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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

19
Nov20

Poema Infinito (535): Os estigmas dolorosos

João Madureira

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O Sol parece uma moeda de ouro. O céu, lá no alto, faz lembrar o mar a voar. A floresta exibe o verde dos pinheiros. As montanhas mais altas estão cobertas de neve. A infância é só cor. Depois tudo se vai esbatendo até ficar apenas o cinzento, debruado a preto e branco. As memórias também se apagam. É o terceiro mês do ano, em breve os hortos estarão em flor, como os jardins suspensos. O perfume das glicínias fazem-me sempre lembrar Babilónia. Há água por todo o lado: a pingar dos fetos, a gotejar dos ramos das árvores, a encher as pegadas mais fundas, a brotar do chão e a fazer inchar o musgo com que iremos atapetar o presépio da igreja matriz de Montalegre. Isto é como nos filmes: o sol a jorrar, ou o cinzento no olhar, ou as gotas de chuva a cair, ou os flocos de neve a dançar, ou então o chão, lá em baixo, repleto de folhas outonais carregadas de um vermelho vivo ou de um amarelo berrante, morrendo discretamente. O outono é a mais sentimental das estações. E depois chega Fellini, Antonioni, o chato do Jean-Luc Godard, Woody Allen e Kusturika. E também Eisenstein e Orson Welles. Uma coisa é morrer dentro das páginas de um livro. Outra, bem diferente, é fenecer no meio de um palco, sob a luz dos iluminadores. O universo começa a afastar-se à velocidade da luz. Implantaram árvores nos cruzamentos, daquelas que não perdem as folhas nem dão frutos. Na terra já não germinam as sementes, nem as palavras. E os insetos não conseguem sair dos seus núcleos concêntricos. Perdura agora o tempo do fogo. O ar asfixia. A água decompõe-se dentro da sua transparência. A nudez dos corpos ilumina a desilusão. Os olmos parecem estigmas dolorosos, em contraste com a erva rasa. Os latidos dos cães transformaram-se em signos agrestes. A tempestade chegou antes dos textos. As velhas ruas perderam os seus costumes. Nunca me pareceu tão mortal a agitação dos ciprestes. O vácuo circula e expande-se. São muitos anos de batalha. A excitação dos vencedores já se esfumou. Apenas a fadiga avança. Alguém grita para assustar as aves. Quando nos afastamos de um perigo logo nos aproximamos de outro. A vida não vem com livro de instruções. Um dia a avó chegou a casa e não achou maneira de rezar. Também não conseguia chorar. Por vezes não conseguimos perceber a utilidade dos combates. Sentia-se como uma loba apanhada no fojo. Começaram, por fim, a brilhar-lhe as lágrimas nos olhos. Suou como se tivesse febre. Afirmava que distinguia sons que mais ninguém ouvia. Depois mudou os móveis de lugar e o ar frio e fluido que entrava pelas janelas. Moveu até a claridade dos dias. E mudou mesmo a aparência da sua beleza. Apenas parou quando encontrou a posição verdadeira do seu corpo. Foi apanhar maçãs, arrancando-as dos ramos, que ficavam a abanar para cima e para baixo, como se estivessem zangados. A avó seguramente que estava. Muitas vezes ficava parada a olhar para longe. Aprendi que as águas paradas podem ser profundas. Nas noites de vigília farejava as ausências, os lugares vagos, arrasando os campos com o olhar. Sentia os meses a seguir para o inverno e começou a estranhar a serenidade das terras. Também elas pareciam estar a morrer. O seu amor não conseguia adormecer, parecia o vento a cair sobre as árvores. O silêncio transformou-se em ferida. Começou a envolver o desgosto com as mãos, como se estivesse a trabalhar o pão na masseira. Depois o destino sossegou um pouco.

16
Nov20

516 - Pérolas e Diamantes: Nós bem sabemos...

João Madureira

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É prudente não nos deixarmos encurralar pelas meias-verdades. Uma pessoa livra-se de preconceitos e logo volta a cair noutros.

