Sábado, 30 de Novembro de 2019

Na feira

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Sexta-feira, 29 de Novembro de 2019

No Porto

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Quinta-feira, 28 de Novembro de 2019

Poema Infinito (484): Ecos

 

 

Uma luz fria flutua por este início de inverno. A manhã mergulha na névoa. A iluminação interior brilha na palidez do spleen. Cada árvore do pomar já escolheu o seu próprio deus. E cada coisa possui o seu demónio de estimação. Nenhum vestido resiste a uma festa eterna. Convém não misturar o céu com a terra. A sorte resulta de um certo tipo de geometria imprevista. O murmúrio é um rio de segredos. A luz produz a sua própria sombra. E a sombra produz o seu próprio assombro. Junto das cerdeiras, os melros desenham os seus voos nupciais. No pouco tempo da infância, o medo ganha alento dentro de nós. Atrapalho-me ainda hoje com a densidade dos olhos dos peixes que a avó cozia no pote. Sofro também com a voz do vento, com o insuficiente amor dos milagres, com os restos e as migalhas das tardes, com a posição fixa das estrelas, com a memória alegre que mata o amor das personagens tristes. Por vezes sinto os campos a tremerem. Nos cavalos guerreiros cintilam os arreios. São como segredos. Os seus olhos estão repletos de mágoa. Nos meus olhos misturam-se as nuvens, as flores, os campos e as ondas do mar. A vida flutua no rio como se fosse luz. Esta paisagem foi a última que restou do paraíso. Vagueamos entre o lado da raiva e da aflição. Apercebo-me do tremor delicado dos teus lábios. Os frutos mais serenos estão nos ramos mais altos das árvores. Parecem longínquos os pássaros que pousam sob os ciprestes. Também o vento que sopra das montanhas parece mais longo. Sinto a paciência a subir de elevador até ao ponto mais elevado do castelo. Os segredos costumam abrir os olhos dos incrédulos. Os deuses devoram a memória, alimentam-se dela. O exílio é a nossa pátria. As metáforas ardem-nos na língua. Reescrevemos a deslumbrada afeição dos versos. Foi a avó que me ensinou a lavar as palavras, a suspender a luz do crepúsculo, a definir a linha do horizonte, a distinguir o canto do melro, a definir a expressão da ausência, a apreciar o ritmo da chuva, a serenar os peixes. Lembro-me do calor fixo das mãos do pai. Debaixo das pontes escondem-se os mistérios. Sinto o peso denso da sonolência. O amor. O desprezo. Sinto-me no limiar da indiferença. A felicidade escolhe as mãos onde quer acomodar-se. O tempo equilibra as verdades e as mentiras. O tempo leva-me para outros caminhos. O desejo vem em meu auxílio. Pouca esperança haverá para quem gosta do frio. Sopram-me ao ouvido palavradas desnecessárias. A ternura é tímida. Quando suplicamos pelo infinito, perdemos tudo: os abraços, as perguntas, a limpidez das brisas, a órbita imensa da diferença. A Bela adormeceu por ter engolido uma borboleta cega. As paredes do seu palácio unificaram-se. As janelas abertas, fecharam-se. A névoa fundiu as montanhas. Os animais ficaram imóveis como se fossem de barro. As palavras velhas caem como se fossem folhas de outono. Parecem figuras sem rosto. A pietà esculpida em granito, que encima o pelourinho, encheu-se de líquenes. Cristo cristalizou no seu próprio sofrimento. O seu olhar piedoso assusta. Sinto-me deslizar pelo meio da impalpável luz das estrelas. Tempero a memória. As minhas raízes estão fora deste tempo. A casa fechada esfria ainda um pouco mais. Parece que vejo pirilampos. Oiço o eco do mar. Brotam lágrimas feridas de morte dos olhos da mãe.


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Quarta-feira, 27 de Novembro de 2019

Chega de bois em Boticas

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Terça-feira, 26 de Novembro de 2019

No Barroso

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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019

470 - Pérolas e Diamantes: Os karaokeanos

 

 

Atualmente, a relação com os meios de comunicação baseia-se em desconfiança e hostilidade.

 

Vivemos política e socialmente entre uma espécie de clímax trágico e uma forma de clímax humorístico.

 

Quando se fala de política já ninguém tenta ser sincero.

