Quinta-feira, 31 de Outubro de 2019

Poema Infinito (480): As portas infinitas

 

 

Depois das lágrimas cintilantes do orvalho, durmo ao teu lado como um prisioneiro acabado de ser posto em liberdade. Movo silenciosamente os lábios. O amor não está engelhado. A pele provavelmente sim. Mas que havemos de fazer. Gosto do azul anónimo das flores campestres, da inclinação do teu busto, de sentir o aroma impenetrável das sombras. Procuro o teu sexo às apalpadelas. Sinto o seu perfume lânguido. A bruma envolveu as colinas. Os atalhos do prazer são ligeiros. A terra é húmida. Os lábios ávidos. Arde-me o que tu bem sabes. E o vento. E a nudez. Descanso num silveiral florido. Escuto a secreta sonoridade das folhas verdes, o murmúrio do vento, o ruído daquilo que vem de longe, a voz triste dos cucos, o singelo silvo dos besouros aveludados, as dissonâncias melífluas das abelhas escuras que zumbem em volta das corolas das flores. O teu bosque regurgita de vida. Crescem infinitas plantas pelos campos. No jardim, as pétalas caem como penas de anjos. A avó dizia que quando tudo estava lindo até os bichinhos andavam aos pares. A avó praticou pouco o amor, mas sabia amar como ninguém. A avó parecia um ramo de salgueiro: era bela e flexível. E possuía a florescência e a espontaneidade dos arbustos e das ervas dos caminhos. Os seus olhos eram sempre luminosos. Já o avô cedo ficou grisalho como um lobo. Imagino-os na penumbra do quarto sentados em cima da arca, de mãos dadas, enquanto lá fora as sombras lilases das casas se estendem sobre a terra fria e os rouxinóis cantam. O avô, como um belo cavalo guerreiro, estourou antes de tempo. A guerra não poupa ninguém. As Plêiades brilham ainda no Céu. Deus seja louvado. Agora até o Sete-Estrelo se transformou numa mancha indistinta. Sente-se ao longe a espessura misteriosa da floresta. E o cacarejar inquieto das pegas. Um vento triste teima em transpor o portão em ruínas e assobia nas janelas partidas. Estas janelas fazem que ardem, mas não ardem. O tempo e as intempéries continuam a cumprir a sua missão. As chuvas da primavera desmoronaram os muros e algumas paredes. Lá no alto circulam os ventos, flutuam as nuvens brancas e frias iluminadas pelo sol. O conhecimento deixou de assentar em almas mágicas. O suicídio de Deus foi visto do lado de fora. O equilíbrio, todo ele sem exceção, é uma questão de hábito. Tal como os poemas, também as portas são infinitas. Nalguns livros, algumas palavras brilham como pérolas. Houve um momento glorioso em que existiu um verbo. Apenas. Um verbo ainda sem coisas. Sobre os prados flutua um cheiro insípido a erva molhada. A floresta ribeirinha está coberta de uma névoa prateada. Os galos já cantaram pela segunda vez, não tarda que nasça o dia. Há cheiros que são infinitamente familiares. O cheiro a sol e a cabelo de criança. O cheiro a abraço. As pancadas surdas da memória trazem-nos aos olhos uma névoa de lágrimas. Só a beleza interior é pura. As despedidas demoradas são lágrimas inúteis. Aos silêncios frágeis, até os mais ínfimos ruídos os estilhaçam. Na cozinha da avó cheirava sempre bem, a carne cozida, a louro e a pão fresco.  Apesar da forte tempestade, o trigo ergueu-se de novo e resplandece ao sol. O dia encheu-se de uma intensidade asfixiante. A manhã parece um cavalo. Movo silenciosamente os meus lábios sobre os teus.


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Quarta-feira, 30 de Outubro de 2019

Na Abobeleira

Matança Abobeleira dez 2015 072 - cópia copy.j

 


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Terça-feira, 29 de Outubro de 2019

Barroso

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Segunda-feira, 28 de Outubro de 2019

466 - Pérolas e Diamantes: O esplendor da burocracia

 

 

A partir de 1921, a Rússia transformou-se no país dos “carimbadores”. Tinha duas vezes mais burocratas do que trabalhadores. A Ditadura do Proletariado consumou-se como Ditadura da Burocracia. E, a partir daí, desenvolveu-se.

 

O centro de Moscovo tornou-se num monumental amontoado de repartições públicas, constituído por comités, conselhos, departamentos e comissões. Uns sobre os outros. Andar em cima de andar. Prédio após prédio.

 

Começou-se então a planificar a economia.

 

Enquanto a economia tendia a definhar, o funcionalismo prosperava. Na Rússia, a falta de combustível, por exemplo, era cíclica. No entanto, existia um exército de funcionários dedicado a estudar como ele poderia ser entregue e onde.

