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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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30
Dez19

Milagres lusitanos

João Madureira

 

 

Alguém muito importante anda a organizar o Dicionário Taumatológico Nacional, que, para quem não saiba, tem a ver com o estudo dos milagres.

 

Em Portugal tudo tem a ver com taumatologia. A Nação Portuguesa pode não ter nada a ver com o desenvolvimento, com a cultura, com a ciência, com a energia, com a indústria, com a agricultura e com o talento, mas tem tudo a ver com a taumatologia.

 

O milagre das rosas foi dos mais encantadores momentos da nossa nacionalidade. E transformar pão em rosas não está ao alcance de qualquer um. Mesmo transformar rosas em pão, não é tarefa nada fácil. Mas, convenhamos, a primeira premissa é muito mais poética. E Portugal é um país de poetas. E de futebolistas. E a poesia tem muito a ver com os milagres. E o futebol também. Para isso basta ver os futebolistas e os treinadores a beijarem os seus santos e a glorificarem Deus (especialmente os brasileiros, que devem, nesses momentos de fé e oração, agradecer devotamente o facto de serem fruto de um outro milagre: o de serem filhos, netos e bisnetos, de portugueses, o que é novo e enorme milagre).

 

Em Portugal existe um outro milagre, o da linguagem. Por isso os prodígios acontecem a cada dia que passa. O assombro da saúde gratuita, a maravilha da educação espontânea e o portento da segurança social universal são conquistas de um outro milagre, a Democracia, que, também ela, é sucedânea de um distinto milagre, o Estado Novo, que substituiu um outro portento, a República, que se opôs com tenacidade a idêntico prodígio, a Monarquia, que, por mor da taumatologia nacional, se viu defendida por uma rainha tão corajosa e crente que, já de pé, fustigou o criminoso que abateu o seu marido e o seu filho com a única arma de que dispunha: um ramo de flores, gritando “Infames! Infames!”.

 

Depois ver Nossa Senhora aparecer a três pastorinhos em Fátima é, digamos, um final feliz, isto enquanto ao facto em si mesmo, pois se nos cingirmos à mensagem, o milagre está em não ter acontecido o que a Senhora vestida de branco vaticinou, ou sugeriu.

 

Podemos dizer que a vida é um milagre. Podemos até dizer que os próprios milagres são um milagre. Um milagre é um empreendimento de fé. Fé em que o milagre se realize.

 

Há por aí muita boa gente que acredita piamente no milagre de acertar no totoloto ou no euromilhões, por isso se cotiza toda as semanas. E o milagre de adivinhar os números por vezes acontece. Um em vários milhões, é verdade, mas é nesse pormenor onde se consubstancia o milagre. Pois se o prémio fosse distribuído por metade dos apostadores nenhum ganhava nada que se visse. Esse é o entretenimento que o Estado pratica com todos nós. Por isso, o milagre existe na circunstância de o prémio sair ao menor número possível de apostadores, ou a nenhum, facto que transfere, para desespero dos mais impacientes, o milagre para a semana seguinte.

 

Os matemáticos fizeram as contas e afirmam que cada apostador do euromilhões ou do tolotolo tem tantas probabilidades de acertar na chave milionária como de lhe cair um meteorito na cabeça. Nunca li uma notícia relatando o caso de um ser humano ter levado com um pedregulho intergalático na cachimónia, mas quase todas as semanas leio a notícia de alguém ficar milionário com as apostas da Santa Casa. E isso é um milagre. E grande. Que o digam os afortunados com os prémios milionários.

 

Também é um milagre o amigo leitor estar a ler o que está a ler sem se incomodar. Ao preço que a batata está, já é um milagre alguém disponibilizar algum do seu tempo (pois tempo é dinheiro) a ler o que um escritor de província rabisca num órgão de informação local. Então se pensarmos no quilo do bife, apenas nos resta deduzir que os vegetarianos vão atingir os seus objectivos de transformar o ser humano num ruminante. E isso também é um milagre. Não tão grande como o de ganhar o euromilhões, mas, mesmo assim, um milagre em tudo semelhante ao de transformar o pão em rosas. Já o de transformar Portugal num país a sério, nem Deus está em condições de o garantir.

