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TerçOLHO

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27
Jan20

478 - Pérolas e Diamantes: O nacional-populismo

João Madureira

 

 

Matheus Goodwin, um eminente professor de política na Universidade de Kent, apesar de reconhecer que figuras como Donald Trump e Marine Le Pen são perigosas, defende que a ansiedade de alguns grupos é legítima perante o falhanço das elites políticas.

 

A sua tese é desconfortável tanto para a esquerda como para a direita: o nacional-populismo não nasceu da crise nem de fenómenos de desinformação e não vai desaparecer tão cedo.

 

O nacional-populismo aspira a defender os interesses e a cultura do grupo nacional contra o que eles identificam como as elites corruptas, que apenas se servem a si mesmas, revelando pouco interesse em preservar a comunidade.

 

Na sua perspetiva, existem preocupações mais importantes do que as económicas: a perceção de ameaças à cultura nacional, à identidade nacional e ao modo de vida e ainda à ideia de que o grupo nacional está a perder face a outros.

 

Se analisarmos os votos em Trump e no Brexit, podemos verificar que eles estão enraizados em preocupações relativas a mudanças culturais e não apenas no crescimento económico ou nos salários.

 

O denominado nacional-populismo nasce de reclamações legítimas quanto à forma como a nossa sociedade está a mudar. É bom de ver que a maior parte das pessoas que vota nesses partidos não é fascista, nazi, racista, xenófoba ou intolerante.

 

Muitos deles sentem-se simplesmente excluídos do debate público. Apesar do seu evidente lado negro, o nacional-populismo dá voz a muitas pessoas que se sentem abandonadas no diálogo sobre o futuro de todos nós.

 

A maior parte das pessoas aceita a imigração e o multiculturalismo e outros aspetos de uma sociedade liberal, assusta-os é a velocidade desta globalização cultural. Desejam que as modificações se façam a uma escala moderada. Estas são, a nosso ver, uma queixa e uma visão legítimas.

 

Convém lembrar que no Brexit, um terço dos negros e de representantes das minorias votou pela saída da União Europeia. E que, nos EUA, um terço dos latinos e dos hispânicos apoiou Donald Trump.

 

É simplista pensar que o nacional-populismo se baseia na velha questão da supremacia branca. O problema é bem mais complexo.

 

Não é reconfortante observar o facto de existir tanta gente de esquerda a tentar desvalorizar estes movimentos como um regresso ao fascismo dos anos 30. A redução é totalmente imprecisa. Apesar de neles existirem extremistas, de uma forma geral, a maioria está adaptada ao regime democrático. 

 

A questão tem mais a ver com o facto de os defensores de uma democracia liberal darem prioridade aos direitos individuais, mas, muitas vezes, não prestarem a devida atenção aos laços que unem as pessoas das diversas comunidades.

 

Alguns dos dados que Matthew Goodwin utilizou para escrever o seu livro revelam que a maioria dos votantes nos partidos populistas considera a emigração uma coisa boa  e reconhece a força da diversidade. A preocupação está no ritmo da mudança social.

 

Convém perceber que se Donald Trump, Nigel Farage e Marine Le Pen são políticos que recorrem à xenofobia e, por vezes, ao racismo, não é líquido que as pessoas que votam nesses partidos partilhem essas ideias.

 

A primeira tentação é sempre assente na ideia abstrusa de banir e marginalizar os partidos populistas e excluí-los do debate democrático. A experiência europeia revela que essa é uma péssima estratégia, pois nas democracias em que foram banidos acabaram sempre por se fortalecer com o tempo, como se viu na Suécia e na Espanha.

 

A verdade é que os partidos mainstream não estão a ser capazes de lidar com as preocupações que estão a puxar pelo nacional-populismo. De facto, os verdadeiros liberais têm de realizar um melhor trabalho para poderem resolver as questões que levam as pessoas a votar nesses partidos, em vez de os ignorarem.

 

Como diz Matthew Goodwin: “O nacional-populismo é um sintoma, não uma causa.”

 

Não é tranquilizador observar o fenómeno crescente da demagogia populista. Mas não é difícil partilhar de alguma simpatia pela ansiedade de quem vota nestes movimentos.

 

Os trabalhadores apercebem-se que a famosa globalização não está a ser tão benéfica para eles como o é para outros. Sentem que têm sido constantemente excluídos do debate, não lhes sendo atribuído o respeito, a dignidade e o reconhecimento devidos.

 

Por muito que nos custe, Mário Centeno tem razão: “A redução do papel do Estado foi longe demais nas últimas décadas. Isso abriu caminho ao populismo radical.”

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