Quinta-feira, 5 de Março de 2020

Poema Infinito (498): A velocidade da chuva

 

Começaram a chover em bruto pesadas gotas sopradas pelo vento contra as janelas da casa. O tempo entrou numa segunda fase. A velocidade deu lugar à lentidão. Os meus heróis nasceram nas histórias de cordel. As almas embrionárias continuam cheias de assombros. Quem dorme sobre dicionários antigos costuma ter sonhos e pesadelos em latim e grego. Sobre o lado esquerdo aparecem poemas de ousado erotismo. As poças de luz estão em constante mudança. Andamos cegos pela velocidade dos atos e dos factos. A luz esvai-se lentamente. A luz é uma ilusão. A pressão no interior da casa é muito menor do que no exterior. As divisões estão limpas pelo vazio. Alguém tenta passar por aqui vindo de outro tempo. A verdade é que o ponto imóvel do mundo também gira, mas numa outra rotação. Ainda não chegaram aqui os vestígios da alvorada. Há respostas que formulam as perguntas. Os teus olhos estão em chamas. Olhar de dentro um sistema é sempre abrir uma porta a uma margem improvável de rebeldia. Já me esqueci da voz da avó, mas lembro-me impulsivamente da sua morte. Sem memória estamos perdidos. O culto da vulgaridade não é bom. Os guerreiros suprimem sempre o ato de o serem. Chega então o momento da saudade. Por vezes acordamos e não sabemos bem para quê. As horas parecem ratos. A luz passa pelas janelas. Os olhos parecem cegos. Reparo então na cor especial da pele e no crescimento das asas do anjo da guarda que alguém imobilizou num quadro da parede. Dizem que as colmeias do monte explodiram e que as abelhas, desesperadas, começaram a voar em sentido contrário. Os deuses das pequenas coisas ficaram presos no mel das colmeias. Os olhos dos santos dos postais que a mãe me deu quando fiz a comunhão solene implodiram. Ela deixou de tomar os comprimidos. Sinto-me a cavalgar em cima de cavalos marinhos. Agora há excesso de desastres domésticos. A forma do tempo congela os afetos e os factos e a lógica de tudo aquilo que é óbvio. Dizem que os violoncelos são instrumentos masculinos. Duvido. O seu som é demasiado sedutor. Os homens são bons a debruçar-se sobre a sua própria dedicação. A aguentar os dias sem transcendência. E a forçar possessões. Ou então tentam fugir para o dia seguinte. A sua tristeza é invisível. Já as mulheres possuem a fragilidade das plantas sensitivas. Nelas nasce a voz dos enigmas. Nunca deixam que as suas sombras oprimam os pássaros. Gostam de sorrir como quem descansa. E costumam imitar as curvas da terra. As mais ágeis dedicam-se a abrir as asas em silêncio. A solidão foi criada por Deus num momento de arrependimento. Foi também ele que abriu os braços para dar as boas-vindas aos algoritmos que permitem a inteligência artificial. Relatos de dor perfuram as cidades. Muitas palavras ficaram insones. Ainda reconheço o carinho pelo alívio que provoca. As cores mais fortes do amor são quase invisíveis. São difíceis de detetar. Também existem as partículas espelhadas que se acomodam no que resta do espaço útil que ocupamos. Então esperamos que nada aconteça. Mas que a luz brilhe na escuridão. Já não nos assustam os versos complicados. Nem os beijos fora de horas. Faço de mar. Os salmões parecem salmos. Sobre o abismo paira a euforia das ondas. Os meus olhos continuam à deriva dentro dos teus. Acabaram as concessões para a felicidade.


publicado por João Madureira às 07:00
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