 

Talvez a nossa juventude seja traumática, desejando chegar a velha diretamente, sem passar pela secção da maturidade. Os nossos jovens gostam de dizer que se acalmam nos grupos de terapia, que estabilizam emocionalmente nas sessões com o psicólogo, tentando evitar o trauma da paternidade.

 

Os mais velhos lamentam-se daquilo que deixaram escapar durante as suas vidas, percebendo que já não vão a tempo de compensar o que não viveram. A beleza da juventude magoa-os.

 

Aos mais novos, a velhice aflige-os e atrapalha-os.

 

A verdade é que dependemos uns dos outros para darmos sentido à vida.

 

Muitas pessoas julgam-se astutas, mas são apenas cínicas. As melhores revelam raiva. Mas, como todos sabemos, a raiva é uma forma diferente de simpatia.

 

O que agora se valoriza não é a autenticidade, mas sim a arte da ilusão.

 

Um velho ditado chinês diz que “os príncipes tornam-se ridículos quando fingem desconhecer a causa dos seus embaraços, ou quando confundem as suas incertezas com as suas ignorâncias”.

 

A nova filosofia assenta na velha máxima: o que se pode levar desta vida é o que se come, o que se bebe e o que se brinca.

 

Caminhamos para uma sociedade corrompida onde os horizontes morais e filosóficos são escassos e, mesmo esses, subvertidos todos os dias por banqueiros, juristas, empresários e políticos.

 

Todos eles tentam esconder a verdade, que é a mola do progresso. Um dia as contradições da nossa era popular vão explodir. O que nos deve preocupar é a debilidade das lideranças dos partidos democráticos.

 

O Estado de Direito baseia-se na ética e no realismo. Não na retórica e no socialismo (ou liberalismo).

 

O todo (os direitos) não existe sem as partes (os deveres).

 

Os políticos pós-modernos são como aqueles patuscos sem graça que memorizam piadas para serem considerados uns pândegos, tendo ido para as universidades privadas frequentar cursos pré-pagos que conferem garantia imediata a certificado timbrado, para aí aprenderem como abandonar as festas antes de esgotarem o material. Produzem o mesmo efeito da comida aparentemente saudável, mas que intoxica.

 

Apesar de se detestarem entre si e nos detestarem, parecem todos velhos amigos, considerando-nos impertinentes e mal agradecidos.

 

Os partidos lá vão fazendo a sua propagandazinha: uma resma de medidas ao acaso, que não os compromete a quase nada, apelidando-as de “programa” para conferir ao arrazoado mal atamancado um cheirinho a seriedade. Numa segunda leitura, se tanto, ninguém consegue respigar um naco de pensamento organizado.

 

O povo, por seu lado, com a sua independência cidadã, lamenta-se. Mas lá vai votar. E nos mesmos, para não se deixar surpreender. Ai o povo, o povo mais a sua santa sabedoria.

 

Os partidos vivem na indiferença, sendo o centro da inércia e da incapacidade. Não sabem o que é ter vergonha. Ou falta de caráter. Os animais não conseguem aperceber-se do seu próprio cheiro.

 

Mesmo o poder autárquico se transformou num exemplo de extravagância, megalomania e, muitas das vezes, em puro latrocínio.

 

Parece que não existe um único político em Portugal responsável pelo défice e pela dívida. A oligarquia partidária confunde-se com a oligarquia dos negócios.

 

O nepotismo e a corrupção derivam da fraqueza do poder democrático e da ausência de uma entidade verdadeiramente fiscalizadora. De facto, todos nos apercebemos da irrelevância do Presidente da República, do Parlamento e das suas comissões. Nem o Governo governa, nem a Assembleia controla. E as câmaras municipais funcionam como verdadeiros feudos.

 

Temos de nos perguntar quais foram os génios que deixaram o país pobre e endividado, acumulando milhares de milhões de dívida que jamais poderá pagar.

 

Lá bem no fundo, o FMI e todas as outras instituições financeiras internacionais, sabem que Portugal é uma folha de papel que vale tanto como o Novo Banco.

 

Apesar de usarem elegantes e vistosos fatos azuis Hugo Boss, os nossos políticos, mais as suas ideias feitas, cheiram sempre a naftalina.

 

E que lindos karaokes eles fazem.


