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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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31
Mar21

Poema Infinito (555): Vibrações

João Madureira

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A vibração dos insetos deixou de ser regular. As colinas em volta estremecem com o calor. Cheira a germinação húmida da terra depois da chuva. Sinto os antigos odores da terra lavrada e dos bois suados. O tempo corre com uma lentidão de lesma, acompanhado pelo voo lânguido dos insetos e pelo cantar dos grilos. Memórias flageladas. Ainda oiço o avô resmungar e pressinto a sua agitação nervosa. O seu enorme ressentimento quando não tinha por perto alguém a quem culpar. Ele exigia dos filhos a compensação da sua obediência. A sensação de alívio é intermitente. Aceleram as batidas no peito. É agradável ficar no parapeito rochoso a absorver no corpo os raios de sol. A terra ficou de repente castanha. O sentido das dimensões está a desvanecer-se. A floresta permaneceu fascinante. A sensação de injustiça ficou mais distante. Quase abstrata. A erva ondula e sussurra ao vento. A verdade é que a aldeia está cheia de fantasmas. Os pássaros parecem cansados e tristes como se não quisessem voar para longe. Apanho um que está ferido. Ele agita-se na minha mão. Tenta esvoaçar, mas desiste. Os seus olhos brilham de atenção. Dá-me o pássaro, disse o avô. Eu estendi-lhe as mãos com o pássaro aninhado nelas. Sentia o coração da ave a pulsar. Os seus pequenos olhos moviam-se agitados. A vida tem impulsos estranhos. O avô não sabia se havia de acariciar a sua penugem fina ou se devia esmigalhá-lo entre os dedos. Sentia um impulso. Ele e eu. O nosso equilíbrio estava a tombar. Eu pedi que me o devolvesse. O som da minha voz era de derrota. Tinha a forma de um espasmo. Eu ouvia o grito angustiado do pássaro. A ave agitou-se na palma da mão do avô e ele espremeu-o. O gesto estava imbuído de raiva e náusea. Ele, o avô, atirou com os restos do pássaro para o outro lado do ribeiro. Ele respirou fundo. Eu tremi. Depois até as árvores se calaram. O avô disse então: Um homem é um idiota se não consegue levar as coisas até ao fim. O pássaro tinha a asa partida e, por isso, ia acabar por morrer. Compreendi então o impulso que levou o avô a matar o pássaro. Os cumes dos montes começaram a cercar a clareira. O céu da tarde principiava a tingir-se com os tons dourados do entardecer. A brisa corre agora fresca e faz sussurrar as folhas das árvores. A mãe lembra-nos da chuva que pode vir. As nuvens carregadas começaram a amontoar-se. A saudade pode ser terna. Acordei a meio da noite desamparado. As banalidades tornam a vida irreconhecível. O corpo transformou-se no principal centro de angústia. Reparei então no meu medo. Continuei a olhar a escuridão. Depois envelheci de repente. Atordoam-me as palavras. A maioria delas perde-se na Babel da maioria das conversações e no meio do ruído dos corpos. Era frequente a mãe massajar a dor de cabeça. Andamos sempre a substituir uma frustração por outra. Está tudo coberto pelo tédio e pela rotina, pelos regulamentos e pelas leis. Sinto-me mergulhar nas camadas multiformes da complexidade. O luar ilumina a neblina que continua a baixar sobre a clareira que cobre a folhagem com uma espécie de véu prateado. A terra é estranha, observada de noite. O contrário disto tudo é a apoteose da máquina. A seta do anseio foi disparada por Nietzsche. O tempo passa fazendo apressar o declínio. Continuo a escutar o eco da realidade.

29
Mar21

533 - Pérolas e Diamantes: Não há pai para o coxo...

