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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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28
Set20

509 - Pérolas e Diamantes: O bom povo português

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

O bom povo português é resistente.

 

É resistente à fome e ao frio, à miséria, à ausência. E também às letras e aos números.

 

Pela boca dos estrangeiros sabemos que o bom povo português é rude, pobre, perdurável, nobre, metido em si e duro de roer. E que outrora teve a ousadia, e a coragem, de ir até ao Japão e dar a volta ao mundo. E depois de o império acabar, regressar ao seu canto e continuar a viver com dignidade.

 

O povo português sabe ouvir, sabe escutar os outros. Com isso aprende o essencial. E sem abrir um livro.

 

Em Portugal tudo se compra: a adulação, o elogio indispensável à vida pública, o emprego, os prémios culturais, incluindo os literários, as garantias para os empréstimos, os currículos. E até algumas amizades.

 

Aos novos ricos agora deu-lhes para comprar terrinas e penicos antigos de louça. É o resumo artístico da sua identidade. O seu patriotismo é um pouco ressentido porque assenta no amor ao lucro rápido.

 

O bom povo português pode ser intrinsecamente descontente. Mas nunca comete a indelicadeza do desespero. Desesperar jamais.

 

O bom povo transmontano gosta sempre de pôr os seus hóspedes à vontade dizendo que dentro, na despensa, há mais daquilo que tem a bondade de colocar na mesa.

 

Os portugueses, todos eles sem exceção, não fazem distinção entre as dores ciáticas e as dores da alma. Muitos passaram diretamente do servilismo para a resignação. Por vezes confundem o sofrimento com a vontade de viver. Vivem fascinados pelo destino. Acreditam no nevoeiro redentor e no regresso de reis imberbes. Deviam perceber que o destino apenas os ofende.

 

Portugal é uma terra propícia ao messianismo. Essa simbolização é intrinsecamente afetiva.

 

Por vezes, Portugal parece um país de lunáticos em autogestão. Daí a nossa ineficácia ser tão evidente. Gostamos de fazer do outro um adversário.

 

E não gosta de ler, ele, esse tal luso depauperado, talvez porque tamanho ato lhe esgota a bílis. Isso, apesar do nosso Nobel ter escrito livros extraordinariamente biliosos.

 

Vá para onde vá, Lisboa, Paris ou Nova Iorque, o português leva sempre consigo a província. Foi o que fez António Variações com a qualidade e o génio que se lhe reconhece. E foi por ser provinciano que transformou o fado em música pop. Honra lhe seja feita. 

 

Ao povo, custa-lhe a aprender que as ideias que agradam imediatamente não são as mais justas. Por isso peca. Depois confessa-se. Acredita no perdão.

 

Metade dos lusos recorrem a bruxas e zangões.

 

Vivemos na era dos cómicos. Mas ninguém se diverte. Apenas sorrimos como se fôssemos parvos. A corte republicana é composta por sátiros.

 

A fartura faz com que as cidades se encham de lixo.

 

A verdade é que quando nos cansamos da utopia voltamos à realidade. E quando nos fartamos da realidade quase voltamos à utopia. A perceção das coisas coloca-nos sempre algumas questões: porque será que desenhamos um boi abaixo da sua dimensão e uma formiga em tamanho grande?

 

Suportar e sofrer são coisas bem distintas. Os lamentos são tão cadenciados que até doem.

 

Os portugueses apreciam Job e a sua obediência cativa.

 

Mas também possuem, os portugueses, uma sabedoria muito própria baseada em alguma densidade, muita antiguidade e um pouco de autoridade partilhada.

 

Os portugueses são uma espécie de empregados obedientes lá fora e hóspedes no seu próprio país.

 

Mas são gente boa. E porquê? Pois pelo óbvio. Qual óbvio? Faz parte do teorema. Pode demonstrar aquilo que diz? As coisas óbvias são sempre as mais difíceis de demonstrar.

 

Até os grandes rios nascem de pequenas fontes.

 

Os jovens que antecederam a minha geração eram mais pobres do que nós, menos livres do que nós e menos instruídos do que nós. O meu medo é que a situação se inverta.

 

Voam sobre nós metáforas de realidade. A realidade não necessita de excesso de zelo.

