Segunda-feira, 2 de Setembro de 2019

458 - Pérolas e Diamantes: Atualmente...

 

 

Atualmente, o nacionalismo tem tanta importância que tendemos a acreditar que faz, e sempre fez, parte da nossa natureza. Mas, como afirmou acertadamente Ernest Gellner, “ter uma nação não é atributo inerente da humanidade”.

 

O novo recrudescimento dos nacionalismos é, sobretudo, um reflexo da incompetência dos governos democráticos em responder com eficácia aos novos desafios da modernidade. Os conflitos étnicos tem tendência a decorrer paralelamente com as questões de inserção social.

 

A democracia, em muitos países, como por exemplo na Grã-Bretanha, e muito especialmente na Espanha, é agora uma espécie de “prisão dos povos” em regime de liberdade condicional, que, quando se atrevem a defender a sua autonomia ou independência são imediatamente apelidados de antidemocráticos. O caso mais flagrante é o da Catalunha.

 

Claro que uma nação é um lugar, mas tem de ser mais do que isso: uma ideia.

 

Os nacionalistas possuem uma característica intimidatória: andam sempre à procura daquilo que os distingue dos outros povos em vez de procurarem o que possuem em comum.

 

Foi Goebbels que disse: “Se todos os tratados celebrados fossem cumpridos, a espécie humana não existiria atualmente.” Ele sabia bem daquilo que falava.

 

A última cruzada de Steve Bannon é a favor do Brexit, pois, para ele, que é americano, o processo de saída da GB da EU é ainda mais interessante por provocar o caos. Esta gente considera que um caos provocado pelas elites é a prova absoluta de que o poder tem de ser devolvido às nações e aos povos.

 

O êxito dos novos populistas de esquerda e direita deve-se ao facto de se fixarem na recente tendência que cruza um populismo ilusoriamente básico com alta tecnologia.

 

O que se passa por essa Europa fora é que os grupos étnicos autóctones (nacionais) são os que menos crescem.

 

O nacionalismo foi sempre profundamente rural, apoiado nos camponeses que agora são mais raros que o burro mirandês.

 

No entanto, é nos centros urbanos onde residem a riqueza e os privilégios, onde existe a ganância, proliferam as burlas e vivem os agiotas. A corrupção é, sobretudo, inerente ao mundo urbano e forasteiro. O trabalho urbano e industrial relegou o trabalho manual para o limbo do artesanato.

 

No fundo, o nosso nacionalismo, para o bem e para o mal, é artesanal. E velho. Ligeiramente xenófobo e incongruente. Mas abrangente. Já não faz mal a uma mosca.

 

O nosso patriotismo é folclórico e romântico. É fado, vira e corridinho. A vida na província verga-se ao peso dos impostos. O interior é conservador.

 

Todo o bom português é um agricultor embuçado. O zelo da sua alma é ainda balizado pelo sermão dominical do senhor abade. O português fala mal mas porta-se bem.

 

Os lusos são mais patriotas que nacionalistas.

 

Nós, por cá, continuamos a ser verdadeiros cristãos, súbditos leais e bons portugueses. Aos reis chamamos-lhes agora presidentes, mas a pândega é a mesma. A nossa hierarquia não é étnica, é apenas social. Entre nós nem o fascismo pegou. Aqui não se perseguiram judeus, apenas se descriminaram alguns negros e meia dúzia de ciganos.

 

Apesar de filhos de marinheiros, descobridores e pescadores, mal entramos num barco ficamos logo enjoados.

 

Como dizia Eça de Queirós, que sabia bem daquilo que falava, pois roubou muito aos escritores franceses, Portugal continua a ser um país traduzido do francês. Lá a extrema-direita vestiu coletes amarelos e foi para a rua partir montras e incendiar carros. Cá, apesar de ameaçar infiltrar-se nos protestos, causar distúrbios, cortar estradas, resolveu fazer tudo no aconchego do lar e ir ao programa matutino do Goucha.

 

Depois de uma revolução nacional, tivemos uma revolução social, mas foi tudo dar ao mesmo: continuamos orgulhosamente no fundo da tabela dos países europeus.

 

Grande parte dos portugueses continua a defender a superioridade da velha moral camponesa contra os decadentes valores ocidentais modernos. Por baixo de um citadino lisboeta existe quase sempre um camponês.

 

Agora verifico sempre se as bonitas e frescas flores das jarras são verdadeiras ou de plástico fino.

 

Ainda me lembro das aldeias, todas elas, serem sujas e pobres. Até os cavalos abanavam as suas cabeças fidalgas para espanar as nuvens de moscas. E os grilos e as rãs cantavam até de noite.


publicado por João Madureira às 07:00
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