Terça-feira, 31 de Dezembro de 2019

Chaves

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Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2019

Milagres lusitanos

 

 

Alguém muito importante anda a organizar o Dicionário Taumatológico Nacional, que, para quem não saiba, tem a ver com o estudo dos milagres.

 

Em Portugal tudo tem a ver com taumatologia. A Nação Portuguesa pode não ter nada a ver com o desenvolvimento, com a cultura, com a ciência, com a energia, com a indústria, com a agricultura e com o talento, mas tem tudo a ver com a taumatologia.

 

O milagre das rosas foi dos mais encantadores momentos da nossa nacionalidade. E transformar pão em rosas não está ao alcance de qualquer um. Mesmo transformar rosas em pão, não é tarefa nada fácil. Mas, convenhamos, a primeira premissa é muito mais poética. E Portugal é um país de poetas. E de futebolistas. E a poesia tem muito a ver com os milagres. E o futebol também. Para isso basta ver os futebolistas e os treinadores a beijarem os seus santos e a glorificarem Deus (especialmente os brasileiros, que devem, nesses momentos de fé e oração, agradecer devotamente o facto de serem fruto de um outro milagre: o de serem filhos, netos e bisnetos, de portugueses, o que é novo e enorme milagre).

 

Em Portugal existe um outro milagre, o da linguagem. Por isso os prodígios acontecem a cada dia que passa. O assombro da saúde gratuita, a maravilha da educação espontânea e o portento da segurança social universal são conquistas de um outro milagre, a Democracia, que, também ela, é sucedânea de um distinto milagre, o Estado Novo, que substituiu um outro portento, a República, que se opôs com tenacidade a idêntico prodígio, a Monarquia, que, por mor da taumatologia nacional, se viu defendida por uma rainha tão corajosa e crente que, já de pé, fustigou o criminoso que abateu o seu marido e o seu filho com a única arma de que dispunha: um ramo de flores, gritando “Infames! Infames!”.

 

Depois ver Nossa Senhora aparecer a três pastorinhos em Fátima é, digamos, um final feliz, isto enquanto ao facto em si mesmo, pois se nos cingirmos à mensagem, o milagre está em não ter acontecido o que a Senhora vestida de branco vaticinou, ou sugeriu.

 

Podemos dizer que a vida é um milagre. Podemos até dizer que os próprios milagres são um milagre. Um milagre é um empreendimento de fé. Fé em que o milagre se realize.

 

Há por aí muita boa gente que acredita piamente no milagre de acertar no totoloto ou no euromilhões, por isso se cotiza toda as semanas. E o milagre de adivinhar os números por vezes acontece. Um em vários milhões, é verdade, mas é nesse pormenor onde se consubstancia o milagre. Pois se o prémio fosse distribuído por metade dos apostadores nenhum ganhava nada que se visse. Esse é o entretenimento que o Estado pratica com todos nós. Por isso, o milagre existe na circunstância de o prémio sair ao menor número possível de apostadores, ou a nenhum, facto que transfere, para desespero dos mais impacientes, o milagre para a semana seguinte.

 

Os matemáticos fizeram as contas e afirmam que cada apostador do euromilhões ou do tolotolo tem tantas probabilidades de acertar na chave milionária como de lhe cair um meteorito na cabeça. Nunca li uma notícia relatando o caso de um ser humano ter levado com um pedregulho intergalático na cachimónia, mas quase todas as semanas leio a notícia de alguém ficar milionário com as apostas da Santa Casa. E isso é um milagre. E grande. Que o digam os afortunados com os prémios milionários.

 

Também é um milagre o amigo leitor estar a ler o que está a ler sem se incomodar. Ao preço que a batata está, já é um milagre alguém disponibilizar algum do seu tempo (pois tempo é dinheiro) a ler o que um escritor de província rabisca num órgão de informação local. Então se pensarmos no quilo do bife, apenas nos resta deduzir que os vegetarianos vão atingir os seus objectivos de transformar o ser humano num ruminante. E isso também é um milagre. Não tão grande como o de ganhar o euromilhões, mas, mesmo assim, um milagre em tudo semelhante ao de transformar o pão em rosas. Já o de transformar Portugal num país a sério, nem Deus está em condições de o garantir.

 

PS – Se o amigo leitor (ou leitora) possui um cão, e gosta dele, claro, aconselhamos que comece desde já a preparar o inverno. Por isso aqui deixamos a sugestão: adquira, quanto antes, roupa para o seu animal de estimação. E pode fazê-lo através da internet. É fácil encontrar boutiques especializadas na venda de roupa para cães, desde capinhas, chapéus, camisolas de lã, cuecas, pijamas, roupões e até botas para a chuva.