 

Como diz o caseiro da Torre de Barbela: “Isto uma vez visto, está visto.” Ou então, ou “se vê logo, ou demora uma boa meia hora a tirar o sumo”. Ou seja, Portugal tem as mesmas vistas e o mesmo encanto.

 

A verdade é que, vistos daqui, tanto o Brunheiro, como o Larouco ou o Marão, deitam faúlhas contra o céu que só visto. Aqui as montanhas discutem. Mas de forma pachorrenta. Já os romeiros costumam queixar-se do reumático.

24
Set20

Poema Infinito (527): Aspectos

João Madureira

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Tudo aparenta ter aspeto de milagre sedimentado. De descanso. Estou a ver se consigo prorrogar o amanhecer. Os teus olhos parece que perderam a noite. Ainda oiço o som cavo dos tamancos a bater no empedrado. E os murmúrios do passado. Lembro-me quando comecei a contar histórias a mim próprio. Comecei então a domesticar alguns dos fantasmas que me visitavam e que brincavam comigo. As coisas domésticas são as mais voláteis. Falta-lhes a lógica, a exatidão e a imaginação. Começamos a andar para trás sem avisar. Os lobos andam agora de máscara anti-covid. O silêncio mata tudo. O vizinho do avô passa os dias a olhar para os pássaros dentro da gaiola. As aves são o seu desassossego, por causa dos gatos. Desistiu de criar roseiras porque se enchiam de bicho. Os anjos estão sempre entre o bem e o mal. Os mais novos metem pena porque perderam as asas.  Alguns adoeceram. A verdade é que ninguém sabe como os anjos adoecem e muito menos como se curam. As paredes velhas apertam a casa. As telhas e os vidros estão partidos. O vento assobia nas escadas. A velha casa tem falta de ar. Lembro-me do quintal, de nos deitarmos na relva ao sol e da minha irmã mais nova estender no chão os seus belos cabelos. Os gatos fugiam sempre de mim. Os degraus estão agora mais pequenos e escorregadios. Fazem parte das memórias. Fazem parte dos enganos. Os sentimentos não se podem vender ou comprar. Talvez a floresta que avisto daqui seja a de Orcínia, o lar dos unicórnios. Talvez eu seja um predecessor de blade runner, antes dos unicórnios serem absorvidos pelas fábulas. A luz guia-me ao teu rosto. Mesmo à noite. Os frutos são agora mais lúcidos, transbordam de sabedoria. A claridade transformou-se em enigma. Os anos começaram a sossegar mais um pouco. A paciência tem outro timbre. A velhice encontra sempre o tempo que lhe foge. A chuva amanheceu nas terras altas, cheia de insónias. O pensamento recuperou a nostalgia das terras meridionais. Faz-se tarde. Voznessenski recuperou da bebedeira comunista. Agora faz coléricos stripteases. A solidão está extenuada. Já abandonou os amigos. A solidão é outra forma de sentimento. Percorro o esquecimento em sobressalto. Os rios. E o acaso. Guardo os desígnios na memória do computador. Também o amor lá cabe. Apesar de tudo ser agora muito mais estranho: o parto das mulheres, a tristeza dos animais, o início das chuvas, o tempo das vindimas, o silêncio agressivo das invernias, o coração a bater, os presságios e as ruínas do tempo. Os peregrinos seguem os caminhos como se fossem cegos. Os campos são mais breves e o povo mais amargo. Sem antepassados não existe história. As florestas adensam-se. Os animais já não visitam as clareiras. É depois do extermínio que os exércitos regressam a casa. O vento seco fustiga as urzes. A solidão inclina as vinhas. Antes da destruição, o vale era sereno. A terra prometida está cheia de sangue. O pai entardeceu cedo demais. Agora passeia pelo meio dos sonhos, entre pomares longínquos, iluminado pelo crepúsculo. O princípio de tudo é violento. A eternidade é salgada como o mar. Agora meditamos sobre a meditação dos homens antigos. As festas dos deuses costumam ser implacáveis. Os seus olhares dirigem-se sempre para longe. A velha casa morre-nos a meio do olhar. O vale está em absoluto sossego.

21
Set20

508 - Pérolas e Diamantes: Os mediopatas

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

Cada um tem o seus Deus pessoal com quem pode falar, discutir e até zangar-se.

