ele como o seu amigo Enkidu eram feitos de barro. Perseguiu então a imortalidade: vagueou por estepes e desertos, atravessou a luz e a escuridão, navegou pelos grandes rios, até que chegou às portas do paraíso. Aí foi servido por uma deusa taberneira. Depois de atravessar o mar, descobriu o barqueiro que sobreviveu ao dilúvio, a erva que dava juventude aos idosos, seguiu a rota das estrelas, chegou assim lá ao norte e depois dirigiu-se ao sul. Abriu a porta por onde o sol entra e fechou-a depois de ele sair. Foi imortal até morrer. Todos lhe seguimos o exemplo. A beleza do mundo chega a doer. Como ensinou o deus Toth ao rei Thamus, a escrita é o melhor remédio contra a má memória e a pouca sabedoria. Por isso Ganesha escreve com mãos de gente. Na arte da escrita, o mais importante é o começo. As primeira palavras são como os primeiros tijolos de uma casa ou de um templo. Outras fazem lembrar o rosto sombrio do faraó Sesostris III, os seus olhos angustiados e os lábios amargos. Talvez pensasse como um humano de que a vida eterna não é um privilégio, mas antes uma maldição. É preciso desconfiar da incapacidade dos capazes, da fraqueza dos fortes, dos que estão perto fingindo que estão longe. É também importante conhecer os caminhos da contradição, pois eles conduzem ao lugar secreto onde Lao Tsé continua a fundir a água com o fogo montado no seu boi azul. É lá que podemos encontrar o tudo e o nada. Um sábio chinês ensinou-nos a ler estrelas, a adivinhar destinos, a desenhar palavras com sinais, a desenhar constelações, o perfil das montanhas e a plumagem das aves. Nessa altura existia uma terra onde as mulheres eram da cor da luz porque comiam sol. Ainda agora, as mulheres são uma porta de entrada que não tem saída.


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Quarta-feira, 3 de Abril de 2019

No Barroso

Barroso - abril 2006 131 - cópia copy.jpg

 


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Terça-feira, 2 de Abril de 2019

No Barroso

Barroso - abril 2006 019 - cópia copy.jpg

 


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Segunda-feira, 1 de Abril de 2019

436 - Pérolas e Diamantes: A graça e os engraçados

 

Abre-se uma revista qualquer, seja ela do coração, desportiva, de saúde, de economia, ciência, ou intelectual, e sai-nos logo o Ricardo Araújo Pereira. Ou então um seu sucedâneo, quando não o senhor presidente Marcelo a dar um beijo a uma senhora de idade com lágrimas nos seus olhos já cansados. Será que o RAP anda a treinar para PR? Será que o senhor Marcelo anda a ensaiar para humorista? Ao RAP falta-lhe uma costela lamecha. Ao senhor PR pesam-lhe já os anos e nota-se a ausência de uma inteligência irónica. O PR é mais lugares comuns.

 

A revista “Estante”, pegando na moda, ou mania, pediu ao Nuno Markl para entrevistar o seu colega e amigo RAP. O resultado, segundo a própria, envolveu livros, humor e... cocó. E, diga-se em abono da verdade, o cocó, tal como os humoristas, está na moda.

 

Uma tal de Sónia Morais Santos criou mesmo um blogue a que chamou de “Cocó na Fralda”. A princípio estava pensado para ser apenas um diário de desabafos para amigos e família. Mas transformou-se na sua profissão. Agora, com quatro filhos e inspirada pelo próprio trabalho, teve a sua melhor ideia: criar um clube de leitura.

 

Como necessitava de um espaço com livros onde houvesse cadeiras, lembrou-se da FNAC do Chiado. E é aí que, uma vez por mês, se encontra com o seu grupo para discutir os livros lidos.

 

E as ideias andam à solta como o cavalo da canção do Fernando Tordo.

 

Até o “sensivelmente idiota” humorista Diogo Faro arranjou coragem para publicar um livro  intitulado “Também Tive Um Pega Monstro”, que parece ser uma viagem à era de ouro dos Tamagotchi, dos DOT e das pessoas que não se sabe “onde arranjaram tanto estilo”.

 

Bons tempos. Eram os anos 90 e no Buéréré, Ana Malhoa apresentava animações como Drangon Ball e Navegantes da Lua. E também todos nos lembramos, com imensa saudade, do emblemático palhaço Batatinha e do seu programa Batatoon.

 

O cocó televisivo era adorável: MacGyver; The A Team; O Justiceiro; Xena, a Princesa Guerreira; e o anódino Baywatch. O cocó televisivo desse tempo cheirava a rosas.

 

Los Del Rio ensinavam o mundo inteiro a dançar a “Macarena”. E esse génio da vacuidade, que dava pelo nome de Iran Costa, punha toda a gente a dançar “O Bicho”.

 

Mas talvez tudo isto não passe de ritual. Com os artistas nada pode ser dado por adquirido. Charles Dickens tinha um: antes de qualquer leitura em público de um “Conto de Natal”, comia um ovo batido cru, a que adicionava um pouco de xerez. E foi com ele que se despediu na última leitura pública que fez. Morreu três meses depois.

 

Já Stanley Kubrick ficou para a história por realizar um filme sobre a relação do Homem com o Universo. Algo que foi capaz de gerar em todos nós inquietação e terror. Afinal o que estamos aqui a fazer? Como chegámos cá? Para onde vamos?

 

“2001, Odisseia no Espaço” é unanimemente considerado um dos melhores e mais ambiciosos filmes de sempre. Uma experiência muito mais visual que verbal, mostrando-nos computadores mais humanos do que os homens. Talvez essa seja a derradeira evolução.

 

Na estreia, realizada em Washington, várias pessoas abandonaram a exibição a meio, confusas com o que estavam a ver.

 

Vítimas, talvez, das distopias, assistimos agora ao declínio da venda de livros para adultos e ao crescimento mundial da literatura infantil e juvenil.

 

Rui Unas, outro castiço dado à paródia, resolveu publicar um livro de entrevistas. No entanto, confessou que lê menos do que gostaria. E deveria. Diz que tenta impor a si próprio hábitos de leitura, mas que é muito difícil. Já tentou andar com um livro no carro, mas desapegou-se depressa. Curiosamente, não gosta de livros de humor. Em casa de ferreiro, espeto de pau.

 

Perguntaram ao tal de Unas que livro daria aos seus colegas de ofício. Ao Alvim, que gosta de ser a tal eterna criança, oferecia um livro infantil. Ao Markl, por ser um geek e por passar o tempo a ler, recomendava-lhe qualquer coisa para não ler. Talvez um livro em branco. Já ao RAP não aconselhava nada pois tem uma inveja muito boa dele. A criatividade dos humoristas lusos continua a deslumbrar-me.

 

Numa coisa coincidimos eu e o Ricardo: “Humoristas e crianças pequenas partilham algumas obsessões e até características de personalidade. Uma delas é achar graça a cocó.”


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