Segunda-feira, 5 de Agosto de 2019

454 - Pérolas e Diamantes: “No Armário do Vaticano”

 

 

Uma pessoa atreve-se a ler o livro de Frédéric Martel, “No Armário do Vaticano”, e deita as mãos à cabeça. É pá, até um agnóstico fica com os cabelos em pé.

 

O livro está baseado num enorme número de fontes. A investigação prolongou-se durante quatro anos. Foram inquiridas 1500 pessoas no Vaticano e em trinta países, entre elas 41 cardeais, 52 bispos e monsignori, 45 núncios apostólicos e embaixadores estrangeiros, além de mais de duzentos padres e seminaristas.

 

O livro revela a face escondida da Igreja Católica e o sistema em que se sustenta, desde os seminários até ao Vaticano, que, pelo revelado, assenta numa vida homossexual escondida e sobre a mais radical homofobia.

 

O Papa Francisco, quando pronunciou que “por detrás da rigidez há sempre qualquer coisa escondida”, e, “em numerosos casos, uma vida dupla”, queria sintetizar que, assim como os juízos de Deus são insondáveis, também a esquizofrenia da Igreja o é. Ou seja, quanto mais um prelado é homofóbico em público, mais provável é que seja homossexual na vida privada.

 

A tese do livro é que existe um segredo que liga o celibato dos padres, a interdição do preservativo pela Igreja, a cultura do segredo em torno do tema do abuso sexual, a demissão do papa Bento XVI, a misoginia do clero, o fim das vocações para o sacerdócio e os ataques ao Papa Francisco: Sodoma.

 

A cidade bíblica de Sodoma terá sido destruída por Deus por causa da homossexualidade dos seus habitantes. Ou seja: atualmente é no Vaticano que se encontra uma das maiores comunidades homossexuais do mundo.

 

Um padre franciscano avisou o autor do livro de que dizer a verdade sobre o “armário” e as amizades particulares no Vaticano era a forma perfeita para ninguém acreditar nele. Falarão em invenção porque por lá a realidade ultrapassa a ficção.

 

Amiúde, refere o autor, vários prelados, pequenos e grandes, tentaram engatá-lo recatadamente. 

 

O livro, verdade seja dita, não visa a Igreja em geral, mas um “género” particular de comunidade gay.

 

Cito: “Muitos cardeais e prelados que oficiam na cúria romana, a maioria dos que se reúnem em conclave sob os frescos da capela Sistina, pintada por Miguel Ângelo – uma das cenas mais imponentes da cultura gay, povoada de corpos viris, rodeado pelos Ignudi, esses robustos efebos desnudados –, partilham as mesmas “inclinações”. Parecem uma “família”. Com uma referência mais disco queen, um padre segredou-me: “We are family!””

 

Os homens do Vaticano, que cá para fora projetam uma imagem de piedade, levam uma vida bem diferente em privado. As aparências de uma instituição talvez nunca tenham sido tão enganadoras. Como enganadoras são as profissões de fé sobre o celibato e os votos de castidade que escondem uma realidade completamente diferente.

 

Quando o papa Francisco chegou ao Vaticano pensava que havia por lá umas ovelhas tresmalhadas. Mas o que descobriu foi que se tratava de um sistema. O rebanho era basto. Representando a grande maioria.

 

Para Francisco não é tanto a homofilia que é insuportável, mas antes a hipocrisia vertiginosa dos que pregam uma moral estreita e ao mesmo tempo têm um companheiro, aventuras, e, por vezes, acompanhantes pagos.

 

Francisco repete com frequência críticas duras à cúria romana, apontando o dedo aos “hipócritas” que levam “vidas escondidas e dissolutas” e a todos aqueles que “maquilham a alma e vivem de maquilhagem”.

 

O autor encontrou nos palácios do Vaticano clérigos que lhe apresentaram sem pudor os seus companheiros como sendo seus assistentes, substitutos, minutadores, motoristas ou os seus criados de quarto. Quando não os próprios guarda-costas.

 

O tema do livro é a sociedade íntima dos padres, a sua fragilidade e o seu sofrimento ligado ao celibato forçado, transformado em sistema.

 

A dimensão gay não explica tudo, como é evidente, mas é uma chave de leitura decisiva para quem quiser compreender o Vaticano e as suas posturas morais.

 

Também o lesbianismo é uma importante chave de compreensão da vida dos conventos, das religiosas em clausura, das irmãs e das freiras.

 

Mas o mais importante é que a homossexualidade é uma das chaves para explicar o encobrimento institucionalizado de crimes e delitos sexuais que atualmente se contam às dezenas de milhar.

 

Para grande parte dos entendidos, a Igreja tornou-se sociologicamente homossexual a partir do momento em que proibiu que os padres se casassem.


publicado por João Madureira às 07:00
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