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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

21
Dez20

521 - Pérolas e Diamantes: Entre Godot e Pitágoras

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

Há um provérbio russo, muito acertado, que diz mais ou menos o seguinte: só se vive de verdade o tempo que se dedica à amizade.

 

E depois existem as memórias. Muitas das minhas têm a ver com alguns dias de doença que me levavam à cama onde passava as manhãs a ler livros aos quadradinhos e depois a beberricar a canja de galinha. E também ouvia rádio. Ouvir rádio, nos meus tempos de criança, era outra alegria. A telefonia era aquilo que nos ligava ao mundo. Televisão quase não existia. E os jornais eram escassos.

 

E também se rezava muito, talvez demasiado. Mas Deus, para mim, sempre permaneceu em silêncio. Apesar das muitas tentativas que eu fiz para estabelecermos um diálogo, por pequenino que fosse. Um “olá” chegava.

 

Também me lembro de nos abrigarmos no recreio da escola quando chovia ou nevava. Era normal enviarmos bilhetes às meninas. Nós gostávamos das raparigas.  O professor, e a minha mãe, insistiam na tabuada.

 

E havia alguns filmes no cinema onde nos era permitido ir. Lembro-me de chorar com o lançamento do cadáver amortalhado de Simão Botelho ao mar e com o assassinato da mãe do Bambi.

 

Sim, gostava de raparigas, da sua companhia, das suas gargalhadas e, sobretudo, da sua anatomia. E acreditava no amor de perdição.

 

Quando cheguei a Chaves era um rapaz desengraçado e com pouca piada. E assim me fui mantendo, não fosse o Diabo tecê-las. Sentia-me uma espécie de mágico falhado. Ainda hoje me sinto tal e qual.

 

Vim dos invernos nevosos para os invernos nervosos.

 

Por essa altura, as hormonas começaram a saltar e entrei diretamente no Teatro do Absurdo.

 

Com quinze anos comecei a namorar, a ir ao cinema, a beber refrigerantes e a fumar um que outro paivante.

 

Comecei a ler o D. Quixote, coisa que ainda faço com regularidade, e a ver os filmes de Chaplin, que sempre considerei mais divertido do que Keaton ou Harold Lloyd. E, por incrível que pareça, nunca me ri com Laurel & Hardy. Mas sempre fui fã dos irmãos Marx, preferindo Harpo a Grouxo. Penso que essa foi a minha primeira dissidência marxista.

 

A verdade é que cada um tem as dissidências que merece.

 

Até me cheguei a entusiasmar com os cobóis, mas nunca consegui odiar os índios e tive sempre um horror visceral em relação a armas de fogo.

 

Comecei então a brincar um pouco com a escrita. Mas os primeiros esforços foram ou quase cómicos ou profundamente ridículos.

 

Por essa altura ainda andava à procura de Deus num universo imenso e sem sentido e num mundo onde a guerra era o pão nosso de cada dia. A guerra colonial estava no auge.

 

E via os filmes de Fred Astaire pensando que eram documentários sobre a incrível arte da dança protagonizados por um lingrinhas que nunca se cansava de dar às pernas.

 

Um pouco mais tarde consegui assistir aos ensaios de um grupo de teatro, do qual queria fazer parte, esperançado que um tal de Godot finalmente chegasse. Ainda hoje continuo à sua espera.

 

Enquanto esperava, comecei a ler e a estudar. Tornei-me amigo e seguidor de Pitágoras. Fascinou-me o seu pensamento de que a unidade simples é a base de todas as coisas, pois é dessa unidade que deriva o número. Dos números, derivam os pontos. Dos pontos, derivam as linhas que unem dois pontos. Dessas linhas derivam os planos e deles derivam os sólidos. E dos sólidos derivam os quatro elementos: fogo, água, terra e o ar. Foi da combinação desses elementos que se formou o Universo, que é vivo e está em constante mutação. Universo que é uma espécie de esfera que contém no seu centro uma esfera mais pequenina, a Terra.

 

Lembrei-me então da minha dedicação infantil pelo jogo do berlinde, do botão e do pião.

 

Pitágoras acreditava que, de todos os sólidos, a esfera é o mais belo e que de todas as figuras planas, a mais sagrada é o círculo, dado que todos os pontos estão ligados entre si e não têm começo nem fim.

