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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Abr20

Poema Infinito (506): A horizontalidade dos dias

João Madureira

 

 

Entro na casa dos pais e reparo nos velhos utensílios que foram guardados. Apercebo-me do poder das coisas mais vulgares. Aqui a tristeza flutua. Sente-se. Sinto-a. E depois pousa, como o pó. A avó repetia muitas vezes: não te esqueças que és pó. Talvez de estrelas, o que não é melhor consolo, penso eu agora.  A tristeza continua a flutuar. Por vezes, até as coisas perfeitamente iluminadas parecem totalmente inúteis. O vento norte está a subir pelos montes e traz com ele o cheiro a chuva. Há quem corra para conseguir tapar a sua sombra, perseguindo uma espécie de fosforescência que dizem vislumbrar dentro do escuro. O vento não passa de um sussurro. O teu olhar quer libertar-nos da solidão. Atravessamos agora o reino das teorias. Desdobramos as memórias como se fossem mapas. A manhã levanta o dia. Antigamente, os deuses estremeciam e costumavam atirar uns aos outros fragmentos de solidão como se fossem pedras. Aos anjos doíam-lhes os mamilos e a falta de outras coisas. Por isso não conseguiam amar, como os humanos. E tinham fúrias repentinas, como os eunucos. E humidades ténues, entre pernas. Mas nunca tinham pressa. Nem andavam de comboio. Eram como bichos caprichosos. Depois, os vírus extinguiram-nos. Ontem acordei colorido, eu que sou quase a preto e branco. A verdade é que a minha inocência nunca parou. Também o que poderia nascer daí? Estamos a aceitar demasiadas coisas ruins. Lembro-me que a avó cobria a cabeça para atravessar as ruas e ir à igreja. Mesmo quando as rosas se libertavam do botão e se tornavam escarlates. Nessa altura os natais estavam fechados dentro do frio. Apesar disso, os pássaros eram positivos e os seus voos acendiam chamas dentro dos nossos olhos. As fadas tanto encantam como, depois, desencantam. Por vezes a inveja é pura. É por isso que a bondade quase sempre sobra, tal como o papel de jornal depois de lido. Éramos abandonados no verão em camionetas que nos levavam para as colónias de férias. As manhãs eram dolorosas e as tardes horizontais. A solidão era tão salgada e fria como a água do mar. Parecia que o desgosto não tinha fim. Nem o princípio. Tropeçávamos na areia. E depois trepávamos à árvore do tempo para colhermos os seus bonitos frutos. O seu sabor era tão doce que amargava. E depois o tempo trouxe outro tempo. Deus parecia uma necessidade. A vida era regulada pela carência, pelo sol, pelo vento e pelo sino. Havia nomes que pareciam cruzes. E cruzes que pareciam nomes. E nomes que choravam. E outros que sorriam. Alguns nomes não eram nomes, mas esquecimentos. Esses eram os mais crus. Os invernos assemelhavam-se a olmos tristes e calmos. Os ramos pareciam tão definitivos como a verdade. Agora as cidades e as aldeias parecem mais pequenas. Foram definitivamente transformadas pelas ausências. E a velha igreja evidencia com toda a clareza o lado inútil e inacessível da persistência. O cansaço roda como um cilindro. Os dias definem-nos como se fossem espelhos. Apareceu-nos a esperança em forma de milagre. As coisas nunca são bem como parecem. Apesar dos sorrisos, tudo está carregado de raiva. A luz cai em lâminas na terra da eira. O sexo necessita de várias agilidades. A nossa agilidade possui a engrenagem do crepúsculo. O fogo é mais lento e os gestos são mais trágicos. O crepúsculo possui ainda alguns pedaços de alegria.

27
Abr20

Vai-me custar partir... Amizade... Epístola Terceira...

João Madureira

 

 

Vai-me custar partir

 

– O que é a beleza?

– Não sei.

– Vai-me custar partir.

– Porquê?

– Por causa da beleza das nuvens.

– Então não partas. Fica.

– Não posso. Sou mortal.

– Então deixa-te ficar mais um pouco.

– Sim.

– Não te aflijas.

– Vai-me custar partir.

– Porquê? Por causa da beleza do céu e das nuvens e dos teus olhos.