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Domingo, 24 de Novembro de 2019

Interiores

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Sábado, 23 de Novembro de 2019

Castelo de Montalegre

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Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019

No Barroso

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Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

Poema Infinito (483): Iluminações

 

 

A casa está iluminada, florida. O seu centro abre-se com os efeitos da magia. Depois da chuva, veio o luar. Percebe-se o brilho das estrelas através dos ramos das árvores. Uma compaixão sublime envolve a noite. Aflige-me esta simplicidade trágica. Faz-me pensar nos primeiros mártires do cristianismo. Consola-me a ideia de amanhã irmos para as matas apanhar míscaros. O rio parece pálido e com febre. Agora também os rios adoecem. Alguns chegam mesmo a morrer. Os meninos já não se assemelham aos anjos. Parecem feitos de vidro e metal. As confidências são agora operações indolores. A mãe costumava dizer que perdera ao mesmo tempo a virgindade e uma bolinha brilhante que iluminava o seu brinco de ouro esquerdo. O bosque continua a guardar este e outros segredos. Ninguém consegue medir a virulência das paixões da adolescência. O amor clandestino revela sempre condições falsas de relacionamento. Agora o Romeu ama outro Romeu e a Julieta outra Julieta. E parece que daí não vem mal ao mundo. Perdoem-me a má-fé com o género humano. É mesmo defeito. Continuo a querer chegar ao fundo dos enigmas. Todos tentamos combater a bestialidade que transportamos dentro de nós com filosofia e paixão. Quem acredita na ressurreição está salvo. O amor é irredutível a qualquer tipo de originalidade. A preocupação com o sexo torna-o vingativo. Coitados dos pobres que são bonitos demais para as suas posses, nunca passarão de anjos sem asas. Oiço os passos dos veados que se deslocam para a densidade silenciosa do bosque. As vinhas e as oliveiras estão carregadas de distância. A noite ainda não caiu. Alguém se veste como se estivesse com a intenção de cometer um crime. Alimento-me na condição satânica de um desejo indestrutível. Quem com ele nasce, com ele acaba por morrer. Há corpos sem alma e também almas sem corpo. A avidez transforma o luxo em fome. Já me vai faltando paciência para correr caminhos e observar catedrais. A quem possui a febre da ascensão convém recordar a lei da gravidade. A eternidade constrói-se e desfaz-se todos os dias. Hora a hora, segundo após segundo. O instinto é a fonte de toda a autêntica individualidade. Sonho ir de burro até Jerusalém. Mas é viagem de ida sem lugar a volta. A ânsia transforma o espaço e as horas. A terra está despovoada e os poucos colonos velhos são gente estranha. A terra natal transforma-se sempre na nossa terra prometida. Jerusalém habita em nós. Depois de levantarem os nevoeiros, nasce uma nova manhã eterna. Tenho saudade das distâncias, da claridade. Todos temos medo do escuro. A difícil arte da liberdade continua a ser uma intenção. Uma intenção provocadora. Deixo correr a água das chuvas dentro de mim como se fosse um desleixo. Olha para ti como se fosses um jacarandá. O assombro é uma coisa íntima. Pelo meio das paixões difusas, encontram-se sempre meias verdades. Os fantasmas vêm de outras idades e de outras verdades. Já lá vai o tempo em que Adão e Eva se deitaram no chão depois da pecadora comer a maçã. Nesse momento tornou-se fértil. Outros pecados nasceram então dentro de si. Foi o pecado a origem da sua humanização. Com o seu rabo esmagou a flor da amargura. Adão pôs-lhe a mão em concha onde devia. A frescura fez-se lume. Depois visitou-a um anjo que falava em verso e que continuou a aparecer a mulheres que fizeram história. O que não se sabe é se o ungido nasceu sem dor.


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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019

No Barroso

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Terça-feira, 19 de Novembro de 2019

Na aldeia

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Domingo, 17 de Novembro de 2019

469 - Pérolas e Diamantes: Odontologias

 

 

Apesar das boas intenções, há por aí muita gente, dos dois lados do espectro político, que querem acabar com a diferença.

 

Apesar de se encontrarem no espaço da racionalidade, entraram na psicose do sistema. O politicamente correto está a matar a liberdade de expressão.