 

Não havia papel nas lojas, pois noventa por cento do papel produzido pelo país era consumido pela administração.

 

Nas fábricas, a burocracia revelava-se igualmente ineficaz. Em 1920, para cada cem operários existiam dezasseis funcionários administrativos dedicados à papelada referente à produção. Mas havia ainda casos mais caricatos: na famosa metalúrgica Putilov, dos sete mil empregados, apenas dois mil faziam trabalho braçal, os restantes dedicavam-se à espinhosa tarefa da administração e empreitadas afins.

 

Trabalhar na burocracia tinha muitas vantagens, pois permitia o acesso facilitado a víveres e a outros produtos escassos. Por isso, o número de parasitas crescia à medida que a crise económica se aprofundava.

 

Empregaram-se então os denominados pequeno-burgueses com alguma preparação académica, sobretudo nas cidades de província. Passaram a ter incumbências triviais. O seu trabalho consistia em passar papéis de um lado para o outro.

 

Mesmo na gestão das indústrias, apenas um terço dos funcionários eram operários.

 

O dia típico de um funcionário do estado proletário russo consistia em ouvir e comentar mexericos nos corredores, tomar café e fumar cigarros. E também, é bom que se diga, nas filas de distribuição de rações exclusivas para a elite do país.

 

Os cargos burocráticos mais importantes eram sempre exercidos por homens do Partido.

 

Nas províncias, a agilidade e a competência eram tão reduzidas que qualquer pedaço de papel que tivesse um selo e uma marca de carimbo vistosa era identificado como documento oficial.

 

É famoso o caso de um inglês que conseguiu cruzar a Rússia usando como passaporte a conta do seu alfaiate na Jermyn Street, pois possuía uma bela caligrafia, um grande carimbo vermelho e a assinatura do alfaiate.

 

Numa escola de formação para jornalistas vermelhos, nenhum dos alunos de uma determinada turma conseguiu responder quem eram Lloyd George ou Clemenceau. Alguns diziam que o imperialismo era uma república localizada num lugar da Inglaterra.

 

Quase todos os camaradas bolcheviques passaram a ser ex-camponeses e ex-operários. Embora pudessem declamar mecanicamente algumas frases marxistas, não dispunham de educação suficiente para pensar pela própria cabeça ou questionar os líderes do partido sobre questões políticas abstratas.

 

O marxismo foi para eles um dogma funcional que lhes fornecia uma explicação “científica” sobre a injustiça social que eles próprios tinham vivido. Eram por isso militantes obedientes. Os bons camaradas faziam sempre o que lhes era ordenado. E ficavam satisfeitos em deixar todo o pensamento crítico a cargo do Comité Central.

 

Por isso mesmo Lunatcharski encheu o Comissariado da Educação de amigos e apaniguados. Até Lenine distribuiu vários postos do Sovnarkom por familiares e amigos de longa data.

 

Krupskaja foi nomeada vice-comissária de Educação. Anna Ulianova, irmã de Lenine, passou a cuidar da assistência à infância, e o seu marido, Mark Elizarov, ficou com o poderoso Comissariado do Povo para os Caminhos-de-Ferro.

 

Estaline, o raposo bolchevique, porque reinava no Ogburo, indicou nomes para muitos dos principais cargos existentes nas províncias. Dessa maneira montou a teia com que apanhou e eliminou todos os seus camaradas que faziam parte do Comité Central do Partido Comunista em outubro de 1917. Nem um escapou.

 

O insuspeito escritor comunista, Máximo Gorki, escreveu a Ekaterina: “Nos tempos que correm, só os comissários gozam de uma existência agradável. Roubam o mais que podem a gente comum e assim pagam as suas cortesãs e os seus luxos nada socialistas.”


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Domingo, 27 de Outubro de 2019

São Sebastião - Alturas do Barroso

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Sábado, 26 de Outubro de 2019

Em Coimbra

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Sexta-feira, 25 de Outubro de 2019

No Louvre

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Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019

Poema Infinito (479): Ao longe

 

 