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Domingo, 29 de Dezembro de 2019

Barroso

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Sábado, 28 de Dezembro de 2019

Barroso

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Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2019

Barroso

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Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (488): Luz suspensa

 

 

Sinto o espanto. A maravilha do espanto. O seu milagre. O aroma do tempo fecunda o bosque de ciprestes. O crepúsculo fecunda as faias e os pinheiros. O saber sabe a silêncio. Quanto mais intensa é a luz, menos se vê. A aflição é sempre uma dor aguda. Viver equipara-se quase sempre a um único e longo solo de jazz. A aldeia assemelha-se a um museu em ruínas. Até as memórias se desmoronaram. O tempo já se perdeu por aqui. As saudades mordem-me os olhos. Além do gozo, há o gosto. Além do gosto, existe o gozo. O problema é o erotismo recalcado. Esse não pode ir a despacho. O fogo do riso matinal já lá vai. A fotografia revela a bruma melancólica da meia idade. Cantemos devagar a cosmologia, progressivamente e com fé iluminista. Toda a audácia é particular. Montemos as máquinas sinfónicas, os desastres de Goya, as laudes alegóricas de Rimsky Korsakov, as peças arrecadadas por Deus no momento seguinte ao Big Bang. Sobre os campos de batalha desce a névoa. O vento atiça as fogueiras do Apocalipse. A memória pode salvar alguns rostos. Mas os mitos foram todos destruídos. A chuva apaga as suas cinzas melodiosas. Uma folha amarela, descrevendo lentos círculos, pousa sobre o caminho das formigas. A infinitude lança-se contra a unidade. E a unidade lança-se contra a infinitude. Ali, na direção do infinito, o frio imóvel começa a subir e as borboletas morrem. O outono estreitou ainda mais os dias. O pássaro é ainda mais leve do que a sua própria sombra. O seu canto desliza pelos outeiros como se fosse um desejo rápido. Toda a fuga invisível é um processo amargo. Os corpos e as máscaras resignam-se às horas claras. De olhos fechados, sigo a iluminação das raízes. Por vezes parecemos imagens inúteis, postadas em cima dos móveis, encostadas à sua própria recordação. Podemos falhar o desejo, mas não o seu intento. Deixei de escrever cartas às causas perdidas. O tempo seca os punhos como se fossem peras. O coração já não grita. A razão emudeceu depois de deixar de o ser. Os caminhos da verdade ficaram desertos, cheios de cruzes. Os anjos revolucionários suspiram de asas fechadas. Não sabem para onde ir. Os gatos continuam enigmáticos, por isso fecham os olhos e sonham em caçar o tempo. Também a avó cantava canções em língua antiga, enquanto cosia. Pensava eu que havia música nos seus dedos. As tardes passadas a caminhar no jardim deixaram de ser divinas. Agora estão impregnadas de saudade e melancolia. Escrevo versos para registar as memórias. A memória da erva fria, a memória dos corpos em movimento, a memória dos sorrisos no teu rosto. A memória dos lábios. Sinto as cores a evaporar-se. A luz do jardim está suspensa. Os pensamentos começam a desagregar-se. À superfície, os corpos dos amantes são sempre transparentes. Neles costuma aparecer o fogo secreto. Depois os sinais da sarça ardente passam. E as vozes amorosas tornam-se altaneiras, por vezes histéricas, inclinando-se na direção do seu próprio movimento. A luz dilata-se. É então que o vazio mostra o seu silencio que se costuma confundir com o divino. As horas deixam de chegar a tempo. Sempre adiantadas. Ou atrasadas. O tempo consome a sua própria tranquilidade. A loucura conforma-se à medida que nos afastamos dela. O mundo brilha. A verdade cega. Perdemos tudo aquilo que recusamos.


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Quarta-feira, 25 de Dezembro de 2019

Barroso

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Terça-feira, 24 de Dezembro de 2019

Barroso

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Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2019

474 - Pérolas e Diamantes: Confusões

 

 

Paul Mason, uma das vozes internacionais mais críticas do sistema capitalista neoliberal, tem um novo livro (Um Futuro Livre e Radioso – Uma defesa apaixonada da humanidade) onde medita sobre a desumanização que transforma os cidadãos em clientes, reduzidos à sua funcionalidade económica, ao mesmo tempo que alerta para o risco da humanidade ser suplantado pela inteligência artificial (IA). No fundo, é a sujeição dos indivíduos às forças do mercado.

 

Difunde-se na política e na economia o medo, e utiliza-se o ressentimento como forma de manter os privilégios e as hierarquias.

 

A globalização revela desequilíbrios e os sistemas económicos ficam sem controlo. O mundo é cada vez mais um lugar musculado, desordenado, instável e desigual.

 

Com a crise de 2008, o sistema de mercado livre implodiu, resultando daí um conflito entre uma elite neoliberal, que não quer perder privilégios, e uma esquerda que não consegue dar uma resposta satisfatória aos novos desafios. No meio estão os cidadãos em estado de confusão, reduzidos à sua funcionalidade económica.

