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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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01
Jun20

493 - Pérolas e Diamantes: Naquele tempo

João Madureira

 

 

Somos daqueles que acreditamos que nem o primeiro sinal nem a segunda sinalização são bons presságios.

 

Continuo a acreditar que a Terra é redonda. E que existe uma diferença entre o vácuo e o vazio.

 

Antigamente havia muitos homens que se pareciam com cães. Agora há sobretudo cães que se parecem com homens. E com mulheres. E gatos. E até com canários. Ou cantadores de fado.

 

Antigamente açoitavam-se as pessoas com o propósito de mostrar serviço educativo e punir prevaricadores. Hoje, tal ato, apenas é permitido, e apreciado, em sessões de prazer e luxúria sexual. Até se escrevem livros a enaltecer tais despropósitos e se realizam filmes para colocar em imagens o que os livros descrevem.

 

As pessoas eram como cardos, andavam sempre a picar-se umas às outras. Atualmente, muitas ainda são assim. Outras são mais assado.

 

As pessoas costumam variar pouco, nas conversas e em tudo o resto. Antigamente eram os papagaios que diziam asneiras, mais conhecidas como palavrões. E ninguém levava a mal. Todos sorriam. Menos os papagaios. Apesar de tudo, era difícil denunciar um papagaio por injúrias.

 

Os homens de então dedicavam-se muito à columbofilia. E construíam lindos pombais onde instalavam os seus ilustres pombos-correios. As casas e os pombais dessa altura eram muito discretos. As pessoas gostavam de agradar e servir. Eram como pombos amestrados. As casas, apesar de humildes, ressumavam ternura. E humidade. E frio.

 

Os gaiatos, apesar de usarem calças com fundilhos e correrem descalços pelas ruas de terra batida, eram muito jubilosos e davam gritos sensíveis. Todos eles possuíam um anjo da guarda que os entretinha quando pensavam que tinham fome. Havia sempre a esperança de poderem comer no dia seguinte. Os jovens podiam namorar despreocupadamente porque havia muita decência. Os homens eram cavalheiros e as mulheres senhoras. Podiam até fazer as tais coisas que todos sabemos sem darem um pio. Assim dava gosto. Dizem que agora parecem autênticas sirenes do INEM. Eu nessa discussão não me meto porque já me vai faltando a audição.

 

E também se davam muitos clisteres. E punham-se flores de cretone em jarras de plástico cheias de serrim. A beleza podia ser zarolha, mas era verdadeira. Até se bordavam as almofadas e os lençóis. E existiam travesseiros. Que saudades eu tenho dos travesseiros.

 

O encanto por vezes era quieto e outras vezes bruto. Tal e qual como o amor paternal. O amor podia ser coxo, mas não deixava de andar de um lado para o outro. Dentro ou fora do lar. Uma das grandes declarações de amor dessas alturas era: “Gosto mais de ti do que de pão frito.”

 

As pessoas ficavam tristes, mas de uma forma impercetível. E as moscas davam voltas distraídas pela borda dos copos.

 

As pessoas caminhavam devagar, faziam que pensavam, contavam os passos para se entreter e diziam que não tinham medo quando se aproximavam das esquinas. E andavam de romaria em romaria em busca de quem dançasse.

 

Os homens faziam o que lhes mandavam sem mostrarem má cara e tudo lhes parecia bem. Até o mal. Desde que viesse por bem. Entendamo-nos.

 

Já os garotos preenchiam cadernetas com cromos dos jogadores de futebol para no fim ver se conseguiam ganhar uma bola de futebol de catechu que substituísse a de trapos.

 

E as casas eram tão frias que a maioria das pessoas passava o inverno na cozinha. E comiam chícharros fritos ao almoço e ao jantar. Quando os havia. E sardinhas. Por vezes, uma sardinha dava para três. E também se comia sopa. Muita sopa. E pão. E ia-se à taberna buscar meio litro de vinho.

 

As mulheres, nos retratos, sorriam mimosas. Cheias de felicidade e gratidão. Qualquer insignificância amorosa lhes punha os olhos rasos de lágrimas.

 

Os pobres eram honrados. E os homens bons pais de família, mesmo que fossem infelizes como cães.

 

Alguns rapazes, e umas quantas raparigas, iam estudar para o Liceu, mas poucos terminavam os seus cursos com sucesso.

 

Dizem que o vento se fartava de assobiar por entre as casas.

 

Alguns dos homens públicos contemplavam atónitos o desenrolar dos acontecimentos sem perceber bem o que se passava, apesar de ser tudo muito claro e evidente.

 

Havia raparigas tão pobres e infelizes que muitas desejavam ir para freiras. Outras escolhiam ir para a vida fácil. Tudo era melhor do que continuar nas suas enxovias.

 

As mulheres eram quase sempre uma espécie de sargentos sem divisas, prontas a mandar na rapaziada. E os homens eram calmos e meio bêbados. Ou melhor, ficavam calmos quando estavam meio bêbados. Sóbrios, variavam muito no seu comportamento.

 

Naqueles tempos não havia televisão. Mas muitas casas tinham um rádio onde se escutavam os discursos do chefe do governo, os relatos de futebol e de hóquei em patins e também as radionovelas, muito ao gosto popular.

 

Também se ouvia cantar o fado e falar da Nossa Senhora de Fátima, padroeira de Portugal, que não tinha descanso, tantos eram os pedidos de ajuda para milagres e conforto das almas.

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