Quando o sol é de feição tudo resplandece: as sementeiras, os rebentos das árvores, as moitas bravas. E as ervas ruins. Até o rosto dos humanos exprime uma obtusa autossuficiência. Os melhores cânticos são os que misturam alegria e tristeza. Lembro-me de ir à erva para os coelhos. E também de ir à missa. Ensinaram-me a imitar as pessoas. Não gostei. Nunca pratiquei. O outono começou a colorir as folhas com o amarelo acre das coisas murchas. As folhas secas caem no rio com um murmúrio. O orvalho mantém-se na erva e faz brilhar como prata as teias de aranha. Apenas o chilrear dos pássaros interrompe o silêncio. São visíveis nos caminhos os regos que a chuva do ano anterior cavou profundamente. Os olhos fixam-se no voo oblíquo das codornizes. As aves selvagens passam a gritar no céu azul. Tudo adquire um sentido novo e oculto. O canto das toutinegras está envolto numa tristeza inconsciente. A avó dizia que quem peca junto é juntos que se apresentam no Juízo Final. Nessa altura, o fumo subia das chaminés para o céu azul, as nuvens ficavam rosadas com a luz do sol, a geada espessa cobria os muros, as terras e os telhados. E os animais fumegavam. Outras vezes, com olhos velados, olhávamos os campos arrasados pela neve. O branco asfixiava-nos os olhos. Depois a terra aquecia e nascia erva nova. A determinado momento tudo cai nas espessas trevas do esquecimento. Por vezes, uma estrela amarela isolada brilha por instantes no firmamento. Para as formigas, os grãos de areia devem parecer-lhes pérolas que caem sobre a terra. Tudo o resto é o fim do mundo. O vento traz agora um odor de terras estrangeiras e desconhecidas. Baloiça-se entre as casas um estranho silêncio. O sussurrar da solidão tornou-se mais forte. Uma névoa esbranquiçada e densa submergiu os túmulos, as ravinas, as casas, os campanários, os carvalhos e os pinheiros. O vento escancarou as portas do vestíbulo. Ao longe, ouvem-se os apelos inquietos dos patos bravos. Anoiteceu também lá fora. Lá em baixo, no rio, peixes vagabundos saltam na escuridão. E de novo o silêncio. As árvores gemem, oscilando. O chão parece morto. Já ninguém o trabalha. Nada produz. Os velhos passam longo tempo imóveis, com a mão em pala sobre os olhos perscrutando a larga estrada. Ninguém chega. Também já ninguém parte. As rabiças já não gemem alegremente na terra. E os machados já não batem debaixo dos telheiros. Agora reina sobre tudo um silêncio opaco que cobre as casas e os pátios. As ferramentas choram pelos antigos donos. As palavras parecem dentadas. Sobra o pão, mas faltam os fornos e as masseiras. E as mãos que amassam e o ajudam a levedar. Já ninguém bate a massa em silêncio e reza para que ela cresça. Oiço a minha voz e não a reconheço. O eco é seminal. Um bom sorriso ajuda a salgar tanto o pão como as palavras. Os bons guerreiros estão fartos da paz e da guerra. E os revolucionários da revolução e da contrarrevolução. Lá fora, o dia começa a romper. O vento faz bater as portadas. Parece que perdi o combate. Já mal distingo os sonhos da realidade. O calor rebenta até as próprias pedras. A velha escola está em ruínas, no recreio dormem os gatos estendidos ao sol. A leviandade matou a tradição. Corto sozinho o pão. A avó já morreu há muito. Limpo os lábios a um guardanapo bordado pela mãe. Também ela já morreu. Vejo surgir no escuro centelhas de fogo. Parece o cigarro do pai. Também ele já morreu há muito. Sinto nos lábios um sabor quente e salgado.


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Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019

No Louvre

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Terça-feira, 22 de Outubro de 2019

No Louvre

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Segunda-feira, 21 de Outubro de 2019

465 - Pérolas e Diamantes: Camaradas

 

 

No seu livro “A Tragédia de um Povo – A Revolução Russa 1981-1924”, Orlando Figes faz um retrato delicioso dos camaradas bolcheviques após a revolução de outubro de 1917.

 

No início de 1918, o próprio camarada Lenine (o camarada dos camaradas) endossou o projeto de abertura, em Petrogrado, de um restaurante exclusivo para os membros do partido com o revolucionário argumento de que os bolcheviques não poderiam continuar a luta de estômago vazio. “O proletariado compreenderá a necessidade de tal medida”, disse ele.

 

A partir de dito tão revolucionário, e após a derrota do general Branco Denikin, socializou-se o conceito e assegurou-se desde logo aos altos dignatários bolcheviques salários mais avultados, melhor alimentação, morada subsidiada em apartamentos e hotéis, acesso privilegiado a lojas, hospitais e casas de campo, carros com motorista, viagens ferroviárias de primeira classe, férias no estrangeiro e outras incontáveis prerrogativas antes apenas ao alcance da elite imperial. Para vilão, vilão e meio.

 

A partir daí, cinco mil bolcheviques e suas famílias passaram a viver no Kremlin e nos hotéis especiais do partido, no centro de Moscovo. As acomodações residenciais passaram a estar sob o cuidado de mais de dois mil camaradas empregados. Nessas acomodações principescas, havia salão de beleza, sauna, hospital, berçário e três grandes restaurantes, com camaradas cozinheiros instruídos em França. A partir de 1920, todos esses serviços passaram a ser gratuitos, para a nova elite vermelha. O orçamento do Kremlin passou a ser bem mais generoso do que o destinado ao bem-estar social de toda a capital soviética.