 

A direita ultraliberal, entretanto, entrou em pânico, e com razão, pois já não consegue manter a sociedade unida e luta desesperadamente para continuar a garantir que as hierarquias não se dissolvem.

 

Os seus líderes, com especial relevo para Trump, revelam desdém pelos direitos humanos universais, medo pela liberdade, fazendo finca-pé no negacionismo ambiental. Vivem da idolatria e do autoritarismo, tentando fragmentar a ordem mundial.

 

Querem passar da ordem ao caos.

 

Tudo fazem para que os cidadãos quebrem a sua confiança em relação à democracia  e à política. Sendo capitalistas, abominam o capitalismo estatal, defendendo um capitalismo sem Estado.

 

Nessa luta, estigmatizam os meios de comunicação que lhes não são fiéis. Em troca, fabricam a toda a hora notícias falsas.

 

Esta postura política tornou a diplomacia e a política doméstica imprevisíveis.

 

Esta forma de neoliberalismo nacional, transformou-se num ataque global ao pensamento e à ciência, à lógica e à definição de políticas sustentáveis.

 

Toda esta confusão resultou em medo, legitimando a violência da extrema-direita, criando uma narrativa racista, misógina e nacionalista. Esta corrente populista sobrepõe-se à lógica e à verdade. A responsabilidade passou a ser relativa.

 

O neoliberalismo está controlado pelos monopolistas e especuladores. O vício é o de sempre: proteger a riqueza daqueles que já a possuem, reproduzindo as desigualdades.

 

É necessário reformar o capitalismo para se poder vencer as mudanças climáticas.

 

Mas existe outro fator de preocupação relacionado com o crescimento do pós-humanismo em todos os aspetos da nossa vida.

 

Olhares

O controle que se faz dos nossos comportamentos através de algoritmos ou da inteligência artificial, apesar de estar ainda no início, levanta problemas de privacidade, vigilância e liberdade.

 

Claro que à esquerda também existem tentativas de reciclar o bolchevismo. Por exemplo, Alan Badiou ou Slavoj Zizek, andam a tentar reformar a palavra comunismo. Mas parece ser tarefa impossível.

 

Basta ir a alguns países onde reinou o “socialismo real” para se perceber que ainda existem pessoas com uma memória viva do comunismo, que o comparam ao fascismo. E o regime comunista da China é até motivo de chacota, por ser uma mistura de autoritarismo, marxismo, confucionismo e contabilidade.

 

Paul Mason defende que é necessário pensar numa transição do capitalismo, assente numa economia colaborativa e partilhada, “onde seja possível viver numa sociedade sem trabalho automatizado e mais igualitária”.

 

O seu sonho é ver uma comunidade “sem pobreza, onde a propriedade e as hierarquias não são o mais relevante e em que todos dispõem de tempo livre para desenvolver o seu potencial humano e possuem recursos materiais suficientes para viver”.

 

Defende, para isso, a necessidade de uma nova esquerda, resiliente, assente num humanismo radical, capaz de requalificar a política. Ele acredita que tal vai acontecer. Eu tenho a minhas dúvidas, pois a ideologia neoliberal e a dominação algorítmica não se vencem com duas tretas.


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Domingo, 22 de Dezembro de 2019

Na matança

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Sábado, 21 de Dezembro de 2019

Na conversa

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Sexta-feira, 20 de Dezembro de 2019

Olhares

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Quinta-feira, 19 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (487): As coisas ocasionais

 

 

