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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Jul20

Poema Infinito (519): A loucura das árvores

João Madureira

_DSC4257ac - cópia copy.jpg

 

As árvores enlouqueceram. Inclinaram-se todas na mesma direção. Entrelaçaram-se umas nas outras. As casas flutuam na bruma. As formas das montanhas são extremamente lentas. A avó era capaz de responder a perguntas sem abrir a boca. Mais do que a presunção, temo o sorriso da indiferença. Sempre tentei agarrar num pirilampo, mas nunca encontrei nenhum. Sempre fugi das maldições. Ser estúpido, é a maior de entre elas. Na família todos temos os olhos rápidos e observadores. São agora mais nítidas as manchas de luz na superfície do rio. Uma nuvem branca estende-se ao longo da margem direita. Até a floresta mais sólida do cimo do monte ardeu. O silêncio amontoou-se. As memórias vão descendo os degraus, lentamente. As cores começam a arder. E as dores a arrefecer. Há pessoas que conseguem cheirar a neve e o perigo. Depois do nevão, passa a ser difícil distinguir a silhueta das árvores. A abundância do Pentecostes cai sobre nós de uma maneira inesperada. Apesar da paz, estou com os visores noturnos nos olhos. Eu não acredito na paz e muito menos na guerra. Os profetas acham que os tiros não passam de parábolas. Confiam que os tiros da realidade passam sempre demasiado alto. O cometa Halley continua na teimosia da sua velocidade cega e da sua luz ardente. Algumas memórias derretem-se com o calor excessivo do presente. O calor humano tem destes efeitos secundários. São primitivas as raízes de todos os sonhos. A névoa noturna submerge a cúpula da igreja. O ar frio sussurra sobre este mar de nuvens. As certezas foram-se para nunca mais. Por vezes ainda chega a alegria aos nossos rostos. Há determinadas horas do dia em que alguém liga um chuveiro de luz dentro da casa velha. As auroras cristalinas contam-se às dezenas. O calor é agora mais paciente e terno. Esta nova ternura é mais lenta. Novas árvores se levantaram da terra. Tudo adormece nesta casa velha, menos eu. Lembro-me que a mãe gostava de nos despertar logo pela manhã. Além da família, também acordava os móveis, sobretudo os da cozinha, e os armários. E os espelhos. Gostava especialmente de acordar os espelhos, enquanto se penteava ou punha algum batom nos lábios. Há demasiado cinzento nestas paredes. As noites são tão antigas que doem. A memória é primitiva. Nunca fomos capazes do delírio. Os caminhos estão exaustos. Por isso tremem as noites. Os setembros são agora mais sombrios. Mais cheios de silêncio. A tarde alcança o poente. São estrangeiros grande parte dos vindimadores. Muitos ficaram doentes porque apanharam o vírus da saudade. Os lagares enchem-se de vinho mosto. A melancolia tomou conta destas terras. As casas estão cheias de dores. Muitas foram destruídas pelo tempo. O sangue deste povo foi sempre triste. Daqui ouviam-se os comboios. A fome partia e chegava todos os dias. Começaram então a ficar estranhas as palavras. E começaram a multiplicar-se as ausências. As mãos do pai cheiravam cada vez mais a tabaco. Eram frenéticas e magras. Bebia e fumava demasiado. O inverno fazia parar tudo. Eu avançava pelo meio das insónias. A mãe lia comovedoras histórias da Galileia. A mãe era muito crente. Demasiado. De pouco lhe valeu. Eu dava longos passeios porque não me escolhiam para jogar futebol. E ouvia os comboios a seguirem para sul. Aqui era o final da linha. Ou o começo.

 

 

27
Jul20

501 - Pérolas e Diamantes: Claro que me lembro

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

Claro que me lembro.

 

Lembro-me de assistir ao velório de Salazar num café de Montalegre enquanto bebia um Sumol e esperava que o meu pai terminasse o seu copo de vinho e a conversa com os amigos. O fascismo português cheirava a mofo. Ainda existia a guerra colonial, que cheirava a morte e a medo. As aldeias, as vilas e as cidades de província eram lugares obscuros e clericais. Eu tinha doze anos e cheirava a criança.