 

Em Petrogrado, os camaradas dirigentes da classe operária fixaram residência no Hotel Astória, que se transformou na sede dos sovietes. Como o fausto não era o adequado, o prédio foi remodelado de maneira a readquirir o esplendor que ostentava antes das devastações causadas pela revolução. Das suas suites, os camaradas dirigentes podiam pedir as refeições que lhes eram trazidas à cama pelos camaradas serventes de mesa, convenientemente educados para baterem os calcanhares na presença dos camaradas dirigentes. Era costume ver-se pelos corredores champanhe, caviar, perfumes. E também escovas dos dentes. A entrada no hotel era proibida ao público. À noite, carros ostentando bandeirinhas vermelhas com a foicinha e o martelinho, faziam fila no portão, esperando pelos camaradas da nova elite para os levarem à ópera ou a um banquete em Smolny.

 

Segundo Figes, o camarada “Grishka” Zinoviev, o camarada “dono de Petrogrado”, entrava e saía do Astória sempre acompanhado pelos seguranças da Cheka e por uma mão cheia de prostitutas, que variavam de um dia para o outro.

 

Aos principais líderes do Partido foram-lhes atribuídas propriedades confiscadas à nata czarista. Lenine teve direito ao solar que pertencera ao general Morozov; Trotski passou a desfrutar de uma magnífica residência de campo tomada a Yusupov; Estaline estabeleceu-se numa casa de veraneio de um antigo magnate do petróleo.

 

Nos arredores da capital, existiam dezenas de prédios que o Executivo Soviético distribuiu pelos camaradas mais influentes, para seu uso exclusivo. Cada um desses bolcheviques teve ainda direito a um séquito de camaradas criados, como nos bons velhos tempos da realeza.

 

Ainda segundo o historiador Inglês, os subornos, roubos e venda de bens públicos constituíram-se nos males endémicos do Partido. Foi um fartar camaradagem.

 

Quase tudo estava ao alcance de burocratas corruptos: géneros alimentícios, tabaco, álcool, combustível, moradias, armas e licenças especiais de todos os tipos.

 

Segundo um registo do camarada Zinoviev, era frequente encontrar as mulheres e as amantes dos chefes bolcheviques circulando “com uma vitrina de joalharia pendurada ao pescoço”. As suas casas eram decoradas com objetos valiosos recebidos em troca de favores.

 

Um funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros possuía em casa dois vasos Sèvres e um mosquete de prata que tinha pertencido a Pedro, o Grande.

 

Os camaradas mais corruptos eram mesmo os da Cheka.

 

Em suma, a corrupção era fruto do exercício irrefreável do poder.

 

A Rússia foi então entregue ao Czar vermelho Lenine e a mais quatro príncipes bolcheviques: Trotsky, Estaline, Kamenev e Krestinsky. Depois do morte de Lenine, Estaline encarregou-se de eliminar a concorrência. Mandou matá-los a todos e ficou ele a reinar.


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Domingo, 20 de Outubro de 2019

ST

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Sábado, 19 de Outubro de 2019

JVF

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Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019

Interiores

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Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019

Poema Infinito (478): O Verbo

 

 

