Quinta-feira, 18 de Julho de 2019

Poema Infinito (465): Dor

 

 

Olho para as nuvens e fico ansioso por me ir embora. Pareço um padre que não faz a mínima ideia do que é o além. Deus seja louvado. A chuva cai agora mais devagar. Abriu o sol antes da noite. Depois amanheceu como se por acaso. A relva cheira agora a humidade e a orvalho. Está tudo esticado como arame: a nitidez, o olhar furioso da mãe, os postes, os montes carregados de neve, os arbustos. Tudo parece andar para trás. O tempo parece voar, mas não sai do mesmo lugar. Por vezes não sei se ele existe. O tempo e invisível. Este é um país de sinos. Este é um país de passados, onde as manhãs forram o interior dos olhares, onde as crianças estão em vias de extinção. Tudo agora cabe nas tardes: a chuva, as aves, o lixo. As primaveras já não são atuais. Nesta Babilónia unicamente cantam as rãs. Apenas chove na periferia dos rostos. Os homens agitados começaram a ficar calmos. O vento torna mais evidentes as oliveiras e os pinhais. A pressa esmaga os dias e aguça as esquinas. Os olhares são cada vez mais ocasionais. São as janelas quem define as primaveras. Os gestos são agora mais distantes. A infância traz agarrada a si um novo corpo, o sol a entrar pela janela, o comboio a subir o monte e os cães a ladrarem às badaladas dos sinos. Deus já abandonou as aldeias. Os velhos suspiram as tardes e falam dos cheiros com as suas vozes de criança. As palavras são cada vez mais provisórias. As tragédias enchem os jornais. De longe vêm os amigos, perseguidos pelo silêncio. As parábolas ondulam lentas e vagas nas manhãs de domingo. A solidão é agora mais visível, os gestos mais lentos. A memória é agora a inimiga mortal do descanso. Nela aparece um camponês por entre o milho, melhorando a mitologia, imobilizando as árvores de fruto, disciplinando a alvorada, arrastando o sol atrás de si. No pátio só há sombras. Entre as coisas que não existem está Deus. A terra devolve-nos a responsabilidade do dia a dia. É difícil esconder os sonhos. A avó disse-me um dia que a poesia é velha, que as serras são audaciosas e que o nascimento e a morte são coisas redondas. Depois começou a pentear o cabelo e a tecer o próximo outono. Nesse tempo, o avô cultivava os nossos dias. Depois morreu. A solidão da avó passou a estar submersa como se fosse cega. E eu comecei a confundir o castanho com o vermelho. Fiquei tão triste que me esquecia de comer. A minha dor passou a ter a forma do pão centeio duro. A avó passou a distinguir apenas vagamente os anos. Com o inverno chegou o tempo de chorar. A desolação nasce em mim ao mesmo tempo que a aurora. Os dedos percorrem os desenhos mais agrestes das árvores. Sinto nas mãos o fogo a queimar.  A luz dentro da memória brilha como se fosse Natal. A culpa é sempre secreta e primitiva. A verdade também produz sementes, mas pequenas. Crescem os dias como se fossem braços a estender-se aos carinhos. As flores brancas abrem o bosque e cruzam as distintas linhas de luz. Depois ficam imóveis, contradizendo de propósito o vento irrequieto. A memória da avó é tão clara como os seus olhos azuis. O vento restitui-me a ideia da ida para a escola. Por vezes, o inverno cantava-nos uma canção triste. Bebo a água da fonte como se fosse a imagem do céu. Do passado vem uma aragem fria. Sofro com a sensibilidade do tempo. Dizem que faz parte da vida. Mas dói. Dói muito.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

15


27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. 457 - Pérolas e Diamantes...

. Chaves

. Barroso

. Barroso

. Poema Infinito (470): Do ...

. Barroso

. Loivos

. 456 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (469): O l...

. No Barroso

. No Barroso

. 455 - Pérolas e Diamantes...

. O cabrito

. No Couto de Dornelas

. ST

. Poema Infinito (468): Voo...

. No Louvre

. O anjinho

. 454 - Pérolas e Diamantes...

. Gente bonita em Chaves

. Luís em Santiago

. No Louvre

. Poema Infinito (467): A a...

. Louvre

. Em Paris

. 453 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Sorriso

. No Barroso

. Poema Infinito (466): Sem...

. Interiores

. No Barroso

. 452 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Barroso

. Poema Infinito (465): Dor

. No Barroso

. Misarela

. 451 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos santos

. Na feira

. O pastor

. Poema Infinito (464): A á...

. O homem da concertina

. Notre-Dame de Paris

. 450 - Pérolas e Diamantes...

.arquivos

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar