Segunda-feira, 30 de Setembro de 2019

462 - Pérolas e Diamantes: Da arte de escrever

 

 

Não existe criação sem criador. Hegel escreveu que o poeta existe, não em potência, mas em ato. Tolstói e Dostoiévski viveram a sua verdade mas também viveram as suas personagens.

 

Toda a obra de arte exprime, na sua essência, a diversidade da realidade.

 

Quem passa a vida a abraçar os demais acaba inevitavelmente por sofrer dos rins.

 

Não é esse o caso de Svetlana Aleksievitch, pois a sua escrita, segundo a Academia Sueca, é uma polifonia monumentalizadora do sofrimento e da coragem.

 

A sua arte de escrever baseia-se em factos mas, o que a distingue, é o apropriar-se da arte de contar que foi buscar à literatura oral e de a juntar ao romance.

 

Os seus livros estão cheios de vozes em discurso direto, vozes que resultam de centenas de entrevistas, de conversas tidas e repetidas várias vezes, de vozes que se encandeiam umas nas outras e se vão arrumando em temas, seguindo uma subtil sequência interna.

 

No meio delas surge uma que as une, dando-lhes coesão, depois de despojadas das normais contextualizações e das cronologias desnecessárias. Daqui resulta a sublime arte da profundidade e também da originalidade das vozes que as contam.

 

Esta filigrana narrativa advém do método utilizado ao longo de uma carreira de mais de 40 anos.

 

Nos seus livros apenas está aquilo que é essencial, sem floreados. Svetlana sabe que a literatura já não chega, por isso quer libertar-se da asfixia que a limita.

 

A História verdadeira revela sempre a dimensão humana.

 

Ou seja, a História, por ser escrita, tem sempre a marca pessoal da pessoa que a escreve.

 

A História, quando ilumina a grande marcha da Humanidade, ajuda-nos a saber quem somos.

 

Depois de ir à guerra, Friedrich Nietzsche passou a considerar que os inimigos da sua fé, a cultura, estavam a brotar do solo sangrento do campo de batalha. E passou a ter visões, pois escreveu a Wagner que estava preparado para o pior, mas, ao mesmo tempo, confiante de que dali, no meio daquele sofrimento e do terror atroz, a “flor noturna do conhecimento florirá”.

 

Ao que agora se sabe, FN regressou da guerra com os intestinos destruídos, sífilis (prostibular), icterícia, vómitos, hemorroidas, um gosto constante a sangue na boca e com o cérebro maculado pelos horrores psicológicos que sofreu.

 

Parece que Bismarck, em vez de ressuscitar o espírito criativo da Grécia antiga, estava a transformar a Prússia  numa espécie de Roma: burguesa, brutal, materialista. E também num motor de assassínios em série e barbaridades sem fim.

 

Daí Nietzsche ter concluído que “quase tudo a que chamamos ‘cultura superior’ se baseia na espiritualização e no aprofundamento da crueldade. A crueldade é o que constitui a sensualidade dolorosa da tragédia”. Este homem era mesmo dinamite.

 

O filósofo alemão antecipou a nossa vivência atual, pois, com a nossa nova veneração pelo natural e pelo real, chegámos ao lado oposto de todo o idealismo para aterrarmos na região das figuras de cera. CR7 ainda um dia vai derreter como uma vela no altar da mediocridade.

 

A nova tendência para o misticismo e para a idolatria – tenha ela pés de barro ou rosto de cera – é uma nova espécie de medo, uma fuga à frustração, um último recurso contra a verdade, contra a realidade. Em termos morais é uma espécie de cobardia e falsidade.

 

Os novos heróis do relvado parecem cavaleiros de plástico mergulhados no sono da Bela Adormecida.

 

Há por aí muito democrata amestrado que vê no futebol, na música pop e nos romances com véu e grinalda uma nova renovação cultural. A mim fazem-me lembrar a maré bárbara da rasura cultural de que falava FN.

 

Agora variamos entre a cultura estéril e a cultura histérica.

 

O homem atual é enchido com a quantidade precisa de cultura que o torna compatível com os interesses do mercado. O Estado já não aposta nos indivíduos brilhantes. Só ensina o suficiente para que cada pessoa passe a ser um contribuinte acrítico do sistema. A inteligência tem a dimensão do que cada um possui.

 

Os bons livros são agora mortos pelo silêncio, enquanto os maus se reproduzem como cogumelos venenosos que, como todos sabemos, são os mais bonitos de se ver.