Quando se diz a verdade não se peca. Nem na confissão, nem fora dela.  Assim nos ensinaram. Os olhos de Deus assemelham-se aos dos felinos, são amarelos, frios e indiferentes. Deles desapareceram todos os vestígios de emoção. Dizem que o ato de contrição foi capaz de absolver e fazer perdoar até os homens que crucificaram Jesus Cristo. Deus lavou o seu corpo branco nas águas do rio. Vestiu-se depois com as roupas que guardava na velha Arca. Sem preceitos, preconceitos ou pedidos. Chamou tudo que existe em silêncio. Deixou sair de si o ódio secular. Abriu os braços à aurora. Depois olhou o mar, os horizontes, as montanhas e as fontes. Foi à procura do seu filho querido e encontrou o sepulcro aberto. Viu pela primeira vez uma espécie de desgosto fingido. O seu testemunho é um mar de solidão, uma montanha de angústia. A sua voz transfigurou-se. Recusou os poetas e os seus versos suplicantes. Todo o sonho é um gemido. A eternidade é o seu principal sofrimento. É faminto de ternura. Um raio rasgou o céu. Deus abriu então os portões da madrugada e passeou pelo tempo como um vagabundo ilustrado. Inventou os castigos para depois poder perdoar. Criou devagar os dias e as horas. Criou os gestos e os gritos, o direito e o avesso da verdade. Originou o assombro, a sedução pelos abismos, as trevas, a vergonha, a guerra e os rios de sangue. Ficou o mundo então redondo. Sobre tudo caiu o esquecimento. Correu o tempo um pouco mais depressa. Os homens começaram a dançar à roda das fogueiras, transformando a dança e o fogo em rituais. Todos os caminhos vão agora dar à morte. Fizeram de um sudário um objeto de culto e passaram a adorá-lo. Desdenham da carne, dizem-na fonte de pecado. As palavras começaram a recusar os poemas. Os corpos deixaram de germinar. As mulheres passaram a parir com dor. A vida começou a ser uma imprecisão. O silêncio transformou-se em mar e passou a ser salgado. Os galos bíblicos começaram a cantar três vezes antes de cada traição. A humanidade passou a ser uma rotina. São finitos os desejos humanos. São infinitas as desculpas divinas. Também o instinto se ensina. A raiva passou a ser um cilício. A humildade passou a fazer parte do teorema da paciência. O paraíso passou a ser uma fantasia. Pobres poetas que se alumiam com os sonhos. O Céu está deserto. Nem Deus lá vive. No universo continuam os meteoros a arder. Apenas as palavras conseguem ressuscitar os mitos. É com elas que também se finge a verdade. A eternidade é uma força de expressão. Onde há crença habita também a descrença. Também a razão amadureceu. Novos deuses menores nasceram nos desertos. E anjos. E santos. As flores são agora mais vagas. Os poetas transformaram-se em sacerdotes da hipocrisia. Lembro-me muito bem que o pão da avó, mesmo azedo sabia sempre a ternura. Sabia ela cantar o desespero para o tornar suportável. Cristo luta agora contra uma espécie de irmão gémeo. Os irmãos estão desirmanados. Começo a entender os lobos. Libertei-me da minha tribo. Aprendi que o agressor acaba sempre por ser o mais agredido. É preciso interromper a cadeia da progressiva adição do descobrimento. Ao fim do dia sento-me a descansar no meu banco do desassossego. As minhas lágrimas estão ainda em bruto. Tento acreditar que o sorriso da poesia é belo. Que a eternidade é uma espécie de luz que vem de lado nenhum. Que Deus é um verbo.


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Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019

ST

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Terça-feira, 15 de Outubro de 2019

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Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019

464 - Pérolas e Diamantes: O sentido de propriedade

 

 

Na Rússia czarista, durante a Segunda Duma, por volta do ano 1907, um deputado camponês causou grande sensação durante o debate sobre a reforma agrária ao dizer a um deputado da nobreza: “Sabemos o que você entende por propriedade, pois no passado já fomos sua propriedade. O meu tio foi trocado por um galgo.” Passados 10 anos, os comunistas chegaram ao poder. É caso para dizer: não há mal que não acabe em desgraça.

 

O grande problema russo residia no regime do Czar Nicolau que potencializou, sempre que lhe foi possível, a crise política que assolava o país. Nisso participaram ativamente a sua esposa e o seu fiel guru Rasputine.

 

A Rússia estava em guerra contra a Alemanha e o Império Austro-húngaro. O bravo Brusilov, um chefe militar monárquico, reconheceu que “ Rússia não poderia vencer a guerra com o presente sistema de governo”. Ou seja, a vitória na guerra não deteria a revolução, mas apenas uma revolução ajudaria a conseguir a vitória.

 

Mais de um século é passado e uma neblina de silêncio continua a envolver essa tragédia. A maioria dos livros escritos sobre o assunto não passam de verborreia engenhosa.  As pessoas continuam a pensar que o que realmente se passou está acima do nosso entendimento

 

Mas os videntes do futuro afinal não passavam de intérpretes e transfiguradores do passado.

 

Gorki deu-se conta de que “as pessoas se comportavam como animais e loucos”.

 

Parece que o medo envenenava até os mais inteligentes.

 

Entre as classes proprietárias havia a noção de que a Rússia se encontrava à beira de uma catástrofe de proporções inimagináveis. Intuíam uma violenta explosão social. E sabiam que o governo autocrático de Nicolau era incapaz de defendê-las.

 

O povo falava do czar e dos seus colaboradores com um desprezo absoluto. A palavra “revolução” andava na boca de todos.

 

Sentindo o desastre, os ricos e bem-nascidos decidiram organizar desesperadas farras de prazeres. Perdidos por cem, perdidos por mil. Resolveram ser revolucionários à sua maneira, esgotando os seus stocks de champanhe, gastando quantidades enormes de dinheiro na compra de caviar, esturjão e outras iguarias dos tempos de paz, agora apenas disponíveis no mercado negro. Sabendo que o fim do seu mundo estava próximo, resolveram patrocinar festas dispendiosas, traindo mulheres e maridos e esbanjando fortunas nos casinos.

