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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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08
Fev21

527 - Pérolas e Diamantes: À beira do colapso

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

Vivemos num mundo deslumbrantemente medíocre. Todas as celebridades são valorosamente tragicómicas.

 

Vivemos nesta aldeia global à beira do seu colapso moral e espiritual. Por isso é extremamente difícil separar os factos da ficção. 

 

A alienação é transcontinental.

 

A contemporaneidade é uma espécie de fake news, derivada do pós-liberalismo e da pós-verdade. É o próprio conceito de realidade que se desintegra.

 

Parece que estão de volta os criacionistas, apesar de Darwin ter provado que as espécies evoluem organicamente ao longo do tempo através da seleção natural.

 

Uma coisa temos como certa: a grande maioria dos vencedores de prémios Nobel é agnóstica e ateia, incluindo Einstein e Hawking. Na verdade não há pior cego do que aquele que não quer ver.

 

Por nós tudo bem. O amor pela televisão acéfala continua em alta. Devoram-se os programas matinais, os programas diurnos e noturnos, as comédias de costumes, as telenovelas, os dramas hospitalares, as séries policiais com narcotraficantes, com zombies e vampiros e os concursos de canto, culinária, jogos de bola e uma infinidade de minudências que provocam pequenas deslocações da retina.

 

Isto resulta sempre em distúrbios psicológicos que tornam indefinida a fronteira entre a verdade e a mentira.

 

Qualquer dia vamos todos parar aos domínios de Oz, território atabalhoado de empreiteiros cheios de pressa a entrar e a sair dos gabinetes dos distintos autarcas espalhados por esse Portugal fora.

 

A gravitas social é agora conferida pelas dádivas e contribuições realizadas para as instituições denominadas de solidariedade social e para os partidos políticos.

 

A verdade, verdadinha, é que com esses atos altruístas de subsidiar os cavaleiros que procuram o santo Graal, se atinge a nobreza da redenção.

 

Também continua a ser verdade que por vezes entramos nas coisas mais depressa do que é nossa intenção.

 

Estou em crer que a corrupção é uma espécie de excesso de generosidade. Na gestão da Polis, tudo pode acontecer: os velhos amigos podem tornar-se novos inimigos e os inimigos de estimação podem passar a ser os verdadeiros compinchas.

 

Ninguém consegue prever o resultado das eleições. Uma palavra mal dada ou uma proposta generosa de auxílio rejeitada por um excesso de zelo pode colocar os do poder atual novamente na oposição. E isso ninguém quer.

 

As palavras podem perder o seu significado e adquirir outros novos. A democracia é um espaço criativo e dinâmico.

 

A verdade é que há cada vez mais animais domésticos para adoção.

 

Apesar das promessas, a verdade é que grande parte dos portugueses tem uma saúde periclitante e uma conta bancária frágil.

 

Uma coisa sei de ciência certa: ter fé nos políticos é como acreditar no poço dos desejos e que os seus princípios ocultos se podem transformar em milagres possíveis.

 

Afinal, pergunto eu, o que é que ganhamos em tentar acreditar nestes senhores que vestem fatos domingueiros diariamente, falam daquilo que não sabem e prometem aquilo que não têm?

 

Dizem-se visitantes do futuro, mas apenas conseguem ser filhos, ou netos, do passado.

 

Treinaram muito para os papéis de herói, super-herói e anti-herói.

 

Alguns até concebem boas ideias, mas depois ficam com medo delas.

 

O melhor mesmo é ir à caça da chuva de meteoros. Os gambozinos são já uma espécie extinta devido à minha geração. Caçamo-los todos de forma obsessiva, mas exemplar. Em alguma coisa tínhamos de ser bons.

 

Primeira evidência: a democracia é corruptível.

 

Os que a servem (ou que se servem dela, pois vai tudo dar ao mesmo) creem que o mundo tem significado, mas que esse significado se situa ao nível do oculto, daí ser hostil e inacessível ao comum dos mortais.

 

Quando as coisas se tornam sérias, costumam correr para a frente, pois, dadas as suas novas circunstâncias, já não se podem esconder. Por isso fazem lindos discursos, sempre com a intenção de fugir à verdade.

 

Por vezes também ficam em silêncio, usando-o como um aspirador que suga os segredos: a Maçonaria, ou a Opus Dei, a isso obriga.

 

Gostam de se dar ares de que são os únicos que sabem aquilo que devem saber.

