Quinta-feira, 11 de Julho de 2019

Poema Infinito (464): A árvore da vida

 

 

Toda a árvore da vida traz dentro de si o seu próprio inverno. Nós somos como as aves que pousam nos seus ramos: madrugadoras, migradoras, súbitas e tardias. O tempo é consciente da sua indiferença. É magnífica a nossa impotência. São fáceis de perceber as oscilações aceleradas dos dançarinos. Parecem bonecos mascarados de contornos, sentindo por dentro a sua forma exterior. Afinal, de onde vem a razão e o frio que provocam? As visões turvas definem o futuro. As novas estações do ano nascem em círculo, evoluindo naturalmente pelo meio da impaciência que provocam. Crescemos ansiosos por entre as horas intermináveis da infância. O nosso caminhar é solitário. O cinzento endurece a memória. A nossa vontade está sempre insatisfeita e agora é lisa como um tapete gasto. Os sorrisos falsos transparecem sempre um brilho ténue na superfície. Os brinquedos revelaram-se sempre inúteis nas longas convalescenças. Não há queda sem ruído. Da árvore da vida também costumam cair muitos frutos imaturos. Os jovens parecem tristes praticando os seus saltos em silêncio. Raramente são ternos, porque as suas mães ficaram gastas antes de tempo. Ardeu-lhes a planta dos pés logo após a sua gestação. O seu sorriso precoce cegou-os como se fossem o próprio pecado original. A avó colheu a erva salutar entre as flores mais pequenas sem as magoar. Traz no coração os animais mais desatentos, para os proteger. Transforma o seu entorno de forma constante. Diz que sente o vazio como eu sinto os zeros. Diz que sente cada dia mais a inquietação dos caminhos, as falhas imprecisas dos solos, os inúmeros mortos que se vão perdendo na memória dos vivos. Sorri como se a felicidade fosse uma ousadia. Diz que sente a insinuação dos frutos ainda antes da floração da árvore da vida. Diz que sente a dor dos seus ramos retorcidos. Diz que sente a persistência e a profundidade das raízes. O seu tempo é seguro. Os seus segredos são puros. Sente-se a saltar por cima do seu sono para não despertar a ventura e a glorificação da natureza. Muitos dos deuses morrem antes de chegarem a heróis. Duram pouco porque não gostam do perigo. Não conseguiram ascender à existência. O perigo é constante e o destino repentino. O menino esconde a sua ânsia. O menino esconde-se dentro da sua ânsia. Tenta abraçar o futuro. Lê a história de Sansão e deixa crescer o cabelo. Um dia há de arrasar as colunas do templo, nadar nas águas dos rios impetuosos e precipitar-se por cima das donzelas à sombra da árvore da vida. Depois dorme dentro dos seus sonhos de eternidade, caminhando no desejo, armando-se de metáforas, ensaiando risos e sofrimentos como se fosse um adulto eterno. Sente-se grande e forte. Um dia ganhará a simplicidade da terra e a forma enrugada da água que corre nos rios. Miguel Ângelo pintou a árvore da vida em frente a Deus. Deus falou-lhe com voz quente. Miguel Ângelo bebeu vinho da sua ânfora e perdeu os sentidos. Depois começaram as peregrinações, as invocações e tiveram lugar as auroras imensas que encheram os olhos de todos. Tudo ficou pasmado perante tanto esplendor. As horas ficaram hermafroditas. A luz pousou suavemente sobre as armas. Iluminaram-se os caminhos. Nessa altura levantou-se um vento meridional que espalhou as folhas caídas da árvore da vida. A razão nasceu no mundo.


publicado por João Madureira às 07:00
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