 

Parece que tinham prazer em chocar os estrangeiros com o luxo e o prazer.

 

Por outro lado, o governo resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas. Mas o hábito russo de beber era tal que a proibição causou todo o tipo de excessos. A população começou a consumir água-de-colónia, álcool etílico, bálsamos, vernizes, qualquer tipo de aguardentes falsificadas disponíveis no mercado negro e até uma bebida conhecida por khanja, feita e vendida por chineses e que matava aos milhares.

 

Ou seja, os trabalhadores viram na lei seca do vodka um motivo de queixa contra o governo e de mágoa contra os privilegiados, pois o comércio de vinhos caros e outras iguarias não estava sujeito a normas. No cômputo geral, a proibição da vodka foi um desastre e esteve nas principais causas da queda do velho regime.

 

A miséria começou a atacar as cidades. Dizem que no auge da guerra, até as vacas eram bem mais nutridas do que muitos operários urbanos. A partir do outono de 1915, as mulheres começaram a montar camas às portas dos estabelecimentos à espera de poderem obter quantidades dolorosamente ínfimas de pão, açúcar ou outro qualquer produto de primeira necessidade. Não tinham tempo de numa só noite cruzar a cidade em busca de comida e depois voltar para casa. Enquanto se aguardava por um pedaço de comida, as ruas organizaram-se para a revolta vindoura.

 

Nos dois primeiros anos de guerra, a ingestão calórica de operários não-qualificados caiu em um quarto, a mortalidade infantil duplicou, as estatísticas criminais triplicaram e o número de prostitutas aumentou quatro vezes.

 

Como escreveu o coronel Engelhardt, deputado outubrista e futuro comissário do Governo Provisório, os reservistas de Petrogrado eram “como multidões armadas” que se assemelhavam mais “a material inflamável do que a um apoio do governo”.


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Domingo, 13 de Outubro de 2019

No Porto

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Sábado, 12 de Outubro de 2019

Em Alhariz

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Sexta-feira, 11 de Outubro de 2019

Em Alhariz

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Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019

Poema Infinito (477): Toxicidade

 

 

A ansiedade bate ao ritmo da hipertensão: forte. A verdade, por vezes, nasce das ruminações. Dizem que os maus poetas são bons críticos. A impertinência impede-lhes a inspiração. Um caralho que os foda. A sua inspiração está condicionada pela solidão. Gostam de inventar rivalidades. Todas as óperas lhes parecem originais. São como antigos burgueses desesperados por verem revolucionários janotas e excêntricos. Acham os aplausos ridículos, como de facto são. Todos pecam por insensatez. Salva-os o prazer do risco. Os caminhos sofisticados são sempre os mais vulneráveis. As folhas das cepas perderam o seu ruivo esplendor e começaram a apodrecer. A ambição ressente-se do tédio. A vocação desafina com a impaciência. A dor, nos medíocres, é um vício, costuma dar-se mal com a aristocracia do espírito. A obscuridade das capelas é sempre ameaçadora. O desprezo e a ignorância são a manjedoura do lirismo provinciano. Sempre foi assim. Sempre assim será. Os primeiros versos são delativos. De sentimento único, repletos de afinidades e desdenho. O perdão tem sentido único. A realidade é murcha. As paixões são como tempestades com um Deus morto lá pelo meio. Os enigmas expandem-se. As tragédias baseiam-se na traição e nos equívocos. A glória resulta sempre da publicidade, do embelezamento da própria ficção. Formámo-nos na abstinência do convívio, no silêncio do romance, na infatigável história do cavaleiro da triste figura que não anda nem desanda. Já ninguém mata a sede com água benta. Sonhar a felicidade é uma forma de ser como a Bela Adormecida. Agora lemos a infelicidade nos rótulos dos medicamentos, nos gestos viciados, nas conversas barulhentas, no afastamento dos nomes e dos olhares. O amor tem a consistência da gelatina. Vivemos num baile de máscaras permanente, entusiasmado pelo arrependimento dos outros. Somos infiéis na felicidade e insensíveis à dor. As dissertações são infinitas. O verde cresce rente às paredes. Apenas as cidades florescem. Nas aldeias, cheira-se a morte em cada canto. A gratidão defende-se do ridículo. Choveu muito. Algumas pétalas das flores mais frágeis boiam na água. Por aqui, apenas as tempestades são tão grossas como a realidade. Os olhares parecem esboços de banda desenhada, imprecisos, turvos, vingativos. À medida que perdemos os ofícios perdemos também a alma. Ergue-se da terra um vapor denso. A passarada dispersa-se pelos ramos das árvores. Os dias morrem antes de serem salvos. A aldeia entregou-se ao sono. Os velhos caminhos cegaram. As muralhas apenas retêm o tempo. A luz embate contra a espessura da saudade. Dentro de casa arrumam-se as sombras. Também elas querem descansar. As criaturas gritam dentro dos livros como se estivesse eminente um incêndio. Estamos no centro do vórtice das recordações. Lembramo-nos ainda bem do tempo da paixão, dos juízos ligeiros. Alguns vultos inclinam-se para a claridade. As horas deixaram de ser benévolas. São agora mais curtas. A indiferença produz sempre o vazio. Nada acontece. As casas dormem. Queremos defender-nos das mentiras com conselhos. A inteligência é um fascínio. Agora sabemos passar pelo meio dela como se estivéssemos a atravessar um rio a vau. Uso as palavras sem oxidantes para suportar a decadência. Os equívocos são sempre tóxicos.


