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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

10
Out19

Poema Infinito (477): Toxicidade

João Madureira

 

 

A ansiedade bate ao ritmo da hipertensão: forte. A verdade, por vezes, nasce das ruminações. Dizem que os maus poetas são bons críticos. A impertinência impede-lhes a inspiração. Um caralho que os foda. A sua inspiração está condicionada pela solidão. Gostam de inventar rivalidades. Todas as óperas lhes parecem originais. São como antigos burgueses desesperados por verem revolucionários janotas e excêntricos. Acham os aplausos ridículos, como de facto são. Todos pecam por insensatez. Salva-os o prazer do risco. Os caminhos sofisticados são sempre os mais vulneráveis. As folhas das cepas perderam o seu ruivo esplendor e começaram a apodrecer. A ambição ressente-se do tédio. A vocação desafina com a impaciência. A dor, nos medíocres, é um vício, costuma dar-se mal com a aristocracia do espírito. A obscuridade das capelas é sempre ameaçadora. O desprezo e a ignorância são a manjedoura do lirismo provinciano. Sempre foi assim. Sempre assim será. Os primeiros versos são delativos. De sentimento único, repletos de afinidades e desdenho. O perdão tem sentido único. A realidade é murcha. As paixões são como tempestades com um Deus morto lá pelo meio. Os enigmas expandem-se. As tragédias baseiam-se na traição e nos equívocos. A glória resulta sempre da publicidade, do embelezamento da própria ficção. Formámo-nos na abstinência do convívio, no silêncio do romance, na infatigável história do cavaleiro da triste figura que não anda nem desanda. Já ninguém mata a sede com água benta. Sonhar a felicidade é uma forma de ser como a Bela Adormecida. Agora lemos a infelicidade nos rótulos dos medicamentos, nos gestos viciados, nas conversas barulhentas, no afastamento dos nomes e dos olhares. O amor tem a consistência da gelatina. Vivemos num baile de máscaras permanente, entusiasmado pelo arrependimento dos outros. Somos infiéis na felicidade e insensíveis à dor. As dissertações são infinitas. O verde cresce rente às paredes. Apenas as cidades florescem. Nas aldeias, cheira-se a morte em cada canto. A gratidão defende-se do ridículo. Choveu muito. Algumas pétalas das flores mais frágeis boiam na água. Por aqui, apenas as tempestades são tão grossas como a realidade. Os olhares parecem esboços de banda desenhada, imprecisos, turvos, vingativos. À medida que perdemos os ofícios perdemos também a alma. Ergue-se da terra um vapor denso. A passarada dispersa-se pelos ramos das árvores. Os dias morrem antes de serem salvos. A aldeia entregou-se ao sono. Os velhos caminhos cegaram. As muralhas apenas retêm o tempo. A luz embate contra a espessura da saudade. Dentro de casa arrumam-se as sombras. Também elas querem descansar. As criaturas gritam dentro dos livros como se estivesse eminente um incêndio. Estamos no centro do vórtice das recordações. Lembramo-nos ainda bem do tempo da paixão, dos juízos ligeiros. Alguns vultos inclinam-se para a claridade. As horas deixaram de ser benévolas. São agora mais curtas. A indiferença produz sempre o vazio. Nada acontece. As casas dormem. Queremos defender-nos das mentiras com conselhos. A inteligência é um fascínio. Agora sabemos passar pelo meio dela como se estivéssemos a atravessar um rio a vau. Uso as palavras sem oxidantes para suportar a decadência. Os equívocos são sempre tóxicos.

07
Out19

463 - Pérolas e Diamantes: Antes pelo contrário

João Madureira

 

 

A nossa democracia parlamentar talvez sofra com o facto de ter advogados a mais e estadistas a menos. Por isso as leis são tão tortuosas e as fraudes imensas. São os grandes escritórios de advogados de Lisboa e do Porto que fazem as leis, as defendem e as ajudam a aprovar. Muito destes insignes ilusionistas são até ilustres deputados. São o Estado dentro do Estado.

 

Esta nossa democracia parece um negócio dos partidos, entre partidos e para os partidos. Quem está de fora racha lenha. Diz quem sabe que este é o caminho para o abismo. 

 

A democracia não se defende contra os partidos, mas contra o seu monopólio.

 

Os partidos têm tido o monopólio do poder há demasiado tempo. Tem de haver uma mudança. Pode ser um desafio estranho e difícil. Mas é necessário.

 

Agora existem duas classes distintas: os empregados e os desempregados. E entre elas existe uma mobilidade incrível. A verdade é que os sindicatos andam um pouco à nora com esta nova realidade.

 

O neoliberalismo passou a significar uma governação feita por conservadores e reacionários e o socialismo uma governação exercida por socialistas. Tanto o capitalismo como o socialismo, que aprendemos a identificar, é agora impraticável. A prática traiu a teoria. Ou revelou-a. O que vem a dar no mesmo.

 

Os cidadãos já aprenderam a julgar as ideologias dos partidos não pelas suas estimáveis intenções, mas pelos atos praticados enquanto governam.

 

A verdade é que ninguém consegue modificar a realidade aos gritos. Chegou ao fim o hábito arreigado de pensar de forma dicotómica. A questão já não é a de se ser a favor ou contra.

 

A História não está do lado de ninguém. Por exemplo, a teoria marxista que explica que todo o desenvolvimento histórico é um produto de mudanças na infraestrutura económica revelou-se falsa. O desenvolvimento histórico resulta tanto da vontade política, como dos processos materiais.

 

Até a esquerda radical trabalha calmamente nos seus ótimos gabinetes para a queda da hegemonia da burguesia, gozando dos frutos desta sociedade burguesa que dizem detestar e combater.

 

Os ideólogos marxistas como Zizek pensam que o pensamento suprime a realidade, quando se faz à esquerda. Ou seja, a realidade é de direita. A esquerda é outra coisa.

 

A esquerda tradicional defende que o mundo se divide entre esquerda e direita. Ou seja, se não formos de esquerda então somos de direita. A verdade é que esta estúpida dicotomia já foi chão que deu uvas.

 

Basta ouvir um militante de esquerda para ficarmos a saber que a direita é incapaz de fazer algo de positivo socialmente. Tudo nela cheira a bafio e sabe a ranço ou a arroz de lampreia. A ser assim, a direita também pode argumentar que a esquerda igualitária possui o sabor do sangue da morcela ou do arroz de cabidela.

 

A verdade é que os pensadores de esquerda, através de uma campanha intimidatória, teimam em tornar inaceitável ser-se de direita. Consideram mesmo que é uma coisa contranatura.

 

Mas os gulags revelaram-se máquinas de extermínio tão eficazes como os campos de concentração nazis. Quase sempre identificam a direita com o nacional-socialismo. Por isso os argumentos da direita são inaceitáveis, as perspetivas irrelevantes, o caráter enviesado e a sua presença no mundo um erro. Nem a direita é assim, nem a esquerda é assado.

 

E a teimosia continua. Por exemplo, Adorno continua a defender que a alternativa ao sistema capitalista é a utopia. Ou seja, se o seu argumento for honesto, quer dizer que a alternativa não existe.

 

Se eliminarmos a lei, a propriedade, os costumes, as hierarquias, a família, a negociação, o Governo e as instituições, sobra o quê?

 

Destruindo tudo isto, substituem-no por quê?

 

A igualdade continua a ser uma questão de fé, pois mesmo aqueles que mais acirradamente a defendem não acreditam verdadeiramente nela.

 

Não é marginalizando e condenando o opositor que podemos modificar a realidade. Dessa forma podemos é comprometer o futuro.

 

Tanto a esquerda como a direita sempre sentiram mais prazer em minimizar o adversário do que em se elevar.

