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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Set19

462 - Pérolas e Diamantes: Da arte de escrever

João Madureira

 

 

Não existe criação sem criador. Hegel escreveu que o poeta existe, não em potência, mas em ato. Tolstói e Dostoiévski viveram a sua verdade mas também viveram as suas personagens.

 

Toda a obra de arte exprime, na sua essência, a diversidade da realidade.

 

Quem passa a vida a abraçar os demais acaba inevitavelmente por sofrer dos rins.

 

Não é esse o caso de Svetlana Aleksievitch, pois a sua escrita, segundo a Academia Sueca, é uma polifonia monumentalizadora do sofrimento e da coragem.

 

A sua arte de escrever baseia-se em factos mas, o que a distingue, é o apropriar-se da arte de contar que foi buscar à literatura oral e de a juntar ao romance.

 

Os seus livros estão cheios de vozes em discurso direto, vozes que resultam de centenas de entrevistas, de conversas tidas e repetidas várias vezes, de vozes que se encandeiam umas nas outras e se vão arrumando em temas, seguindo uma subtil sequência interna.

 

No meio delas surge uma que as une, dando-lhes coesão, depois de despojadas das normais contextualizações e das cronologias desnecessárias. Daqui resulta a sublime arte da profundidade e também da originalidade das vozes que as contam.

 

Esta filigrana narrativa advém do método utilizado ao longo de uma carreira de mais de 40 anos.

 

Nos seus livros apenas está aquilo que é essencial, sem floreados. Svetlana sabe que a literatura já não chega, por isso quer libertar-se da asfixia que a limita.

 

A História verdadeira revela sempre a dimensão humana.

 

Ou seja, a História, por ser escrita, tem sempre a marca pessoal da pessoa que a escreve.

 

A História, quando ilumina a grande marcha da Humanidade, ajuda-nos a saber quem somos.

 

Depois de ir à guerra, Friedrich Nietzsche passou a considerar que os inimigos da sua fé, a cultura, estavam a brotar do solo sangrento do campo de batalha. E passou a ter visões, pois escreveu a Wagner que estava preparado para o pior, mas, ao mesmo tempo, confiante de que dali, no meio daquele sofrimento e do terror atroz, a “flor noturna do conhecimento florirá”.

 

Ao que agora se sabe, FN regressou da guerra com os intestinos destruídos, sífilis (prostibular), icterícia, vómitos, hemorroidas, um gosto constante a sangue na boca e com o cérebro maculado pelos horrores psicológicos que sofreu.

 

Parece que Bismarck, em vez de ressuscitar o espírito criativo da Grécia antiga, estava a transformar a Prússia  numa espécie de Roma: burguesa, brutal, materialista. E também num motor de assassínios em série e barbaridades sem fim.

 

Daí Nietzsche ter concluído que “quase tudo a que chamamos ‘cultura superior’ se baseia na espiritualização e no aprofundamento da crueldade. A crueldade é o que constitui a sensualidade dolorosa da tragédia”. Este homem era mesmo dinamite.

 

O filósofo alemão antecipou a nossa vivência atual, pois, com a nossa nova veneração pelo natural e pelo real, chegámos ao lado oposto de todo o idealismo para aterrarmos na região das figuras de cera. CR7 ainda um dia vai derreter como uma vela no altar da mediocridade.

 

A nova tendência para o misticismo e para a idolatria – tenha ela pés de barro ou rosto de cera – é uma nova espécie de medo, uma fuga à frustração, um último recurso contra a verdade, contra a realidade. Em termos morais é uma espécie de cobardia e falsidade.

 

Os novos heróis do relvado parecem cavaleiros de plástico mergulhados no sono da Bela Adormecida.

 

Há por aí muito democrata amestrado que vê no futebol, na música pop e nos romances com véu e grinalda uma nova renovação cultural. A mim fazem-me lembrar a maré bárbara da rasura cultural de que falava FN.

 

Agora variamos entre a cultura estéril e a cultura histérica.

 

O homem atual é enchido com a quantidade precisa de cultura que o torna compatível com os interesses do mercado. O Estado já não aposta nos indivíduos brilhantes. Só ensina o suficiente para que cada pessoa passe a ser um contribuinte acrítico do sistema. A inteligência tem a dimensão do que cada um possui.