– O que é a beleza?

– Não sei. Apenas sei o que é belo e aquilo que não o é. E para isso não há uma definição. É mais uma intuição. Qualquer pessoa intui aquilo que é belo. A beleza não é um conceito, é um sentimento.

– Afinal tu sabes o que é a beleza.

– Ai sim?

– Sim.

– A beleza é um sentimento.

– Achas? Tu própria o disseste.

– Isso que eu exprimi é apenas intuição. Por isso é belo.

– Achas?

 

 

Amizade

 

Há cerca de uma semana, o meu amigo Matias foi passear o cão e ele fugiu-lhe. Era um cão de raça. Foi muito caro. Era um animal de estimação. Como se fosse da família. Dele, claro. Que eu cá não me perco com esses animais. Era um cão que rosnava mais do que ladrava. Costumes de parentela. Andava sempre muito lavado, perfumado e penteado. Estamos a falar do cão do Matias. Porque o Matias, propriamente dito, é bem mais desleixado. Não é que seja mau tipo, é apenas um pouco sovina para os amigos. Mas com o cão não olhava a despesas. Nós, os seus amigos, por vezes ficávamos um pouco zangados por tratar melhor o cão do que a nós. Mas o Matias é mesmo assim. É ele e o cão, depois a família mais chegada, depois outra vez o cão e só depois os amigos. Estou em crer que o Matias é mais cão do que o próprio cão. Agora anda desfeito. Ele sem o cão não é nada. Nem dorme, só dá voltas e mais voltas em redor da cidade em busca do animal. No último desfile etnográfico em C., o Matias desfilou vestido de romano com um outro cão ao lado. Mas um carro, mesmo no final do desfile, passou-lhe por cima. Foi nesse mesmo dia que o Matias comprou o cão que agora lhe desapareceu. Já lá vão sete dias e o cão não aparece. Ele anda doido. De noite até ladra, imitando o cão, para ver se ele responde ao seu apelo. Nós já lhe dissemos que não lhe fica nada bem andar a ladrar à noite pelas ruas da cidade. Mas ele não nos liga. O seu estado inspira-nos algum cuidado. Por isso fazemos votos para que o cão do Matias regresse ao lar são e salvo.

 

 

 

Epístola terceira

 

Escrevo-te cá de baixo, mas mesmo de baixo, debaixo de chuva, debaixo de vento e debaixo de uma depressão estupenda. Estupendamente estúpida, hieroglífica. É que estou mesmo em baixo. Aqui todos me tratam por pá, pá isto, pá aquilo, pá aqueloutro, pá para a frente, pá para trás. E eu não estou nada habituado a este tratamento que, ao mesmo tempo que parece íntimo, resulta numa perfeita imbecilidade informativa e informal. De informal tem pouco, tem mais de desleixo, de não te rales, de displicência e de frustrante indiferenciação social e humana. Fora isto, estou bem mal. Estou desnorteado. Ando desaustinado. Amorfo. Tenho saudades de tudo o que por aí existe e continua a existir mesmo sem mim. Até já tenho saudades das pedras da calçada. Tenho sentidas saudades de falar com os amigos. Sim, eu sei que são poucos e maus, mas, mesmo assim, são os meus amigos. Tenho muitas saudades de descer a rua Direita e depois subir a de Santo António. E tenho muitas saudades da minha doninha. Por favor não te esqueças de lhe escovar os dentes e de lhe dar banho de imersão. Ela adora banhos de imersão. Fora isso, tenho muitas saudades tuas. Mas, reconheço, a opção deste retiro espiritual tem muito de esquizofrénico. Ainda não consigo pensar no Largo das Freiras sem me arreliar. Eu adorava aquele sítio. Foi durante décadas o mais dileto e acarinhado ponto de encontro de vários grupos de amigos que ali se juntavam para conviver, dizer umas larachas e discutir o sexo dos anjos. E por aí ficávamos até altas horas da madrugada, só pelo prazer do convívio, de nos ouvirmos uns aos outros, por sentir que estávamos vivos e que alguém nos considerava necessários na sua vida. Alguns já morreram. E não há memória que doa mais do que lembrarmos vários amigos já desaparecidos sem os podermos associar ao seu espaço preferido. Sem os lugares, a memória é irrisória, não se fixa, não se completa. Com o desaparecimento das Freiras, esses meus amigos morreram duas vezes. E eles não mereciam isso. O respeito pela memória é bem mais importante do que algum progresso. Muito do denominado progresso atual é muito parecido com um retrocesso. A memória, digo-te do fundo do coração, é fodida. PS – Não te esqueças também de alimentar convenientemente o ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus). Mas cuidado, não te piques. É que ele é muito sensível.

