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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

18
Fev21

Poema Infinito (549): Abandono

João Madureira

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Várias pessoas passam deixando atrás de si o ar vazio de onde surgem borboletas voltejando em círculos, golpeando o vácuo. As pessoas parecem bonecos de corda. Charlie Chaplin continua a cair lá do alto em círculos. Continuo a ver tudo o que passa em frente da janela. As sombras ficaram mais nítidas nas paredes, como se fossem arcos elétricos. Mas permanecem imóveis o tempo todo. Certos sons e movimentos continuam a assustar os pássaros. Alguém toca Fur Elise no piano elétrico do vizinho. Sou capaz de me ver sem precisar de espelho. Aos solitários só lhes resta aprender a viver com a sua própria solidão. É o solipsismo das nossas imagens aquilo que nos derrota. O eco de uma solidão é outra solidão. O tempo acaba sempre por nos aprisionar. A bem ou a mal. Tudo muda, até os lugares eternos. Todos sabemos agora que o caos é normal. O problema é quando os dybbuk se libertam do código. “Na nossa marcha ecoa a mensagem.” Deus adora o seu metrónomo. A rima da sua cantata universal é ridícula. Os deuses são sempre uma espécie de eclipse. Deus gosta de empurrar os jardineiros mais dedicados para dentro dos seus próprios canteiros de lírios. As diferenças explicam tudo, mesmo aquilo que não tem explicação. Por vezes sinto os raios de sol entrarem pela janela e atacarem a minha pele branca. O amor dos possessivos nunca fez bem a ninguém. Alguém toca no piano elétrico do vizinho Fantasia sobre as ruínas de Atenas, do mestre Beethoven. O que é ainda mais estranho.  O ar didático da virtude torna tudo mais aborrecido. Depois transforma-se numa espécie de dor enrodilhada na verdade. A história das mães dedicadas é o silêncio. Tudo resulta do seu amor furioso. Os amores loucos são os mais difíceis de representar. Os filhos mais amados costumam morrer com velas brancas nas mãos. A ironia costuma cuspir toda a tragédia da vida. As flores morreram, as folhas caíram, as árvores tornaram-se velhas e ficaram despidas. Chegou a neve e o frio. O céu ficou negro pelo meio das vidraças. No céu veem-se agora três estrelas. Na rádio, uma voz calma de homem lê as notícias. Uma neblina luminosa paira sobre o rio. Daqui não consigo discernir a água. Estes dias são difíceis, chega o crepúsculo antes mesmo do dia começar. O silêncio do pai ficou estampado nas suas poucas fotografias. Por não ser fisicamente agressivo, eu passava a maior parte dos jogos sentado no banco, com o equipamento vestido. Não me importava. O pai olhava para mim e sorria. Por alguma razão ele pronunciava as palavras com uma certa timidez. Eu era bom a capar o rio porque gostava de ver o seixo a saltar-saltar-saltar por cima da água. Um céu de nuvens cinzentas pesa sobre as serras. Procuro a verdade de onde vim. E para onde vou voltar. Há na minha maneira de ser diferente uma parecença que me aproxima definitivamente da igualdade. O fogo provocado pela luz nos vitrais apagou-se com a chegada da noite. A eternidade muda conforme a contestação. Estou em crer que foram os discípulos de Jesus que trocaram o nome dos peixes. A partir daí os homens ficaram mais perto do chão e as praias encheram-se de ondas. E as almas ficaram à flor da pele. No seu primeiro olhar sobre a Terra, Deus desenhou-lhe a  curvatura. E enfiou o seu primogénito no labirinto do monte das oliveiras. Depois criou a sensação desagradável do abandono.

15
Fev21

528 - Pérolas e Diamantes: O sentido vigoroso da existência

João Madureira

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A nossa sociedade ainda continua a viver dominada pelos homens, e mulheres, que mascaram os seus objetivos mundanos através da piedade e do pedigree. Podem já não saber dançar a valsa, mas salvam as aparências nos convívios de verão dançando Talking Heads. A sua astúcia dirige-os para os campos de golfe, onde se disfarçam de Tintins a massacrar as bolas de golfe contra os torrões dos greens.