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Domingo, 29 de Setembro de 2019

No Barroso

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Sábado, 28 de Setembro de 2019

No Barroso

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Sexta-feira, 27 de Setembro de 2019

No Barroso

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Quinta-feira, 26 de Setembro de 2019

Poema Infinito (475): Brevidade

 

 

A luz apura a transparência dos corpos, os seus desejos, a sua alquimia, os seus sustos e os seus deslumbramentos. O amor traz sempre consequências. As paisagens de hoje estão carregadas de ironia. Também elas ficaram obesas. Cintilam nelas as papoilas. As mães rezam nos templos. A vida é breve, diz o sino da igreja. Apenas as palavras têm o tamanho do mundo, encostadas ao destino, perdidas dentro de si próprias. Os homens procuram os seus passos nos velhos caminhos. As pombas ficaram para trás, na memória, fixando o tempo e os ninhos, enrodilhando-se dentro dos seus voos secos. Os aromas fazem parte das distâncias. Tenho agora a vontade do vento. Os voos das cegonhas continuam infantis, semelhantes a murmúrios. A vida é feita de eclipses. Quando a escuridão me invade, nascem-me pequenas estrelas nas mãos. A infância está cheia de gestos avulsos. Lembro-me dos dedos ásperos da avó pelo excesso de lavagens, da sua versão de mazelas. Agora rimo-nos de tudo: dos enigmas, das adivinhas, dos labirintos, da dor. A intenção é criar desconforto, dar espetáculo, esgrimir perguntas, desfazer memórias, esconder a pequenez dos sentimentos de cada um. Os sonhos são mudos e a preto e branco. Exibimo-nos no lado escondido das janelas, onde as sombras se congestionam. Entusiasmamo-nos com o pouco tempo que nos resta. O tempo finge procurar coisas importantes dentro das algibeiras. É cruel a sua determinação. É natural que as coisas se transformem, que se alarguem, que se aprofundem dentro da sua própria cor. É natural que os vinhos fermentem nas adegas. A ordem dentro de casa é sempre mais inofensiva, destina-se só a definir o carinho e a proteção. Houve tempo em que nas águas do rio se lavavam ao mesmo tempo os pés e os pecados. E também as partes íntimas. Os poetas eram como estaleiros incandescentes, heréticos. Conseguiam descrever o inferno porque viviam dentro dele. Nesses tempos, as musas eram mimosas e ardentes. A decifração era o seu sexto sentido. É cada vez mais fácil atingir o ponto de impaciência, ler os indícios, harmonizar os apelidos, abarcar as influências. Ser tão letrado que se é ignorante sem se saber. A obscenidade é inglesa. O inferno não é fogo, é distância, é frieza, é má vontade. Eu gosto de espalhar devagar a limpidez, de afastar as horas, de sentir o meu anjo da guarda a abrir e a estender as asas. As recordações dissolvem-se em bancos de névoa. Algumas almas antigas estendem-se ao sol. Quando posso, rejeito o convite das insónias. A dor é essencial para escrever poemas. O despeito também mata. E a teologia. E as relações íntimas. E o ceticismo. A vingança é a forma humana de amar uma má ideia. A abundância resulta em fracasso. O orgulho arranca-nos a alma. Os afetos criam rivalidades. Todos pecamos por insensatez. Foi o cavalo de Calígula que o levou à ruína. Os avós oscilam dentro da fotografia. Sorriem como se fossem o seu próprio lugar. Nunca consegui desvendar o mistério das suas conversas. Apenas sentia as suas palavras avançarem. Depois atropelavam-se antes de chegarem a fazer sentido. A meditação também necessita de um sentido.  É a inveja que azeda o vinho, costumava dizer a mãe. Coincidiu a conclusão com o desvanecimento. A paciência transformou-se em dor. A paciência transformou-se. A dor também.


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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2019

No Barroso

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Terça-feira, 24 de Setembro de 2019

No Barroso

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Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019

461 - Pérolas e Diamantes: A banalização do mal

 

 

Quanto mais leio menos aprecio o ser humano. Se calhar ler faz mal à saúde mental das pessoas. Passo a explicar este meu desnorte. No livro “Hitler - Uma biografia”, Ian Kershaw relata que na “Operação Barbarossa”, no “cumprimento da profecia”, as unidades de assassínio hitlerianas, na sua fase inicial, foram ajudadas por lituanos que decidiram pôr em prática pogroms selváticos contra os judeus. Em Kaunas, um entusiasta local resolveu matar judeus à paulada, um a um, enquanto a multidão que observava – onde se encontravam mulheres que levantavam os filhos no ar para poderem ver o espetáculo –, aplaudia e encorajava o insano.

 

Uma testemunha ocular recorda-se de que cinquenta judeus foram assassinados dessa maneira em menos de uma hora. Quando o carniceiro terminou a matança, pulou para cima da pilha de cadáveres e tocou o hino nacional da Lituânia num acordeão. Os soldados alemães, provavelmente surpreendidos, assistiram impassíveis a tudo. Alguns até tiraram fotografias. O comandante da Wehrmacht da área, o coronel general Ernst Busch, ao ter conhecimento do sucedido, considerou que se tratava de uma questão interna de disputa entre lituanos, pelo que não possuía autoridade para poder intervir. O assunto foi despachado para a polícia de segurança local.