23
Abr20

Poema Infinito (505): Poesia do Big Bang (Primeira)

João Madureira

 

 

Depois de os judeus chegarem a Jerusalém, a história deixou de ser contínua. Primeiro criou-se o mundo. Depois Deus pôs cá, nesta sua criação anacrónica, que então era um paraíso, Adão e Eva. Noé sobreviveu ao Dilúvio. E a humanidade teve a sua génese na Torre de Babel. E Moisés teve uma vida cheia de trabalhos. E canseiras. Sempre de um lado para o outro, aos mandiletes de Deus. Até que por fim lá conquistou a Terra Prometida. Esdras, Neemias, e até Ester, apesar de relatarem acontecimentos sob o domínio persa, acabam por perder, e nos fazer perder, o sentido de uma história que até podia ser coerente. Quase toda a narrativa hebraica é escrita num estilo simples e lacónico. Nela não existe emoção e as personagens não possuem aspeto. As deduções são por isso superficiais. Ninguém naquela altura sabia lá muito bem de quem era a terra. Faziam-se muitas alianças para conquistá-la. E as mulheres eram muito cobiçadas, sobretudo as filhas dos patriarcas e dos chefes tribais locais. E alguns senhores casavam-se em virtude de terem circuncidado cem filisteus. Frequentemente, os homens eram apanhados por acontecimentos que não conseguiam controlar. E as suas vidas e os seus amores eram destruídos nos momentos em que não tinham qualquer poder para mudar as coisas. Paltiel ficou inconsolável. Já David exerceu a sua crueldade a eito, provavelmente por causa de Mical. O papiro e os blocos de argila foi onde os escribas de Deus começaram a escrever as narrativas da sua evidência. O estilo da saga foi descoberto pelos israelitas e por si desenvolvido de forma sofisticada e lacónica. Nesses tempos bíblicos, os reis compravam montes na Samaria por dois talentos de prata. E neles construíam cidades. Alguns faziam o mal mesmo em frente dos olhos do Senhor. E ele não se importava. Só ficava verdadeiramente irado quando o seu putativo povo adorava os ídolos vãos, que não eram nem bons nem maus. Eram como restos de histórias que ou não têm princípio ou não possuem fim. Os assírios chamavam a Israel a casa de Omeri, porque o consideravam um rei importante, talvez por causa dos seus crimes e do seu mau génio. E dos seus atos e dos seus feitos. Israel começou por ser uma terra de ímpios. Mesmo no tempo de Jerobão e do mesmíssimo Salomão. Depois aboliram-se os santuários locais onde os ídolos podiam ser adorados e centralizaram os cultos de devoção num único lugar: Jerusalém. Por isso derrubaram os altares, quebraram os monumentos, queimaram os bosques sagrados e abateram as imagens dos seus deuses, fazendo desaparecer da terra a sua lembrança. O Senhor guiou muitas vezes Moisés fazendo com que o tabernáculo se movesse seguindo uma nuvem de fogo, que ora o mandava parar ou então seguir viagem. A vida era sobretudo dedicada à pureza, à adoração e à liturgia. Devemos recordar que Deus, quando criou os céus e a terra se movia em espírito sob a superfície das águas. Depois mandou fazer a luz e, vendo que ela era boa, separou-a das trevas. Isto logo no primeiro dia. Depois fartou-se de dizer coisas e de dar ordens aos engenheiros celestiais. Criando tudo o resto nos cinco dias seguintes. Depois da obra concluída, repousou ao sétimo dia. E gostou tanto do que fez que relaxou de toda a obra da criação. Depois dessa tarefa, e do intenso trabalho, pôs-se a olhar para o seu feito. Até hoje não mexeu mais uma palha.

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