Não há coisa mais dilacerante do que a indiferença dos outros quando se está apaixonado. As gralhas desenham os seus voos contra a luz rosada do entardecer. Toda a luz. Tu és toda a luz. Cintilas como um pássaro. Costumas cuidar das palavras mais frágeis. Transformas em carícias as palavras que me dizes. Para quê regressar ao passado? Essa é sempre uma outra forma de sofrer. Lembro-me do rio. De atirar pão aos patos. E a vida ia crescendo. Atravesso o tempo e todas essas emoções. Depois alcanço a alegria e o medo. E o voo dos pássaros que logo a seguir pousam nos ramos. E a mãe a coser e a arranjar a roupa de tesoura na mão. E as aventuras, as corridas, as querelas, as histórias de amor. E também os estudos. E depois o trabalho. O trabalho. O trabalho. E as águas do rio sempre a correr. E os teus olhos brilhantes. E o vestido sobre os joelhos. E a nitidez das árvores. E a doçura da intimidade. No sótão apenas resta a poeira do gesso caído e restos de ninhos de pássaros. O som das portas é frio. A verdade é que continuo a ver dentro de ti uma luzinha. Não é bonito andar de um lado para o outro com a luz apagada dentro de nós. Já chegou o tempo em que o corpo começa a desbotar. O parque está repleto de folhas espalhadas pelo chão. Sopra um vento morno. O céu está salpicado de estrelas. Este é o meu pedaço. As constelações são coisas ocasionais, como os pássaros em voo. O tempo não coincide. As estrelas têm um. Nós temos outro. Acordei deitado em cima de restos de sonhos que não consigo compreender. Oiço e vejo as coisas de lado, como se fosse uma figura egípcia. Oiço o tamborilar da chuva. Como era agradável o seu som a bater na chapa da casa e a rumorejar logo pela manhãzinha no telhado da varanda. Ouvia o sussurro da folhagem e punha-me a ler, ajudado pela luz do amanhecer. O verão já não me traz a paz de antigamente. Hamlet dizia, e com razão, que o tempo está fora dos eixos. O tempo não enche o espaço até ao extremo. O que sobra é ainda mais vazio do que o vazio. Com os anos, os buracos do sistema do mundo são cada vez maiores. As pessoas é por aí que desaparecem. Pairo por cima do vazio. Algo invisível apaga as frases mais curtas. Apesar das noites serem intermináveis, os anos passam a galope. A relatividade é uma coisa fodida. Tal e qual como o amor. Dizem que os pássaros conseguem introduzir o esperma em pleno voo. Alguns dias ganham sentido quando passam. A eternidade tem a forma de um seixo redondo. Nascem do luar algumas palavras calmas. As tristes foram há pouco com o vento. Os deuses dos campos vão recolhê-las para mais tarde as transformarem. Das confusões, nascem as vertigens. Cada cavalgada leva ao seu destino, cada pássaro ao seu ramo, cada borboleta ao seu limite, cada momento de glória à sua melancolia, cada sonho ao seu corpo. O silêncio tenta explicar-se através da memória da mãe. Nas pedras, sentados à sombra, respiramos a frescura e o verde que a rodeia. Lá em baixo, o rio transporta o dia até ao mar. Convalescemos da alegria rápida que nos atacou. O vento traz-nos o cheiro a rosas silvestres. Ainda somos donos do caminho que nos falta percorrer. Caminhamos de mãos dadas, aprendendo a linguagem destes lugares. A madrugada começa a impor-se na aldeia. As glicínias escorrem orvalho. É preciso que existas. Pois é bem verdade o que escreveu Joaquim Pessoa: “Cada vez nos temos mais apenas \ um ao outro.”


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Quarta-feira, 18 de Dezembro de 2019

Na aldeia

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Terça-feira, 17 de Dezembro de 2019

Na conversa

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Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019

473 - Pérolas e Diamantes: Luvas brancas

 

 

Com os anos que levo já me habituei a quase tudo. Até a suportar as pessoas. Mas não há maneira de me habituar à estupidez humana e à má educação.

 

E também não percebo, desde criança, a razão de o Rato Mickey e a Minnie usarem sempre luvas brancas.

 

Lembro-me então da escola, das aulas de biologia e de filosofia e dos rizomas e da rede de relações e ligações totalmente descentralizadas, desordenadas, sem princípio, sem limites, com cada ramo a poder ligar-se a outro, sem hierarquia, sem lógica, sem centro.

 

A realidade político-partidária age e desenvolve-se da mesma maneira. O poder é fonte de desejo. E de segredo.

 

As derivações são múltiplas. E em aceleração. Nós por cá já vimos de tudo: relações amorosas, ligações sexuais, ruturas afetivas, amizades, interesses recíprocos, situações de dependência, promoções profissionais, abuso de posições dominantes, decifrações, indecifrações, lojas, paróquias, irmandades, misericórdias.

 

O rizoma político nacional é extremamente denso e secreto. É bem mais do que o simples lóbi que deixa transparecer. É um sistema que se auto sustenta.

 

E o povo afasta-se da porta para ir observar tudo isto da janela. Que simpático é o povo.

 

Existe, no entanto, uma coisa que me incomoda. É a educação. Claro que ela faz falta. Mas custa a justificar como um sistema de ensino de qualidade, como o soviético, não foi capaz de salvar um país e o deixou cair na miséria económica. E, no que a nós diz respeito, não sei para que nos serve ter a geração mais bem preparada de sempre para estar no desemprego e o país na cauda da Europa. A mim não me serve de desculpa. E aos visados não lhes vale de um corno.

 

Já todos identificámos que um dos problemas nacionais é a endogamia existente no sistema político, financeiro e universitário do país. Há apelidos em que tropeçamos constantemente quando procuramos quem integra os órgãos sociais das principais empresas portuguesas ou os órgãos dirigentes dos principais partidos políticos.

 

O futuro não se faz a andar para trás.

 

Os prazeres da hipocrisia tudo superam. As atitudes são compostas ao sabor dos novos tempos. Tudo é visto sobre um prisma diferente: o dinheiro, a verdade, a doença e a vida sexual. Tudo vive na angústia da procura da felicidade. Todos medem forças com o destino. Vive-se para entrar numa estatística, seja ela qual for. A lei maior é a do sucesso. Mas isso é como amar um desconhecido.