 

Ao que agora se sabe, estes comportamentos patológicos e extremados estavam largamente generalizados entre os novos senhores dos territórios de Leste e muito longe de se confinarem aos nazis mais acérrimos.

 

Milhares de judeus foram levados em grupo para fora das cidades, onde os forçavam a despir-se e a colocar-se no cimo dos outeiros, à beira das ravinas. À medida que as salvas de tiros dos esquadrões da morte ecoavam, os corpos das vítimas iam caindo para a pilha de cadáveres que se amontoavam abaixo delas. As mulheres e as crianças – que eram consideradas como possíveis “vingadores” no futuro – eram agora de uma maneira geral incluídas nos massacres, no seguimento de instruções verbais transmitidas por Himmler e passadas aos comandantes dos vários esquadrões da morte. Assim se foi banalizando o mal. No verão de 1941 foram assassinados no leste, pelos adeptos nazis, cerca de meio milhão de judeus.

 

A princípio, ainda havia algum simulacro de decoro, pois as execuções eram feitas por pelotões de fuzilamento. Mas, decorridas algumas semanas, as mortes eram levadas a cabo com uma metralhadora; as vítimas eram chacinadas nuas enquanto se ajoelhavam à beira das valas.

 

A pacificação do território conquistado a leste, segundo Hitler, tinha de ser conseguida matando a tiro qualquer pessoa “que olhasse sequer de esguelha”.

 

Já na Alemanha, os judeus ainda andavam misturados no meio dos arianos, o que causava muita apreensão. Além disso, constituíam “centros de agitação” e ocupavam apartamentos que eram necessários. Entre outras coisas, os judeus eram responsáveis por açambarcarem bens alimentares. E mesmo pela escassez de morangos na capital.

 

No meio de uma tensão nervosa, e aconselhado por Goebbels, Hitler autorizou que os judeus fossem obrigados a usar um distintivo que os identificasse: a famosa estrela de David, grande e amarela.

 

Começou então a ser pensada a solução definitiva. Pediu-se, para tal, que houvesse uma total clareza desde o princípio com respeito ao destino reservado aos “indesejáveis”, “quer o objetivo fosse estabelecer permanentemente para essas pessoas uma determinada forma de existência, quer estivessem destinadas a ser totalmente aniquiladas”.

 

Começaram então a ser construídas as câmaras de gás em Belzec. Entretanto iniciaram-se os fuzilamentos em massa e os assassinatos nos furgões de gás. Na primeira semana de dezembro de 1941, Chelmno, uma estação de furgões de gás do sul da Warthegau, transformou-se na primeira unidade de exterminação em funcionamento.

 

Em Minsk, 12 000 judeus do gueto local foram executados a tiro pela polícia de segurança, a fim de vagarem espaço para o fluxo de judeus germânicos, pois, segundo o comissário-geral para a Bielorrússia, Kube, as pessoas provenientes da sua “própria esfera cultural” deveriam ser tratadas de maneira diferenciada das “hordas nativas e atabalhoadas”.

 

O ataque japonês Pearl Harbour, a 7 de dezembro, veio acelerar todo o processo, originando que os planos de efetivação de uma “solução final” para a “Questão Judaica” entrassem numa nova fase: a mais assassina de sempre.


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Domingo, 22 de Setembro de 2019

Em Lisboa

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Sábado, 21 de Setembro de 2019

No Barroso

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Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019

Em Lisboa

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Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019

Poema Infinito (474): Vento

 

