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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Jan21

Poema Infinito (546): O brilho das maçãs

João Madureira

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A chuva da tarde ameaça as folhas. As maçãs brilham e a que tenho na mão rola à medida que a roo. Olho as uvas, as azeitonas e escuto o som abafado do trigo. Os rebanhos equilibram os pastos e multiplicam os caminhos. Setembro é o tempo certo para voltar a casa. Os nomes são expedientes respeitáveis. O que os torna inevitáveis é a sua fixidez. Houve tempo em que fazia rodopiar o pião que era redondo e ainda o ficava mais quando dançava. Também a infância era redonda e não tinha ponto de chegada. Os olhares dos mais velhos são tão compridos que cobrem todo o chão do adro da igreja. A velha telefonia ficou muda. É difícil encontrar os nossos jovens corpos através dos velhos dicionários. Toda a música que conheço sai de dentro do rodar de um pião. E também o sol e a sombra. E o Big Bang. E os gestos amorosos da vida. E os gestos ríspidos. Deus, levantou com a sua enxada, a luz azul do céu. Os sacrifícios são raivosamente redondos. E os rostos parecem bonitos e os instantes redentores. A providência faz parte de uma guerra quente. Todos os católicos pensam que possuem, ou deviam possuir, a pele da face lisa, como a de Nossa Senhora, ou do menino Jesus ou do São Sebastião. Mas a face livre não se baseia em princípio tão redutor. Invocar o nome de Senhor sacrificado vale de pouco para tanto pecado. Não é por fecharmos os olhos que a mentira desaparece. Ou os demónios são remodelados, ou os mendigos bafejados pelos ventos angélicos de Job. As orações são campos semânticos cheios de dúvida e repletos de repetições. Este país, cheio de heróis, não passa de mais uma derivação da filosofia doméstica inerente às mulheres de limpeza. As brevidades são cada vez mais extensas. De pouco nos serve a leitura dos evangelhos, o luar e a indefinida cicatriz umbilical. Os bois passam a vida a ruminar e acabam nos matadouros. De pouco lhes vale serem pacíficos. E herbívoros. O boi Ápis morreu quando foi jungido a Osíris. Moisés domou o gado com o carinho de uma menina e atormentou os campos com a força de um homem. Moisés falou com os lobos e puxou as nuvens para a terra. A fascinação do mal também existe. E é poderosa. Há palavras tão gastas que mais parecem priscas de cigarros moribundas pela chuva. Com elas não é possível dar a curvatura certa aos sentidos. O espaço possui dentro de si várias consistências. Há poemas feitos de amor experimental e outros construídos pelo meio de uma vida silenciosa. Elogio as manhãs caladas, os encontros, as virtudes de todas as flautas mágicas e de todos os Mozartes e de todas as teorias dos sorrisos e de todas as declinações dos espelhos feitos em latim. Os itinerários provocam-me insónias. Colho as vozes no meio dos montes e perto do silêncio dos conventos. As manhãs estão mais incertas do que Deus. Dói ter de optar. Dói ter de preferir. Dizem que o avô, antes de morrer, sorriu. Aquele verão veio antes de tempo, incendiando as sombras e as lagartas e o abecedário das horas e o valor pecuniário das audácias. O amor é uma coisa triste, pois, quando nele se insiste transforma-se em vidro martelado. Lembro-me das maçãs douradas no colo da avó, da leveza repetitiva dos seus passos, dos diversos ângulos das noites da infância. O sono chega aos poucos. Sinto o frio de cada pedra das paredes. A luz fragmentou-se em campos de silêncio. Adormeço.

25
Jan21

525 - Pérolas e Diamantes: As escadas da liderança

João Madureira

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A ambição dos líderes é sempre inversamente proporcional ao desinteresse dos adeptos. A tribo do líder luso é constituída por um grupo provinciano, onde abunda a juventude, e por núcleos de gente iludida pela frustração onde se desencadeiam as ambições, conspirações e as traições. Nesses grupos de assalto democrático ao poder predomina a fantasia e a busca de satisfações de compensação. Todos sabem que para se chegar ao topo têm de se elaborar os tais discursos interessantes sobre a moral social.

