Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Dez19

Poema Infinito (487): As coisas ocasionais

João Madureira

 

 

Não há coisa mais dilacerante do que a indiferença dos outros quando se está apaixonado. As gralhas desenham os seus voos contra a luz rosada do entardecer. Toda a luz. Tu és toda a luz. Cintilas como um pássaro. Costumas cuidar das palavras mais frágeis. Transformas em carícias as palavras que me dizes. Para quê regressar ao passado? Essa é sempre uma outra forma de sofrer. Lembro-me do rio. De atirar pão aos patos. E a vida ia crescendo. Atravesso o tempo e todas essas emoções. Depois alcanço a alegria e o medo. E o voo dos pássaros que logo a seguir pousam nos ramos. E a mãe a coser e a arranjar a roupa de tesoura na mão. E as aventuras, as corridas, as querelas, as histórias de amor. E também os estudos. E depois o trabalho. O trabalho. O trabalho. E as águas do rio sempre a correr. E os teus olhos brilhantes. E o vestido sobre os joelhos. E a nitidez das árvores. E a doçura da intimidade. No sótão apenas resta a poeira do gesso caído e restos de ninhos de pássaros. O som das portas é frio. A verdade é que continuo a ver dentro de ti uma luzinha. Não é bonito andar de um lado para o outro com a luz apagada dentro de nós. Já chegou o tempo em que o corpo começa a desbotar. O parque está repleto de folhas espalhadas pelo chão. Sopra um vento morno. O céu está salpicado de estrelas. Este é o meu pedaço. As constelações são coisas ocasionais, como os pássaros em voo. O tempo não coincide. As estrelas têm um. Nós temos outro. Acordei deitado em cima de restos de sonhos que não consigo compreender. Oiço e vejo as coisas de lado, como se fosse uma figura egípcia. Oiço o tamborilar da chuva. Como era agradável o seu som a bater na chapa da casa e a rumorejar logo pela manhãzinha no telhado da varanda. Ouvia o sussurro da folhagem e punha-me a ler, ajudado pela luz do amanhecer. O verão já não me traz a paz de antigamente. Hamlet dizia, e com razão, que o tempo está fora dos eixos. O tempo não enche o espaço até ao extremo. O que sobra é ainda mais vazio do que o vazio. Com os anos, os buracos do sistema do mundo são cada vez maiores. As pessoas é por aí que desaparecem. Pairo por cima do vazio. Algo invisível apaga as frases mais curtas. Apesar das noites serem intermináveis, os anos passam a galope. A relatividade é uma coisa fodida. Tal e qual como o amor. Dizem que os pássaros conseguem introduzir o esperma em pleno voo. Alguns dias ganham sentido quando passam. A eternidade tem a forma de um seixo redondo. Nascem do luar algumas palavras calmas. As tristes foram há pouco com o vento. Os deuses dos campos vão recolhê-las para mais tarde as transformarem. Das confusões, nascem as vertigens. Cada cavalgada leva ao seu destino, cada pássaro ao seu ramo, cada borboleta ao seu limite, cada momento de glória à sua melancolia, cada sonho ao seu corpo. O silêncio tenta explicar-se através da memória da mãe. Nas pedras, sentados à sombra, respiramos a frescura e o verde que a rodeia. Lá em baixo, o rio transporta o dia até ao mar. Convalescemos da alegria rápida que nos atacou. O vento traz-nos o cheiro a rosas silvestres. Ainda somos donos do caminho que nos falta percorrer. Caminhamos de mãos dadas, aprendendo a linguagem destes lugares. A madrugada começa a impor-se na aldeia. As glicínias escorrem orvalho. É preciso que existas. Pois é bem verdade o que escreveu Joaquim Pessoa: “Cada vez nos temos mais apenas \ um ao outro.”

16
Dez19

473 - Pérolas e Diamantes: Luvas brancas

João Madureira

 

 

Com os anos que levo já me habituei a quase tudo. Até a suportar as pessoas. Mas não há maneira de me habituar à estupidez humana e à má educação.