 

Uma coisa sabemos: os políticos pós-modernos não estão a construir o país que os nossos filhos merecem. Já há quem queira fazer História com H grande. O tempo desacelerou. Parece que o destino não está a nosso favor.

 

Olhamos à nossa volta e não gostamos muito daquilo que vemos. Os mais velhos sofrem e os mais novos sentem que a sua vida é cada vez mais complicada.

 

Custa perceber que os que melhor tiraram partido dos anos excecionais da integração europeia, e melhor protegeram os seus “direitos”, foram os políticos industriosos e os que conseguiram chegar à informação privilegiada.

 

Tudo fazem para que a nossa opinião seja otimista, ou pessimista, conforme lhes dê jeito. É justo o juízo de que não há profissões, há posições.

 

As diversas escolhas políticas remetem-nos para a igualdade, mas a verdade é que a desigualdade é cada vez mais evidente. Estou em crer que é a realidade quem nos mente. A realidade também está no desemprego.

 

Posso dizer, com lágrimas nos olhos (de me escancarar a rir, provavelmente), que nasci um ano depois de José Sócrates, Marques Mendes e António Vitorino. Ou Rui Rio.

 

Não os culpo. Eles são políticos. Gente séria e responsável. Eu é que sou irresponsável. Eles ficaram com os privilégios. Eu com o engano do sorriso. Eles ficaram com o lado extrativo da realidade. Eu com a porcaria da criatividade ficcional.

 

Eu defendi a revolução. Eles a economia com regras estadistas e centralistas. A integração europeia. E lá continuam a passar a mão pelos subsídios. Fazem-lhes festas. Gostam de regular as contas com a eficácia que todos sabemos.

 

Antigamente distribuíam, às escondidas, propaganda ilegal carregada de evidências. Nos seus novos tempos democráticos conservam ainda a coragem de distribuir, às escondidas, propaganda legal carregada de incoerências.

 

Claro que a culpa só pode ser minha. Nossa.

 

Como escreveu Alexandre O’Neill: “Em Portugal nunca deixamos cair nada; são os objetos que se escapam das nossas mãos.”


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Domingo, 15 de Dezembro de 2019

No Louvre

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Sábado, 14 de Dezembro de 2019

No Louvre

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Sexta-feira, 13 de Dezembro de 2019

Em Paris

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Quinta-feira, 12 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (486): Dissidências

 

 

O mar, por vezes, pode ser absoluto. Como o amor. Como a morte. Como o céu. Antigamente havia muitas sereias espalhadas pelo Mar do Norte. Mataram-nas com ferros, como se fossem baleias. Deram todas à costa e aí apodreceram como se fossem judeus em Treblinka. Os mares do Oriente possuem muitos corais e pérolas, mas nunca possuíram sereias. É monótona a solidez da terra. E o grande mar foi sempre uma ilusão. A minha experiência é uma espécie de metamorfose, quase perfeita, quase lúdica, quase épica. Para se ser cavaleiro tem de se possuir um cavalo e muita coragem. Falo com a água como se fosse a minha mãe. Tenho-lhe medo. E amo-a. A sua face é espantosa. Adormeço da viagem em cima da espuma breve do mar. Os capitães dos navios mais velozes costumam enamorar-se das estrelas mais tristes. Nas paragens da vida somos todos estrangeiros. Detenho-me então à beira dos teus olhos. O desejo é uma espécie de itinerário invisível, repleto de cargas ocultas, de vínculos desconhecidos. É durante o voo que os pássaros se perdem. É tudo tão imenso! É tudo tão pequeno! É tudo tão precário! É tudo tão imenso! E as surpresas são tão breves que nem se deixam saborear. A brisa penteia o verde da seara. Borboletas brancas e pássaros imprevistos descem sobre o meloal. Lá fora, crescem as uvas e o trigo. As árvores parecem símbolos instintivos. O ar da noite sussurra silêncios. As vacas sentadas mastigam a sua própria solidão. Todos temos cara de anjo quando nascemos. E quando morremos. É a morte que nos une e a vida que nos separa. Lembro-me de Soljenitsin: manipulados e dissidentes somos todos nós. Foi a dialética que nos tornou tristes e quase inúteis. Todos sentimos dor quando se desfraldam as bandeiras em tempo de guerra. A nitidez das espadas é sempre fria, faz demorar a narrativa e torna a memória fugidia. Dizem que já me sobra um pouco de sombra. Cortaram as asas às alegorias, tiraram a clareza aos sorrisos. O passado já não faz parte do futuro. As pequenas coisas estão datadas e as grandes passaram a ser ingratas. O paraíso corresponde agora à ausência de felicidade. Estão pregadas na memória as velhas palavras, as curvadas figuras humanas, as paisagens mais frágeis. Regresso de novo ao esquecimento. As águas continuam a passar. Tudo parece ter mudado: as nuvens em pousio, o azul do céu, o desenho fino das montanhas, a alegria dos cantos, a tristeza, a comoção, a coragem de Deus. Fecho os olhos e caminho. Absorvo as alturas. A origem do mundo deixou de ser divina. As ondas dançam, a espuma desliza, as areias estão sujas. A árvore divina dobra a noite. Disseram-me para voar quando ainda não tinha asas. Cai uma neve longa e solitária. O seu silêncio é suave. Oiço então o suspiro falso da eternidade. Observo o rosto calmo da aldeia. O tempo dissipou já quase todos os nomes dos que por aqui passaram. As velhas senhoras varrem as pétalas das flores que ornamentaram os mortos. Usa-se agora um silêncio diferente para marcar a dor. Tudo tem uma necessidade diferente. As memórias estão cada vez mais imóveis. Os pensamentos parecem metálicos. Os gestos assemelham-se a setas. Apesar de parecer imóvel, o tempo leva-nos sempre para a frente. As lágrimas já não são de contentamento.


