Quinta-feira, 26 de Março de 2020

Poema Infinito (501): A coagulação dos olhares

 

 

Deambulo pelas enormes naves abertas às estrelas desta catedral inacabada. Contemplo as ogivas e o irresistível e fascinante voo dos pássaros. Daqui, as ave-marias vão diretamente para o céu. Ainda oiço o pisar lento e calmo dos antigos monges na terra batida pelos séculos. A ânsia destas abóbadas nunca foi fechada. Sempre venerei o pó como tesouro mineral. E o caráter dos objetos. E a intimidade da ciência. E as rochas que protegem o solo há milénios. Os processos naturais exigem a mão de obra primária do tempo. Ergueu-se então uma ruidosa pirâmide e íngreme de sal e a cidade ficou ausente. Nos rios prolongaram-se o afogamento dos peixes e as chuvas deixaram de cair de forma estrutural. Alguns pássaros começaram a morrer. Outros abriram as suas asas como forma de combater o crepúsculo. A plumagem deste janeiro é fria. O frio tem a sua própria linguagem. É dela que deriva o prenúncio da sua força. Já passaram os andores do São Sebastião ao som das ladainhas em honra do mártir. O seu desejo é uma forma de sacrifício imaginado.  A cadência dos peregrinos é centrífuga. É necessário preparar o momento em que os corpos se desligam. As divindades querem acabar com o ciclo dos desastres. Os relógios quiseram atrasar as metamorfoses. O navio das pequenas felicidades já há muito tempo que abandonou o porto. O holograma da avó apaga a candeia e vai para o campo. Arranca as últimas raízes com gestos de misericórdia. Depois espera que cheguem as andorinhas. Imagino o seu frio, o traço contínuo dos seus braços, o esboço dos seus cabelos brancos e os sulcos na pele do seu rosto. O vento possibilita o libertador voo do tartaranho. Assistimos à liquidificação do tempo, ao amalgamento das trovoadas, ao reconhecimento das fontes de calor, à absorção desesperada dos olhares. Os tesouros estão do outro lado. Não é a grandeza de Deus que nos tira de maçadas. A devoção religiosa pelo pó é a prova da negligência de Deus com a vida. A sordidez disto tudo é que a poeira é voadora. Também os demónios costumam voar em círculos quando vão roubar o canto aos pássaros. Alguém passa em pânico pela oscilação do gelo. As perguntas de Deus não incluem palavras por isso as respostas têm de ser silenciosas. Anuncia-se a madrugada, mas o corredor é muito longo. Vou chegar tarde à frescura do jardim. Ontem fotografei os miosótis cobertos de chuva e as pestanas incolores de um anjo roxo. Alguém, distraído, engomou os malmequeres. Disse-me a minha mãe que a minha primeira lágrima foi uma que ela deixou cair dentro do meu olho quando fiquei doente, pouco tempo após o meu nascimento. Disse também que a noite exalava um frio de orvalho e que a minha pele tinha a claridade da lua. Durante vários dias as pombas arrulharam encrespadas nas sombras. Disse ainda que se entretinha a ver borbulhar a água nas panelas. As sementes estavam escondidas na terra e as raízes tenras das árvores também dormiam nela aconchegadas. Disse também que sorria para mim mas não era de alegria. Depois os seus olhos coagularam durante os breves instantes do sono. Os gestos, os gritos, os odores, tudo se tornou audível.  Nunca se sentiu tão sozinha. Procurou então a origem dos milagres e as verdades mais antigas. Descobriu que eram como lentíssimos terramotos. O mundo tanto aparecia como desaparecia. Depois atirou fora as horas, mas conservou o relógio no pulso esquerdo.


publicado por João Madureira às 07:00
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