 

Andam sempre carregados de artifícios genuínos. É a sua herança de família. Só os tolos desprezam a sabedoria e a instrução. Dizem ver os rostos dos seus antepassados nas nuvens, na terra e nos sonhos. Por vezes perdem-se nas montanhas, nos fins de semana antes de se dirigirem aos bancos para se inteirarem do pecúlio. Estão constantemente encurralados na distinção das profundezas.

 

Muitas das fortunas foram-se exaurindo. Mas a gestão dos seus interesses continua a ser vital para evitar a decadência. Uma coisa agora é certa: ninguém questiona as suas origens.

 

A nós, os outros, só nos resta adormecer a mente com o trabalho, assumir o ritmo da produção, encontrar o sentido vigoroso da existência e construir o sentido para a cantilena da tal vila morena que já começa a nausear.

 

Eu, particularmente, detesto os coros que repetem cada verso.

 

Passamos da ditadura do tédio (como gostava de a caraterizar Manoel de Oliveira) para a democracia do ecstasy.

 

Na mesa do poder, há sempre mais pessoas que assentos. Cá em baixo, no átrio à volta da fogueira, posicionam-se os mais modestos, onde lhes dão instruções para comer e rezar. Pode mudar a letra da oração, mas o sentido é sempre o mesmo.

 

Junto à fogueira, todos estendem as mãos para as aquecerem.

 

Mas, como desabafava Dom Payo, ou Dom Pêro, através da imaginação folgada de Ruben A., na Barbela Grande são os burros os que ocupam os lugares mais importantes da gerência.

 

Continuamos a viver de uma mistura fina de boatos. O mito disfarça a exploração. Todas estas histórias da bondade alheia são narrativas defeituosas, propaladas de geração em geração.

 

Nestas coisas, como muito bem dizia Orson Welles, ter ou não ter um final feliz depende de onde decidas terminar a história.

 

Por alguma razão será que os principais conceitos que regem a sociedade pós-moderna se baseiam na nostalgia e no narcisismo. Basta ver os perfis do Instagram e visitar as lojas de roupa.

 

Uma coisa é o que se pensa e outra aquilo que se faz. Fala-se muito, conversa fiada por tempos infindos, discute-se, assentam-se decisões, e, no fim, conclui-se que nada se passou. A convicção é a de que quem fala é a mesma gente que escuta. Os monólogos dominam o entusiasmo, os egoísmos e as exigências primárias. Para o bem e para o mal, o que resta é a prata da casa.

 

Pelo que vejo, leio e escuto, a mentira dita por um político, ou por um banqueiro, pertence a uma classe diferente de falsidade. 

 

São como os bons pescadores de trutas e de tretas.

 

A verdade é que a fantasia e os sonhos já se foram.

 

Há por aí muito entendido que defende a tese de que mais vale um país com nível de vida baixo do que perturbações provocadas por uma desenfreada melhoria das condições económicas da maioria.

 

Pobretes, mas alegretes.

 

Do ponto de vista energético, a população bem que podia viver de batatas, leguminosas, bacalhau e vinho tinto.

 

A vida da grande maioria é deixar lugar aos outros para avançarem.

 

O povo, já um pouco mais alfabetizado, percebe metade das palavras daqueles que lhe falam e sonham o resto.

 

São os que falam quem acaba por vencer, pois utilizam a tática do massacre que consiste em repetir os mesmo argumentos ad nauseam.

 

Nós acreditamos neles porque também acreditamos no Pai Natal. Apesar de sabermos que são os pais que dão as prendas, gostamos, e ensinamos a gostar, da crença no Papá Noel.

 

E a Torre do Castelo com tantos metros de altura para que serve? Apenas para subir e ver as vistas. E também para as pombas pousarem e ciscarem nas suas ameias.

