Quinta-feira, 23 de Maio de 2019

Poema Infinito (457): Pequena história de quase nada

 

 

Dizem, os que dizem ter fé, que no princípio era o verbo. Há outros que afirmam que no princípio houve a grande explosão e que, a partir daí, o universo se encontra em expansão. Provavelmente, isto tudo que existe sempre existiu. Tudo aquilo que se vê e não vê. No entanto, o que nos interessa é que os homens abençoados amam a terra como se dela tivessem nascido, falam com os pássaros e praticam o riso. As suas palavras fundem o metal. Os seus olhos são a memória do mundo. Dizem que Zaratustra tinha uma voz reflexiva e que dentro de si a religião nasceu quando Deus morreu. A sua voz provocava visões. Já Adão nasceu de um pedaço de barro que, tombado na relva, esperava que Deus fizesse o que tinha prometido num dia de raiva. Do futuro nasceu a terra, do escuro nasceu o homem. Ao grande Júlio César, os mais atrevidos chamaram-lhe o putanheiro careca e diziam que ele era marido de todas as mulheres e mulher de todos os maridos. Roma vestiu-o de púrpura, que era a única toga dessa cor em todo o Império. Cingiram-lhe na testa uma coroa de louros. Depois proclamaram-no ditador vitalício. Essa foi a sua marca mortal. O seu bem-amado Marco Bruto apertou-o dentro de um forte abraço e cravou-lhe nas costas a primeira punhalada. Outros punhais se seguiram. No corpo tombado nem os escravos se atreveram a tocar. Mal José saiu do quarto de Maria, o anjo entrou-lhe pela janela. Gabriel crê em tudo. Até naquilo que lhe dizem para dizer. José aceita. Maria sente que é predestinada. O seu prestígio provém da virgindade. São José passa a acenar-lhe de longe enquanto enxota a pomba que a engravidou. Nenhuma mão de homem a tocará. Maria foi concebida sem pecado, quer dizer que também a sua mãe era virgem. Passado muito tempo, os crentes em Espanha rezavam uma prece infalível: São José, tu que tiveste sem fazer / faz com que eu faça sem ter. Eva era matreira, mas não pecadora, pois ainda não sabia o que era o pecado, por muito suculenta que a maçã fosse. Já Maria Madalena era uma mulher da vida que se fez Santa. As mulheres, impuras por herança de Eva, conspurcaram a música sagrada, que passou a ser entoada por meninos ou por homens castrados. Misteriosos são os caminhos do Senhor. Nasceu depois um menino que batizaram de Jesus e a quem chamavam o Messias. Não se lhe conhece profissão ou residência. Dizia que era filho de Deus. E que tinha descido do Céu para incendiar a fé dos homens. Foi foragido no deserto, alvoroçava aldeias, bairros e cidades. Seguiam-no ladrões, malfeitores e gente de má vida, miseráveis, escravos, loucos, bêbados e até prostitutas, porque ele não se cansava de lhes prometer o paraíso. Dizem que até fazia prestidigitação, pois curava os leprosos, os paralíticos e os cegos. Era bom a multiplicar os pães e os peixes e a transformar a água em vinho. Era um fora da lei porque nunca respeitou a autoridade de Roma, nem a velha tradição judaica. Por causa disso, o seu pai avisou-o de que uma Cruz o esperava. Depois morreu. Dizem que Nossa Senhora nesse dia se desesperou como nunca o tinha feito. Dizem que o Cristo ressuscitou. Junto ao rio cantam agora os galos, enquanto em Jerusalém amanhece. Xerazade ensinou o mundo de que foi do medo de morrer que nasceu a arte de narrar. E assim viveu mil e uma noites num palácio em Bagdade, nas margens do rio Tigre.


publicado por João Madureira às 07:15
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