Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019

464 - Pérolas e Diamantes: O sentido de propriedade

 

 

Na Rússia czarista, durante a Segunda Duma, por volta do ano 1907, um deputado camponês causou grande sensação durante o debate sobre a reforma agrária ao dizer a um deputado da nobreza: “Sabemos o que você entende por propriedade, pois no passado já fomos sua propriedade. O meu tio foi trocado por um galgo.” Passados 10 anos, os comunistas chegaram ao poder. É caso para dizer: não há mal que não acabe em desgraça.

 

O grande problema russo residia no regime do Czar Nicolau que potencializou, sempre que lhe foi possível, a crise política que assolava o país. Nisso participaram ativamente a sua esposa e o seu fiel guru Rasputine.

 

A Rússia estava em guerra contra a Alemanha e o Império Austro-húngaro. O bravo Brusilov, um chefe militar monárquico, reconheceu que “ Rússia não poderia vencer a guerra com o presente sistema de governo”. Ou seja, a vitória na guerra não deteria a revolução, mas apenas uma revolução ajudaria a conseguir a vitória.

 

Mais de um século é passado e uma neblina de silêncio continua a envolver essa tragédia. A maioria dos livros escritos sobre o assunto não passam de verborreia engenhosa.  As pessoas continuam a pensar que o que realmente se passou está acima do nosso entendimento

 

Mas os videntes do futuro afinal não passavam de intérpretes e transfiguradores do passado.

 

Gorki deu-se conta de que “as pessoas se comportavam como animais e loucos”.

 

Parece que o medo envenenava até os mais inteligentes.

 

Entre as classes proprietárias havia a noção de que a Rússia se encontrava à beira de uma catástrofe de proporções inimagináveis. Intuíam uma violenta explosão social. E sabiam que o governo autocrático de Nicolau era incapaz de defendê-las.

 

O povo falava do czar e dos seus colaboradores com um desprezo absoluto. A palavra “revolução” andava na boca de todos.

 

Sentindo o desastre, os ricos e bem-nascidos decidiram organizar desesperadas farras de prazeres. Perdidos por cem, perdidos por mil. Resolveram ser revolucionários à sua maneira, esgotando os seus stocks de champanhe, gastando quantidades enormes de dinheiro na compra de caviar, esturjão e outras iguarias dos tempos de paz, agora apenas disponíveis no mercado negro. Sabendo que o fim do seu mundo estava próximo, resolveram patrocinar festas dispendiosas, traindo mulheres e maridos e esbanjando fortunas nos casinos.

 

Parece que tinham prazer em chocar os estrangeiros com o luxo e o prazer.

 

Por outro lado, o governo resolveu proibir a venda de bebidas alcoólicas. Mas o hábito russo de beber era tal que a proibição causou todo o tipo de excessos. A população começou a consumir água-de-colónia, álcool etílico, bálsamos, vernizes, qualquer tipo de aguardentes falsificadas disponíveis no mercado negro e até uma bebida conhecida por khanja, feita e vendida por chineses e que matava aos milhares.

 

Ou seja, os trabalhadores viram na lei seca do vodka um motivo de queixa contra o governo e de mágoa contra os privilegiados, pois o comércio de vinhos caros e outras iguarias não estava sujeito a normas. No cômputo geral, a proibição da vodka foi um desastre e esteve nas principais causas da queda do velho regime.

 

A miséria começou a atacar as cidades. Dizem que no auge da guerra, até as vacas eram bem mais nutridas do que muitos operários urbanos. A partir do outono de 1915, as mulheres começaram a montar camas às portas dos estabelecimentos à espera de poderem obter quantidades dolorosamente ínfimas de pão, açúcar ou outro qualquer produto de primeira necessidade. Não tinham tempo de numa só noite cruzar a cidade em busca de comida e depois voltar para casa. Enquanto se aguardava por um pedaço de comida, as ruas organizaram-se para a revolta vindoura.

 

Nos dois primeiros anos de guerra, a ingestão calórica de operários não-qualificados caiu em um quarto, a mortalidade infantil duplicou, as estatísticas criminais triplicaram e o número de prostitutas aumentou quatro vezes.

 

Como escreveu o coronel Engelhardt, deputado outubrista e futuro comissário do Governo Provisório, os reservistas de Petrogrado eram “como multidões armadas” que se assemelhavam mais “a material inflamável do que a um apoio do governo”.


publicado por João Madureira às 07:00
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