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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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22
Jul19

452 - Pérolas e Diamantes: Desumanizações

João Madureira

 

 

Continua a dar que pensar o facto de, como concluiu Norbert Frei, o nazismo não ter constituído uma monstruosa excrescência, mas ter-se revelado estar enraizado no mais profundo das estruturas sociais, mentais e culturais da Alemanha.

 

Apesar da escala ser diferente, o mesmo se pode dizer do fascismo português.

 

Desta forma, fica posta em causa a noção segundo a qual teria existido um totalitarismo sem limites sobre a sociedade alemã e de que os indivíduos teriam sido privados de todos os seus quadros de referência e integração sociais e intelectuais, “atomizados” e inteiramente submetidos à violência e à doutrinação.

 

Sabe-se hoje que a base social do partido de Hitler foi maior do que se pensava, ultrapassando em muito o número dos militantes do NSDAP e as fronteiras de uma só camada ou classe.

 

Primo Levi, um dos mais famosos sobreviventes de Auschwitz, demonstrou que nos campos de morte não existiam unicamente as vítimas e os carrascos, mas também muitos outros comportamentos. Foi ele que alertou para o facto de os criminosos nazis serem feitos do mesmo tecido (humano) dos outros seres humanos, e de os seus atos resultarem de uma educação e de outras circunstâncias particulares, em que se dera uma transferência do normal para o patológico no seio de um sistema em que os fins justificavam os meios.

 

O mesmo processo se desenvolveu nos gulags, os campos de extermínio comunistas.

 

Foi a desumanização das vítimas, a especialização profissional e a forma tecnológica como cada um exerceu a sua parte do crime, o que baniu do seio dos “perpetradores” toda a espécie de consideração moral.

 

Com esse fim, foi eliminado qualquer tipo de empatia com as vítimas. As noções de lealdade, dever e disciplina tornaram-se imperativos morais.

 

Como escreveu Irene Flunser Pimentel, “indivíduos normais tornaram-se instrumentos da vontade de outrem, sem se sentirem pessoalmente responsáveis pelo conteúdo das suas ações”.

 

Christopher Brown, tentando procurar os motivos que levaram tantos a matar milhões de pessoas, dividiu os perpetradores em quatro grupos diferentes: os ideólogos e os crentes fanáticos no regime nazi, tomando como exemplo paradigmático Heydrich e os que estiveram à sua volta na RSHA; os especialistas e profissionais alegadamente apolíticos, dos quais faziam parte generais, industriais, médicos e cientistas que colocaram em prática e partilharam os objetivos nazis; os banais burocratas e funcionários dos escalões intermédios e baixos da administração pública; e, por último, os homens vulgares, recrutados ao acaso para a Wehrmacht, a polícia de reserva, e as autoridades de ocupação, participantes nos massacres de civis.

 

Depois distinguiu três tipos de argumentos: os usados pelos próprios assassinos, de que teriam sido forçados a matar; as explicações dadas pela Escola de Frankfurt com recurso ao conceito de “personalidade autoritária; e a “explicação cultural”, que responsabiliza pelos crimes toda a cultura alemã.

 

A análise histórica diz-nos que a grande maioria dos perpetradores de “baixo” pensava que estava a combater pelo triunfo da Alemanha e também pelo da civilização ocidental cristã. Muitos dos que prestaram testemunho reconheceram ter sido enganados. Mas talvez não tenha sido bem assim. Há diferença entre ser enganado e deixar-se enganar.

 

Tanto os perpetradores menores como os denominados espectadores dos crimes deixaram de ser anónimos, pois caiu o mito de que o genocídio apenas teria sido levado a cabo pelos elementos da SS e dos Einsatzgruppen, e não pela “decente” Wehrmacht. Mas convém não esquecer a cumplicidade prática com os crimes nazis e a Shoah por parte de ucranianos, bielorrussos ou civis lituanos.

 

A abertura dos arquivos nos países de Leste e na URSS, nos anos 90, veio revelar que participaram diretamente nos crimes e na Soah atores não alemães, nomeadamente: estónios, romenos, ucranianos, letões, lituanos, polacos e croatas. Ou seja, sendo um processo imposto pelo ocupante alemão, o genocídio dos judeus apoiou-se em pulsões de violência antissemita de populações locais.

 

Uma coisa sabemos: não são as estruturas que matam, mas sim as pessoas. A verdade é que os denominados “homens vulgares”, enquanto indivíduos, participaram com iniciativas próprias e com as suas próprias ideias e práticas no processo de extermínio. Hitler, Himmler e os outros nunca estiveram sós.

 

Ou seja, tanto o Estado como o partido nazi, dependeram de uma verdadeira indústria de denúncias. Foram os “alemães vulgares” quem contribui para a radicalização da violência no seio do regime.

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