Dizem que, por vezes, o vento bom sopra do Sul. Eu sou de outro ponto cardeal. Sou do vento, sopre ele de onde soprar. Sou do vento. Da ventania e do vendaval. O vento é vário. O Sol flutua nos meus olhos com a sua brancura azulada. Depois do verão, o outono veio rumorejar a sua queda. As folhas. A seguir, o inverno amontoará a neve, o tédio, os dias e o resto do mundo que pode sobejar. Tremem-me as sombras nas mãos. E os livros. O silêncio do tempo continua a derrubar os muros. Ninguém se liberta da ditadura do silêncio. As asas dos anjos começaram a perder as penas. As linhas do Céu perderam a sua harmonia. Deus gesticula os braços e as estrelas fazem-se em pedaços. Deus deixou de ser magnífico. Dizem que inverteu o Big Bang. Não sei de onde nasce esta quietude. Milhares de aves levantam do chão em silêncio. O amor transforma-se em luz. Os olhares organizam o caos. As borboletas desarrumam as palavras. O desejo rebenta com a gramática e com a semântica. O crepúsculo fixa a dimensão exótica da luz. A semântica da sedução resultará na pose. A gramática da sedução ou é orgástica ou não existe. Alguém beija um rosário. Eu prefiro dedicar-me aos corpos. À indelicada linguagem das cópulas. À sinfonia delicada da penetração. Ao êxtase. A realidade também pode ser magnificente. Não existe apoteose no desespero. No amor não há redenção, mas fogo. Por isso, o universo é infinito. As estrelas penetraram o arco-íris. As ruturas resultam da linguagem conceitual dos viajantes, da indecisão das palavras solitárias, da vulnerabilidade das indecisões divinas, do pressentimento luminoso dos rostos, da exigência estética da sedução, da ressonância da indiferença e, sobretudo, da relação prodigiosamente incoerente estabelecida entre Deus e o Diabo. Os poetas e os deuses gostam de improvisar o seu próprio desassossego, de amadurecer os seus remorsos, de criar os seus exílios, de agitar a solidão, de golpear o silêncio, de transformar o amor em tragédia, de transformar a tragédia em amor. Uma bruma antiga abraça os templos transformando as revoltas em inutilidade. A vontade de resistir transformou-se em choro. O tempo é a hipérbole ritual do infinito. A memória separa a verdade do destino. A chuva transformou o silêncio numa espécie de sermão místico. O desaparecimento demora-se mais um pouco nos ângulos barrocos das paredes graníticas das casas. Alguns lamentos continuam a nascer por entre as fendas dos muros, pelas frestas dos telhados, de dentro das arcas e das malas fechadas pelos anos e pela tristeza. Um frio permanente continua depositado junto à lareira. As recordações são como relíquias onde ninguém gosta de mexer para não estragar. Deus e os homens abandonaram a aldeia. Dizem que também pode haver beleza nas imagens mortas. Agora escrevo sobre a nostalgia da sinceridade, sobre a reconstituição inútil das penumbras e das cintilações. Também o amor carnal é metafísica. Daí resulta a instabilidade religiosa, o desprezo, a justificação dos hábitos, a magnitude sobrenatural da individualidade e a interpretação moral da vontade. As linhas da vida são diversas. Uma chuva violenta começou a cair sobre a madrugada. Os gritos eróticos organizam-me a química orgânica do tempo e dos fluidos. Flores matinais deslizam sobre o meu pénis.


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Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019

Na Póvoa de Varzim

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Terça-feira, 17 de Setembro de 2019

Em Paris

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Segunda-feira, 16 de Setembro de 2019

460 - Pérolas e Diamantes: A longa espera

 

 

Parece que a legitimação pós-moderna da democracia assenta na peregrina ideia de confundir o poder político com a administração e a gestão.

 

A poderosa máquina do Estado vive na tentação de engolir tudo. Vivemos entre a paranoia da corrupção e da incompetência. Mas o país não vai soçobrar no abraço de urso do “complexo de culpa” luso. Isso é que era bom.

 

Nem tanto, nem tão pouco.

 

A verdade é que nos falta alguma coragem moral e política para evitar o descalabro. A verdade, também, é que nem o denominado estado de bem-estar é ilusório, nem o humanismo é decadente, nem a liberdade é alienante.

 

A democracia não corrompe a sociedade. Os falsos democratas é que sim.

 

Claro que a maioria dos políticos não são nem demoníacos, nem maquiavélicos, nem corruptos. Mas estamos conscientes de que também não são, por muito que o apregoem, nem homens extraordinários, nem administradores sensacionais e muito menos moralistas impolutos.

 

Os que mais triunfam são aqueles que conseguem misturar a demagogia com uma apreciável rapidez de análise dos fenómenos políticos e sociais que os rodeiam.

 

No jogo de xadrez político, os mais distintos raramente movem uma pedra de forma errada.

 

Mas o quadro tradicional das fações continua a ser o da hipocrisia que sempre minou a política.

 

A verdade é que a política está ocupada por gente sem caráter, de mercenários perfeitamente desfasados da vida real.

 

É difícil em Portugal perceber onde termina a dignidade e começa a hipocrisia. E o contrário também é verdadeiro.

 

Marco António disse num seu discurso que Brutus era um homem honrado, mas...

 

Em Portugal, o Governo vai-se mostrando exímio em aplicar, uma vezes, uma política de esquerda usando a mão direita e, outras, fazendo o contrário, praticando uma política de direita utilizando a mão esquerda. A Geringonça é isso mesmo.

 

A mim, os debates políticos parecem-me um concurso de putos a ver quem consegue mijar mais longe.

 

A lógica da política assenta em dois procedimentos: ajudar a nadar quem está a nadar e ajudar a afundar-se quem está a afundar-se.

 

E porque razão votamos? Somos escravos do instinto. Das ideias feitas. Dos sorrisos inócuos. Da opinião imbecil. Há uma loucura mansa em acreditar que um voto constrói uma democracia. É como tentar enxaguar o chão com uma torneira de água aberta.