 

Uma coisa vos digo: é necessário mais coragem para reconhecer um erro do que para persistir nele e ainda muita mais para fazer as pazes em vez de declarar guerra.

 

Tudo na vida depende mais do caráter do que dos princípios.

 

É a arrogância que faz desmoronar a fachada esplendorosa dos mitos. Quase todo o altruísmo é uma forma de catolicismo hipócrita. São os mediopatas os que triunfam na sociedade. A virtude levada ao extremo transforma-se num vício.

 

À medida que o tempo passa, penso cada vez mais como o meu amigo “Gafitas”. A minha confiança nos jornalistas, sobretudo nos jornalistas tidos como sérios, diminui a cada dia que passa e os problemas se tornam complicados. São os piores. Eles é que fazem tudo para nos enganarem, não os frívolos. Os jornalistas frívolos mentem mas todos nos apercebemos das suas mentiras. Pouca gente lhes dá importância. Já os jornalistas sérios, ostentando o seu estatuto, mentem escudando-se na verdade, porque sabem que a gente de bem acredita neles. Por isso é que as suas mentiras provocam tantos danos.

 

Devemos desconfiar daqueles que dizem duas vezes seguidas que têm a sua consciência tranquila. São pessoas que se estão a acusar, e a escusar-se, sem que ninguém as tenha acusado.

 

Há pessoas que passam uma vida a escrever, tentando convencer os outros da sua verdade. Acabam por dizer tudo. Tudo. Mas tudo aquilo que dizem e escrevem é mentira. Eles fingem a sua verdade e proclamam a mentira dos outros. Entusiasmam-se com os apontamentos, com os retalhos e com as lembranças soltas.

 

A ficção supera sempre a realidade, mas a realidade é sempre mais rica do que a ficção. Muitas explicações convencem menos do que uma só.

 

Olha, está a chover! As crianças abandonam o descampado onde estavam a jogar. Um cavalo fica imóvel vendo cair a chuva. O olhar do cavalo parece o de um ser humano.

 

Penso que os portugueses apenas estão de acordo quando discutem uma coisa: Hitler. E todos gostam dos filmes da Disney. Por isso acreditam nas comédias e na magia. E também gostam de jogar às cartas. E trincar bolinhos de bacalhau.

 

Também apreciam fingir-se de adultos, quando são crianças. E de se comportarem como crianças, quando são adultos.

 

E também consideram que a vida tem sentido. E até Deus.

 

Talvez eu não seja bem português porque, tal como Woody Allen, acho que a vida é um absurdo porque não tem lógica alguma. De facto, “a procura do homem por um deus num universo sem sentido é violento”.

 

Um dos filmes do mestre do cinema humorístico que mais me tocou foi o Zelig, que aborda a necessidade de todos querermos ser aceites e integrados, evitando ofender os outros até ao ponto de apresentarmos uma personalidade diferente a pessoas diferentes, não sabendo qual das personalidades representadas irá agradar mais o nosso interlocutor. Pois, como todos sabemos, é este tipo de obsessão pela conformidade que acaba por nos levar ao fascismo. Ou ao comunismo.

 

Por certo, tanto o bem como o mal são uma questão de sensibilidade. Mas uma coisa aprendi com o tempo, apenas os pobres têm problemas de consciência.

 

É frequente adularmos as pessoas com franqueza e moderação, quando precisamos delas. Mas convém não esquecermos que estamos a mentir.

 

Ser líder significa ser um exemplo. Ou seja, se os líderes forem competentes, todo o povo será competente. Agora olhem em vosso redor e tirem as devidas conclusões.

 

Temos de aprender com eles a forma como nos devemos dirigir aos funcionários do restaurante, a maneira como pegamos na lista, a forma como apontamos uma garrafa de vinho, como nos acomodamos na mesa e, sobretudo, a maneira como encetamos a comer de forma comedida, sem voracidade e respeitando os demais convivas. E também a conter a nossa verbalização durante o jantar.

 

Eu admiro todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se comportam com firmeza e circunspeção, tanto quando ouvem como quando falam, nomeadamente os paladinos das causas próximas que, de imediato, fazem suas. Cruzo então com eles olhares de simpatia.

 

Até nisso são gente distinta.

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