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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Out20

512 - Pérolas e Diamantes: A floresta de Dunsinane

João Madureira

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Shakespeare inventou em Macbeth a floresta de Dunsinane que é a tal que se move e nos derrota.

 

As dúvidas podem tornar uma pessoa agressiva. O romantismo raramente é romântico. As revoluções acabam sempre por fracassar devido às promessas infundadas de felicidade. O verdadeiro socialismo é um sofisma. O seu fundo messiânico é muito velho. Talvez demasiado. As obsessões nunca se transformam em opções democráticas. A tal superioridade moral é fictícia. A sua semântica vive da morte. Da morte do seu próprio ideal.

 

As sociedades, apesar de todos os progressos, continuam a ter crises cíclicas de epidemias, avareza e pobreza.

 

Por alguma razão desconhecida, estão de novo na moda os casacos com cotovelos de camurça e a mania da caça.

 

A verdade é que os compromissos deixaram de ser levados a sério e os colarinhos dos senhores doutores andam mais engelhados. A vida social corrompe muita da originalidade humana. Aos exibicionistas dá-lhes a todos para a política. Então ficam cheios de manias alimentares e começam a deprimir-se e a deprimir-nos. Depois, por obrigação partidária, rodeiam-se de imprestáveis, tagarelas e gente muito afeiçoada. Daqueles que gostam de escovar os fatos dos seus chefes e de fazer recortes de jornais, onde eles aparecem. Mas todos sabemos que o toque distinto está nas peúgas.

 

Alguns dos doutores têm tias ricas e padrinhos instruídos e bem relacionados. Ou quando não os têm, arranjam-nos. Aprenderam que, para manterem uma certa linha, nunca devem comer uma refeição até ao fim.

 

A verdade é que, apesar das boas intenções e dos discursos inflamados e sentidos, nada de substancial muda. Tudo se transforma em rotina.

 

Todos somos ou bem-queridos ou mal-amados. E depois também há a doçura da paternidade e da maternidade. E o seu egotismo compreensível e desculpável. A maturidade empurra-nos para a literatura. Com a velhice, tudo se torna desculpável.

 

São eles que nos dizem que a astúcia é uma coisa tola. Que devemos simplesmente dizer aquilo que sentimos. Depois desabafamos. O pior é quando chegamos a casa e pegamos na bola antisstress até deixarmos de sentir raiva e passarmos a sentir dores articulares, musculares e ósseas.

 

A verdade é que não havia motivo para nos arreliarmos. O senhor doutor tinha dito, ao despedir-se: “Afinal, que importância tem o cérebro comparado com o coração.”

 

Quem tem jeito para o negócio e para a política está safo porque esses são os requisitos necessários para a arte da guerra urbana. Aí está o poder. Aí estão os seus génios da lâmpada.

 

A vida é como um riacho onde uns são álamos e outros jacintos.

 

Os que agora triunfam dizem possuir a virtude da beneficência, mas talvez seja melhor dizer que são, sobretudo, ativistas sem opinião, porque toda ela se resume a um símbolo, a uma sigla, a uma cor. As personalidades burocráticas afastam de si as personalidades autónomas e criativas.

 

Já os que possuem algum orgulho são definidos como gente que sofre de alguma espécie de maleita hereditária.

 

Não devemos aprender os novos costumes esquecendo os velhos. Será que o Diabo tem alma?

 

Nós, graças a Deus, acreditamos em tudo: em gente do candomblé, magia negra cabo-verdiana, bruxos, homeopatas, amigos do zodíaco, videntes, leitoras de cartas, astrólogos, médiuns, talhadores de ares e até em políticos de todos os quadrantes, não vá o Diabo tecê-las. Por isso não somos gente de grandes rancores, mas de pequenas iras.

 

Somos pouco dados à arte e muito ao mexerico, pois a arte não persegue ninguém, é preciso ir buscá-la, enquanto o mexerico vem ter connosco.

 

Os portugueses são muito invejosos porque pensam que as grandes qualidades estão sempre nos outros. Por isso confundem cultura com lugares-comuns espirituosos. E também pensam que o amor é uma vulgaridade. E não se enganam. A sua esperança reside nos fenómenos da casualidade. São avessos à pertinência.