 

E também não percebo, desde criança, a razão de o Rato Mickey e a Minnie usarem sempre luvas brancas.

 

Lembro-me então da escola, das aulas de biologia e de filosofia e dos rizomas e da rede de relações e ligações totalmente descentralizadas, desordenadas, sem princípio, sem limites, com cada ramo a poder ligar-se a outro, sem hierarquia, sem lógica, sem centro.

 

A realidade político-partidária age e desenvolve-se da mesma maneira. O poder é fonte de desejo. E de segredo.

 

As derivações são múltiplas. E em aceleração. Nós por cá já vimos de tudo: relações amorosas, ligações sexuais, ruturas afetivas, amizades, interesses recíprocos, situações de dependência, promoções profissionais, abuso de posições dominantes, decifrações, indecifrações, lojas, paróquias, irmandades, misericórdias.

 

O rizoma político nacional é extremamente denso e secreto. É bem mais do que o simples lóbi que deixa transparecer. É um sistema que se auto sustenta.

 

E o povo afasta-se da porta para ir observar tudo isto da janela. Que simpático é o povo.

 

Existe, no entanto, uma coisa que me incomoda. É a educação. Claro que ela faz falta. Mas custa a justificar como um sistema de ensino de qualidade, como o soviético, não foi capaz de salvar um país e o deixou cair na miséria económica. E, no que a nós diz respeito, não sei para que nos serve ter a geração mais bem preparada de sempre para estar no desemprego e o país na cauda da Europa. A mim não me serve de desculpa. E aos visados não lhes vale de um corno.

 

Já todos identificámos que um dos problemas nacionais é a endogamia existente no sistema político, financeiro e universitário do país. Há apelidos em que tropeçamos constantemente quando procuramos quem integra os órgãos sociais das principais empresas portuguesas ou os órgãos dirigentes dos principais partidos políticos.

 

O futuro não se faz a andar para trás.

 

Os prazeres da hipocrisia tudo superam. As atitudes são compostas ao sabor dos novos tempos. Tudo é visto sobre um prisma diferente: o dinheiro, a verdade, a doença e a vida sexual. Tudo vive na angústia da procura da felicidade. Todos medem forças com o destino. Vive-se para entrar numa estatística, seja ela qual for. A lei maior é a do sucesso. Mas isso é como amar um desconhecido.

 

Uma coisa sabemos: os políticos pós-modernos não estão a construir o país que os nossos filhos merecem. Já há quem queira fazer História com H grande. O tempo desacelerou. Parece que o destino não está a nosso favor.

 

Olhamos à nossa volta e não gostamos muito daquilo que vemos. Os mais velhos sofrem e os mais novos sentem que a sua vida é cada vez mais complicada.

 

Custa perceber que os que melhor tiraram partido dos anos excecionais da integração europeia, e melhor protegeram os seus “direitos”, foram os políticos industriosos e os que conseguiram chegar à informação privilegiada.

 

Tudo fazem para que a nossa opinião seja otimista, ou pessimista, conforme lhes dê jeito. É justo o juízo de que não há profissões, há posições.

 

As diversas escolhas políticas remetem-nos para a igualdade, mas a verdade é que a desigualdade é cada vez mais evidente. Estou em crer que é a realidade quem nos mente. A realidade também está no desemprego.

 

Posso dizer, com lágrimas nos olhos (de me escancarar a rir, provavelmente), que nasci um ano depois de José Sócrates, Marques Mendes e António Vitorino. Ou Rui Rio.

 

Não os culpo. Eles são políticos. Gente séria e responsável. Eu é que sou irresponsável. Eles ficaram com os privilégios. Eu com o engano do sorriso. Eles ficaram com o lado extrativo da realidade. Eu com a porcaria da criatividade ficcional.

 

Eu defendi a revolução. Eles a economia com regras estadistas e centralistas. A integração europeia. E lá continuam a passar a mão pelos subsídios. Fazem-lhes festas. Gostam de regular as contas com a eficácia que todos sabemos.