João Madureira

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Foi com o Zeca Afonso que me desenganei e perdi completamente as esperanças de atribuir aos escritores e cantores qualquer papel providencial. Uma vez referiu que se sentia mais como uma Supico Pinto (criadora e dirigente do Movimento Nacional Feminino, no tempo do Estado Novo) de esquerda a distribuir engodos. “Uma vez na Marinha Grande estava eu a cantar ‘Ó meu Portugal tão lindo/ó meu Portugal tão belo/metade é Jorge de Brito/metade é Jorge de Melo’, aparece ao meu lado um espontâneo coxo que à cadência da música atirava a perna incrivelmente longe e gritava: ‘Não há pai para o coxo/não há pai para o coxo.’”

 

Segundo a opinião do Zeca, que eu também partilho, o país real, antes do 25 de Abril, era, afinal, bem diferente do país apregoado e cantado.

 

“Antes do 25 de Abril, nós conhecíamos, de norte a sul do país, as pessoas que se atreviam a lutar realmente contra o regime, e eram de facto muito menos do que se gostava de dizer. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a nossa geração, a minha geração, foi muito castigada, mas eu não penso isso. Mesmo a repressão foi adaptada aos bons costumes deste povo. Não se mata um governante em Portugal há 75 anos”, confessava o Zeca Afonso em 1985. Ora isso diz tudo, pois o nosso regime fascista foi o mais longo da História Contemporânea.

 

Mesmo que não queiramos, por aqui envelhecemos a ser razoáveis. Tal procedimento deixa de ser aprazível e educado para se transformar numa camisa de forças. Alguns pensam-se artistas que envelhecem a cismar na sua obra em que depositam toda a fé e que nunca acabarão por concretizar. Os loucos precisam de liberdade. Por alguma razão, o fascismo português foi deliberadamente conservador e provinciano.

 

Pus-me agora a ler os evangelhos sinópticos e continuo baralhado. As expressões populares do cristianismo, as suas representações e os hinos natalícios misturam-se de tal maneira que só posso achar graça. A graça dos inocentes e dos descrentes em tanta meninice. O Menino Jesus é adorado tanto por pastores (apenas em Lucas 2,8 – 20), como por sábios do Oriente (apenas em Mateus 2,1 – 12). Em Mateus é veiculada a informação de que Maria e José vivem em Belém, onde possuem uma casa, mudando-se mais tarde para Nazaré. Já em Lucas, o casal vive em Nazaré e viaja até Belém, por causa do recenseamento.

 

Existem também discrepâncias assinaláveis nos relatos do julgamento de Jesus, pois Lucas inclui um julgamento perante Herodes, que não existe em Mateus e Marcos.

 

Uma coisa já sabemos: os escritores não são gente de confiança. Nem os mais antigos, nem os outros.

 

O celebrado Charles Baudelaire avisou que o culto da beleza desaparece quando não há aristocracia. Gustave Flaubert escreveu que o ensino laico, gratuito e obrigatório apenas faria aumentar o número de imbecis. E depois da derrota da Comuna de Paris aconselhou que se acabasse “com o sufrágio universal, que é uma vergonha do espírito humano”.

 

Armados com a sua razão, os vencedores erigiram a Basílica do Sacré-Coeur, na colina de Montmartre, para agradecerem a Deus a vitória concedida.

 

O escritor Joseph Conrad escreveu um livro trágico e estranho, intitulado “O Coração das Trevas”, onde Kurtz, nome literário do capitão Léon Rom, distinto oficial das tropas coloniais belgas no Congo, era homem tão distinto que obrigava os nativos a receberem as suas ordens de gatas e a quem chamava de “animais estúpidos”. Na entrada da sua casa, pelo meio das flores do jardim, erguiam-se vinte lanças que completavam a decoração. Em cada uma delas, estava espetada a cabeça de um negro rebelde. E à entrada do seu escritório, entre as flores de outro jardim contíguo, erguia-se uma forca que baloiçava com as refrescantes brisas africanas. Nas suas horas livres, quando não estava a caçar negros ou elefantes, o capitão pintava lindas paisagens a óleo, escrevia poemas e colecionava borboletas.