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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2019

Em Alhariz

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Terça-feira, 8 de Outubro de 2019

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Segunda-feira, 7 de Outubro de 2019

463 - Pérolas e Diamantes: Antes pelo contrário

 

 

A nossa democracia parlamentar talvez sofra com o facto de ter advogados a mais e estadistas a menos. Por isso as leis são tão tortuosas e as fraudes imensas. São os grandes escritórios de advogados de Lisboa e do Porto que fazem as leis, as defendem e as ajudam a aprovar. Muito destes insignes ilusionistas são até ilustres deputados. São o Estado dentro do Estado.

 

Esta nossa democracia parece um negócio dos partidos, entre partidos e para os partidos. Quem está de fora racha lenha. Diz quem sabe que este é o caminho para o abismo. 

 

A democracia não se defende contra os partidos, mas contra o seu monopólio.

 

Os partidos têm tido o monopólio do poder há demasiado tempo. Tem de haver uma mudança. Pode ser um desafio estranho e difícil. Mas é necessário.

 

Agora existem duas classes distintas: os empregados e os desempregados. E entre elas existe uma mobilidade incrível. A verdade é que os sindicatos andam um pouco à nora com esta nova realidade.

 

O neoliberalismo passou a significar uma governação feita por conservadores e reacionários e o socialismo uma governação exercida por socialistas. Tanto o capitalismo como o socialismo, que aprendemos a identificar, é agora impraticável. A prática traiu a teoria. Ou revelou-a. O que vem a dar no mesmo.

 

Os cidadãos já aprenderam a julgar as ideologias dos partidos não pelas suas estimáveis intenções, mas pelos atos praticados enquanto governam.

 

A verdade é que ninguém consegue modificar a realidade aos gritos. Chegou ao fim o hábito arreigado de pensar de forma dicotómica. A questão já não é a de se ser a favor ou contra.

 

A História não está do lado de ninguém. Por exemplo, a teoria marxista que explica que todo o desenvolvimento histórico é um produto de mudanças na infraestrutura económica revelou-se falsa. O desenvolvimento histórico resulta tanto da vontade política, como dos processos materiais.

 

Até a esquerda radical trabalha calmamente nos seus ótimos gabinetes para a queda da hegemonia da burguesia, gozando dos frutos desta sociedade burguesa que dizem detestar e combater.

 

Os ideólogos marxistas como Zizek pensam que o pensamento suprime a realidade, quando se faz à esquerda. Ou seja, a realidade é de direita. A esquerda é outra coisa.

 

A esquerda tradicional defende que o mundo se divide entre esquerda e direita. Ou seja, se não formos de esquerda então somos de direita. A verdade é que esta estúpida dicotomia já foi chão que deu uvas.

 

Basta ouvir um militante de esquerda para ficarmos a saber que a direita é incapaz de fazer algo de positivo socialmente. Tudo nela cheira a bafio e sabe a ranço ou a arroz de lampreia. A ser assim, a direita também pode argumentar que a esquerda igualitária possui o sabor do sangue da morcela ou do arroz de cabidela.

 

A verdade é que os pensadores de esquerda, através de uma campanha intimidatória, teimam em tornar inaceitável ser-se de direita. Consideram mesmo que é uma coisa contranatura.

 

Mas os gulags revelaram-se máquinas de extermínio tão eficazes como os campos de concentração nazis. Quase sempre identificam a direita com o nacional-socialismo. Por isso os argumentos da direita são inaceitáveis, as perspetivas irrelevantes, o caráter enviesado e a sua presença no mundo um erro. Nem a direita é assim, nem a esquerda é assado.

 

E a teimosia continua. Por exemplo, Adorno continua a defender que a alternativa ao sistema capitalista é a utopia. Ou seja, se o seu argumento for honesto, quer dizer que a alternativa não existe.

 

Se eliminarmos a lei, a propriedade, os costumes, as hierarquias, a família, a negociação, o Governo e as instituições, sobra o quê?