 

É do consenso geral que a nossa sociedade não necessita de uma abolição dos poderes, mas antes da sua mitigação. Uma sociedade democrática tem de assentar num poder consentido, onde os conflitos são resolvidos de acordo com uma conceção de partilha da justiça. A ideologia não pode substituir o paciente trabalho da lei.

 

E quem assim pensa é de esquerda ou de direita?

 

Provavelmente nem uma coisa nem outra. Antes pelo contrário.

03
Out19

Poema Infinito (476): Viagem

João Madureira

 

 

Reguei as palavras logo pela manhã para as ver crescer como se fossem anjos atordoados pelos sinais de pontuação. Abri os meus olhos interiores e vi coisas impossíveis. A linguagem verbal está cheia de febre. Recalco a consciência do que se chama razão. Descubro uma nova espécie de esquecimento: a assimilação. Procuro quem começou a esconder palavras dentro de outras palavras. Tento aproximar os sons dos seus sentidos. Afinal, onde estão as palavras puras? O ar da manhã começou a cair de forma subliminar. O tempo está a mudar. Os demónios tomaram conta da continuidade e das evidências. Rio-me do niilismo, como se isso fosse possível. Renova-se a ilusão, a histeria, o deslumbramento. A manhã está feita de uma matemática singela. A eternidade caiu morta aos pés de Deus. Os ladrões já não acreditam em paixões. Chove extraordinariamente em cima da música de Debussy. Os duendes sorriem. As teclas do piano parecem rosas brancas fixas a dedos pretos. A tristeza emudece repentinamente. Andam por aí muitos sonhos vagos, muito milagre escondido, muito sorriso consolado, muito querubim sério, muito anjo amoral. As velhas poesias parecem pentagramas. Parecem tristes as casas muradas. Os que chegam olham para os que partem. Os que partem sorriem para os que chegam. Só os patetas dizem ter lido Joyce. Os seus livros inspiraram a bomba atómica. Ele pensava que apenas seriam o protótipo de uma nova metralhadora. O futuro é sempre incerto. Alguém grita por um pouco de amor. Uma mãe chora porque não consegue encontrar o infinito para dar ao seu filho. Falta alguma razão às palavras tolerantes. Agora colonizam-se as madrugadas. Os maus hábitos custam muito a perder. Falta amor ao amor. A beleza da arte foi toda devorada por Picasso. As bombas sobre Guernica não foram em vão. Secaram os sorrisos, o pão, a luz. Tudo ficou mais intolerável. Sobretudo a crença na humanidade, já que da crença na divindade nem é bom falar. O demónio, esse, ficou mais corpulento. Pousou uma luz insuportável sob as memórias antigas. É bom não esquecer a dor dos outros para aguentarmos a nossa. Misturam a política com a estricnina. Agora dói-nos o lado esquerdo da alma, os disparates e as horas apaziguadoras. Já nada é seguro. O lirismo abandonou as estátuas. A impaciência agita as estrelas mais pálidas. Antigamente tinha-se vergonha de chorar. Agora chora-se por tudo e por nada. Os beijos são de cristal, os escândalos oxidaram a honra e as aves ficaram trôpegas. O vento alisa os caminhos e a minha raiva. As avós já não cantam, murmuram. À arte transformaram-na num truísmo. As mãos deixaram de organizar, de definir, de acender o lume. Os dedos teclam páginas e páginas de ridículas sentenças judiciárias. Algumas aranhas esperam as moscas. Outras esperam as aranhas que esperam as moscas. O que mais cintila são os condicionalismos, os nacionalismos, as incompatibilidades reconfortáveis, as uniões de facto, o facto das desuniões, a violência da vergonha. Transformaram o mar Mediterrâneo numa mortalha para emigrantes. Por cá viaja-se muito, diariamente, sempre no mesmo sentido. É ir e vir. É vir e ir. Por isso é que os nossos sonhos estão sempre cansados. Engordamos os corpos e emagrecemos a poesia. Também para o que ela serve...

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