 

PS – Se o amigo leitor (ou leitora) possui um cão, e gosta dele, claro, aconselhamos que comece desde já a preparar o inverno. Por isso aqui deixamos a sugestão: adquira, quanto antes, roupa para o seu animal de estimação. E pode fazê-lo através da internet. É fácil encontrar boutiques especializadas na venda de roupa para cães, desde capinhas, chapéus, camisolas de lã, cuecas, pijamas, roupões e até botas para a chuva.

26
Dez19

Poema Infinito (488): Luz suspensa

João Madureira

 

 

Sinto o espanto. A maravilha do espanto. O seu milagre. O aroma do tempo fecunda o bosque de ciprestes. O crepúsculo fecunda as faias e os pinheiros. O saber sabe a silêncio. Quanto mais intensa é a luz, menos se vê. A aflição é sempre uma dor aguda. Viver equipara-se quase sempre a um único e longo solo de jazz. A aldeia assemelha-se a um museu em ruínas. Até as memórias se desmoronaram. O tempo já se perdeu por aqui. As saudades mordem-me os olhos. Além do gozo, há o gosto. Além do gosto, existe o gozo. O problema é o erotismo recalcado. Esse não pode ir a despacho. O fogo do riso matinal já lá vai. A fotografia revela a bruma melancólica da meia idade. Cantemos devagar a cosmologia, progressivamente e com fé iluminista. Toda a audácia é particular. Montemos as máquinas sinfónicas, os desastres de Goya, as laudes alegóricas de Rimsky Korsakov, as peças arrecadadas por Deus no momento seguinte ao Big Bang. Sobre os campos de batalha desce a névoa. O vento atiça as fogueiras do Apocalipse. A memória pode salvar alguns rostos. Mas os mitos foram todos destruídos. A chuva apaga as suas cinzas melodiosas. Uma folha amarela, descrevendo lentos círculos, pousa sobre o caminho das formigas. A infinitude lança-se contra a unidade. E a unidade lança-se contra a infinitude. Ali, na direção do infinito, o frio imóvel começa a subir e as borboletas morrem. O outono estreitou ainda mais os dias. O pássaro é ainda mais leve do que a sua própria sombra. O seu canto desliza pelos outeiros como se fosse um desejo rápido. Toda a fuga invisível é um processo amargo. Os corpos e as máscaras resignam-se às horas claras. De olhos fechados, sigo a iluminação das raízes. Por vezes parecemos imagens inúteis, postadas em cima dos móveis, encostadas à sua própria recordação. Podemos falhar o desejo, mas não o seu intento. Deixei de escrever cartas às causas perdidas. O tempo seca os punhos como se fossem peras. O coração já não grita. A razão emudeceu depois de deixar de o ser. Os caminhos da verdade ficaram desertos, cheios de cruzes. Os anjos revolucionários suspiram de asas fechadas. Não sabem para onde ir. Os gatos continuam enigmáticos, por isso fecham os olhos e sonham em caçar o tempo. Também a avó cantava canções em língua antiga, enquanto cosia. Pensava eu que havia música nos seus dedos. As tardes passadas a caminhar no jardim deixaram de ser divinas. Agora estão impregnadas de saudade e melancolia. Escrevo versos para registar as memórias. A memória da erva fria, a memória dos corpos em movimento, a memória dos sorrisos no teu rosto. A memória dos lábios. Sinto as cores a evaporar-se. A luz do jardim está suspensa. Os pensamentos começam a desagregar-se. À superfície, os corpos dos amantes são sempre transparentes. Neles costuma aparecer o fogo secreto. Depois os sinais da sarça ardente passam. E as vozes amorosas tornam-se altaneiras, por vezes histéricas, inclinando-se na direção do seu próprio movimento. A luz dilata-se. É então que o vazio mostra o seu silencio que se costuma confundir com o divino. As horas deixam de chegar a tempo. Sempre adiantadas. Ou atrasadas. O tempo consome a sua própria tranquilidade. A loucura conforma-se à medida que nos afastamos dela. O mundo brilha. A verdade cega. Perdemos tudo aquilo que recusamos.