 

Chaves, nessa altura, vivia acossada pelo campo e coberta pela névoa. A cidade estava rodeada por alguns bairros, onde viviam os pobres e os remediados. Junto ao rio existia uma série de hortas e descampados onde a cidade acabava.

 

A adolescência era uma coisa quase cruel. Naquela altura havia medo, que era um sentimento muito comum entre a rapaziada que se organizava em grupos. E esses grupos tinham líderes. Era uma forma de combater o medo. Quase sempre se troçava dos marrões com palavras e com murros nos ombros e nas costelas e um que outro bofetão, ao que os mais franzinos respondiam com risos, fingindo devolver os golpes, tentando disfarçar o incómodo e a seriedade da violência, como se fizesse tudo parte da mesma brincadeira. Quando se tornava impossível disfarçar a brutalidade da diversão, o mais avisado era mesmo fugir.

 

Os grupos de rapazes transformavam-se em matilhas. Quando alguém era humilhado sobravam os risos, os gritos e as conversas parvas. Era normal armarem-se ciladas nas escolas, nos bares, nos cafés e até nos jardins. A idiotice era larga e extensa. E não havia denúncias, pois os denunciantes ou eram mentirosos ou bufos. E os nossos pais gostavam tanto de nós que não tínhamos sequer o atrevimento de os colocar em situações embaraçosas ou mesmo insustentáveis.

 

Muitas vezes ir para o liceu era um calvário. Se de um lado os colegas eram brutos e grosseiros, muitos dos professores eram ainda piores. Estávamos encurralados. E aquilo não nos ensinava nada. Conhecer o mal não nos torna melhores. E não serve absolutamente para nada.

 

Muitos ficavam em casa ou então refugiavam-se nas salas de jogos, onde havia matraquilhos, bilhares ou flippers. Também existia o cinema.

 

A verdade é que a maioria de nós era magra, morena e com aspeto chunga. Vestíamos calças justas e à boca de sino e usávamos cabelo pelos ombros. O rendimento familiar não dava para mais. Os que jogavam mal davam frequentemente murros nas máquinas de flippers.

 

A verdade é que jogávamos pouco porque éramos uns tesos.

 

Encontrar alguém interessante era algo de inverosímil.

 

Era frequente os mais débeis serem perseguidos e ultrajados e, frequentemente, acusados de cobardia. Os parvos riam-se dos néscios. Era difícil encontrar consolo e alívio para as humilhações.

 

Uma coisa vos digo: o medo não é racional. Os olhares eram lançados de soslaio.

 

Depois apareceu a rapaziada vinda das colónias e com ela muita boa música, liamba e haxixe.

 

Alguns eram idealistas e viam filmes que os ajudavam a distinguir os bons dos maus. É quase sempre aí que começam os problemas.

 

Durante o inverno, as noites na cidade deixavam sempre uma sensação de escuridão, humidade, frio, imundície e solidão. Durante o dia não podíamos fugir à tristeza das fachadas das casas junto ao rio e das cordas cheias de roupa estendida a secar ao sol, que era de pouca dura.

 

A verdade é que sempre pensei que me iria daqui embora, até porque esta não era a minha terra. Mas agora é a minha cidade, para o bem e para o mal. A minha mulher é daqui, os meus filhos são daqui e os meus familiares falecidos estão enterrados a doze quilómetros de Chaves.

 

Apesar de tudo, a verdade é que amo esta cidade muito mais do que a odeio. As vezes até sinto orgulho dela. E penso que fiz tanto como os outros para ela ser como é. Hoje está bem melhor do que quando aqui cheguei.

 

Claro que ainda é uma pasmaceira, mas era-o muito mais naquela altura, com o Marcelo Caetano e o Américo Tomas ainda vivos.

