Segunda-feira, 15 de Julho de 2019

451 - Pérolas e Diamantes: Nietzsche

 

 

O dogma básico da fé cristã diz que a Santíssima Trindade é constituída por Deus Pai, Deus Filho (Jesus Cristo) e Deus Espírito Santo. No entanto, Nietzsche, apenas com doze anos, não conseguiu tolerar a irracionalidade desta construção. Por isso, através do seu raciocínio, criou uma Santíssima Trindade diferente.

 

Foi com essa mesma idade que invocou, para si mesmo, uma “trindade maravilhosa”: Deus Pai, Deus Filho e Deus Demónio. A sua dedução era que Deus, pensando por si, tinha criado a segunda pessoa da divindade, mas que para poder pensar por si teve de pensar no seu oposto e, por conseguinte, teve de criar uma terceira. Ou seja, o Demónio é uma criação de Deus.

 

Foi assim que começou a filosofar.

 

Viveu então um período de autossuperação, um princípio importante que mais tarde veio a desenvolver, sobretudo na sua dimensão metafísica.

 

Na escola utilizava “a majestade altiva da vontade” para ultrapassar os seus colegas. Depois foi para Pforta onde aprendeu a caminhar entre Darwin e a dúvida, entre o progresso científico e a fé religiosa, interpretando a versão consistente de verdade, beleza, clareza e propósito intelectuais, independentemente de qual o deus adorado.

 

O dia começava pelas 5h25, com as orações matinais. Seguia-se o leitinho quente e os pãezinhos. A primeira aula era às 6h. Às 7h havia uma hora de estudo. Depois aula. Depois  estudo. E novamente aula. Ao meio-dia ia buscar os guardanapos e marchava para o refeitório. Tinha então lugar a chamada e uma Ação de Graças em latim antes e depois da refeição do meio-dia, a que se seguiam quarenta minutos de tempo livre. Entre a 1h45 e as 3h50 regressavam as aulas. Seguiam-se mais pãezinhos com manteiga, pingue de bacon ou doce de ameixa. Entre as 16h e as 17h, os rapazes dos últimos anos faziam testes de ditado de grego ou problemas de matemática aos dos primeiros anos. Após o lanche, tinham lugar mais duas horas de estudo. Às 19h procedia-se a nova marcha para o refeitório onde tinha lugar a ceia. Hora e meia depois sucediam-se as brincadeiras no jardim. Entre as 20h30 e as 21h faziam-se as orações vespertinas. Depois ia tudo para a cama, já que às 4h da manhã abriam-se de novo as portas para começar um novo dia.

 

Era a escola mais rigorosa da Europa, com quinze horas diárias de solidão e trabalho durante anos a fio.

 

O coração de Nietzsche assemelhava-se “ao vento que soprava irregularmente entre as árvores altas, cujos ramos gemiam e oscilavam”.

 

Nos domingos, ao fim da tarde, tinham lugar no jardim debates estudantis, em grego ou latim, sobre um jogo normal com bolas de madeira, que frequentemente degeneravam em duelos verbais travados com hexâmetros latinos improvisados.

 

Os rapazes eram incentivados a falar sempre em latim e grego. Nietzsche, por feitio, levou as coisas tão a peito que decidiu pensar em latim.

 

Nietzsche era bom no piano. Era um virtuoso. Os seus amigos diziam que o tempo de trovoada despertava nele a mais forte inspiração, pois, quando os trovões ribombavam, nem Beethoven teria sido capaz de atingir um tal nível de improvisação.

 

Mais tarde escreveu: “O livre-arbítrio sem destino é tão impensável como o espírito sem realidade, o bem sem o mal... Só a antítese cria a qualidade...”

 

Desde novo que Nietzsche começou a dar sinais daquilo que era: um homem fascinado, e perseguido, pela loucura.

 

Apaixonou-se por Holderlin e por Empédocles.

 

O primeiro escreveu coisas tão inquietantes como: “Oh, vós, miseráveis que sentis tudo isto, que, tal como eu, não podeis permitir-vos falar do homem como estando aqui com uma finalidade, que, tal como eu, estais tão totalmente dominados pelo Nada que nos governa, tão profundamente conscientes de que nascemos para nada, de que amamos um nada, de que acreditamos em nada, nos esgotamos a trabalhar até a morte para nada só para que pouco a pouco possamos transformar-nos em nada...”

 

Já Empédocles, segundo a lenda, pôs termo à vida saltando para dentro do Etna com a expectativa segura e certa de emergir dele como um Deus.

 

Friedrich Nietzsche acabou por perder a razão e abraçar um cavalo numa praça de Turim, em 1889. Mas já antes julgava ter-se transformado no deus Dionísio.


publicado por João Madureira às 07:00
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