Segunda-feira, 24 de Fevereiro de 2020

483 - Pérolas e Diamantes: Os mestres de culinária

 

 

Estou em crer que a memória é caprichosa. Aprendemos que o respeito pelos senhores começa pelo modo como se vestem os seus criados.

 

Nós gostamos da sopa, mas apreciamos sobretudo o momento de saborear o prato principal. Geralmente é a partir daí que ficamos mais bem-dispostos e começamos a contar piadas.

 

As pessoas espertas dizem respeitar a disciplina. Já as pessoas inteligentes rejeitam-na por lhes parecer uma ameaça existencial.

 

Nestas coisas das oportunidades da vida nunca sabemos bem se estamos a nadar contra a maré ou a seu favor. Pelo que, na maioria das vezes, tendemos a fazer um pouco das duas.

 

Há por aí muita gente disposta a fazer qualquer coisa por dinheiro. Existem também muitas pessoas dispostas a fazer coisas por despeito ou egoísmo. Mas existe também gente que faz coisas por um ideal e não aceita dinheiro, venha ele de onde vier, nem que lho enfiem nos bolsos à força.

 

Há aqueles que andam de óculos de sol mesmo que sejam míopes e não necessitem deles. Existe outro tipo de gente que utiliza sempre os óculos corretamente graduados para ver a realidade.

 

Andamos à procura de encontrar sentido nesta falta de sentido. Quem quiser perceber a política tem de ser entendido no absurdo.

 

A política falha quando temos de confrontar o mito com a realidade. A maioria das pessoas passa a vida a fazer coisas sem acreditar, a fingir.

 

Aprecio as convicções autênticas, não aquelas que são impulsionadas por motivações de ganho, inveja, vingança ou autopromoção.

 

A grande maioria dos católicos acredita que foi Cristo quem inventou a ganância e a água-pé.

 

Talvez seja por isso que os políticos de agora são bem mais agradáveis, sorridentes, polidos e até mais gordinhos do que os de antigamente. São fofinhos, como dizem as mulheres mais ternurentas e as crianças bem criadas. A fome dos políticos é muito agradável. Por isso é que grande parte das crianças pretende ser, quando for grande, mestre de cozinha. As estrelinhas Michelin são dos troféus internacionais atualmente mais cobiçados. 

 

Antigamente comiam-se tortulhos com carne. Agora não, a coisa fia mais fina. Confecionam-se pratos deliciosos com boletos vulgares, boletos anelados, boletos-ásperos, cantarelos e sanchas. Tortulhos não porque fazem mal ao coração. E também porque são proibidos em França e na Alemanha. Os mais requintados apreciam mesmo uma sopinha escura de cogumelos com miúdos de lebre, à maneira dos alemães. Afinal também somos europeus. E bem sucedidos. 

 

Temos até um presidente que é bom a cultivar rosas sem se picar nos espinhos. O que não é fácil para quem se fartou de plantar laranjeiras e depois de as podar.

 

Aquele seu amor quase infantil pela pátria e pelos portugueses não é fingido. Faz parte da sua dedicação à causa da liberdade. E é, acima de tudo, uma questão de princípios.

 

Acho que todos nos revemos no seu falar amavelmente nasalado, que não revela nenhuma origem social ou regional, e na sua lengalenga hipoteticamente triste e lamentosa.

 

Seguindo a definição do chefe da Feitoria João Rodrigues (dono de uma estrela Michelin), Rebelo de Sousa é, bem vistas as coisas, um bom chefe de cozinha pois possui todas as qualidades que o qualificam para tal desempenho: é uma pessoa generosa, sabe exigir, tem disciplina, organização, técnica, e sabe dar. Sobretudo beijos às velhinhas e sandes de queijo aos sem abrigo.

 

Temos também um primeiro-ministro que lamina bem cogumelos em frente das câmaras da televisão do programa da Cristina enquanto assobia uma modinha, ou duas, e sorri como somente ele o sabe fazer.

 

Não sei porquê, mas, por vezes, apetece-me, em troca das suas partilhas culinárias, oferecer-lhes pegas para a cozinha, pois aventalinho já eles possuem.

 

Depois, quando os oiço falar em liberdade, com aquele sentimento todo, penso que a deles é muito melhor do que a minha, do que a nossa. A deles é respeitável. A nossa é de brincadeira. Estou em crer que são diferentes. Muito diferentes. O melhor é cada qual ficar com a sua e fazer bom uso dela. Claro está, se a nossa não atrapalhar a sua e a dos seus.

 

Por vezes, estas coisas ditas pós-modernas têm o sabor de velhas histórias requentadas.


publicado por João Madureira às 07:00
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