Poema Infinito (549): Abandono

Várias pessoas passam deixando atrás de si o ar vazio de onde surgem borboletas voltejando em círculos, golpeando o vácuo. As pessoas parecem bonecos de corda. Charlie Chaplin continua a cair lá do alto em círculos. Continuo a ver tudo o que passa em frente da janela. As sombras ficaram mais nítidas nas paredes, como se fossem arcos elétricos. Mas permanecem imóveis o tempo todo. Certos sons e movimentos continuam a assustar os pássaros. Alguém toca Fur Elise no piano elétrico do vizinho. Sou capaz de me ver sem precisar de espelho. Aos solitários só lhes resta aprender a viver com a sua própria solidão. É o solipsismo das nossas imagens aquilo que nos derrota. O eco de uma solidão é outra solidão. O tempo acaba sempre por nos aprisionar. A bem ou a mal. Tudo muda, até os lugares eternos. Todos sabemos agora que o caos é normal. O problema é quando os dybbuk se libertam do código. “Na nossa marcha ecoa a mensagem.” Deus adora o seu metrónomo. A rima da sua cantata universal é ridícula. Os deuses são sempre uma espécie de eclipse. Deus gosta de empurrar os jardineiros mais dedicados para dentro dos seus próprios canteiros de lírios. As diferenças explicam tudo, mesmo aquilo que não tem explicação. Por vezes sinto os raios de sol entrarem pela janela e atacarem a minha pele branca. O amor dos possessivos nunca fez bem a ninguém. Alguém toca no piano elétrico do vizinho Fantasia sobre as ruínas de Atenas, do mestre Beethoven. O que é ainda mais estranho. O ar didático da virtude torna tudo mais aborrecido. Depois transforma-se numa espécie de dor enrodilhada na verdade. A história das mães dedicadas é o silêncio. Tudo resulta do seu amor furioso. Os amores loucos são os mais difíceis de representar. Os filhos mais amados costumam morrer com velas brancas nas mãos. A ironia costuma cuspir toda a tragédia da vida. As flores morreram, as folhas caíram, as árvores tornaram-se velhas e ficaram despidas. Chegou a neve e o frio. O céu ficou negro pelo meio das vidraças. No céu veem-se agora três estrelas. Na rádio, uma voz calma de homem lê as notícias. Uma neblina luminosa paira sobre o rio. Daqui não consigo discernir a água. Estes dias são difíceis, chega o crepúsculo antes mesmo do dia começar. O silêncio do pai ficou estampado nas suas poucas fotografias. Por não ser fisicamente agressivo, eu passava a maior parte dos jogos sentado no banco, com o equipamento vestido. Não me importava. O pai olhava para mim e sorria. Por alguma razão ele pronunciava as palavras com uma certa timidez. Eu era bom a capar o rio porque gostava de ver o seixo a saltar-saltar-saltar por cima da água. Um céu de nuvens cinzentas pesa sobre as serras. Procuro a verdade de onde vim. E para onde vou voltar. Há na minha maneira de ser diferente uma parecença que me aproxima definitivamente da igualdade. O fogo provocado pela luz nos vitrais apagou-se com a chegada da noite. A eternidade muda conforme a contestação. Estou em crer que foram os discípulos de Jesus que trocaram o nome dos peixes. A partir daí os homens ficaram mais perto do chão e as praias encheram-se de ondas. E as almas ficaram à flor da pele. No seu primeiro olhar sobre a Terra, Deus desenhou-lhe a curvatura. E enfiou o seu primogénito no labirinto do monte das oliveiras. Depois criou a sensação desagradável do abandono.










