Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2020

Poema Infinito (494): Refração

 

 

As vozes de Babel são consistentes. A sua confusão é benigna. Milhões de ecos tocam  transitoriamente o momento. Saboreio intransitivamente as reflexões. Posso chegar a qualquer hora. Esta espera tem pouca luz. Os teus olhos, hoje, queimam como brasas. A sua cintilação é rápida. As aves não deixam vestígios. Apesar de indemnes, multiplicam-se os factos. E a religião profunda da razão. Guardas como um tesouro a luz assimilada do tempo. Desde a manhã que hastes de fumo ondulantes sobem para o céu. O sol fende os nossos gestos. George Braque costumava pintar peixes de cabeça azul. Depois retalhava-os em cubos de uma densidade aflitiva. Aprendi com os cegos a beleza táctil das madrugadas, a perceber a sinuosidade triste das rugas, a música amadurecida de Mozart, as curvas que descem até ao ventre, a solidão das lágrimas, o centro geográfico do preto, a superfície das ondas. Inventei uma espécie de engrenagem que ultrapassa as palavras. Uma flor de ambiguidade fálica sobe pela página em branco. Explico-te a teoria do sorriso. A sua refração. A maneira como se dilata e encolhe. Esvazio a tarde do sol que me enche. Sinto crescer dentro de mim o desejo. A saudade vai-me levando para o vazio. As horas são imensas e os beijos instantâneos. É vagamente irónica a instabilidade dos sorrisos. Já a tua subtileza é supersónica. Os excessos são sempre ambíguos. E húmidos. Sinto em mim vários fragmentos do Big Bang, o ar alaranjado do dia, a esfinge das casas em ruínas. Sinto-te em mim, cruzada pelas tempestades, nos interstícios libertários das memórias, onde o tempo desce, onde as névoas são mais doces, onde os filhos são eternos, onde as madrugadas são longos caminhos, onde o tempo morre constantemente. Os dias inclinam-se dentro de nós como se fosse inverno. O espaço entre o nascimento e a morte é curto. Os horizontes oscilam dentro da sua firmeza. Fico sem saber se sou eu quem galopa certeiro rumo à aurora. O azul não consegue explicar o silêncio do universo. Distraio-me com a voz do tédio. Trepo as vinhas. A névoa faz mais longos os caminhos. Lavo o rosto na água dos sonhos. Depois sinto o perfume dos teus lábios. Lembro-me dos cabelos da mãe ondulados pelo vento, o cheiro a rosas dos seus vestidos. Do estremecimento das suas angústias. Das sombras verdes nos seus olhos. Atravessa-me a sua memória ferida. A sua fragilidade de pássaro. A dilatação das suas narinas quando chorava. Foi com ela que aprendi a linguagem destes lugares, a lei caótica das paisagens, a serenidade líquida dos rios. A aldeia acordou nervosa dentro da madrugada. Das glicínias escorre uma espécie de orvalho. As uvas parecem miraculosas. O silêncio fixou-se nas paredes como se fosse musgo. A imagem dos avós fixou-se no inverno.  Neles era mais difícil nascer o amor. Costumavam deitar-se cedo, olhando para as janelas, tentando ver ao longe a fraca iluminação das estrelas, afeiçoando os sonhos que tardavam, esculpindo de novo o velho vocabulário, tornando as sílabas visíveis, medindo a morte. A sua realidade era feita de recordações, de dias súbitos e de pássaros a ciciarem das árvores, fazendo desesperar o escuro mês. A neve aguça ainda mais a luz de inverno. A memória é como uma catedral fechada. Os rumores ferem como cristais. As veias estão fatigadas pelo ibuprofeno.


publicado por João Madureira às 07:00
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