 

O celebrado coronel Baden-Powell foi, sobretudo, um intrépido combatente de selvagens africanos. Era habilidoso na nobre arte de seguir os rastos das pegadas alheias e apagar as próprias. Diz a história que o fundador dos escuteiros praticou com êxito a caça de leões, javalis, veados, zulus, asantes e ndebeles. Ficou famosa a batalha que travou contra os ndebeles, na África do Sul. Morreram duzentos e nove negros e um inglês.

 

Como recordação, o coronel levou o corno que o inimigo soprava para dar o alerta. Esse corno em espiral, do antílope cudo, foi incorporado nas cerimónias dos escuteiros e passou a ser o símbolo dos rapazes e das raparigas que gostam da vida saudável. Foi também um leitor entusiasta do Mein Kampf.

26
Mar21

História da Espionagem - Notas e relatório confidencial (Agente José Manuel) PARTE IV

João Madureira

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Haiku nº 3: Há uma festa / de cometas / no céu

Entendamo-nos, os serviços de informação da Igreja Católica assentavam em quatro pilares essenciais: o poder confessional; o monopólio do ensino e da literacia; boas comunicações; a Inquisição. Primeiro, os sacerdotes, com os terrores do Inferno, forçavam os pecadores à obediência, depois, através do sacramento da penitência, vulgo confissão dos pecados, estimulavam o fornecimento de informação oportuna sobre as intenções temporais dos homens que podiam, e deviam, ser usadas em benefício da Santa Madre Igreja.

A artimanha consistia na simples teoria de que os pecados – com a indispensável exclusão dos pecados mortais – podiam ser perdoados se fossem confessados a um sacerdote ordenado, através do sacramento da confissão e da penitência. Esta era uma ferramenta extremamente útil, quer na recolha de informações, quer no controlo social. Um confessor ouvia tudo e perdoava muito. Este fabuloso sistema de recolha de informação, estava infiltrado na Igreja desde o topo até às suas bases.

O princípio ideológico, ou deontológico, se os estimados leitores preferirem, era o de que os padres deveriam manter em segredo as revelações feitas no confessionário, mas o sistema tinha uma falha inerente: os padres tinham, eles mesmos, de se confessar. Ou seja, o conhecimento dos pecados cruzava toda a hierarquia da Igreja até chegar a Roma. E Roma sabia que a informação é poder. Mesmo partindo do princípio cristão de que tal não podia acontecer, ninguém é ingénuo ao ponto de acreditar que tal não acontecia. De permeio está a natureza humana e a forma como as estruturas hierárquicas operam: os confessores, pobres espiões, bajulavam os superiores, pondo-os de sobreaviso sobre os problemas iminentes, baseados nas ideias heréticas.

Entendamo-nos, e digo isto como quem se confessa, foi no início do século XIII que Roma sentiu verdadeiramente a necessidade de eliminar a oposição à sua autoridade, denunciando as heresias que acabariam por criar a Inquisição, em 1231, pelo papa Gregório IX. Para o efeito foram citados os ensinamentos de Cristo como sendo a base do procedimento mais temido do Santo Ofício, os autos de fé. A voz poderosa e arrogante  do representante de Deus na Terra fez-se ouvir como uma ameaça caridosa e divina: “se alguém não estiver em Mim, será lançado fora, como a vara, e secará; esses serão colhidos e lançados no fogo, e arderão. Apesar do credo ser diferente, o KGB e a Gestapo mais não foram do que as suas extensões no século XX, o de todas as desgraças.

A primeira tarefa da Inquisição foi a de recolher informação sobre os infiéis. Equipou-se para o efeito com novos exércitos de frades. Os principais líderes eram os Dominicanos, sarcasticamente conhecidos como Domini Canes (“os cães do Senhor”). Por volta de 1250, os serviços secretos da Igreja deixaram de desempenhar o passivo papel de recolha de dados. Os “cães” envolvidos passaram a “farejar” as informações valiosas. E foi o que se viu. As fogueiras arderam por essa Europa fora. Ou até um pouco mais além.