 

Os bons livros são agora mortos pelo silêncio, enquanto os maus se reproduzem como cogumelos venenosos que, como todos sabemos, são os mais bonitos de se ver.

26
Set19

Poema Infinito (475): Brevidade

João Madureira

 

 

A luz apura a transparência dos corpos, os seus desejos, a sua alquimia, os seus sustos e os seus deslumbramentos. O amor traz sempre consequências. As paisagens de hoje estão carregadas de ironia. Também elas ficaram obesas. Cintilam nelas as papoilas. As mães rezam nos templos. A vida é breve, diz o sino da igreja. Apenas as palavras têm o tamanho do mundo, encostadas ao destino, perdidas dentro de si próprias. Os homens procuram os seus passos nos velhos caminhos. As pombas ficaram para trás, na memória, fixando o tempo e os ninhos, enrodilhando-se dentro dos seus voos secos. Os aromas fazem parte das distâncias. Tenho agora a vontade do vento. Os voos das cegonhas continuam infantis, semelhantes a murmúrios. A vida é feita de eclipses. Quando a escuridão me invade, nascem-me pequenas estrelas nas mãos. A infância está cheia de gestos avulsos. Lembro-me dos dedos ásperos da avó pelo excesso de lavagens, da sua versão de mazelas. Agora rimo-nos de tudo: dos enigmas, das adivinhas, dos labirintos, da dor. A intenção é criar desconforto, dar espetáculo, esgrimir perguntas, desfazer memórias, esconder a pequenez dos sentimentos de cada um. Os sonhos são mudos e a preto e branco. Exibimo-nos no lado escondido das janelas, onde as sombras se congestionam. Entusiasmamo-nos com o pouco tempo que nos resta. O tempo finge procurar coisas importantes dentro das algibeiras. É cruel a sua determinação. É natural que as coisas se transformem, que se alarguem, que se aprofundem dentro da sua própria cor. É natural que os vinhos fermentem nas adegas. A ordem dentro de casa é sempre mais inofensiva, destina-se só a definir o carinho e a proteção. Houve tempo em que nas águas do rio se lavavam ao mesmo tempo os pés e os pecados. E também as partes íntimas. Os poetas eram como estaleiros incandescentes, heréticos. Conseguiam descrever o inferno porque viviam dentro dele. Nesses tempos, as musas eram mimosas e ardentes. A decifração era o seu sexto sentido. É cada vez mais fácil atingir o ponto de impaciência, ler os indícios, harmonizar os apelidos, abarcar as influências. Ser tão letrado que se é ignorante sem se saber. A obscenidade é inglesa. O inferno não é fogo, é distância, é frieza, é má vontade. Eu gosto de espalhar devagar a limpidez, de afastar as horas, de sentir o meu anjo da guarda a abrir e a estender as asas. As recordações dissolvem-se em bancos de névoa. Algumas almas antigas estendem-se ao sol. Quando posso, rejeito o convite das insónias. A dor é essencial para escrever poemas. O despeito também mata. E a teologia. E as relações íntimas. E o ceticismo. A vingança é a forma humana de amar uma má ideia. A abundância resulta em fracasso. O orgulho arranca-nos a alma. Os afetos criam rivalidades. Todos pecamos por insensatez. Foi o cavalo de Calígula que o levou à ruína. Os avós oscilam dentro da fotografia. Sorriem como se fossem o seu próprio lugar. Nunca consegui desvendar o mistério das suas conversas. Apenas sentia as suas palavras avançarem. Depois atropelavam-se antes de chegarem a fazer sentido. A meditação também necessita de um sentido.  É a inveja que azeda o vinho, costumava dizer a mãe. Coincidiu a conclusão com o desvanecimento. A paciência transformou-se em dor. A paciência transformou-se. A dor também.

23
Set19

461 - Pérolas e Diamantes: A banalização do mal

João Madureira

 

 

Quanto mais leio menos aprecio o ser humano. Se calhar ler faz mal à saúde mental das pessoas. Passo a explicar este meu desnorte. No livro “Hitler - Uma biografia”, Ian Kershaw relata que na “Operação Barbarossa”, no “cumprimento da profecia”, as unidades de assassínio hitlerianas, na sua fase inicial, foram ajudadas por lituanos que decidiram pôr em prática pogroms selváticos contra os judeus. Em Kaunas, um entusiasta local resolveu matar judeus à paulada, um a um, enquanto a multidão que observava – onde se encontravam mulheres que levantavam os filhos no ar para poderem ver o espetáculo –, aplaudia e encorajava o insano.