 

Nietzsche escreveu o seguinte aforismo: “Para vermos algo como um todo temos de ter dois olhos, um de amor e um de ódio.”

 

Dizem que a compreensão da política é um conhecimento útil. Para mim é tão útil como o conhecimento da composição da água para um marinheiro em risco de naufragar.

 

Fizeram-nos acreditar que eles acreditavam que ser é mais importante do que ter. Pensamos o poder como uma vantagem. Mas não é bem assim. Quanto mais se sobe, mais dura é a luta. Quanto mais perto se está do cume mais custa fazer concessões. Mas mais têm de ser feitas. E no ponto mais alto da hierarquia, as humilhações costumam ser violentas. Na maioria das vezes não há lá ninguém para ouvir as queixas pessoais. Cada um trata de si. Os pequenos chefes não conhecem mais do que o medo de que os apunhalem pelas costas. A raiva cresce. O veneno das falsas promessas toma conta de tudo. São sempre os reis do mundo até a roleta ser posta de novo a girar.

 

Por incrível que pareça, adotam-se sempre os líderes mais patéticos. As pessoas gostam de ser enganadas.

 

A direita está em pânico porque ou não sai do sítio ou se sente a afundar a uma velocidade preocupante; a esquerda moderada já não se limita a fazer parte do sistema, é o próprio sistema e conseguiu até que a extrema-esquerda passasse do lado obscuro para o lado claro da força. Já acredita em jedis. A adversidade serve-lhes para reforçar a certeza de que têm razão.

 

Os seus militantes mais representativos transformaram-se em compulsivos consumidores e animadores do Instagram, Facebook e Twitter. São infobesos.

 

Querem-nos fazer acreditar que a política se baseia numa história sobre a inocência. Mas todos sabemos que em política a inocência é pura e simplesmente impossível.

 

Vamos esperar que a política se transforme numa atividade honesta e verdadeira, que sirva para melhorar a vida de cada cidadão contribuinte.

 

Como defende David Lynch, o realizador de Veludo Azul e Twin Peaks , “em comparação com a eternidade, qualquer espera é sempre pouco morosa”.


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Domingo, 15 de Setembro de 2019

Póvoa de Varzim

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Sábado, 14 de Setembro de 2019

Póvoa de Varzim

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Sexta-feira, 13 de Setembro de 2019

Bragança

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Quinta-feira, 12 de Setembro de 2019

Poema Infinito (473): Dissonâncias

 

 

É da tradição: o que está farto não entende o faminto. A fadiga parda e o vazio da alma devastaram inexoravelmente o rosto dos homens que se sentam debaixo do velho carvalho à espera do jantar e, mais logo, da morte. Aprendi muito novo a repartir a tristeza pelos dias. É triste ver envelhecer. É triste envelhecer. É triste entristecer. Demoramos a tristeza no adeus envelhecido das mãos, no equilíbrio azul das extensas manhãs de verão, na solidão do sol que teima em penetrar por entre a folhagem das árvores velhas e teimosas do jardim. O rumor das casas também é triste. E a solidão do vento. E o fundo de verdura que costuma fechar o outono. E os gestos da manhã são tão tristes que parecem alegres. As ruas assemelham-se a pontes rebentadas. A guerra atual é feita com as palavras mais tristes. Os dias morrem todas as tardes. Aperta-nos a paciência como se fosse um sapato novo em dia de boda. A dor é uma espécie de juramento condescendente. A esperança segue ao nosso lado com os passos cansados de um lobo preguiçoso. Por vezes é bom irmos até onde os pés nos podem levar. Os cães presos ladram a toda a gente. As pessoas temporariamente felizes reluzem como se tivessem sido untadas com azeite. Sobe-lhes o calor à cara. Ficam abrasadas e leves. Quando a amargura toma de novo conta delas, acariciam a cabeça levemente inclinada e depois os seus dedos transformam-se em ferro e começam a tremer e a enferrujar de imediato. Depois principiam a chorar como se estivéssemos em maio e as suas lágrimas fossem gotas de chuva desgraçadas. De longe vêm alguns amigos. E também alguns sonhos. As sombras derramam as casas. O medo é progressivo. O medo costuma nascer de uma condição horizontal. A luz exerce então o seu fascínio, conduz as linhas ao ponto corrosivo das imagens. As cores ficam ténues. As formas excedem os volumes. As imagens definem-se à tona da água. Isola-se a dor e o tempo dissonante. A chuva deixou de cintilar e as suas águas disseminaram-se em torno do horizonte. Agora já não pesam, enganam. Já não se costuma exaltar o tempo das colheitas. O verde dos campos é breve. O ar é descontínuo. No ar, a mão descreve a distância entre as montanhas e sustém a realidade. As heras enfiam-se pelas frestas. As mãos já não confiam nas águas tépidas. Por vezes, o amor cresce e sufoca dentro de nós. O travo da vingança é muito amargo. O tempo tem tendência a ficar cada vez mais escuro. A fé nos santinhos já se finou há muito tempo. As fantasias agora são outras. Os segredos enchem-se e despejam-se de vazio. Os olhares dos jovens são mais rápidos que setas. Cupido embebeda-se de vinho aquecido com canela. Sente-se a maldade logo pela manhãzinha. Apesar da rapidez, tudo demora mais tempo do que o previsto: o amor, a amizade, a perplexidade, a construção dos pormenores, as conversas. Preparam-se as conversas como fazendo parte de uma ementa de restaurante. O amor já não resiste à combustão. As amizades são pálidas e incertas. O tempo é transversal. As profecias não passam de horóscopos incendiados. Sobre a mesa repousa o pão. O amor não foi ao forno. Já não há maneira de usar os velhos costumes. Lembro-me do cheiro a mel e a incenso que definiam o tempo da Páscoa. Sente-se a vibração do medo. Os sorrisos assemelham-se a rumores secos. As chuvas de inverno abalam as frágeis margens do rio.