No século XIV, Ragusa ensinou-nos que para lidarmos bem com a segurança política é necessário subscrever, e até pagar, os jornais aos adversários. No fundo, é o que fazem os modernos departamentos policiais que lidam com as questões da informação.

No século XVI, o conhecido Marlowe, acabou habilmente executado numa luta. Foi um dos primeiros agentes duplos conhecidos a ser silenciado por saber demasiado. Espiar foi sempre um trabalho arriscado.

Daniel Defoe, autor de Robinson Crusoé, foi também ele um agente infiltrado, a soldo do governo de Londres, muito antes de se tornar um escritor famoso. Em 1704 vagueava pelas Highlands escocesas, sob o nome de Alexander Goldsmith, instruído para informar a capital sobre as atitudes políticas dos escoceses.

O duque de Marlborough, que dirigiu um formidável sistema de informações durante a guerra contra a França, no início do século XVIII, ensinou-nos que “nenhuma batalha alguma vez foi ganha sem bons serviços de informação”.

Existe mesmo um caso realmente estranho que se passou em França, relacionado com tudo isto. A mãe do cavaleiro d’Eon, vá-se lá saber porquê, decidiu criar e vestir o seu filho como se fosse uma rapariga desde os quatro anos. O rapaz desenvolveu a capacidade de se fazer passar por alguém do sexo oposto. Por causa dessa virtude, os serviços secretos franceses ao serviço de Luís XV recrutaram-no. Em 1756, o monarca enviou-o a São Petersburgo sob a identidade de Lia, sobrinha do cavaleiro Douglas, que dizia viajar por razões de saúde. A sedutora “sobrinha” do dito cavalheiro estava, na verdade, incumbida de assegurar uma audiência secreta com a imperatriz Isabel I com o objetivo de lhe entregar uma missiva cujo objetivo seria o de impedir um possível tratado envolvendo a Inglaterra e a Rússia.

A Prússia do século XVIII teve a governá-la o seu rei mais belicoso, pois acreditava fervorosamente nos serviços de informação. Frederico II elaborou uma lista de Instruções Militares para os Generais. O artigo doze fala de “espiões, desertores e agentes duplos”, exigindo mesmo que se façam generosos pagamentos aos espiões, “até ao grau da extravagância”. O artigo catorze versa sobre as vantagens de se combater em território amigo, “onde todo o homem age como sendo teu espião”, e vice-versa.

Mas também podemos falar dos Estados Unidos da América. O altamente sofisticado serviço de informações começou por ser dirigido por um dos maiores intriguistas e mestres da espionagem do seu tempo: George Washington. Venerado como alguém moralmente superior e figura quase santificada, Washington foi um astuto e pouco escrupuloso oficial, sendo também um espião de primeira ordem. Walsingham, o chefe da rede de espionagem de Isabel I de Inglaterra, Richelieu e mesmo Thurloe, o tortuoso chefe dos espiões de Oliver Cromwell, terão sido as suas principais influências, pois era, tal como eles, capaz de qualquer tipo de embuste imoral na persecução dos seus desígnios. Além de tudo, o comandante das forças militares americanas era um mestre da desinformação. Pugnava insistentemente pela dispersão de falsos dados no seio do campo britânico. Fazia aos números de efetivos dos seus exércitos o mesmo que Jesus fez aos pães e aos peixes e até ao vinho. Enquanto presidente, George Washington apoiou as ideias em que acreditava: dedicou 12% do seu primeiro orçamento à recolha de informações militares.

Por outro lado, o seu reverenciado contemporâneo, Benjamim Franklin, patriota americano e campeão da liberdade, foi, na verdade, um agente britânico, espiando em todos os lugares por onde passava.  Era o agente nº 72, pago a cargo de William Eden, o líder dos serviços secretos de Londres. O astuto ancião, enquanto durou a contenda, jogou nos dois lados, como forma de se certificar de que ficaria sempre do lado vencedor, independentemente de quem ganhasse.