 

A verdade é que a sexualidade e a arte não devem estar à mercê dos programas políticos. E, como diz Camille Paglia, é necessário salvar o feminismo das próprias feministas.

 

Há que voltar ao essencial, ao período em que as mulheres conquistaram a independência, a autoconfiança e a responsabilidade individual. Pois agora, as feministas pós-modernas só pensam em culpar os outros pelos seus problemas.

 

Não devemos pedir desculpa por apreciarmos a beleza, pois ela é eterna.

 

Estamos mergulhados no caos ético, onde a intolerância se disfarça de tolerância e a liberdade individual soçobra sob a tirania do grupo.

 

A divisão entre esquerda e direita, que se seguiu à Revolução Francesa, já não é o que era, foi ultrapassada, transformando-se numa disputa entre conservadores e liberais.

 

Os “ismos” passam-me ao lado, capitalismo, comunismo, machismo, feminismo, são ratoeiras para apanhar papalvos. Eu sou humanista, interesso-me pela condição humana. Interesso-me pelos direitos humanos, tanto de brancos como de pretos, tanto de homens como de mulheres, tanto de hetero como de homossexuais. Nunca fui prisioneiro dessas estúpidas distinções.

 

Uma sociedade inclusiva e autenticamente democrática assenta num corajoso e desassombrado código de responsabilidade pessoal alicerçado a partir de uma aliança inteligente e cautelosa entre homens fortes e mulheres fortes, conscientes dos seus direitos e deveres.

 

Estou de acordo com Paglia quando defende que o feminismo se deve tornar num movimento onde confluam pessoas com diferentes visões políticas, orientações sexuais e religiosas distintas, procurando fortalecer as mulheres sem necessidade de rebaixar os homens.

 

Quer queiramos, ou não, o feminismo, na sua intenção de se opor ao machismo, ultrapassou a sua justa missão de procurar a igualdade política para as mulheres recusando, ou obliterando, a sua própria natureza.

 

Liberdade sexual e libertação sexual são conceitos que se adaptam a todos os gostos e feitios. Mas é bom não esquecer que os seres humanos são animais hierárquicos. Quando abolimos uma hierarquia de imediato outra lhe ocupa o lugar, muitas vezes bem menos agradável do que a primeira.

 

Como lembra Camille Paglia, a identificação da mulher com a natureza é correta. De facto, o contributo masculino para a procriação é breve e momentâneo. A conceção é um ponto minúsculo no tempo, do qual o homem se afasta reduzido à sua inutilidade.

 

Para esta professora de humanidades, estudos clássicos, arte e comunicação, estamos a assistir à regressão a um estádio pré-feminista, motivada por uma proteção excessiva às mulheres, definindo-as como seres frágeis e incapazes de se oporem à violência, à discriminação e às adversidades.

 

Cito: “Se as mulheres desejam liberdade, devem também criar condições para que os homens sejam livres. Os homens que desvalorizam ou subjugam as mulheres não são livres, porque exprimem desse modo o seu medo secreto do poder feminino.”

 

Cito de novo: “A sexualidade é um reino sombrio de contradição e ambivalência. A mistificação será sempre a companheira desorganizada do amor e da arte. O erotismo é místico, ou seja, é a aura de emoção e de imaginação em torno do sexo. Não pode ser ‘fixado’ por códigos de conveniência social ou moral, sejam eles de esquerda ou direita. Pois o fascismo da natureza é maior do que o de qualquer sociedade.”

 

E como não há duas sem três, aqui fica a última: “O mito dos índios norte-americanos acerca da vagina com dentes (vagina dentada) é uma transcrição direta e macabra do poder feminino e do medo masculino. Metaforicamente, todas as vaginas possuem dentes secretos, pois o homem sai de lá mais pequeno do que quando entrou.”

 

Há uma evidência que apela à tolerância das mulheres em relação aos homens. A ironia está na própria natureza. O sucesso sexual termina sempre com o elo masculino na mó de baixo. A proeminência masculina é efémera e tem de ser infinitamente renovada.

 

Como escreveu Tolstói em “Guerra e Paz”: “Tout comprendre c’est tout pardonner.”