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Quarta-feira, 11 de Setembro de 2019

Porto

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Terça-feira, 10 de Setembro de 2019

Paris

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Segunda-feira, 9 de Setembro de 2019

459 - Pérolas e Diamantes: Aproveitamentos

 

 

No início do século XIX, nos EUA, aos serões falava-se de casamentos, de heranças e de cães negreiros.  Os jornais do Mississipi, do Tennesse ou da Carolina do Norte ofereciam os serviços dos nigger dogs a cerca de cinco dólares por dia. Os anúncios destacavam as excelentes qualidades destes mastins na perseguição de escravos fugidos, pois caçavam-nos e devolviam-nos aos seus donos intactos. Com o seu faro apurado conseguiam seguir a pista muitas horas depois de a presa ter passado. A sua tenacidade e sua velocidade eram também muito apreciadas. Até porque os escravos apagavam o seu cheiro atravessando os rios ou espalhando pimenta pelo caminho. Mas os cães não se davam por vencidos e continuavam a farejar até recuperem o rasto perdido. O segredo consistia nos longos treinos a que eram sujeitos para não destroçarem a carne negra.

 

Nesse tempo ficou famosa Harriet Tubman que, ao contrário da indolência do seu marido que se sujeitou a continuar escravo, fugiu da sua plantação, para a ela regressar mais tarde, libertando os seus pais, os seus irmãos e muitos outros escravos. Fez dezanove viagens das plantações do Sul às terras do Norte, percorrendo, noite após noite, longos caminhos até à liberdade. Libertou mais de trezentos negros. Nenhum deles foi capturado. Foi a cabeça a prémio mais valiosa do seu tempo, com uma oferta de quarenta mil dólares. Gabava-se de não perder nenhum passageiro, pois tinha a fama de resolver a exaustão e os arrependimentos com um tiro. Ninguém reclamou o prémio. Tornava-se irreconhecível com os seus disfarces de teatro. Nenhum caçador conseguia competir com a sua habilidade na arte de apagar pistas e de inventar caminhos. Nem os caçadores brancos, nem os cães negreiros.

 

Antigamente aproveitava-se tudo: se os condenados fossem culpados pelos delitos cometidos, considerava-se o castigo justo. Se a culpa não fosse deles, o castigo ali estava para servir de aviso. Na América, além de índios e negros, começaram a crescer também judeus. Um deles ficou famoso em Portugal. Chamava-se António José da Silva. Veio do Brasil para Lisboa, onde fazia rir os portugueses mexendo os seus bonecos em palco. Mas deixou de o poder fazer pois a Santa Inquisição resolveu esmagar-lhe os dedos nas suas salas de tortura. No entanto, as suas personagens de madeira, as medeias, os quixotes e os proteus continuaram a provocar o riso e a consolar quem os via e ouvia. Depressa o folguedo acabou. Por ser judeu e brincalhão, António José da Silva acabou na fogueira, pois as suas marionetas não demonstravam o devido respeito pela Coroa ou a Igreja. D. João V, rei de Portugal, chamado o Magnânimo, observou do camarote real o ato de fé onde ardia o rei dos bonecreiros.