 

A era industrial deu lugar à revolução do colarinho branco. Agora, os filhos e as filhas dos operários batem em teclas de computador ou atendem telefonemas em empresas de baixos salários, afadigando-se em folhear páginas invisíveis, tentando acelerar as comunicações graças à magia incorpórea da eletrónica.

 

Depois vão para casa preparar-se para outro dia como o último, que é em tudo semelhante ao anterior. E o seguinte. E, a toda a volta, telemóveis. Pessoas a falar, a falar, a falar, com alguém que não veem, enquanto o mundo visível lhes passa ao lado.

 

Todos conseguem falar num inglês com ligeiro sotaque dos Estados Unidos, numa mistura sincopada com o inglês das ilhas britânicas. As ganzas dão nisto. E também naquilo.

 

Em Portugal não se fez uma revolução de ideias, mas antes uma revolução de aparências. A própria revolução foi uma aparência democrática e... socialista. Nada mudou de lugar, apenas a mesa é rotativa.

 

As borboletas, apesar da sua aparente beleza, não passam de traças com antenas e asas. E os pirilampos mais não são do que insetos de corpo mole que possuem órgãos luminescentes e que, por isso, apenas brilham no escuro.

 

A aparência é viral e viciosa. Doentia. Não mata, mas engana.

 

O problema é quando nos rimos para o espelho e nos assustamos com aquilo que vemos. Não é aconselhável brincar com os brincalhões. Mas nunca se sabe. O futuro a Deus pertence.

 

Dizem por aí que um tipo rico é um ladrão ou filho de outro.

 

Lembro-me sempre da ética que me ensinou a minha família: sentir alegria em não dever nada a ninguém, cumprir os nossos deveres e viver de cara levantada. Eu nunca mais a esqueci.

 

Há outros que apenas a invocam de vez em quando, como se a mentira fosse desculpável.

 

A injustiça também se pode praticar invocando princípios honestos e bons motivos.

 

Toda a cultura é subversiva porque combate a rigidez da sabedoria e o senso comum daquilo que costumamos designar como realidade.

 

A política acaba sempre por fracassar porque é fruto do ressentimento.

 

Nós bem sabemos que nessa coisa da gestão da polis surgem sempre as dissidências e as intrigas. Por isso, com isso ou por causa disso, aparecem também as artes de enganar aqueles que nos são fiéis, mas são vistos com as qualidades de nos suprimirem ou ultrapassarem.

 

Os mais avisados, ou conservadores, escolhem sempre um provador de venenos, para os manterem ligados às suas origens, costumes, nomes de família e preconceitos de bairro, sem morrerem no ato da prova nos jantares de família. Gostam de falar para o seu reflexo. Depois ouvem as ovelhas e, de seguida, os cães pastores. Andam sempre acompanhados pelo caderno das probabilidades.

 

Depois de se chegar ao poder, todos os eleitos pensam numa fórmula mágica para estabelecerem a paz eterna na luta de classes.

 

São essas coisas que, por vezes, nos fazem sentir muito esquerdistas.

 

Quando discordamos deles dizem sempre que estamos a perceber mal as coisas.

 

A resignação aparece quando nos deixamos comover com a mediocridade. A resignação passa então a ser vista como uma virtude, quando mais não é do que um colete de forças.

 

Os que estragam tudo são os que andam continuamente impacientes pelo que se vai passar.

 

Já estamos todos cansados da conversa dos que dizem estar dispostos a darem o melhor de si, quando sabemos que apenas estão disponíveis para guardarem o melhor para si.

 

Como disse Michel Eyquem de Montaigne, já em 1575: “Até quem ocupa o mais alto trono da terra continua a sentar-se sobre o seu traseiro.”

 

A verdade é que as pessoas agora caminham como antigamente o faziam os monges ou os romeiros. Mas a sua única intenção é suar e cansarem-se. A meditação deixou de ser o motivo. Agora é tudo lugares-comuns e frivolidades. E roupas tão justas que fazem logo pensar em sexo. Eles Sansões e elas Salomés. Ou eles Kenes de esteroides anabolizantes e elas bonecas de plástico insufláveis. Mesmo as classes superiores se tornaram fonte indisfarçável de comédia social. 