 

Uma testemunha ocular recorda-se de que cinquenta judeus foram assassinados dessa maneira em menos de uma hora. Quando o carniceiro terminou a matança, pulou para cima da pilha de cadáveres e tocou o hino nacional da Lituânia num acordeão. Os soldados alemães, provavelmente surpreendidos, assistiram impassíveis a tudo. Alguns até tiraram fotografias. O comandante da Wehrmacht da área, o coronel general Ernst Busch, ao ter conhecimento do sucedido, considerou que se tratava de uma questão interna de disputa entre lituanos, pelo que não possuía autoridade para poder intervir. O assunto foi despachado para a polícia de segurança local.

 

Ao que agora se sabe, estes comportamentos patológicos e extremados estavam largamente generalizados entre os novos senhores dos territórios de Leste e muito longe de se confinarem aos nazis mais acérrimos.

 

Milhares de judeus foram levados em grupo para fora das cidades, onde os forçavam a despir-se e a colocar-se no cimo dos outeiros, à beira das ravinas. À medida que as salvas de tiros dos esquadrões da morte ecoavam, os corpos das vítimas iam caindo para a pilha de cadáveres que se amontoavam abaixo delas. As mulheres e as crianças – que eram consideradas como possíveis “vingadores” no futuro – eram agora de uma maneira geral incluídas nos massacres, no seguimento de instruções verbais transmitidas por Himmler e passadas aos comandantes dos vários esquadrões da morte. Assim se foi banalizando o mal. No verão de 1941 foram assassinados no leste, pelos adeptos nazis, cerca de meio milhão de judeus.

 

A princípio, ainda havia algum simulacro de decoro, pois as execuções eram feitas por pelotões de fuzilamento. Mas, decorridas algumas semanas, as mortes eram levadas a cabo com uma metralhadora; as vítimas eram chacinadas nuas enquanto se ajoelhavam à beira das valas.

 

A pacificação do território conquistado a leste, segundo Hitler, tinha de ser conseguida matando a tiro qualquer pessoa “que olhasse sequer de esguelha”.

 

Já na Alemanha, os judeus ainda andavam misturados no meio dos arianos, o que causava muita apreensão. Além disso, constituíam “centros de agitação” e ocupavam apartamentos que eram necessários. Entre outras coisas, os judeus eram responsáveis por açambarcarem bens alimentares. E mesmo pela escassez de morangos na capital.

 

No meio de uma tensão nervosa, e aconselhado por Goebbels, Hitler autorizou que os judeus fossem obrigados a usar um distintivo que os identificasse: a famosa estrela de David, grande e amarela.

 

Começou então a ser pensada a solução definitiva. Pediu-se, para tal, que houvesse uma total clareza desde o princípio com respeito ao destino reservado aos “indesejáveis”, “quer o objetivo fosse estabelecer permanentemente para essas pessoas uma determinada forma de existência, quer estivessem destinadas a ser totalmente aniquiladas”.

 

Começaram então a ser construídas as câmaras de gás em Belzec. Entretanto iniciaram-se os fuzilamentos em massa e os assassinatos nos furgões de gás. Na primeira semana de dezembro de 1941, Chelmno, uma estação de furgões de gás do sul da Warthegau, transformou-se na primeira unidade de exterminação em funcionamento.

 

Em Minsk, 12 000 judeus do gueto local foram executados a tiro pela polícia de segurança, a fim de vagarem espaço para o fluxo de judeus germânicos, pois, segundo o comissário-geral para a Bielorrússia, Kube, as pessoas provenientes da sua “própria esfera cultural” deveriam ser tratadas de maneira diferenciada das “hordas nativas e atabalhoadas”.

 

O ataque japonês Pearl Harbour, a 7 de dezembro, veio acelerar todo o processo, originando que os planos de efetivação de uma “solução final” para a “Questão Judaica” entrassem numa nova fase: a mais assassina de sempre.

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