 

E os verdadeiros autarcas lá continuam na sua lufa-lufa: enviar e-mails, telefonar aos senhores ministros ou secretários de estado, ditar relatórios e ver e estudar estatísticas para orientar e corrigir os pormenores de última hora dos documentos mais urgentes. Sempre a pensarem na comodidade do lar e na vida familiar dos seus munícipes.

 

Leem também os jornais, programam entrevistas e dão uma palavrinha para as rádios e para as televisões locais ou regionais, que ajudam a manter.

 

A interioridade tem de ser financiada.

11
Fev21

Poema Infinito (548): O descontrolo da terra

João Madureira

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Depois do descontrolo da terra, surge a necessidade da água. O rio reluz numa doce fita líquida. Posteriormente falamos sobre o silêncio. Sobre a sua máxima necessidade. Ambiciono a posição das árvores que ficam do outro lado do tempo, onde as pedras possuem movimento e onde o trigo ondula ao contrário. As dúvidas estendem-se sobre as estradas e o vento demora a soprar. Os rostos dizem-nos incessantemente para esperar e as mãos continuam vazias de estrelas. Essas mãos cheias de calos e de rugosidades que chegaram a quebrar a luz e a encobrir a morte. Também eu já tive a minha hora profunda de vão catolicismo e também fui um homem sem cais, por falta de mar. Fui mais um a encher a barca de Noé dos vencidos do catolicismo e do islamismo. Deus gosta de nos abandonar logo no primeiro cais de desembarque. Custa ser o insalubre desprestidigitador do nosso prestígio. As mulheres mais velhas eram recortadas por vidraças foscas e por portas pintadas do verde das oliveiras enquanto viam os seus homens a pitar a lenha no quintal ou a ver a chuva cair, tão solitárias elas como os vidros e como os homens que costumavam pensar em coisas más. A sua felicidade era feita de ermos e corgos e de regos e de capelinhas onde observavam a beleza decadente do pôr do sol. As suas vozes soavam sempre a uma espécie de solidão escondida na adega entre as batatas, as maçãs e as pavias. Há agitação que se insinua por fora, mas a paz vem de dentro. A paz vem-nos da terra. Anunciam-se novos calendários da insurgência. Novas primaveras em striptease, novos tiques de rosto, novas estações do ano. Isso de os poetas morrerem pela pátria acabou com Camões. Os novos fazedores de versos começaram a estudar a gramática para depois a rejeitarem. Começaram então a escrever lindos compêndios de álgebra que eram como estéticos artefactos de artilharia. Faltou-lhes também a voz, apesar de se borrifarem com aromáticas águas de colónia. A voz é a beleza dos tartufos de outrora. A crítica também pode ser um vício. São numerosas as aves que se avistam aqui de cima, voando sobre as encostas. As sombras das nuvens parecem véus deitados sobre os campos. Está é a grande arte da natureza. Tudo é fruto do acaso. Voltou o medo que decepa os homens e as árvores. E os versos dos poetas. Já ninguém consegue comer o maná do deserto. Nem os hebreus, nem os filisteus. Deus ressuscitou pela mão dos literatos. As palavras vêm à superfície das águas. Muitas ficam translúcidas. A terra parece um campo raso de silêncio e solidão. As ovelhas retalham os outeiros. Uma mãe aperta o seu filho no colo. No Natal, dentro dos templos e das casas, a devoção e o carinho multiplicavam as luzes e os olhares. A neve dava-nos uma terna sensação de segurança. Os sinos eram objetos úteis e não matéria de esquecimento. O pai costumava descer da camioneta ao fim da rua. Quando acendia o cigarro parecia um ator de cinema francês, metido no seu capote azul. O vento norte cortava o luar em fatias frias. As luzes alinhavam-se na superfície negra do rio. As raparigas alisavam o cabelo como se fossem namorar. Até se embelezavam como se nos seus sonhos pudessem encontrar o seu príncipe encantado. Pareciam ter uma espécie de luz na fronte. Algumas fugiram para longe. Depois comíamos o bacalhau e o polvo e tudo parecia ser o paraíso.

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