 

As adorações de agora são coisas abstratas.

12
Nov20

Poema Infinito (534): Poesia do Big Bang (Sexta)

João Madureira

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Ainda hoje conseguimos ouvir o ruído denso dos cantores dos templos entoando o Salmo 137: “Junto aos rios da Babilónia nos sentámos a chorar, recordando-nos de Sião.” Quando se celebravam, no Ano Novo, os festivais, era recitado o épico de criação e o rei era ritualmente humilhado antes de ser entronizado novamente para o ano seguinte. A verdade é que os homens antigos eram tão corajosos e incrédulos que chegavam a lutar com Deus, ou com os seus anjos. Esse foi o caso de Jacob que, numa dessas disputas, foi ferido na coxa, daí os israelitas não comerem uma parte particular da coxa dos animais. Mas o Senhor, depois da entoação dos respetivos salmos, respondia-lhes no dia da angústia e enviava-lhes socorro, enquanto aceitava as suas ofertas e os seus sacrifícios. Em tempo de guerra, o Senhor dava até a vitória aos seus ungidos. Mas os ungidos, pediam ainda mais, pois eram muito atreitos às tentações. Rogavam ao seu senhor que não os arrastasse com os pecadores, com os que praticavam a iniquidade, pois eles eram mestres em falar de paz com os seus semelhantes, apesar de, no seu coração, existir maldade. Foi nessa altura que os anjos da harmonia começaram a contrariar os terríveis anjos da história, que se tinham aliado aos anjos da beleza para combaterem os anjos da bondade e da humildade. Todas as modas passam, mesmo as divinas. Os salmos repetem-se. E muitos distinguem-se no meio daquela confusão do Saltério. O salmo 3 é um hino matinal. Aleluia. O salmo 4 é um hino vespertino. Amém. Já o salmo 5 é outro hino matinal. Mas a verdade é que o seu sentido se vai acumulando. A verdade é que a versificação do Antigo Testamento fala da realeza de Deus, dos justos e dos malvados e da providência criativa e redentora do Todo-Poderoso. Mas a história não é consistente. As sagradas escrituras estão repletas de pontas soltas. Josué viu o seu nome abençoado por conseguir definir o crepúsculo do azul que irradiava do Mediterrâneo. Deus mostrou-lhe o momento da criação dos céus e dos infernos e da sua sagrada loucura. No momento da criação, todas as horas estavam preenchidas pela loucura. Até os reinos divinos acabam por ser destruídos pelos judas e pelas madalenas que foram ajudadas a sair das planícies em fogo, a evitarem a cólera dos mares e as apostasias dos adoradores de Alá. O Deus da primeira criação costumava dizer: “deixai vir a mim o fogo e as tempestades atómicas”. O amor nasce do caos. O amor cria o caos. No princípio era o fogo. Toda a criação nasceu das chamas. As pessoas podiam ser presas por impiedade. E por medismo. O medo trovejava para impressionar tudo aquilo que era contrário. Como artesão, Deus é absolutamente desconcertante. No momento da criação, os irmãos gémeos, senhores da sabedoria, disseram um para o outro: “Nem os nossos pensamentos, nem os nossos atos, nem as nossas almas concordam.” Afinal, ainda hoje está por explicar a razão porque Deus criou o mal. Sendo ele a bondade suprema. A verdade é que o mal existe. E não existe. O princípio da verdade está em acender o fogo num lugar sem sol. Na criação, Deus foi generoso em fazer germinar a erva para o gado e as plantas úteis para o homem, para ele poder tirar da terra o seu alimento. E o vinho para lhe alegrar o coração. E o azeite para lhe fazer brilhar o rosto e condimentar os alimentos e o pão para lhe robustecer o corpo. E depois organizou as águas do caos. Aleluia.

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