 

A verdade é que Portugal é um país pequeno e, por isso, não possui as condições necessárias para se converter no Paraíso. Mas uma coisa vos digo: o espírito de punição não é saudável. E usar o cilício só está a altura dos membros mais proeminentes da Opus Dei.

15
Out20

Poema Infinito (530): A violência dos crepúsculos

João Madureira

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Ainda oiço os magos a cantar os hinos em louvor da sabedoria. Foram eles que nos ensinaram a descrever o fim do mundo e a contemplar a criação feita através das palavras. Deus trabalhou menos do que era preciso. É irónica a decifração dos atos insignificantes que nos sobrevivem. Há uma grande diferença entre antiguidades e coisas velhas. Andamos maravilhados entre o fascínio e o susto. Temos de nos libertar dos especialistas da revolta. Não são nada fáceis de domar as musas da ordem poética. O espaço começou a abrir-se como que por milagre. O caos ensina-nos a ler, a escrever e a contar. E a perceber o nascimento das ervas selvagens. Falsificaram-nos o futuro. Tudo o que escrevo se encontra na deslumbrante curva da memória. Os caminhos transformaram-se em atalhos. As ausências exigem outro tipo de resposta. O lugar estava rodeado de montanhas. Depois chegaram as mulheres exibindo os seus rostos luminosos e os seus corpos carregados de um manso desejo. Os homens começaram a entreter-se a afiar os punhais. O tempo provocou cheias que a todos assustou. O vento começou a soprar e as mulheres começaram a vigiar o fogo e as sombras. Durante a noite, os corpos estavam à solta, dependendo da vontade, do desejo. E também da sorte. O sono dos mais velhos era pesado, provocando cegueira temporária. A terra enfraquecia os fortes e comia os fracos. Começaram a acontecer terramotos. Os mais novos caíram então na armadilha da beleza, esquecendo a razão. Iniciaram a dança do pavor, dando voltas às árvores e atrevendo-se a misturar a voz com a floresta. Observaram, e absorveram, o medo humano. Ouvia-se o som do sofrimento a pairar no ar. As lágrimas incomodam-me, sinto-as como pontapés de saída. Ou como queixumes. Ou como crianças que dão pontapés contra o pano de cena. Os narcisos começam a cair, crestados pela brisas lapidares. Os homens continuam a pisar o chão como se fossem peregrinos a caminho da eternidade. Estão excitados pela extensão e pelo frio. Não sentem nada. Ajeitam as golas para se protegerem dos desperdícios do vento e da tristeza. Todos os guerreiros são usados pelas motivações palacianas. Utilizam a razão como se fosse uma insolência. Erguem muralhas para se protegerem da verdade. Daí nasce a simpatia pelos bárbaros. Os lindos príncipes só ganham importância perante a fatalidade. A coragem invoca sempre o medo. E justifica-o. O avô, no dia do seu segundo casamento, abraçou a avó e desapareceu por detrás dos arbustos da igreja, antes de ir trabalhar e de a engravidar de novo. Nos outros detalhes, a avó nunca conseguiu caber. Dizem que foi o filho mais velho quem limpou as lágrimas da face da sua mãe. Tinha demorado vinte anos a que a palavra pai encontrasse o seu verdadeiro dono. Setembro é o mês da profecia. Onde se pode invocar o tempo interior. As horas parecem frutos de saudade. O outeiro é lugar de sossego. Na aldeia reina a quietude, ouvem-se os sinos ao amanhecer e vozes quase impercetíveis. Os muros estão cobertos de musgo e heras. O inverno inclina-se sobre os textos antigos, compondo odes de sofrimento. As oliveiras, junto à muralha, começaram a apagar-se. Uma voz subtil canta entre os muros altos. A solidão é tão primitiva como o regresso. Os crepúsculos podem ser violentos.