 (continua...)

24
Mar21

Poema Infinito (554): Poesia do Big Bang (Décima)

João Madureira

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No princípio existiam vinte e dois livros que continham o relato de todos os tempos. Cinco eram de Moisés, que continham as leis e as tradições do nascimento da humanidade até à sua morte. Os profetas, depois de Moisés, escreveram a história dos seus próprios tempos em treze livros. Os restantes quatro continham os hinos a Deus e as instruções às pessoas sobre a sua vida. Melitão, bispo de Sardes, visitou a Terra Santa para verificar quais eram os livros mais antigos que os judeus consideravam Escritura. Descobriu que os judeus aceitavam como autoridade os livros que agora conhecemos como Antigo Testamento. Diziam os estudiosos que as Sagradas Escrituras sujavam as mãos, provavelmente de sangue ou de sémen, por isso transmitiam, em vez de santidade, contágio. Até o Cântico dos Cânticos. As pessoas que as tocavam ficavam impuras, exigindo cerimónias de limpeza. O Pentateuco era sagrado já no tempo de Esdras, no século V a. C., quando foi imposto às pessoas que regressavam do exílio. A Bíblia é o cânone de Israel. Mas os livros não podem adquirir autoridade antes de serem escritos. O Antigo Testamento foi concebido para ter o reconhecimento oficial. E teve-o de imediato. O problema são os apócrifos. Os evangelhos, os santos, os deuses, os seus filhos legítimos e ilegítimos, as mães e os putativos pais. É tudo uma questão de fé. Devemo-nos perguntar porquê tanta fé e tão poucos resultados. Criar, seja o que for, é uma tarefa ingrata. Por que razão só alguns livros foram vistos como Escritura? Uns acrescentam. Outros diminuem. Que Deus seja louvado, se é que pode. O cânone religioso é uma coisa fechada, como qualquer estupidez que se baseia na exclusão. Até a Bíblia foi durante muito tempo uma coisa aberta. Apenas os cristãos reformados rejeitaram os textos apócrifos por os considerarem sem importância. A verdade é que não há pior cego do que aquele que não quer ler. A minha fixação vai inteirinha para as adições ao Livro de Daniel, nomeadamente para o Cântico de Azarias e o Cântico dos Três Jovens; Susana; e para Bel e o Dragão. Coitados dos Macabeus. Também eu ressalto o envolvimento divino no enredo. Aqui bem mais claro que nos textos originais. Os livros apócrifos são sempre mais tardios do que o cânone original. A tradição judaica diz-nos que ela fez parte da mutilação do Antigo Testamento, nomeadamente para removerem as passagens conducentes ao cristianismo.  A prática religiosa não deve vincular a Igreja. A religião é um paradoxo. Mas é na explicação dos paradoxos (e dos pássaros e dos anjos) que se baseia a religião. Parece que tudo estava escrito antes de o estar. O Espírito Santo inteligente, que depois transformaram em pomba ou em coroa ardente, a subtil agilidade da pureza, a perspicácia, tudo o que é sereno, tudo o que penetra nos espíritos, toda a subtileza. Tudo isso é um sopro de Deus. Ou resultado de uma flatulência divina. A luz e o seu reflexo são coisas divinas. Com a sua sabedoria se combate o mal para depois o fazermos ressuscitar. A divindade profunda está na ressurreição. Ninguém governa a bondade e a maldade. O pecado chegou ao mundo através da desobediência de Adão. É normal que o Diabo tenha invejado Deus. Mas eu acredito mais no contrário. Rezamos na era da técnica para lidar com a adversidade. 

22
Mar21

532 - Pérolas e Diamantes: Estamos quase...

João Madureira

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Estamos a chegar à zona do quase.