 

A delinquência era insipiente. Em Chaves toda a gente sabia tudo acerca de toda a gente. Dizia-se que os lugares pouco recomendáveis ficavam na zona velha ou no outro lado do rio.

 

Naquela altura existiam na cidade muitos, mas mesmo muitos, bares e tabernas onde se bebia cerveja e vinho. E também se fumava. Naquela altura quase todos os rapazes e homens fumavam.

23
Jul20

Poema Infinito (518): Poesia do Big Bang (Quarta)

João Madureira

_DSC4257ac - cópia copy copy.jpg

 

Foi em Neemias 8 que ficamos a saber que os exilados regressados se reuniram em Jerusalém para ouvir Esdras ler ao longo de um dia as palavras da lei. A sabedoria saiu da boca de Deus e cobriu a terra como uma tempestade. Passou então a habitar nos lugares mais altos onde estava localizado o seu trono sobre uma coluna de nuvens. Foi sozinha que a sabedoria percorreu a abóbada celeste e penetrou nas profundezas dos abismos. Começou a reinar sobre todos os povos e nações. Foi então quando o Criador do universo lhe deu as suas ordens. Passou a exercer o seu ministério no tabernáculo santo estabelecido em Sião. A verdade é que os cristãos são uns entusiastas das profecias. Adoram ver meninos nascer e deitá-los nas palhas. Já os judeus apreciam os comentários, menosprezando a vertente produtiva da profecia. Para eles, as previsões divinas fazem parte do futuro. A verdade é que a conceção de Jesus pela Virgem Maria aconteceu para realizar um vaticínio. Os livros dos profetas são essencialmente crípticos. Se os tomarmos à letra, revelam-nos algo completamente diferente. É muito difícil extrair deles uma mensagem clara. Deus fala sempre de uma forma caótica. Foi ele mesmo quem a criou. Por isso, os seus profetas são confusos e indistintos. Obscuros. Os profetas foram ensinados a falar através de enigmas. A Bíblia resulta de uma associação forçada de livros enigmáticos. O profeta é uma pessoa que tem acesso privilegiado aos deuses por possuir poderes psíquicos especiais. A ira de Deus era muito literal e mundana, pois condenou Zezabel a ser devorada por cães na propriedade de Jezrael e todos os membros da casa de Acab, que viviam na cidade, a terem o mesmo destino. Já os membros que morreram no campo foram condenados a serem comidos pelas aves do céu. Naquela altura teve início o colapso e a desgraça das nações que ainda hoje nos atinge. Apesar de O Senhor ser contra elas. Os justos começaram a ser vendidos por dinheiro e os pobres por uma par de sandálias, ou a serem mortos ou desviados dos caminhos certos.  O pai e o filho dormiam com a mesma jovem profanando o nome do Criador. E até bebiam no templo de Deus o vinho que roubavam. Em verdade, em verdade vos digo, os profetas Amos, Isaías e Miqueias, foram profetas da desgraça cujas mensagens foram aligeiradas com acrescentos posteriores. Os profetas não são apenas os que fazem prognósticos para o futuro, mas também aqueles que denunciam os pecados da sociedade atual. Os profetas maiores são aqueles que possuem uma espécie de segunda visão que lhes possibilita ver os problemas que vão no caminho. Daniel começou a ter visões noturnas, onde distinguia quatro ventos vindos do céu a precipitarem-se sobre os mares de onde surgiram quatro grandes animais diferentes uns dos outros. O primeiro um leão com asas de águia, que lhe foram arrancadas; depois levantaram-no da terra e endireitaram-no sobre os pés como um homem. Seguidamente deram-lhe um coração humano. Surgiu então outro animal semelhante a um urso que não se saciava de comer carne. O terceiro animal era parecido com uma pantera e tinha sobre o dorso quatro asas de ave e também quatro cabeças. A esse foi-lhe entregue a soberania. Enquanto Daniel contemplava tudo isto, apareceu um quarto animal horroroso, aterrador e de uma força descomunal. Tinha enormes dentes de ferro. Entretanto, Deus oxidou.

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