12
Out20

511 - Pérolas e Diamantes: Humanidades e outras cantigas de embalar

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

No que se refere a matar e a contar os mortos, os seres humanos têm dado mostras de uma meticulosidade admirável. Sobretudo os ocidentais. Por essa Europa fora desfilam os automobilistas em viagem de férias, consultando os seus mapas de estradas tendo em vista encontrar lugares onde existem grandes extensões de cemitérios de soldados, situados em lugares encantadores, que agora fazem parte integrante da paisagem. As elegantes cruzes das sepulturas, distribuídas uniformemente pelos espaços, prestam testemunho acerca dos conturbados tempos da Primeira e da Segunda Guerra mundiais. Nos monumentos espalhados por aldeias, vilas e cidades, podem ler-se, entalhados no mármore, os nomes dos militares mortos em ambas as guerras.

 

Afinal, para que servem? Provavelmente alguém bem intencionado acalentou durante algum tempo a esperança de estar a construir uma alteração radical da forma de pensar o convívio humano, possibilitando uma grandiosa tomada de consciência.

 

Depois de 1945, a paz limitou o desenvolvimento dos conflitos ao abrigo de um protetor equilíbrio nuclear. As sorumbáticas grandes potências prometeram defender a limitação dos conflitos. A consequência de tão boas maneiras foi uma nova mortandade. Mas mais lá para o outro lado do planeta.

 

Contabilizaram-se outra vez milhões de mortos nas guerra da Coreia, do Vietname e do Biafra. Exterminaram-se os Curdos. Fomentaram-se as guerras no Próximo Oriente, a Guerra do Yom Kippur, as guerras indo-paquistanesas e também outras de proporções um pouco menores.

 

Afinal, quem é o responsável por esta loucura? O que leva os seres humanos a exterminarem-se mutuamente? Qual a razão que conduz a que uma grande parte do rendimento de todos nós seja investido em tecnologias de aniquilamento cada vez mais perfeitas e letais?

 

Mas nem só os denominados casos de guerra geraram a morte em massa. Também os processos revolucionários conhecidos de todos nós consistiram em orgásticos exorcismos de morte. Quando não era aquele, era um outro princípio de pureza ideológica que teve como consequência distintos processos de limpeza com desfechos mortíferos.

 

Foi a Inquisição quem aperfeiçoou com requintes de malvadez os métodos de interrogatório para ampliarem miraculosamente a glória de Deus. Sucedeu-lhe a guilhotina, celebrada como progresso do humanismo e do Iluminismo. Depois surgiram os processos purgativos estalinistas que se definiram como clisteres no corpo doentio dos trotsquistas, abençoados por todos aqueles revolucionários que sabiam e também pelos outros que não sabiam o que se estava a passar.

 

E os campos de concentração nazis foram implementados para reeducarem, pela morte, os judeus e outras minorias da mesma estirpe. Foi então que a morte passou a ser um ato administrativo, um mero ato burocrático. Uma estatística.

 

Foram os seres humanos – mais propriamente os do sexo masculino, que, com desapaixonada veemência, animados pelas suas científicas crenças de estarem do lado certo, fixados nos seus objetivos, quais anjos e arcanjos resolutos e totalitários –, anteciparam a morte de outros seres humanos.

 

Claro que também houve os apóstolos da paz, cantando os seus hinos religiosos ou escrevendo tratados filosóficos em sua defesa. De facto, a paz continua a ser uma alegoria virtuosamente interiorizada.

 

Sempre se justificou a guerra com a asseveração de intentos pacíficos, quando não com a sofística distinção entre guerras justas e injustas.

 

Mas isto já vem de longe. Foi em nome do amor ao próximo que se realizaram, e continuam a realizar, as cruzadas.

 

Mesmo as ditas guerras de libertação foram travadas sob coação e até por imposição ideológica externa.

 

O princípio da economia de livre mercado tem como consequência a subalimentação permanente de milhões de pessoas. E não há Guterres que lhes valha.

 

A fome também é uma guerra. E terrível.

 

A história é representada como uma inevitável sucessão de períodos de guerra e de paz, e de paz e de guerra. Como se fosse uma lei da natureza. Como se fosse um destino. Como sendo uma espécie de movimento perpétuo.

 

Por muito que nos custe, tudo tem origem na cabeça dos homens. A perversão é uma criação humana.

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