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Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019

Em Paris

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Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019

Em Paris

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Segunda-feira, 9 de Dezembro de 2019

472 - Pérolas e Diamantes: Ideias entusiasmantes

 

 

À sua maneira, Demi Gambus, o célebre filho de Miquela, de forma metódica e organizada, empenhou-se em investigar vários ramos de delito. Para isso, elaborou uma longa lista de complexas e variadas formas da nobre arte de roubar.

 

Logo de início, defrontou-se com uma exasperante surpresa: quase todas as possibilidades já tinham sido experimentadas pelos seus antepassados. E ele, por dignidade própria, negou-se a repeti-las.

 

No entanto, chegou a conclusões que, apesar de simples, são incontestáveis: há milhentas formas de roubar e de intrujar, mas a melhor de todas baseia-se numa combinação de métodos. Por exemplo: roubar alguém, arruiná-lo e logo de seguida, após a ruína, oferecer-lhe um empréstimo com um juro usurário.

 

Mas a conclusão mais pertinente foi a de que o mesmo acontecimento, dependendo da época, não só não era considerado crime, mas até podia ser motivo de louvor.

 

Dedicou-se então ao estudo profundo da sua época e em procurar uma forma de roubar que, ao mesmo tempo, o fizesse ganhar prestígio com esse ato.

 

Logo de início percebeu que os crimes praticados com violência eram os mais desprezados pela sociedade. Provavelmente porque são os mais evidentes e expõem mais os seus autores. Essas são ainda as formas mais primárias, as mais primitivas. Estão fora de moda vai para muito tempo.

 

A burla e o abuso de confiança agradavam-lhe sobremaneira, eram procedimentos mais refinados. Mas também eles implicam correr muitos riscos e dão muita visibilidade aos seus autores.

 

Concluiu que é necessário burlar, mas de uma posição sólida. Tal solidez só é possível na legalidade. Esta é a verdadeira solução. No mundo civilizado, não existe nenhuma lei que penalize o enriquecimento resultante dos rendimentos, mesmo que abusivos, de determinados negócios.

 

Por exemplo: comprar por cinco o que vale dez e de seguida vendê-lo por mil não é considerado uma burla, mas antes um bom negócio.

 

Depois de muito matutar, o filho da velha Miquela, apercebeu-se que estava muito cansado. Decidiu então tomar um banho quente em plena madrugada. Acordou um dos seus criados e pediu que lho preparasse. Bem aconchegado na sua água morninha, reviu a última pasta e leu uma frase escrita com a sua letra: “Também posso roubar através da usura.”

 

A ideia entusiasmou-o. Tinha já aprendido em família a meter-se em campos escuros e escorregadios, no limiar da legalidade, com a habilidade de um equilibrista de circo. Deogracies-Miquel Gambus sabia que a usura implica sempre uma união tentadora, muitas das vezes contranatura, entre as leis e a moral.

 

A história da usura não lhe saía da cabeça. Lembrou-se então de um episódio familiar, atribuído ao primeiro dos Gambus. Em 1850, Miquel Gambus I conseguiu organizar uma frota de quinze embarcações, de diferentes tonelagens, que secretamente transportava várias centenas de cavalos ao longo da costa africana. Todos roubados, como não podia deixar de ser. O destinatário era o fabuloso rei N’Geco do Daomé, que estava em guerra com a França pelo controlo do Golfo da Guiné. A ideia do monarca africano era surpreender os franceses com um regimento de mulheres guerreiras montadas a cavalo.

 

Sem incidentes significativos, que não passaram de pequenos encontros com piratas berberes que não faziam ideia com que pirata se metiam, aquele porta-estandarte da delinquência organizada chegou ao Porto de Cotonou.

