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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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01
Out20

Poema Infinito (528): Algumas flores da ternura

João Madureira

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Ainda me arrepio com a memória do rumor discreto das contas dos terços no enterro da avó. Naquela casa, as preces tinham pouco por onde sair. Lá fora os aldeões andavam de tamancos, escorregando no empedrado cheio de gelo. E os sons dos sinos faziam-nos estremecer. Aprendi o ritmo da vida a olhar e a estudar os comboios. Ainda sinto o cheiro a terra húmida entrando-me pelas narinas. Desabou sobre a terra uma bátega a fazer lembrar o dilúvio. A água mistura-se com a terra, com as árvores, com as nuvens. E com o espaço. E com o tempo. Olho para a cara do tempo mas não a consigo entender. A avó conseguia. Os dias custam mais a passar quando temos a alma cansada de impotência. O amor está repleto de efeitos secundários. A luz das estrelas iluminam o seu próprio fim. Começam a sobrar-nos as saudades. Não podemos nada contra a história natural. Percorremos as cidades e não encontramos ninguém. As maçãs criadas por Clarisse Lispector continuam a morrer no escuro. Jheronimus Bosch continua a sorrir na forma tristonha que o caracteriza. Freud enlouqueceu ao tentar compreender as suas pinturas. O tempo transformou-se numa mancha. As leis do presente são as sombras do passado. Dizem que foi o canto doce e choroso de um cisne quem incendiou Herberto Hélder por dentro. O bater das suas asas alarga a claridade da poesia. Os corpos começam a ficar mais vagos. As suas sombras definem a perfeição das imagens. A tua boca queima. As formas começam a florir e a elevar-se. O livro abre-se como se fosse um bivalve. Terminou o trabalho penoso da escrita e o sacrifício da correção. A tranquilidade estende-se sobre as suas páginas porque ainda não o leu. Um livro é um hermafrodita adormecido à espera de poder mostrar a sua língua de fogo, de revelar a sua moralidade e, ainda, as fábulas decepadas que nele foram escondidas como armadilhas filosóficas. A avó possuía a delicadeza grossa das camponesas. Foi uma criança precoce. Uma mãe precoce. E uma viúva precoce. Por isso é que lavava a cara e os seus longos cabelos até os pôr a brilhar. O instinto precedeu sempre a sua inteligência. O mais intrigante é que apesar de saber de tudo, continuava a olhar para a vida com o seu mistério intacto. A compensação do erro pode transformar-se num novo erro. Apesar de sorrir, a avó não era alegre. Mas também não era triste. O reflexo da sua luz abre caminho entre as árvores. O tempo faz sentido na época da floração. O seu segredo fica mais colorido. Eu então lia a história de Sansão. Pensava que as mães dos heróis eram como rios impetuosos e que eles se entretinham a arrasar as colunas e a escolher os abismos. A avó dizia que gostava dos dias que envolviam as flores de ternura, das tardes claras, das casas duráveis, da força dos celeiros, da delicadeza pasmada dos anjos. Era uma árvore que, por isso mesmo, nunca pensou em mudar de floresta. Nem ser enxertada. Ou podada. Nunca consegui olhar para os pássaros a voarem contra as grades das gaiolas ou agarrados aos poleiros ou a esconderem-se por detrás do comedouro. Esfrego o corpo para limpar bocados do sonho de ontem. Começo ao pensar no que me diria Zaratrusta e no que eu lhe diria a ele. Talvez que Nietzsche já morreu porque se agarrou como um louco à dor de um cavalo espancado. As palavras cheias de preconceitos podem levar à loucura.

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