 

A popularidade do líder tem de ser confidencial. Um homem respeitável reconhece-se na adversidade. Convém também não ter escrúpulos exagerados. A vaidade exige alguma simplicidade. O calor dos aplausos prepara o momento da ascensão.

 

O príncipe tem de, muitas vezes, descobrir o seu principado. A boa lenha não deixa cinza depois de arder.

 

O mais importante em política é o adversário, pois é ele quem é capaz de unir as hostes em volta da esperança e da obrigação. É ele quem desculpa o erro e quem obriga a fazer opinião. É o adversário quem justifica os bobos. Os melhores são os mais instruídos.

 

É então quando os princípios se começam a evaporar. Depois agradecem aos traidores a fantasia da calúnia.

 

O momento alto da política tem lugar quando os burros começam a voar. Há lá coisa mais bonita!

 

Tem então lugar o ato simbólico de colocar a cenoura na ponta da vara. E o sermão maravilhoso do tal lugar comum que diz: “A verdadeira sabedoria vem da intuição e do coração, não das coisas que vêm nos livros.”

 

E distribuem-se mais cenourinhas.

 

Mesmo não sendo todos nós gente bonita por fora, somos todos bonitos por dentro. A tribo rejubila. O líder sabe ter razão. Sabe construí-la.

 

Mais burros a voar.

 

Nova distribuição de cenouras. Muitas delas biológicas, para não se descriminar ninguém.

 

Alguns começam a ficar cansados de tanto voar e a pousar nos fios.

 

A verdade é que agora está na moda falar da política e dos políticos. Insultá-la. Difamá-los. Mas temos de nos amar uns aos outros.

 

Invocam-se os privilégios. É tudo inveja.

 

Claro que a oposição tribal começa então a dizer que o atual líder pertence a uma espécie refinada de vendedor ambulante peripatético que negoceia na compra e venda de ideias. Muitos dos comensais assemelham-se a dentes desvitalizados que têm que corresponder ao que deles se espera.

 

As ideias ousadas do líder não passam de ideias feitas alinhavadas por gente precipitada, geralmente jovens que costumam conspirar no sótão das casas.

 

Os líderes a sério não dão só desgostos. Dão e recebem.

 

Vencido o medo. Vencida a dor.

 

Todos os processos políticos são ambivalentes. Quando o fardo se torna demasiado pesado, o carregador deita-o fora.

 

À medida que a pança dos chefes cresce eles parecem ficar mais pequenos. A verdade é que poucos conseguem responder àquilo que queremos saber.

 

Chega sempre o tempo de se perder o respeito pelo líder. O respeito, que não o decoro democrático. Da epopeia do extraordinário passa-se à poética da mediocridade. O destino perdeu a sua amplidão, agora é uma espécie de felicidade menor.

 

Não é fácil tentear a maleabilidade com a força. Não se pode passar uma vida inteira a amar a vulgaridade.

 

Faz parte do bom senso não viver acima dos nossos meios, da nossa inteligência e da nossa cultura. Não devemos agir ao contrário da nossa natureza.

 

Mas o líder deve continuar a privilegiar os conselheiros prestáveis e as amizades comovidas. E continuar fiel ao princípio de que é sempre importante promover a igualdade de oportunidades misturando-as com o raminho de cheiro das ambições pessoais. Sem ambição não há progresso. E o líder é um progressista, apesar de uma ou outra tirada reacionária ou extemporânea.

 

Convém estar sempre atento para que sobre as asas da águia não comece a voar a tal carriça do dichote popular.

 

Mas o seu lado escotista dá-lhe alguma tranquilidade. Por isso sabe que é impossível viver no meio do monte sem deixar rasto, sofrer arranhões e sujar as mãos.

 

Antes de se chegar a príncipe tem de se desenvolver alma de criado. Tem de se servir antes os senhores.

 

Os líderes democráticos são aqueles que substituem, com êxito, a palavra caridade por solidariedade.

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