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Na aldeia

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Sábado, 16 de Novembro de 2019

Noturno

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Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019

ST

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Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019

Poema Infinito (482): Respiração

 

 

Os corpos pousados sobras as pedras procuram apurar-se. Entra-lhes a luz pelas mãos. Os rios penetram pela zona da cabeça. Antigamente a fome era dura, rápida, urgente. A fome agora é lenta, vem sempre acompanhada da fartura que temos de rejeitar.  Agora a fome é uma cura e a fartura uma doença. A fome é um vício, uma moda, uma necessidade. Os corpos incham vítimas das sumptuosas ironias da sociedade ocidental. Louvado seja o Senhor. O amor brutal transformou-se num campo de papoilas. Num canteiro as armas floridas, do outro lado as rosas densas como granadas. O princípio de uma coisa é sempre outra coisa. Uma ideia feita de palavras pequenas que, por incrível que pareça, aumentam o tamanho do nosso mundo. Vivemos num mundo de moda, até num mundo de moda literária, que é a pior de todas. Vendem-se livros amorosos envoltos em cuecas de renda. A raiva transforma-se em destino. Não desconfio das pessoas, mas também não acredito nelas. Os pés confirmam o caminho e o nosso caminhar. O céu, por vezes, fica de lado e nele passeiam nuvens que parecem pessoas cheias de gravidade, afetos e verosimilhança. Cada pessoa começa a nascer de forma invisível, como se fosse um Deus. Os dedos da avó continuam a aquecer o pão. O seu sorriso voa dentro de nós. A imagem da noite é redonda. As metáforas ardem como se fossem velas. O silêncio prepara-se para nos seguir. Regressam as pequenas alucinações. Amanhã resplandecerá a neve no cume dos montes. Observar essa paisagem transforma-nos, por vezes, em anjos. O vento da serra virá envolto em cristais de gelo. No meio deste abandono ou se fica santo ou doido. No pátio lajeado ouve-se o ressoar dos cascos do cavalo do tio João. O calor chega-nos vindo de um lume de cerejeira. Na capela do monte vivem os espíritos da aldeia. Depois do apocalipse partir-se-ão os sete selos. As conversas com Deus continuam cheias de banalidades. A intimidade aproxima-nos da solidão e desperta em nós a confidência, o pretexto para os desejos e para o vício. Agora nomeiam-se as ilusões. O cinismo é muito mais velho que as igrejas. Provavelmente anterior à honestidade. As sombras por aqui estão mais lentas. E o sono por vir. Estou em crer que, a chegar, chegará tarde. À minha volta acendem-se as imagens todas. E sinto que levedam como o pão dentro da masseira embrulhado em lençóis linho branco. O problema está nos efeitos secundários que provocam. Onde há medo, há dor. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Escuto o ritmo da respiração. A janela parece estar longe. Percebo agora melhor os buracos e as aberturas, o nascimento e a morte. Mas de pouco me vale. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. A porta parece estar longe. A memória da mãe parece uma máscara de teatro japonês Nô. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. As escadas parecem estar ainda mais longe. E a varanda. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. A memória do pai parece uma máscara de teatro japonês Nô. A maldade alegre da demónio cintila lá ao longe. Lembro-me de cair no meio de um buraco cheio de silvas. Voltei todo arranhado e com bagos de sangue nas mãos. A mãe chorou por cima da taça de amoras que tinha colhido. O nevoeiro saltou a cerca. A chuva cai ainda com mais força. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Alguém sobe as escadas para o alpendre. Levanto a cabeça e vejo-te sorrir. Já posso adormecer.


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Quarta-feira, 13 de Novembro de 2019

No Barroso

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Terça-feira, 12 de Novembro de 2019

No Louvre

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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2019

468 - Pérolas e Diamantes: A arte e a revolução

 

 

O cantor Ricardo Ribeiro (Respeitosa/Mente) acertou na mouche: “O entretenimento é para esquecer a vida. A Arte é para lembrar a vida.”

 

Eu sou intuitivamente flaubertiano, levando, para mal dos meus pecados, o cómico ao extremo, o cómico que não provoca o riso, o lirismo no gracejo. Aprecio desgastar as coisas, exprimir-me com uma espécie de cumplicidade com o desgaste da vida. Persegue-me o sentimento da futilidade e da desintegração.

 

Foi Flaubert quem associou a noção de arte a uma gloriosa futilidade.