 

Para o salvarem das investidas de Napoleão, os ingleses levam para o Brasil um menino de nove anos chamado Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o príncipe herdeiro da coroa portuguesa. Com ele foi toda a corte. Nessa altura, o Brasil era colónia portuguesa e Portugal, segundo as más línguas francesas, era uma colónia inglesa. Quando fez dezanove anos, Pedro casou-se com Leopoldina, que era arquiduquesa da Áustria. Dizem que ele nem se inteirou do sucedido. Afirmam que por causa das noites ardentes do Rio de Janeiro, Pedro vivia perseguindo as mulatas mais fogosas que por lá havia. Com vinte e quatro anos proclamou a independência do Brasil e por isso passou a ser considerado o imperador D. Pedro I. Garantem que com a mesma pena e com a mesma tinta com que assinou o documento de investidura, rubricou os documentos relativos ao primeiro empréstimo com a banca britânica. A dívida externa e a nova nação nasceram em simultâneo. E ainda hoje continuam inseparáveis. Quando fez trinta e três anos, que é a idade com que Cristo foi crucificado, teve a abstrusa ideia de abolir a escravatura. Ainda teve tempo para molhar a pena no tinteiro, mas não chegou a assinar o decreto. Um golpe de Estado retirou-o do trono e deixou- sem pouso. Passado um ano, regressou a Lisboa e passou a ser o rei D. Pedro IV de Portugal. Passados dois anos morreu com a fama de ter sido rei de dois tronos. A mesma terra que foi sua mãe e sua inimiga, acabou por lhe servir de túmulo.


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Domingo, 8 de Setembro de 2019

Na aldeia

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Sábado, 7 de Setembro de 2019

Farinha de milho

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Sexta-feira, 6 de Setembro de 2019

Fato

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Quinta-feira, 5 de Setembro de 2019

Poema Infinito (472): O azedume das flores

 

 

Para agravar a minha admiração por Voltaire, também eu resolvi dedicar-me a cultivar o meu jardim, eu que não tenho jardim nenhum e apenas passeio nos que são públicos. Rego as flores com música, defino-lhes a cor pela premeditação da forma, acarinho as justificações do mal, pelo bem que lhes quero. Quero ignorar a razão para salvar o mundo. Quero ignorar o mundo para salvar a razão. Mas a cor do crepúsculo impõe-me dúvidas. Uno o pudor do desejo à memória dos vivos. Andamos a roubar os sonhos uns aos outros, por puro ciúme. Pertencemos ao cenário inquieto da noite. O som do luar torna a noite calma. A brisa desliza em surdina pela folhagem das árvores. Alguns sítios explicam-se, outros defendem-se. É a clara falência dos sonhos. Os grãos de milho descansam na terra, alisados pelo tempo. As mãos evidenciam os frágeis tecidos da desgraça. Nestas horas impera o senso comum. Poucas são as fantasias. A loucura vive do amor extremo. Há perguntas a que não se pode responder. As estações do ano agora nascem maldispostas, fatigadas, com os dias obsessivos. As flores chegam a azedar. O vento curva-se. E as sombras parecem pinturas abstratas, de tão amarfanhadas. Continua a cumprir-se o trabalho. Os sons mudam de lugar, elevam-se para logo amortecerem. O ar modificou a fina vaporação da erva. A água agora imita a imperfeição do pânico. A avó confiava apenas nos sentidos. A avó estende as suas mãos para a floreira da memória e os seus olhos ganham uma espécie de luz própria do gelo. A mãe tinha os olhos desvairados da mãe dela. Os campos agora são tédio e indiferença. O silêncio ocupa as vozes. São descuidados os poucos ruídos produzidos pela única criança que habita na aldeia. Alguém nos arrasta para o seu próprio naufrágio. É a hora das catástrofes. Das memórias que enlouquecem, das visões aciduladas, de ler as searas, de encaminhar as águas que se enganaram, de asfaltar o tédio, de perseguir com o olhar o voo complexo das aves do desgosto e da solidão. Borboletas de luz atravessam o espelho do velho armário. Os meus dedos viajam pelo teu corpo. O seu mapa tanto perde como ganha sentido. As fotografias antigas parecem-se todas umas com as outras. Descubro nelas um estranho equilíbrio entre peso e leveza. Os rostos revelam uma inimitável lividez. Uma sensibilidade fatal, rígida e involuntária. As pessoas ganharam definitivamente a severidade dos objetos. Só os segredos se movem. A frescura da velha casa é pegajosa. As palavras perderam o embalo e dissipam-se sobre o efeito do seu próprio vazio. Lembram os murmúrios dos amantes num jardim. O tempo de espera depende das circunstâncias. A memória não tem ângulos. A despedida não vale a frieza do encontro. As formas poucas vezes coincidem com a razão. Tudo acaba por murchar, até os pormenores. A velhice mostra os dentes e boceja. Tudo se transforma numa graça. Até o brilho hostil da loucura. O ar continua a estremecer. O freixo da quinta morreu de doença. Já ninguém mais poderá dormir a sesta de verão à sua sombra. A memória adquiriu tons de cólera. O medo transformou-se em excitação. As couves crescem como se fossem árvores. O vento frio do norte fez alastrar os líquenes. Alguém me pergunta se sou daqui. A verdade é que não lhe sei responder. Penso então na secreta identidade que me possa devolver alguns prazeres da infância.