23
Dez19

474 - Pérolas e Diamantes: Confusões

João Madureira

 

 

Paul Mason, uma das vozes internacionais mais críticas do sistema capitalista neoliberal, tem um novo livro (Um Futuro Livre e Radioso – Uma defesa apaixonada da humanidade) onde medita sobre a desumanização que transforma os cidadãos em clientes, reduzidos à sua funcionalidade económica, ao mesmo tempo que alerta para o risco da humanidade ser suplantado pela inteligência artificial (IA). No fundo, é a sujeição dos indivíduos às forças do mercado.

 

Difunde-se na política e na economia o medo, e utiliza-se o ressentimento como forma de manter os privilégios e as hierarquias.

 

A globalização revela desequilíbrios e os sistemas económicos ficam sem controlo. O mundo é cada vez mais um lugar musculado, desordenado, instável e desigual.

 

Com a crise de 2008, o sistema de mercado livre implodiu, resultando daí um conflito entre uma elite neoliberal, que não quer perder privilégios, e uma esquerda que não consegue dar uma resposta satisfatória aos novos desafios. No meio estão os cidadãos em estado de confusão, reduzidos à sua funcionalidade económica.

 

A direita ultraliberal, entretanto, entrou em pânico, e com razão, pois já não consegue manter a sociedade unida e luta desesperadamente para continuar a garantir que as hierarquias não se dissolvem.

 

Os seus líderes, com especial relevo para Trump, revelam desdém pelos direitos humanos universais, medo pela liberdade, fazendo finca-pé no negacionismo ambiental. Vivem da idolatria e do autoritarismo, tentando fragmentar a ordem mundial.

 

Querem passar da ordem ao caos.

 

Tudo fazem para que os cidadãos quebrem a sua confiança em relação à democracia  e à política. Sendo capitalistas, abominam o capitalismo estatal, defendendo um capitalismo sem Estado.

 

Nessa luta, estigmatizam os meios de comunicação que lhes não são fiéis. Em troca, fabricam a toda a hora notícias falsas.

 

Esta postura política tornou a diplomacia e a política doméstica imprevisíveis.

 

Esta forma de neoliberalismo nacional, transformou-se num ataque global ao pensamento e à ciência, à lógica e à definição de políticas sustentáveis.

 

Toda esta confusão resultou em medo, legitimando a violência da extrema-direita, criando uma narrativa racista, misógina e nacionalista. Esta corrente populista sobrepõe-se à lógica e à verdade. A responsabilidade passou a ser relativa.

 

O neoliberalismo está controlado pelos monopolistas e especuladores. O vício é o de sempre: proteger a riqueza daqueles que já a possuem, reproduzindo as desigualdades.

 

É necessário reformar o capitalismo para se poder vencer as mudanças climáticas.

 

Mas existe outro fator de preocupação relacionado com o crescimento do pós-humanismo em todos os aspetos da nossa vida.

 

Olhares

O controle que se faz dos nossos comportamentos através de algoritmos ou da inteligência artificial, apesar de estar ainda no início, levanta problemas de privacidade, vigilância e liberdade.

 

Claro que à esquerda também existem tentativas de reciclar o bolchevismo. Por exemplo, Alan Badiou ou Slavoj Zizek, andam a tentar reformar a palavra comunismo. Mas parece ser tarefa impossível.

 

Basta ir a alguns países onde reinou o “socialismo real” para se perceber que ainda existem pessoas com uma memória viva do comunismo, que o comparam ao fascismo. E o regime comunista da China é até motivo de chacota, por ser uma mistura de autoritarismo, marxismo, confucionismo e contabilidade.

 

Paul Mason defende que é necessário pensar numa transição do capitalismo, assente numa economia colaborativa e partilhada, “onde seja possível viver numa sociedade sem trabalho automatizado e mais igualitária”.

 

O seu sonho é ver uma comunidade “sem pobreza, onde a propriedade e as hierarquias não são o mais relevante e em que todos dispõem de tempo livre para desenvolver o seu potencial humano e possuem recursos materiais suficientes para viver”.

 

Defende, para isso, a necessidade de uma nova esquerda, resiliente, assente num humanismo radical, capaz de requalificar a política. Ele acredita que tal vai acontecer. Eu tenho a minhas dúvidas, pois a ideologia neoliberal e a dominação algorítmica não se vencem com duas tretas.

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