 

O passado costuma retornar, mas não nos faz reviver. Apesar de belos, os pássaros são tolos.

 

A criação literária está cheia de amargas alegrias. Flaubert ensinou-nos que o artista é uma espécie de alquimista que fabrica beleza com a impureza da vida.

 

Nada na arte pode ser mesquinho. O estilo, por muito que custe a algumas almas sofridas, não é essencialmente uma proeza técnica, mas antes uma questão de visão. O estilo é a maneira “absoluta” de ver as coisas. É muito mais do que vocabulário e sintaxe. Mais do que substância verbal, é espírito. É ritmo e cadência. Também é precisão e vigor.

 

Flaubert desconfiou sempre das emoções pessoais: “Podemos ser senhores do que fazemos, mas nunca do que sentimos.” Até os eunucos se consomem no seu próprio desejo estéril.

 

A escrita de ficção é também uma forma de profanar os sonhos. Mas, por muito que nos custe, a solidão não confere beleza, apenas desenvolve as depressões.

 

Escrever é uma forma de sublimar a raiva que sentimos pelas coisas impossíveis. Todos somos vítimas fáceis da solidão e da incomunicabilidade. Mas só alguns a conseguem escrever e descrever.

 

São a paródia e a ironia que nos conduzem ao culto do artifício. É daí que nasce a boa literatura. Enriquecemos sempre com todas as ilusões que perdemos. O que é derrota para uns é vitória para outros.

 

Por vezes, ou quase sempre, a relação entre o positivo e o negativo, revela a dialética com que se alicerça a obra de arte. Cito d’ A Educação Sentimental: “Ele transportou para as artes o hábito... de parodiar o que mais lhe agradava, de depreciar aquilo de que mais gostava, rebaixando todas as grandezas e denegrindo todas as belezas, para ver se elas se erguem,  depois, em toda a sua grandeza e beleza primordial...”

 

Mas há gente tão enganada que teima em procurar “o odor das laranjeiras debaixo das macieiras”. Crítica e criação afirmam-se em simultâneo.

 

No ato da escrita, é bom evitar as emoções, pois todos sabemos que quanto menos sentimos uma coisa mais aptos estamos para a descrever.

 

Há coisas que as palavras não conseguem dizer e outras que elas devem encobrir. Até porque, como escreveu Flaubert: “A palavra humana é como um caldeirão rachado onde tocamos melodias de fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas.”

 

 

Nos bons escritores existe sempre uma tensão entre o estilo e o que ele pretende descrever. Nós vemos sempre aquilo que queremos ou aquilo que podemos. Nenhuma obra de arte se salva apenas pela forma.

 

As palavras são diferentes entre si. Umas não conseguem comunicar, no entanto existem outras que transformam os textos de forma irredutível. São elas que fazem com que D. Quixote se revele ao mesmo tempo patético e grandioso.

 

São os falsos movimentos aqueles que contribuem para a impressão opressiva da imobilidade. De facto, é o que as guerras são.

 

Eu sou daqueles que acredita no herói que nunca se torna heroico. Até porque o heroísmo é pouco divertido. É como ter uma experiência espiritual num cenário de banalidade. Perde-se o efeito de paródia. Fica apenas a leve intenção da ironia.

 

Flaubert assumiu muito bem a dupla perspetiva do amor e da revolução. E por separado. Até porque agora sabemos que uma coisa e outra se excluem simultaneamente. Por isso os dois amantes vão para Fontainebleau (A Educação Sentimental).  E enquanto os dois amantes se entregam ao prazer, grassam em Paris a revolução e o sofrimento. Só que a evasão não é possível.

 

Flaubert chega até ao ponto de jogar com o conceito de revolução, uma vez que invoca os grandes cataclismos naturais responsáveis pelo caos das rochas. Não se esquecendo de salientar o aspeto irrisório das alterações políticas e das agitações quotidianas.

 

E depois do coito lá vem o arrependimento: “Ficou indignado com este egoísmo; e censurou-se por não estar lá com os outros”.