 

Seguiu-se Marx e a ilusão revolucionária. Senti-me nela como um condutor que descobre que o carro que quer guiar se movimenta sozinho, arrancando e parando quando lhe apetece.

 

A verdade é que não interessa o lugar de onde se parte mas aquilo que se aprende pelo caminho.

 

Já chegar ao destino é outra conversa.

17
Dez20

Poema Infinito (539): A luz e o delírio

João Madureira

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Deceparam os carvalhos do largo. O pelourinho ficou mais triste. A casa da Clérga cai aos bocados. As janelas do antigo tribunal têm os vidros partidos e as grades em baixo continuam a parecer aquilo que sempre foram: uma prisão. Dizem que dentro dela, em vez de tentar fugir, um poeta louco deu um tiro na cabeça. Os velhos carvalhos decepados não gritam porque não podem. Subo as escadas e toco na velha árvore que batia na janela a anunciar ventanias trágicas. Entro. Toda o edifício se degrada: as paredes estão cheias de fendas, os soalhos estão sujos e gretados. Não há vestígios de ternura dentro deste edifício. Apenas antigas combinações de dramas e dinheiro. Tudo costumava acabar em olhares de espanto. Tenho pena das figuras doloridas, dos fantasmas cegos, das bocas amarguradas, da pele, dos ossos e do desespero dos condenados. No arquivo fotográfico, as fotos estão espaçadas e todos os retratos são de pessoas com olhos de doidos. Na aldeia mora a dor. A atmosfera é de desespero. Algumas morreram enforcadas, mas à maioria levou-as o venéreo. Nesse tempo faziam-se fortunas com os alcoices. As almas atingiam proporções desmedidas. O velho mundo moral era um inferno. A dor física juntava-se à dor moral. É normal quando se começa a perder a visão gritar por mais claridade para se procurarem os fantasmas nos recantos escuros das casas. “Luzes, mais luzes!”, gritam em vão os que vão cegar. O sarcasmo é sempre violento. Muitas vezes concentra a dor que sentimos e que não queremos mostrar. Rir-se dos fantasmas faz parte da tragicomédia da vida. Todo o heroísmo é um fogo-fátuo inútil. Enquanto uns deliram, outros choram. Não devemos levar a peito a nossa própria demolição. Não devemos gastar em vão os nossos gestos e os nossos sonhos. Lembro-me das mulheres que por aqui andavam, de tranças compridas e cheias de orgulho na palidez da sua pele macia. É insustentável o exílio que cada um carrega dentro de si, sem se aperceber. A cidade parece um baile de máscaras. As poucas hortas das redondezas têm um ar apodrecido. As pandemias criaram a necessidade da distância. A honra agora é ser fraco. O ciúme também cresce com o amor. A palidez e os sorrisos prendem a atenção dos preguiçosos. As almas grandes não se acomodam com a servidão, preferem entender a fisionomia das paixões. O difícil é emanciparmo-nos da violência. Nós somos como faúlhas nos olhos de Deus. Os lobos costumam uivar a sua própria solidão. O medo deixa os seus próprios vestígios. Cada um deve guardar dentro de si um pouco de luz para as emergências. O tempo devora tudo até às últimas consequências: os caminhos, os meteoros, as perguntas, as mãos e os gestos, os olhos e os olhares, o amor, os heróis, as cartas, a música, as árvores que cantam e assobiam, as cidades, a grandeza, o espaço, o passado, o presente e o futuro, os ritos, os labirintos, os sonhos e os abismos mais profundos, os homens que teimam, a verdade, a ciência e a eternidade. A eternidade é a imitação perfeita do tempo. Olho devagar para as tuas mãos que fazem mover a terra sobre os lados. Os frutos das árvores brilham também devagar. A pulsação da luz revolve o ar. Deram um novo nome à memória. As crianças dormem centradas em si próprias. A sua memória é primitiva. Os seus membros movem-se dentro do abismo dos seus sonhos. Gostam de colher flores entre os alfabetos. O absoluto salta da obscuridade como se fosse um gato. Elas sorriem.

