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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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25
Fev21

Poema Infinito (550): A prova

João Madureira

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As casas eram velhas e simpáticas. E as ruas verdes e agradáveis, com a folhagem das árvores a entrelaçar-se no alto. E o bater das folhas por causa das brisas que passavam. Atravessava-se a ponte e em baixo o rio serpenteava, na sua pequena corrente, contorcendo-se suavemente por entre as rochas arredondadas e macias. Por vezes ouviam-se os pequenos sons das coisas a crescer. Agora vê-se uma pequena mansão apodrecida, com as suas venezianas partidas, as colunatas sem tinta e os muros negro-acinzentados a desmoronarem-se. A praça principal está deserta. Apenas alguns campos estão cultivados. Os casebres do velho bairro operário estão abandonados, expondo a madeira seca, os tijolos rachados, os ratos e as aranhas sobre os sobrados esventrados. Tudo murcha com o estio. Os gatos dormem ao sol. E os velhos dentro dos quartos ressonam atrapalhados com medo de não acordarem. Fui até à orla da floresta para ouvir o barulho das árvores. E depois o seu silêncio. Mais tarde sentei-me na cadeira que era do pai, junto à porta, e pus-me a ouvir a chuva. Senti atrás de mim a presença da minha mãe, a sorrir, descansando as mãos nos meus ombros. A mãe contava-me pequenas narrativas sobre as pessoas que tinha conhecido. Foi com ela que aprendi a metamorfose das histórias. Depois as alegrias começaram a transformar-se em desastres, limitados pelo canto dos rouxinóis e das cotovias. Diziam que para voar, bastava distender as asas. Eu acreditei. Nunca sabemos onde os inimigos se refugiam. Há sempre o caminha da ida. Mas nem sempre damos com o caminho de volta. Essa é a inquietação mais difícil de definir. Fugir não é fácil, difícil mesmo é saber para onde. Dentro das grandes mãos do pai, não cabia a realidade. Costumava rasgar a decisão anteriormente tomada com a gravidade dos seus gestos. Acreditei que dispunha do vento, do sol e que arranjava as asas dos pássaros feridos e que conseguia pintar as tardes de azul. Aprendi então que é difícil caminhar no meio da multidão. O que nos salvou de morrer afogados foram os imprevistos com que aprendemos a funcionar. Depois os dias foram trespassados pela utilidade. E nas varandas começaram a misturar-se as roupas velhas e as gaiolas e os frutos e as flores cheias de cor e de outras bonitas inutilidades. E os homens tropeçaram noutros homens e nas pedras da eira e nos regos das terras e nas suas próprias origens. As formigas ficaram ofuscadas com a comida abandonada, com os animais mortos, com os desertos dentro dos homens incertos e com as irregularidades do soalho. Fui uma criança completamente imersa na incerteza da infância. Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez. Mesmo os amores. E até os enganos. E as obrigações. O tempo tinha o esplendor da inexistência. Podia brincar sozinho com a tarde, pisar a neve com os pés, andar sobre a terra com as sandálias de Moisés, como nos ensinava a catequista. E o mar era Deus que abria os braços e nos engolia. Compreendo agora a velha tentação de espreitar as cansadas estações das ambulâncias e as passagens de nível que pareciam a prova oral da desistência. Sentia falta de ar e o devido apoio para o meu olhar inocente. Os gritos da mãe atingiam a velocidade da loucura. Lá fora iniciavam-se metodicamente as manhãs e tudo ficava um pouco da cor do vento.

22
Fev21

529 - Pérolas e Diamantes: A incomodidade da sabedoria

João Madureira

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Diziam os persas que a essência da arte da política é saber quando não se deve fazer nada.

 

Afirmam que as sociedades ocidentais, para nosso orgulho e bem-estar, são democracias. Mas, quando se olha bem para elas, são muito mais parecidas com as velhas oligarquias do que com democracias genuínas.