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Domingo, 10 de Novembro de 2019

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Sábado, 9 de Novembro de 2019

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Sexta-feira, 8 de Novembro de 2019

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Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019

Poema Infinito (481): Queda

 

 

O universo está em queda dentro do seu caos. O sol morre aos poucos. A galáxia expande-se em espiral  através dos seus braços. As moléculas separam-se. Oiço o murmúrio das estrelas. Sinto frio. Sinto-me a nadar no inverno. A minha mente converge para um ponto único de luz. Sinto o sussurro da noite. Os pássaros dizem, para quem os quer ouvir, que o som da manhã é mais doce que o anoitecer. Tudo está mergulhado na sombra. As pessoas movem-se como se fossem  sombras mais escuras, fundindo-se umas nas outras. Depois separam-se. Ouve-se uma espécie de música suave que preenche o infinito que já passou. Outro lhe vai suceder. Não há vida nova dentro de gaiolas. Não é fácil competir com aquilo que é imutável. O vento de outono desperta o passado e as suas recordações. O que interessa é nunca abandonar o caminho. O caminho do desejo e da liberdade é infinito. Por isso não pode ser todo percorrido. O caos é um caminho caótico, instintivo. É cego. É brutal. Procura sempre a magia. A magia do verbo. A ambição maior é destruir as palavras de Babel. Destruir o anjo autor da alquimia. Depois a combustão costuma baixar, perder o impulso, transformando-se na voz sibilina da criação. Estão queimadas as pradarias dos cavaleiros da Távora Redonda. As namoradas costumavam ser meninas delicadas que tomavam ar na janela. Houve tempo em que as montanhas em redor do povoado tinham mais lobos do que gente. Os antepassados, quando amadurecidos, ganhavam uma auréola de luz mágica e depois atravessavam os sonhos cavalgando corcéis magníficos. Quando chegava o seu fim, perdiam a beleza e o mistério. Ficaram as histórias. E também a memória das águas claras, das fontes a correr entre os choupos tristes e altos que abanavam com o vento. É agora o tempo de nos equilibrarmos na ponta das sombras. O espírito continua a ser o insaciável recolector de desejos insatisfeitos. O destino dos que me são queridos continua a revelar-se muito teimoso. O desdém lá segue o seu curso inexorável. O meu país continua a ser aquele que deixa passar. Não lê nem muda, apenas ouve os outros com os seus ouvidos de tísico. Gosto, sem chegar a amar as cidades. Amo, sem chegar a gostar das aldeias. Esqueço a forma para adivinhar a alma. Lá fora cheira a tristeza. A genialidade é uma busca continua sem princípio nem fim. Uma deceção profunda separa a sensualidade da castidade. Cortar uma flor é um ato de guerra inútil e cruel. A beleza não se colhe nem se partilha. As promessas são mimos quase em vias de extinção. Não é necessário pôr-se em causa a alma, nem a metafísica da luz. Regressa a ideia inquietante do Dilúvio. Com a água cresce a inquietação. E o tédio das flores abertas. E tudo aquilo que ignoramos: a verdura insolente, as florestas que tilintam, a nudez dos prados, as infantas com púbis em tons de arco-íris e as pessoas docemente infelizes. A velha escola está à venda, a igreja mais feia do que nunca e o velho castelo iluminado como uma discoteca. A torre sineira já não dá horas. Já ninguém delas precisa. São agora as mestras do silêncio. O tempo tornou-se longo e melancólico. Os atalhos estão impraticáveis e os cabeços cobertos de giestas. Lá em baixo reúnem-se as brumas. As cores próprias da vida começam a esmorecer. O sabor das partes mais íntimas do teu corpo continua a ser ácido.


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Quarta-feira, 6 de Novembro de 2019

VS

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Terça-feira, 5 de Novembro de 2019

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Segunda-feira, 4 de Novembro de 2019

467 - Pérolas e Diamantes: O Vermelho e o Branco

 

 

Um ano após os comunistas terem tomado o poder na Rússia, os operários de Moscovo e Petrogrado fizeram greves encarniçadas. A fome tornou-se um flagelo. Segundo Gorki “os trabalhadores cuspiam à menção do nome de qualquer bolchevique”. Tal cinismo estava resumido no lema que apareceu espalhado pelos muros das cidades: “Abaixo Lenine e a carne de cavalo! Queremos o Czar e a carne de porco.”

 

Os grevistas de Sormovo declararam: “O regime soviético, criado em nosso nome, tornou-se completamente alheio a nós.”