 

Gambus I foi o convidado especial do rei N’Geco, que o cumulou de atenções e lhe pagou a encomenda com pedras de ouro, a mais pequena pesava cem gramas, e, para arredondar,  um par de raparigas.

 

Uma daquelas pedras douradas foi conservada sempre à vista de todos, na vitrina da sala de jantar do chalé de Alcagaire, à altura ainda chamada de El Cagaire. Das duas raparigas, uma morreu na viagem. A outra viveu ainda vários anos. Os suficientes para escurecer, mesmo que ligeiramente, os genes de umas quantas famílias da vila.

 

Eram outros os tempos, tempos românticos e aventureiros em que era possível ser ladrão e herói ao mesmo tempo.

 

Gente desta guarda dentro de si uma última esperança: que o inferno não exista.


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Domingo, 8 de Dezembro de 2019

Feira dos Santos

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Sábado, 7 de Dezembro de 2019

ST

Santos 2015 (1) 367 - cópia copy.jpg

 


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Sexta-feira, 6 de Dezembro de 2019

Na cozinha

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Quinta-feira, 5 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (485): Sede

 

 

Os aviões parecem pombas brancas a deslizar lá no céu. Os automóveis brilham imitando mulheres que imitam anúncios. Os bêbados falam em Deus. Lembro-me de o avô podar as vinhas, de encher os bolsos de pavias e de eu jogar futebol descalço, junto ao rio. A esta hora, a cidade começa a ruir por dentro. As livrarias fecham as portas umas a seguir às outras. No seu lugar abrem pastelarias e outras coisas parecidas. As pessoas entram e encolhem-se para conseguirem comer o seu pastel de nata e beber o seu café descafeinado. Antigamente, uma tal de Leonor andava também descalça entre a verdura, caminhava devagar, com o seu ventre bem delimitado e o seu sexo em sossego. A  minha angústia assemelha-se às ondas do mar. A felicidade deve ter a forma de uma pavieira. As minhas dúvidas continuam sólidas. As certezas nem por isso. As certezas tremem como as mãos da avó quando tinha frio ou quando chorava. Nesse tempo, a minha mãe era bela. Nesse tempo, todas as mães eram belas. Depois a mãe morreu e a cidade ficou cheia de sombras. Não me lembro do último beijo que ela me deu. Agora todos os pretextos me parecem inúteis. E a verdade apaga-se e acende-se. Acende-se e apaga-se. Os castanheiros estão em flor. Em Trás-os-Montes. Choveu desalmadamente durante toda a viagem. Também as amendoeiras do Vale da Vilariça estão floridas. As primaveras parecem agora mais rigorosas. Costumava esperar por ti à saída do cinema. Beijava-te a testa. A seguir, os lábios. Depois sentia o teu peito contra o meu. E as mãos a tremer. As pontas dos dedos acendiam-se como se fossem pirilampos. Percebo que caminho, mas não sei para onde vou. Há fogo no chão. Há fogo no céu. Alguém começou a queimar todos os seus pecados de uma só vez. Tento apanhar o ar com as mãos. Nota-se a maceração no rostos das pessoas. Somos os cavaleiros da rotina. Os que gastam sapatos novos para alimentarem os sonhos. Mas cá vamos persistindo, caçando poesia, suspirando pelas casas de Ruy Belo. Dentro delas, alguma coisa estremece. As portas continuam angustiadas. E sobre as mesas cai o pó e a luz intrínseca das lâmpadas velhas. Tudo se molda ao silêncio. Ao espesso e escuro silêncio. O maluco da aldeia repetia incessantemente uma teoria singular sobre o amor. Ou sobre a falta dele, não se sabe bem. Sinto-me como um cão à chuva. Abro os braços e as lágrimas misturam-se com as gotas que caem do céu. Penso que a sua queda é vertiginosa. Eu costumava dizer a verdade. Hoje isso não é tudo. Mas eu continuo a amá-la. Apesar de saber que não existem querubins. Continuo a amá-la. Depois do amor, as mãos ficam frias. Pelos rostos dos profetas correm lágrimas grossas de esperança alienada. Não é a Lei das Rosas que torna as sociedades mais justas e fraternas. Entre as flores da saudade encontrei um trevo de quatro folhas. A água do arroio leva agora o tempo. Dormem abertas as asas despojadas dos meus dois anjos da guarda. Sobre as paredes dormem os rumores. Pássaros enormes fogem das lendas. De rosto encoberto, Deus pergunta amiúde pela Verónica e pelo seu único filho. Qualquer coisa mexe lá ao fundo. As formas continuam a nascer mudas. Alguém perdeu os seus próprios passos. As mãos começam a brilhar. Já nem eu reconheço os meus próprios sonhos. Tenho sede.


