Quinta-feira, 8 de Agosto de 2019

Poema Infinito (468): Voos e descortesias

 

 

Os palácios assistiram sempre a traições, incestos, roubos, assassinatos. Nasceram neles os romances góticos. A poesia heroica. A literatura distraída. Nos casebres dos pobres transformava-se o esforço em milagre. A mãe borda flores de martírio na toalha do altar. Está sentada na sua pose de estátua passageira. Se repararmos bem, nos seus olhos voam algumas andorinhas da sua infância e corre alguma da água do rio. O pai parece um cata-vento. Os dois receiam a sua utilidade. Julgam-na inútil. A sua felicidade é feita de desilusão. Os seus filhos parecem anjos franzinos. Por vezes, os modos não correspondem aos afetos. A inspiração é uma espécie de estremecimento de ternura. Enervo-me quando tenho de entender. A ordem necessita de vontade. Toda aprovação esconde um sorriso disfarçado de uma outra coisa. Exige-se a inconveniência dos pequenos escândalos e a perplexidade dos aplausos. As personagens costumam encarnar no corpo do criador. Por isso se amam as máscaras. Nelas é sempre possível aplicar energia e hábitos sensatos. Os gregos sabiam bem o que faziam. A mãe acredita em fantasmas. Ela própria chocou alguns. Os beijos dos amantes podem ser vingativos. Quando assim acontece, os olhos cintilam de raiva. Os pássaros debicam as cerejas e afeiçoam-se ao desaparecimento. Falta ousadia às memórias mais recentes. A mãe enchia-se de nos contar e recontar histórias. A saudade é uma manta de retalhos. A vida por vezes necessita de folhetins e de confidências e de episódios sórdidos e exaltantes. A cortesia é uma espécie de nudez. Assobio baixo para não despertar a deceção. A mãe chorava muita lágrima por conta do desespero. A sua aflição costumava morrer antes de chegar a algum lado. Ninguém escolhe as manhãs que lhe toca viver. O peso da tarde aqueceu o ar. Procuro nas fotografias mais antigas o vestígio do tempo que não vivi. Há na casa vazia um excesso de espaço e de odores. As recordações mais densas foram embrulhadas em lençóis de linho. Viver é estar sempre disponível para novas ficções. Os rouxinóis, no meio das rosas, fazem parte dos romances consoladores. Dentro deles, as palavras apenas têm um sentido. Gosto de histórias construídas com pedaços de outras. Ulisses conhecia a sua própria história antes de a viver. A memória da avó parece repor o tempo. A do avô inclina-se cada vez mais para a obscuridade. Lembro-me de o seu riso bravo encher toda a casa. As palavras passaram a cobrir várias noções de família. Lembro-me de a mãe despejar em cima de mim a sua atenção. Passei a confundir aceleração com derrapagem. Dizem que a luz negra tudo devora. Convém poupar as crianças à tragédia do tempo. Lembro-me de tudo acontecer devagar. De me fixar nos perfis dos Santos, de desconfiar da solidez da terra e da rotina do seu movimento de rotação. Foram as esquinas do tempo que começaram a separar os irmãos. O amor começou a perder a sua precisão. A noção de destino humano transformou-se em pó dos caminhos. Os palhaços transformaram-se em anjos. E os anjos transformaram-se em palhaços. A sua trajetória é cada vez mais ambígua. A história é tudo imaginação. É como um mau sonho de Nabucodonosor. Tiro de cima de mim o peso da infância. Aprendi devagar a amar Zaratustra. Volto a acostumar as minha mãos à brincadeira da água.


publicado por João Madureira às 07:00
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