 

Lenine foi então alvo de um atentado por parte de uma revolucionária (Kaplan) ainda mais revolucionária do que ele. Escapou por milagre a uma bala que o atingiu com gravidade no pescoço. Kaplan foi torturada e fuzilada. Os apaniguados do querido líder bolchevique escreveram no Krasnaia gazeta, um órgão de circulação em massa, esta prova do espírito dos revolucionários da altura: “Sem piedade, mataremos os nossos adversários, às centenas. Para o sangue de Lenine e Uritsky deve haver torrentes de sangue burguês – muito sangue, tanto quanto possível.”

 

Seguiu-se o Terror Vermelho.

 

A aversão à democracia acabou por desaguar num governo mantido pela violência. Os bolcheviques, vendo a terra a fugir-lhe debaixo dos pés, viram-se obrigados a recorrer ao terror para silenciar os rivais políticos e subjugar uma sociedade que não conseguiam controlar por outros meios. A Cheka tornou-se o braço repressivo dos bolcheviques. Era um Estado dentro do Estado, abarcando praticamente todos os aspetos da vida soviética. De facto, a organização liderado por  Dzerzhinsky tanto tratava do licenciamento dos cães como lutava contra os reacionários.

 

Os seus elementos eram peritos em esmurrar portas a meio da noite, interrogar e deter pessoas sem acusações formais. E também a torturar e a proceder a execuções sumárias. Foram a principal fonte de inspiração para a criação da Gestapo e da PIDE.

 

A Cheka era, na definição de um dos seus fundadores, não uma comissão de investigações, uma corte ou um tribunal. Era um órgão de combate na frente interna da guerra civil. “Não julga, fuzila. Não perdoa, destrói todos aqueles que são apanhados do outro lado da barricada.”

 

Foi por essa altura que os esbirros da Cheka começaram a dar um arzinho da sua graça. Numa sessão do Circo Moscovo, os nada pândegos polícias políticos ofenderam-se com as anedotas antissoviéticas do palhaço Bim-Bom e invadiram o picadeiro, com a firme determinação de o prenderem. Apanhada de surpresa, a plateia pensou tratar-se de mais uma atração. Só que o artista fugiu e os perseguidores alvejaram-no pelas costas. Gerou-se uma algazarra dos diabos e o pânico tomou conta do lugar. Rapidamente a cidade se encheu de comentários a respeito do caso, com veementes censuras públicas à ignóbil atitude da polícia. Centenas de pessoas compareceram ao enterro de Bim-Bom, transformando a cerimónia numa manifestação de desagrado.

 

Parece que na Cheka não liam os clássicos. Engels escreveu que “o terror é composto de crueldades desnecessárias, perpetradas por homens assustados”.

 

Gippius, o poeta de Petrogrado, disse que durante o Terror Vermelho, “não havia, literalmente, uma única família em que alguém não tivesse sido preso, levado ou então desaparecido sem deixar rasto”.

 

Todos seguiram ao pé da letra a afirmação de Lenine de que era melhor prender uma centena de inocentes do que correr o risco de deixar um inimigo à solta.

 

Já do lado dos Brancos, a miséria humana não era melhor. A grande ajuda enviada pelos Aliados das potências ocidentais para auxiliar os exércitos que combatiam os bolcheviques, acabou por desaparecer, em virtude da corrupção. Armas, fardas, lençóis, cobertores e equipamento hospitalar, quase tudo isso foi parar ao mercado negro.

 

Vários generais incitavam os seus soldados com a promessa de pilhagens.

 

Um deles ficou conhecido como o Príncipe dos Ladrões. A grande maioria das tropas era, no dizer de um dos poucos generais honestos, “um colossal cortejo de larápios e especuladores”. Para estes homens, a guerra era uma forma de enriquecimento.

 

A cavalaria Branca transformou-se num corpo especialista em saques, roubando ao povo o pouco que lhe restava depois da coletivização dos Vermelhos.

 

Foi precisamente esta combinação de fatores que levou aos atrozes pogroms contra os judeus.

 

Bem diz o povo que uma desgraça nunca vem só.


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Domingo, 3 de Novembro de 2019

Pisões

Barroso - abril 2006 277 - cópia copy.jpg

 


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Sábado, 2 de Novembro de 2019

Misarela

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Sexta-feira, 1 de Novembro de 2019

Olhares

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