 

Destruindo tudo isto, substituem-no por quê?

 

A igualdade continua a ser uma questão de fé, pois mesmo aqueles que mais acirradamente a defendem não acreditam verdadeiramente nela.

 

Não é marginalizando e condenando o opositor que podemos modificar a realidade. Dessa forma podemos é comprometer o futuro.

 

Tanto a esquerda como a direita sempre sentiram mais prazer em minimizar o adversário do que em se elevar.

 

É do consenso geral que a nossa sociedade não necessita de uma abolição dos poderes, mas antes da sua mitigação. Uma sociedade democrática tem de assentar num poder consentido, onde os conflitos são resolvidos de acordo com uma conceção de partilha da justiça. A ideologia não pode substituir o paciente trabalho da lei.

 

E quem assim pensa é de esquerda ou de direita?

 

Provavelmente nem uma coisa nem outra. Antes pelo contrário.


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Domingo, 6 de Outubro de 2019

Amizade

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Sábado, 5 de Outubro de 2019

Na feira

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Sexta-feira, 4 de Outubro de 2019

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Quinta-feira, 3 de Outubro de 2019

Poema Infinito (476): Viagem

 

 

Reguei as palavras logo pela manhã para as ver crescer como se fossem anjos atordoados pelos sinais de pontuação. Abri os meus olhos interiores e vi coisas impossíveis. A linguagem verbal está cheia de febre. Recalco a consciência do que se chama razão. Descubro uma nova espécie de esquecimento: a assimilação. Procuro quem começou a esconder palavras dentro de outras palavras. Tento aproximar os sons dos seus sentidos. Afinal, onde estão as palavras puras? O ar da manhã começou a cair de forma subliminar. O tempo está a mudar. Os demónios tomaram conta da continuidade e das evidências. Rio-me do niilismo, como se isso fosse possível. Renova-se a ilusão, a histeria, o deslumbramento. A manhã está feita de uma matemática singela. A eternidade caiu morta aos pés de Deus. Os ladrões já não acreditam em paixões. Chove extraordinariamente em cima da música de Debussy. Os duendes sorriem. As teclas do piano parecem rosas brancas fixas a dedos pretos. A tristeza emudece repentinamente. Andam por aí muitos sonhos vagos, muito milagre escondido, muito sorriso consolado, muito querubim sério, muito anjo amoral. As velhas poesias parecem pentagramas. Parecem tristes as casas muradas. Os que chegam olham para os que partem. Os que partem sorriem para os que chegam. Só os patetas dizem ter lido Joyce. Os seus livros inspiraram a bomba atómica. Ele pensava que apenas seriam o protótipo de uma nova metralhadora. O futuro é sempre incerto. Alguém grita por um pouco de amor. Uma mãe chora porque não consegue encontrar o infinito para dar ao seu filho. Falta alguma razão às palavras tolerantes. Agora colonizam-se as madrugadas. Os maus hábitos custam muito a perder. Falta amor ao amor. A beleza da arte foi toda devorada por Picasso. As bombas sobre Guernica não foram em vão. Secaram os sorrisos, o pão, a luz. Tudo ficou mais intolerável. Sobretudo a crença na humanidade, já que da crença na divindade nem é bom falar. O demónio, esse, ficou mais corpulento. Pousou uma luz insuportável sob as memórias antigas. É bom não esquecer a dor dos outros para aguentarmos a nossa. Misturam a política com a estricnina. Agora dói-nos o lado esquerdo da alma, os disparates e as horas apaziguadoras. Já nada é seguro. O lirismo abandonou as estátuas. A impaciência agita as estrelas mais pálidas. Antigamente tinha-se vergonha de chorar. Agora chora-se por tudo e por nada. Os beijos são de cristal, os escândalos oxidaram a honra e as aves ficaram trôpegas. O vento alisa os caminhos e a minha raiva. As avós já não cantam, murmuram. À arte transformaram-na num truísmo. As mãos deixaram de organizar, de definir, de acender o lume. Os dedos teclam páginas e páginas de ridículas sentenças judiciárias. Algumas aranhas esperam as moscas. Outras esperam as aranhas que esperam as moscas. O que mais cintila são os condicionalismos, os nacionalismos, as incompatibilidades reconfortáveis, as uniões de facto, o facto das desuniões, a violência da vergonha. Transformaram o mar Mediterrâneo numa mortalha para emigrantes. Por cá viaja-se muito, diariamente, sempre no mesmo sentido. É ir e vir. É vir e ir. Por isso é que os nossos sonhos estão sempre cansados. Engordamos os corpos e emagrecemos a poesia. Também para o que ela serve...


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Quarta-feira, 2 de Outubro de 2019

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