 

Nos templos modernos, tal como nos antigos, as sacerdotisas continuam a dançar com os eunucos. Mas desenganem-se, nem sempre é fácil dizer quais são as sacerdotisas e quais são os eunucos, pois todos estão vestidos de mulher. Na verdade, os eunucos conseguem até vestir-se melhor do que as sacerdotisas.

 

Só que naquela altura a coisa fiava mais fino. Em Sardis, e na mesmíssima Babilónia, no dia da deusa Cibele, os jovens que desejavam servi-la, cortavam os genitais e corriam pelas ruas com as partes arrancadas na mão. No final da corrida, já exaustos, os eunucos voluntários lançavam os seus genitais cortados para dentro da porta aberta de uma casa, cujo dono era então obrigado a recolher a criatura e a tratá-la até ela recuperar completamente.

 

Relatos desta loucura asseguram que os jovens tinham aspeto de loucos, provavelmente porque primeiro bebiam haoma ou outra substância alucinogénia, como o mel da Cólquida, que produzia alucinações.

 

As nossas antigas gentes possuíam uma indolência inata, mas quando as picavam eram muito dadas a ataques de violência, especialmente a gente do campo, quando abusava da pinga.

 

Os mais sábios Reis tinham como seus assistentes surdos-mudos, para poderem falar à vontade quando recebiam gente importante. E nunca substituíam nada nem ninguém de que gostassem.

 

Como todos os outros, eram incapazes de desfazer feitiços que desconheciam. Mas para continuar em frente é necessário instruir tanto os nossos como os outros magos. Quem tem a capacidade de ouvir os oráculos é sempre capaz de influenciar o líder contra o verdadeiro inimigo. Mesmo contra os que se fazem de amigos imprescindíveis.

 

E sempre necessário exorcizarmos os demónios. Não é tarefa fácil importunar o Senhor da Sabedoria.

 

Os chefes impacientes preferem as declarações inequívocas dos deuses às perguntas dos profetas.

 

Gostar ou não gostar das profecias não tira nem põe. Há sempre outras de que gostamos ainda menos.

 

Já os secretários são especialistas em deslizarem rápidos como serpentes, quando o líder concede uma audiência particular que não passou pelo protocolo.

 

Aos que conspiram – e eles são sempre muitos – deixo-lhes aqui um conselho de graça: a  preocupação não deve assentar na descoberta da conspiração dos outros, mas antes na forma como podereis esconder melhor a vossa.

 

As conspirações tornam os homens azedos e desconfiados. E o poder cega.

 

Causa certa estranheza estarmos presos à nossa própria liberdade.

 

A coragem dos portugueses está sempre a escapulir-se pelas nesgas do medo ancestral.

 

Claro que há sempre a possibilidade de recorrermos à bruxaria, mas ela só dá resultados para os nativos. O efeito de ver através dos corpos opacos, como o fazia Blimunda, apenas resulta em Portugal. Fora de portas, o poder evapora-se.

 

A nossa inteligência fica em suspensão sempre que nos pomos a ruminar nas tragédias pátrias ou estamos à beira de tomarmos decisões. O adormecimento nacional tem séculos.

 

Apesar da fanfarronice, os portugueses têm medo dos chefes.

 

Apesar de séculos de lutas e ódios, de amores e desgraças e das lições que aprendem no presente sobre o passado, os portugueses cometem sempre os mesmos erros e praticam alegremente as mesmas virtudes.

 

Passam a vida entre intrigas e amuos.

 

Nós sempre sofremos em bruto, como as pedras arrancadas à pedreira, amarrados às tradições que passaram de geração em geração, sempre com medo da modernidade.

 

A nossa modernidade é apenas de faz-de-conta.

 

O que mais apreciamos nas festas é o fogo de artifício. Somos doudos por fogo, por ver o seu estrelejar e escutar o seu ribombar ensurdecedor.

 

Para a grande maioria dos portugueses, a realidade não tem sonhos, apenas dividendos.

 

A verdade é que é incómodo saber-se demasiado.

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