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Quarta-feira, 4 de Dezembro de 2019

Olhares

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Terça-feira, 3 de Dezembro de 2019

Vacas e balizas

Barroso - abril 2006 249 - cópia copy.jpg

 


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Segunda-feira, 2 de Dezembro de 2019

471 - Pérolas e Diamantes: O Merdas

 

 

A mãe de Deogracies-Miquel Gambus (A Felicidade, Lluís-Anton Baulenas)  obrigou o seu filho a tirar o curso de Direito com o argumento irrefutável de que “um advogado pode roubar e enganar mais com uma lei do que uma cambada de gatunos com uma pistola”, até porque enganar lhe estava na massa do sangue. E também porque tinha medo de que o seu único rebento vivo  pusesse a vida em perigo por qualquer bagatela: “uma mulher, uma rusga inesperada da polícia, uma bomba anarquista, etc.”

 

O seu bisavô, que tinha chegado à Catalunha no princípio do século XIX, acompanhando o regresso de Fernando VII, vindo de França, criou uma rede de poder que cresceu espetacularmente em poucos anos. Era o melhor a subornar e a usar bodes expiatórios, tendo sido dos primeiros a perceber que roubar informação era muito melhor do que roubar ouro.

 

Chegou a Presidente da Junta de Freguesia, mas durante uma crise liberal passou um mau bocado. Foi julgado e preso. A sua fama aumentou, pois os guardas receberam ordens expressas para o protegerem e não o incomodarem. Da sua cela continuou a controlar a vida da sua localidade.

 

Reposta a velha ordem, o velho Gambus passou a ser o maior. Saiu da prisão às costas dos carcereiros, como um toureiro, aclamado pela populaça.

 

Dedicou um dia inteiro a distribuir gratificações ao pessoal da penitenciária e a oferecer dotes às filhas de outros prisioneiros. Fundou mesmo um centro para tuberculosos na capital do concelho e deu uma esmola generosa ao abade da paróquia.

 

Mesmo os presidentes de outras freguesias começaram a recorrer aos seus pertinentes conselhos. Passou de Miquel Gambus I, o Gavatxo (Francês), a Miquel Gambus, o Do Rei.

 

Instalado outra vez na sua cadeira do poder, a primeira coisa que fez foi mandar deter um incauto que teve a ousadia de o substituir como Presidente da Junta durante os dezoito meses que esteve encarcerado. Ordenou que o prendessem no meio da praça principal da vila.

 

O primeiro Gambus calçou então umas luvas brancas de tecido, de dedo a dedo, e cortou-lhe os testículos com uma tesoura de costura, para prolongamento do suplício. Depois atirou-os aos cães. Dizem que vendeu o atrevido como eunuco a um rei africano.

 

A este intrépido catalão, sucedeu-lhe o filho Miquel Gambus II, conhecido como o Merdas por ter a mania das grandezas. Tal como o pai, foi presidente vitalício de El Cagaire.

 

A localidade mudou muito graças a ele. Até de nome.

 

A denominação sempre fora El Cagaire porque o rio, encaixado na montanha, fazia uma curva de tal maneira apertada que, vista do ar, parecia o traseiro de uma pessoa a defecar. Tal como um caganer (cagão, figura de uma personagem a defecar, típica dos presépios da Catalunha).

 

O Merdas, não contente com o nome da sua terra, decidiu então agir. Com uma pequena falsificação de um texto medieval e um suborno a um deputado provincial, conseguiu que a  localidade conhecida durante mil anos como El Cagaire passasse a ser oficialmente denominada Alcagaire de la Roca.

 

Dizem que, em prol do desenvolvimento da sua vila, o Merdas saqueou, roubou e matou sempre que lhe apetecia, ou necessitava. Nunca nenhum tribunal conseguiu provar fosse o que fosse.

 

Em plena idade de oiro do caciquismo, a sua rede de interesses económicos e, sobretudo, políticos da família tinham-no tornado praticamente invulnerável. 

 

Apenas no fim da vida se meteu com quem não devia, a Igreja, subestimando o seu poder temporal. E por uma mera questão formal teve de ser enterrado como um pária.

 

Sucedeu-lhe a sua filha Miquela, que resolveu criar uma nova maneira de obter rendimentos para a família, de forma artística e inventiva: a falsificação de resultados eleitorais. Numa época em que as fraudes eleitorais abundavam, apenas Miquela era capaz de as fazer de forma sublime, como se fossem abençoadas por mão divina, tornando-as indemonstráveis. Perfeitas.

 

A filha do Merdas inventou e experimentou os métodos mais diversos e sofisticados, desde a construção de urnas de falsidade indetetável, à criação de centenas de pessoas inexistentes que só ganhavam vida para irem votar.

 

Por isso, pedia quantias astronómicas para garantir a vitória eleitoral e apalavrava acordos segundo os quais, caso não conseguisse a vitória, nada cobrava. Nunca falhou.

 

Dizem que a política tem horror ao vazio mas...

 

Mas fundamenta-se na simetria dos procedimentos.


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