 

A base da sua educação sentimental foi alicerçada na leitura dos Cinco ou da Anita.

 

Os novos dirigentes democratas, ao contrário dos seus antecessores que se fizeram homens, ou mulheres, a soletrar resumos da vulgata marxista, cresceram a querer conhecer os ingredientes secretos da Coca-Cola.

 

E isso faz toda a diferença.

 

Querer ser rico é bom. É até muito bom. E a política ajuda.

 

Para alguma coisa tem de servir. A política.

04
Fev21

Poema Infinito (547): A cantiga triste da avó

João Madureira

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O verão desgastou tudo. Chegou outubro. Uma espécie de paz caiu sobre este pequeno mundo. O caos do tempo ficou em ordem. Um bando de pardais voou da árvore. Um tartaranhão voou com eles e, depois, mergulhou. É difícil segurar as palavras para não perturbar o silêncio. O outono transformou-se em inverno. E os dias ficaram cinzentos e frios. E as noites solitárias e azuis. Lembro-me de como olhávamos para o fogo da lareira, bebendo aguardente e café, o pai fumando e a mãe bordando. Muitas árvores caíram por não terem quem cuidasse delas. Recordo-me da avó. O resto é neblina. As noites de inverno são muito compridas. A verdade é que nós devemos contar as nossas próprias histórias e não ser iludidos por elas. Um velho gato persegue um pardal com o olhar. Não tarda em caçá-lo. Sobre a mesa, o cavalo que o padrinho João Lorde esculpiu em madeira, e me deu num dia de anos, brilha à luz concentrada do som que entra pela janela. Pego nele e acaricio-o. Lembro-me que a avó cantava para ganhar coragem em conseguir viver depois da morte do avô. A avó costumava dizer que todos os seres humanos nascem vestidos de céu. E que o ódio é o amor dos fracos. Lá fora prossegue a inexorável devastação das folhas e os incidentes sucedem-se e os últimos vestígios parecem lâminas a fatiarem as memórias e a saudade. Tomba a chuva teimosamente oblíqua. Até as lebres estão fustigadas pelo medo que lhes provoca as ausências. Foi lenta a aprendizagem dos gestos necessários à sobrevivência. A paciência é uma ave que não consegue levantar voo. O vento arranjou um novo itinerário. Já não há na casa passos apressados. Tudo é agora tão lento. Temos de arranjar um novo horário para o esquecimento. As mãos parecem enormes quando tocam nas pequenas coisas. Os gestos cautelosos crescem em círculos. A ironia ganhou um diferente tipo de acessibilidade. E distância. Tenho as mãos cheias de névoa. Acordo com o tempo deitado ao meu lado. Sinto-o como um poema que não faz sentido. O tempo está ali deitado ao lado do gato preto, crescendo por dentro dos sonhos das árvores, cansado da sua imensidão. Lá fora ondulam as searas de centeio e a água do velho moinho passa por ele sem fazer mover a sua mó. As dúvidas são como o musgo, nem perguntam nem respondem. Nascem e morrem cansadas. Na verdade, nem sei dizer porque razão tudo isto continua: o fogo, os horizontes, as aves, a tarde e o seu perpétuo quotidiano, as manhãs de domingo a crescerem como poemas religiosos, as hortênsias, a religião, a caridade profissional, a esquina da rua, o perfume dos afetos, o espelho dos dias, a planície ilimitada da infância, a superfície do tempo, a memória da mãe sentada na primavera, a indiferença dos pássaros, as mãos vazias do esquecimento, a dor permanente das ausências, o brilho dos olhos das vacas, as mãos vazias do amor, a pequenez do nosso destino, o desmoronar dos poentes, o desequilíbrio dos beijos, o desejo dos caminhos, as manhãs sacrificadas pelos vidros das janelas, o envelhecimento dos sentimentos e do amor e da semântica. As nossas lágrimas íntimas deixaram de ser metáforas. Os lugares da memória vão-se enchendo de folhas mortas. Crescem assustadoramente as sombras no pátio. O tempo morde a sua própria cauda. Os homens caem no seu lugar definitivo. Até Deus perdeu o seu próprio emprego definitivo. Agora trabalha a recibos verdes.

01
Fev21

526 - Pérolas e Diamantes: Vários desvios de atenção

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

 

Os ambiciosos são propensos a desconfiar da ambição alheia. E as boas intenções podem dar cabo de uma pessoa.

 

Antigamente, os velhos tinham aspeto disso mesmo. Atualmente, os velhos parecem jovens de meia-idade seminovos.