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Quarta-feira, 4 de Setembro de 2019

Na aldeia

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Terça-feira, 3 de Setembro de 2019

Sorrisos

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Segunda-feira, 2 de Setembro de 2019

458 - Pérolas e Diamantes: Atualmente...

 

 

Atualmente, o nacionalismo tem tanta importância que tendemos a acreditar que faz, e sempre fez, parte da nossa natureza. Mas, como afirmou acertadamente Ernest Gellner, “ter uma nação não é atributo inerente da humanidade”.

 

O novo recrudescimento dos nacionalismos é, sobretudo, um reflexo da incompetência dos governos democráticos em responder com eficácia aos novos desafios da modernidade. Os conflitos étnicos tem tendência a decorrer paralelamente com as questões de inserção social.

 

A democracia, em muitos países, como por exemplo na Grã-Bretanha, e muito especialmente na Espanha, é agora uma espécie de “prisão dos povos” em regime de liberdade condicional, que, quando se atrevem a defender a sua autonomia ou independência são imediatamente apelidados de antidemocráticos. O caso mais flagrante é o da Catalunha.

 

Claro que uma nação é um lugar, mas tem de ser mais do que isso: uma ideia.

 

Os nacionalistas possuem uma característica intimidatória: andam sempre à procura daquilo que os distingue dos outros povos em vez de procurarem o que possuem em comum.

 

Foi Goebbels que disse: “Se todos os tratados celebrados fossem cumpridos, a espécie humana não existiria atualmente.” Ele sabia bem daquilo que falava.

 

A última cruzada de Steve Bannon é a favor do Brexit, pois, para ele, que é americano, o processo de saída da GB da EU é ainda mais interessante por provocar o caos. Esta gente considera que um caos provocado pelas elites é a prova absoluta de que o poder tem de ser devolvido às nações e aos povos.

 

O êxito dos novos populistas de esquerda e direita deve-se ao facto de se fixarem na recente tendência que cruza um populismo ilusoriamente básico com alta tecnologia.

 

O que se passa por essa Europa fora é que os grupos étnicos autóctones (nacionais) são os que menos crescem.

 

O nacionalismo foi sempre profundamente rural, apoiado nos camponeses que agora são mais raros que o burro mirandês.

 

No entanto, é nos centros urbanos onde residem a riqueza e os privilégios, onde existe a ganância, proliferam as burlas e vivem os agiotas. A corrupção é, sobretudo, inerente ao mundo urbano e forasteiro. O trabalho urbano e industrial relegou o trabalho manual para o limbo do artesanato.

 

No fundo, o nosso nacionalismo, para o bem e para o mal, é artesanal. E velho. Ligeiramente xenófobo e incongruente. Mas abrangente. Já não faz mal a uma mosca.

 

O nosso patriotismo é folclórico e romântico. É fado, vira e corridinho. A vida na província verga-se ao peso dos impostos. O interior é conservador.

 

Todo o bom português é um agricultor embuçado. O zelo da sua alma é ainda balizado pelo sermão dominical do senhor abade. O português fala mal mas porta-se bem.

 

Os lusos são mais patriotas que nacionalistas.

 

Nós, por cá, continuamos a ser verdadeiros cristãos, súbditos leais e bons portugueses. Aos reis chamamos-lhes agora presidentes, mas a pândega é a mesma. A nossa hierarquia não é étnica, é apenas social. Entre nós nem o fascismo pegou. Aqui não se perseguiram judeus, apenas se descriminaram alguns negros e meia dúzia de ciganos.

 

Apesar de filhos de marinheiros, descobridores e pescadores, mal entramos num barco ficamos logo enjoados.

 

Como dizia Eça de Queirós, que sabia bem daquilo que falava, pois roubou muito aos escritores franceses, Portugal continua a ser um país traduzido do francês. Lá a extrema-direita vestiu coletes amarelos e foi para a rua partir montras e incendiar carros. Cá, apesar de ameaçar infiltrar-se nos protestos, causar distúrbios, cortar estradas, resolveu fazer tudo no aconchego do lar e ir ao programa matutino do Goucha.

 

Depois de uma revolução nacional, tivemos uma revolução social, mas foi tudo dar ao mesmo: continuamos orgulhosamente no fundo da tabela dos países europeus.

 

Grande parte dos portugueses continua a defender a superioridade da velha moral camponesa contra os decadentes valores ocidentais modernos. Por baixo de um citadino lisboeta existe quase sempre um camponês.

 

Agora verifico sempre se as bonitas e frescas flores das jarras são verdadeiras ou de plástico fino.

 

Ainda me lembro das aldeias, todas elas, serem sujas e pobres. Até os cavalos abanavam as suas cabeças fidalgas para espanar as nuvens de moscas. E os grilos e as rãs cantavam até de noite.


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Domingo, 1 de Setembro de 2019

Em Lisboa

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