14
Dez20

520 - Pérolas e Diamantes: O segredo do poder

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

Houve tempos em que a educação consistia em aprender textos de cor, estudar matemática, praticar música e tiro ao arco. E também dizer a verdade.

 

A educação superior atual voltou ao sofismo, onde se pratica a habilidade com as palavras para se poder pôr tudo em causa, menos o dinheiro. Disso nunca se esquecem, os novos sofistas/surfistas, pois os donos disto tudo pagam-lhes principescamente.

 

Nós, os portugueses, somos como os velhos atenienses, invejados, sobretudo por não termos qualquer tipo de qualidade invejável. Somos todos provincianos, até porque é na província que se derrota a própria província. A verdadeira. A tal.

 

Agora sei porque nunca escolhi entre Atenas e Esparta. É que ambas eram gregas.

 

O estilo da corte pós-moderna é tão conservador que se assemelha à dos velhos tempos de Zoroastro, onde tudo era prometido e nada era ofertado. No entanto, os mais distintos ficavam confinados numa pequena sala que dava para um pátio poeirento com uma fonte seca e para um galinheiro com uma dúzia de galinhas.  Por isso é que naquela altura, segundo Demócrito,  se importavam galinhas para Atenas – galinhas da Pérsia.

 

O Grande Rei andava sempre a chegar e a partir, acompanhado pelo tumulto de tambores e tamborins que punham as galinhas a correr desaustinadas pelos pátios de uma maneira muito cómica. O que provocava, nos nobres esquecidos pelo monarca, expressões muitíssimo trágicas.

 

Os filósofos da altura, sobretudo Zaratustra, era da opinião de que aquilo por que é notado um personagem famoso, tende a ser a coisa  que mais notoriamente lhe falta.

 

É a génese da mentira o que define a verdade.

 

Foram os gregos antigos que nos ensinaram que o segredo do poder, ou o seu encanto, se preferirem, reside não no seu exercício, mas na sua aura.

 

E os que triunfam são sobretudo aqueles que possuem o dom de saber o que as pessoas mais gostam de ouvir.

 

A sorte, por muito que custe aos que por ela são bafejados, não é uma virtude.

 

A sorte constrói-se. Exemplo disso é o nosso querido e estimado Presidente da República que, à semelhança de D. Raimundo de Barbela, ama e se deixa amar sem perguntar porquê, sem medir as consequências benéficas ou maléficas dos seus atos.

 

Vive num laisser faire que baralha até os mais honestos procuradores de uma razão para a verdade que existe nas coisas e nos indivíduos.

 

Tanto amor confunde e baralha. Mas o que lhe havemos de fazer? Apenas nos resta aceitar o destino. Temos de nos sujeitar ao correr dos acontecimentos.

 

No entanto, todos sabemos que o amor também pode matar. A visão deste idílio faz até titubear os mais fortes.

 

Todos sabemos que o nosso PR é um homem bondoso. A sua felicidade em dar banhos de mar na praia junto de sua casa revela uma pessoa simples e honesta. Sempre mantendo uma espécie de equilíbrio desequilibrado entre o prosaico e o poético, o sublime e o corriqueiro, entre o transparente e o translúcido.

 

Estou em crer que dava um excelente cartomante, tal é o seu poder de explicação e de projeção futurista. O que não adivinha, deduz. E o que não deduz, adivinha.

 

Quando a adivinhação não lhe sai a preceito é consequência de Portugal ser uma entidade mística repleta de imprevistos. Já vem de longe, a vetusta camada de nevoeiro que complica o desvendar dos segredos.

 

A verdade é que nós, portugueses, somos gente que hesita, demora a pensar, fazendo-o, de preferência, à última da hora, arranjando então uma das tais soluções que não agradam nem a gregos nem a troianos.

 

Ele, o senhor PR, é uma espécie de poeta que, mesmo não fazendo versos, possui a cândida indiferença que resplandece nas almas eleitas.

 

A verdade é que não é fácil viver no meio de situações ditatoriais de forma contemplativa, viver próximo do medo, da autoridade, da intriga e da baixeza de caráter.

 

Com ele ao leme, somos finalmente uma nação à procura de tino. Por isso é que nele germinam as falas meigas e ternas. E os beijos. E os abraços.

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