 

Ao sistema de classes, ao sistema de raças e ao sistema de sexos, agora juntou-se-lhes o sistema de idades.

 

A minha pouca fé é profundamente levítica, limitando-se a consultar o Pentateuco ou as crónicas e os Reis. Eduquei-me a afastar os domingos dos profetas menores.

 

O desagradável no catolicismo é que faz com que as pessoas se sintam culpadas por tudo e por nada.

 

Agora aos domingos leio os jornais, bebo copos de água, se me ataca a sede, e vou passear até ao jardim, se o dia se apresentar radioso e alegre.

 

Lembro-me de quando era pequeno construir, junto ao rio, pequenos castelos de terra, cujas muralhas eram feitas de seixos planos enterrados em estratégicos montes de areia.

 

Quando o vento começava a soprar de norte, sentia que era a hora de deixar a brincadeira e ir para casa. Punha-me de pé, sacudia a areia da roupa e perguntava-me se devia destruir o castelo com um pontapé ou deixá-lo intacto.

 

Aprendi a amar as manhãs frias de inverno e as manhãs claras da primavera. E também aprendi, com algum desalento e mágoa, que há gente que não vale sequer o pó que levanta ao passar. Costumam rir como as hienas.

 

O poder baseia-se na aprendizagem dos artifícios para roubar como se não se roubasse, transformando depois essa ação em caridade, agora denominada eufemisticamente como solidariedade.

 

Esta nossa civilização usa uma máscara muito fina. Os traços de humor podem mudar, já os que definem a personalidade são quase imutáveis. Mas a memória do respeito impõe as suas regras.

 

A nossa nova sociedade está a esvair-se em abortos espontâneos. Ou, quando a coisa é séria, surgem as gravidezes de trigémeos.

 

Freud, Horney, Reich são a explicação para as nossas aberrações reprimidas. Tememos sempre ser atraídos pela loucura.

 

Por vezes, as rajadas de vento sopram em todas as direções. A sensação de nervosismo costuma tocar-nos o peito.

 

Desconfio de quem anda com uma tesoura de podar e não tem árvores para definir o desejo.

 

Será que a negligência é um desvio de atenção?

 

Não há seguros tão extensos que cubram atos negligentes e também atos divinos.

 

Os homens não são santos nem heróis. Em Portugal, a realidade costuma fraturar-nos as convicções, devido, sobretudo, à força obstinada e cega da mediocridade. São raros os atos de decisão acertada e de audácia. Por cá, o triunfo só se conquista com astúcia, moldando o pensamento à mediocridade alheia, onde é necessário fingir, sorrir e calcular cada passo no chão movediço onde nos movemos.

 

Não nos devemos empenhar na nossa própria demolição. Não devemos gastar em vão os gestos e os sonhos.

 

Os velhos republicanos bem tentaram dar o exemplo. Teófilo Braga, enquanto chefe do governo, ainda valeu aos homens do velho regime que estavam no estrangeiro. Não fosse ele e “tomavam-nos por apaches”.

 

Já velho, era ainda o agressivo resistente e o mesmo teimoso dos tempos de juventude. A ele tanto lhe dava ser pobre como rico. Depois de deixar o poder, os seus antigos camaradas já não o procuravam. Mas ele lá continuava a tomar o seu café aquecido num candeeiro a petróleo.

 

Viveu sempre agarrado aos seus livros, às suas ideias e à sua obra. Unamuno dizia que ela tinha três metros de profundidade. Já os seus princípios atingiam o tamanho e a majestade duma árvore secular.

 

Nesse tempo os intelectuais sofriam horrores. Por exemplo, soube através das memórias de Raul Brandão um facto interessantíssimo: Júlio Dinis morreu virgem. Tinha-se apaixonado por uma prima e teve um enorme desgosto quando ela se casou. Morreu vítima de tuberculose, com 31 anos.

 

Já o poeta Joaquim de Araújo matou-se com um tiro de revólver no coração. Dizem que foi vítima do típico romance de amor. Durante anos escreveu a uma estrangeira, polaca, cartas de amor. Depois conheceram-se e casaram. Só que, passados alguns dias, ela abandonou-o e fugiu.

 

Bem, isso foi o que os jornais contaram. Mas Raul Brandão veio desdizer as notícias porque francamente exageradas. “O pobre Joaquim de Araújo não morreu: salvou-se para a loucura. Está internado num hospital de Lisboa.”

 

 

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