 

Antigamente distribuíam, às escondidas, propaganda ilegal carregada de evidências. Nos seus novos tempos democráticos conservam ainda a coragem de distribuir, às escondidas, propaganda legal carregada de incoerências.

 

Claro que a culpa só pode ser minha. Nossa.

 

Como escreveu Alexandre O’Neill: “Em Portugal nunca deixamos cair nada; são os objetos que se escapam das nossas mãos.”

12
Dez19

Poema Infinito (486): Dissidências

João Madureira

 

 

O mar, por vezes, pode ser absoluto. Como o amor. Como a morte. Como o céu. Antigamente havia muitas sereias espalhadas pelo Mar do Norte. Mataram-nas com ferros, como se fossem baleias. Deram todas à costa e aí apodreceram como se fossem judeus em Treblinka. Os mares do Oriente possuem muitos corais e pérolas, mas nunca possuíram sereias. É monótona a solidez da terra. E o grande mar foi sempre uma ilusão. A minha experiência é uma espécie de metamorfose, quase perfeita, quase lúdica, quase épica. Para se ser cavaleiro tem de se possuir um cavalo e muita coragem. Falo com a água como se fosse a minha mãe. Tenho-lhe medo. E amo-a. A sua face é espantosa. Adormeço da viagem em cima da espuma breve do mar. Os capitães dos navios mais velozes costumam enamorar-se das estrelas mais tristes. Nas paragens da vida somos todos estrangeiros. Detenho-me então à beira dos teus olhos. O desejo é uma espécie de itinerário invisível, repleto de cargas ocultas, de vínculos desconhecidos. É durante o voo que os pássaros se perdem. É tudo tão imenso! É tudo tão pequeno! É tudo tão precário! É tudo tão imenso! E as surpresas são tão breves que nem se deixam saborear. A brisa penteia o verde da seara. Borboletas brancas e pássaros imprevistos descem sobre o meloal. Lá fora, crescem as uvas e o trigo. As árvores parecem símbolos instintivos. O ar da noite sussurra silêncios. As vacas sentadas mastigam a sua própria solidão. Todos temos cara de anjo quando nascemos. E quando morremos. É a morte que nos une e a vida que nos separa. Lembro-me de Soljenitsin: manipulados e dissidentes somos todos nós. Foi a dialética que nos tornou tristes e quase inúteis. Todos sentimos dor quando se desfraldam as bandeiras em tempo de guerra. A nitidez das espadas é sempre fria, faz demorar a narrativa e torna a memória fugidia. Dizem que já me sobra um pouco de sombra. Cortaram as asas às alegorias, tiraram a clareza aos sorrisos. O passado já não faz parte do futuro. As pequenas coisas estão datadas e as grandes passaram a ser ingratas. O paraíso corresponde agora à ausência de felicidade. Estão pregadas na memória as velhas palavras, as curvadas figuras humanas, as paisagens mais frágeis. Regresso de novo ao esquecimento. As águas continuam a passar. Tudo parece ter mudado: as nuvens em pousio, o azul do céu, o desenho fino das montanhas, a alegria dos cantos, a tristeza, a comoção, a coragem de Deus. Fecho os olhos e caminho. Absorvo as alturas. A origem do mundo deixou de ser divina. As ondas dançam, a espuma desliza, as areias estão sujas. A árvore divina dobra a noite. Disseram-me para voar quando ainda não tinha asas. Cai uma neve longa e solitária. O seu silêncio é suave. Oiço então o suspiro falso da eternidade. Observo o rosto calmo da aldeia. O tempo dissipou já quase todos os nomes dos que por aqui passaram. As velhas senhoras varrem as pétalas das flores que ornamentaram os mortos. Usa-se agora um silêncio diferente para marcar a dor. Tudo tem uma necessidade diferente. As memórias estão cada vez mais imóveis. Os pensamentos parecem metálicos. Os gestos assemelham-se a setas. Apesar de parecer imóvel, o tempo leva-nos sempre para a frente. As lágrimas já não são de contentamento.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

blog-logo

Arquivo

    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2005
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

A Li(n)gar