527 - Pérolas e Diamantes: À beira do colapso

Vivemos num mundo deslumbrantemente medíocre. Todas as celebridades são valorosamente tragicómicas.
Vivemos nesta aldeia global à beira do seu colapso moral e espiritual. Por isso é extremamente difícil separar os factos da ficção.
A alienação é transcontinental.
A contemporaneidade é uma espécie de fake news, derivada do pós-liberalismo e da pós-verdade. É o próprio conceito de realidade que se desintegra.
Parece que estão de volta os criacionistas, apesar de Darwin ter provado que as espécies evoluem organicamente ao longo do tempo através da seleção natural.
Uma coisa temos como certa: a grande maioria dos vencedores de prémios Nobel é agnóstica e ateia, incluindo Einstein e Hawking. Na verdade não há pior cego do que aquele que não quer ver.
Por nós tudo bem. O amor pela televisão acéfala continua em alta. Devoram-se os programas matinais, os programas diurnos e noturnos, as comédias de costumes, as telenovelas, os dramas hospitalares, as séries policiais com narcotraficantes, com zombies e vampiros e os concursos de canto, culinária, jogos de bola e uma infinidade de minudências que provocam pequenas deslocações da retina.
Isto resulta sempre em distúrbios psicológicos que tornam indefinida a fronteira entre a verdade e a mentira.
Qualquer dia vamos todos parar aos domínios de Oz, território atabalhoado de empreiteiros cheios de pressa a entrar e a sair dos gabinetes dos distintos autarcas espalhados por esse Portugal fora.
A gravitas social é agora conferida pelas dádivas e contribuições realizadas para as instituições denominadas de solidariedade social e para os partidos políticos.
A verdade, verdadinha, é que com esses atos altruístas de subsidiar os cavaleiros que procuram o santo Graal, se atinge a nobreza da redenção.
Também continua a ser verdade que por vezes entramos nas coisas mais depressa do que é nossa intenção.
Estou em crer que a corrupção é uma espécie de excesso de generosidade. Na gestão da Polis, tudo pode acontecer: os velhos amigos podem tornar-se novos inimigos e os inimigos de estimação podem passar a ser os verdadeiros compinchas.
Ninguém consegue prever o resultado das eleições. Uma palavra mal dada ou uma proposta generosa de auxílio rejeitada por um excesso de zelo pode colocar os do poder atual novamente na oposição. E isso ninguém quer.
As palavras podem perder o seu significado e adquirir outros novos. A democracia é um espaço criativo e dinâmico.
A verdade é que há cada vez mais animais domésticos para adoção.
Apesar das promessas, a verdade é que grande parte dos portugueses tem uma saúde periclitante e uma conta bancária frágil.
Uma coisa sei de ciência certa: ter fé nos políticos é como acreditar no poço dos desejos e que os seus princípios ocultos se podem transformar em milagres possíveis.
Afinal, pergunto eu, o que é que ganhamos em tentar acreditar nestes senhores que vestem fatos domingueiros diariamente, falam daquilo que não sabem e prometem aquilo que não têm?
Dizem-se visitantes do futuro, mas apenas conseguem ser filhos, ou netos, do passado.
Treinaram muito para os papéis de herói, super-herói e anti-herói.
Alguns até concebem boas ideias, mas depois ficam com medo delas.
O melhor mesmo é ir à caça da chuva de meteoros. Os gambozinos são já uma espécie extinta devido à minha geração. Caçamo-los todos de forma obsessiva, mas exemplar. Em alguma coisa tínhamos de ser bons.
Primeira evidência: a democracia é corruptível.
Os que a servem (ou que se servem dela, pois vai tudo dar ao mesmo) creem que o mundo tem significado, mas que esse significado se situa ao nível do oculto, daí ser hostil e inacessível ao comum dos mortais.
Quando as coisas se tornam sérias, costumam correr para a frente, pois, dadas as suas novas circunstâncias, já não se podem esconder. Por isso fazem lindos discursos, sempre com a intenção de fugir à verdade.
Por vezes também ficam em silêncio, usando-o como um aspirador que suga os segredos: a Maçonaria, ou a Opus Dei, a isso obriga.
Gostam de se dar ares de que são os únicos que sabem aquilo que devem saber.
A base da sua educação sentimental foi alicerçada na leitura dos Cinco ou da Anita.
Os novos dirigentes democratas, ao contrário dos seus antecessores que se fizeram homens, ou mulheres, a soletrar resumos da vulgata marxista, cresceram a querer conhecer os ingredientes secretos da Coca-Cola.
E isso faz toda a diferença.
Querer ser rico é bom. É até muito bom. E a política ajuda.
Para alguma coisa tem de servir. A política.








