Segunda-feira, 9 de Setembro de 2019

459 - Pérolas e Diamantes: Aproveitamentos

 

 

No início do século XIX, nos EUA, aos serões falava-se de casamentos, de heranças e de cães negreiros.  Os jornais do Mississipi, do Tennesse ou da Carolina do Norte ofereciam os serviços dos nigger dogs a cerca de cinco dólares por dia. Os anúncios destacavam as excelentes qualidades destes mastins na perseguição de escravos fugidos, pois caçavam-nos e devolviam-nos aos seus donos intactos. Com o seu faro apurado conseguiam seguir a pista muitas horas depois de a presa ter passado. A sua tenacidade e sua velocidade eram também muito apreciadas. Até porque os escravos apagavam o seu cheiro atravessando os rios ou espalhando pimenta pelo caminho. Mas os cães não se davam por vencidos e continuavam a farejar até recuperem o rasto perdido. O segredo consistia nos longos treinos a que eram sujeitos para não destroçarem a carne negra.

 

Nesse tempo ficou famosa Harriet Tubman que, ao contrário da indolência do seu marido que se sujeitou a continuar escravo, fugiu da sua plantação, para a ela regressar mais tarde, libertando os seus pais, os seus irmãos e muitos outros escravos. Fez dezanove viagens das plantações do Sul às terras do Norte, percorrendo, noite após noite, longos caminhos até à liberdade. Libertou mais de trezentos negros. Nenhum deles foi capturado. Foi a cabeça a prémio mais valiosa do seu tempo, com uma oferta de quarenta mil dólares. Gabava-se de não perder nenhum passageiro, pois tinha a fama de resolver a exaustão e os arrependimentos com um tiro. Ninguém reclamou o prémio. Tornava-se irreconhecível com os seus disfarces de teatro. Nenhum caçador conseguia competir com a sua habilidade na arte de apagar pistas e de inventar caminhos. Nem os caçadores brancos, nem os cães negreiros.

 

Antigamente aproveitava-se tudo: se os condenados fossem culpados pelos delitos cometidos, considerava-se o castigo justo. Se a culpa não fosse deles, o castigo ali estava para servir de aviso. Na América, além de índios e negros, começaram a crescer também judeus. Um deles ficou famoso em Portugal. Chamava-se António José da Silva. Veio do Brasil para Lisboa, onde fazia rir os portugueses mexendo os seus bonecos em palco. Mas deixou de o poder fazer pois a Santa Inquisição resolveu esmagar-lhe os dedos nas suas salas de tortura. No entanto, as suas personagens de madeira, as medeias, os quixotes e os proteus continuaram a provocar o riso e a consolar quem os via e ouvia. Depressa o folguedo acabou. Por ser judeu e brincalhão, António José da Silva acabou na fogueira, pois as suas marionetas não demonstravam o devido respeito pela Coroa ou a Igreja. D. João V, rei de Portugal, chamado o Magnânimo, observou do camarote real o ato de fé onde ardia o rei dos bonecreiros.

 

Para o salvarem das investidas de Napoleão, os ingleses levam para o Brasil um menino de nove anos chamado Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o príncipe herdeiro da coroa portuguesa. Com ele foi toda a corte. Nessa altura, o Brasil era colónia portuguesa e Portugal, segundo as más línguas francesas, era uma colónia inglesa. Quando fez dezanove anos, Pedro casou-se com Leopoldina, que era arquiduquesa da Áustria. Dizem que ele nem se inteirou do sucedido. Afirmam que por causa das noites ardentes do Rio de Janeiro, Pedro vivia perseguindo as mulatas mais fogosas que por lá havia. Com vinte e quatro anos proclamou a independência do Brasil e por isso passou a ser considerado o imperador D. Pedro I. Garantem que com a mesma pena e com a mesma tinta com que assinou o documento de investidura, rubricou os documentos relativos ao primeiro empréstimo com a banca britânica. A dívida externa e a nova nação nasceram em simultâneo. E ainda hoje continuam inseparáveis. Quando fez trinta e três anos, que é a idade com que Cristo foi crucificado, teve a abstrusa ideia de abolir a escravatura. Ainda teve tempo para molhar a pena no tinteiro, mas não chegou a assinar o decreto. Um golpe de Estado retirou-o do trono e deixou- sem pouso. Passado um ano, regressou a Lisboa e passou a ser o rei D. Pedro IV de Portugal. Passados dois anos morreu com a fama de ter sido rei de dois tronos. A mesma terra que foi sua mãe e sua inimiga, acabou por lhe servir de túmulo.


publicado por João Madureira às 07:00
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