 

Este pensamento tão profundo fez-me lembrar aquela história do judeu que pede ao filho para ir a casa do vizinho pedir um martelo. Ele vai e volta dizendo ao pai que o vizinho não tem martelo. Então o pai diz: “Olha, então vai buscar o nosso.”

 

Os antigos diziam que avistar uma pega isolada dava azar, duas pegas invocavam mau olhado para quem as via e três pegas anunciavam coisa boa. Já ver muitas pegas juntas era a sorte grande a bater à porta.

 

Mas agora é muito raro avistar pegas.

 

Antigamente, quando uma casa tinha almas do outro mundo dentro ninguém lhe passava ao pé. Agora são até capazes de fazerem visitas guiadas para ganharem uns trocados. É a nossa vocação turística. A nova gente gosta de sentir arrepios e comichões a subir-lhe pela espinha.

 

É mau princípio metermo-nos na vida dos outros e indispor as almas. O respeitinho é muito bonito. Com as insónias morre-se cedo.

 

Esta gente é bem capaz de construir vedações com as pedras dos nossos antepassados. Isto é como na guerra: quantos menos forem atingidos, mais escapam. A verdade é que não há ninguém que lhes dê tino.

 

Fenómenos! Quando menos se espera, esta gente boa e obediente perde as estribeiras e deixa de escutar o fim das conversas. Lá diz a autoridade: mais vale cumprir a lei que sofrer as suas consequências.

 

Os mais velhos arreceiam-se com o nervoso. Por isso tendem a ser mais conservadores. E também mais conversadores.

 

Bem sofremos na época do Prestes João. Mas esses eram tempos de valentia. Aguentava-se muito. Pensava-se que do alto da Torre de Belém se podia conduzir os destinos do mundo. “Acima, acima gajeiro, acima ao tope real! Olha se vês minhas terras, ou reinos de Portugal.”

 

Que raio de mania pensar que com desinfetar as pedras das torres se acaba com as almas do outro mundo.

 

Há sempre que cear bem, comer mimos, mesmo quando se anda aflito. Ninguém sabe o dia de amanhã.

 

Mas nós até gostamos daquilo que gostamos. Quem corre por gosto não se extenua. A verdade é que uns são não sei quê e outros são não sei quantos. E daqui não saímos. As exceções são poucas.

 

E também existe a arte e os verdadeiros artistas. Brincadeiras à parte, Churchill disse uma coisa que me ficou: “Sem tradição, a arte é um retalho de ovelhas sem pastor. Sem inovação, é um cadáver.”

 

Por isso é que a minha escrita é um pouco fora da caixa. Até por causa das merdas.

 

Gosto mais de acreditar que as pessoas que falam mal o fazem por estarem confusas ou mal informadas. A vida política e partidária, especialmente ao nível autárquico, está reduzida a uma espécie de quermesse de aldeia. E a culpa é de todos nós.

 

Convenhamos que certa intelligentsia portuguesa está bem longe de ser inteligente.

 

Jorge Calado escreveu algures que sendo o belo e o sublime conceitos de sinal contrário e mutuamente exclusivos, o primeiro acalma enquanto o segundo excita. O resto fica ao critério de vossas excelências.

 

Isto é como quem se confessa, a esquerda portuguesa é tão ignorante como a direita lusa. O busílis da questão não está nesses estereótipos bidimensionais. O nosso grande problema reside na ignorância encapotada e na falta de cultura.

 

Muito provavelmente Amália Rodrigues teve razão quando afirmou que a política era semelhante a uma estrada. “A gente vai para lá e vai pela direita, vem para cá e vem pela esquerda.”

 

Por cá, a política deixou de estar – se alguma vez esteve – nas mãos de gente com preparação social, económica e cultural, passando diretamente para as mãos de simpatizantes, de amadores que seguem a espuma dos dias e o tweets, enchendo o mundo de mensagens fáceis e questões ridículas.

 

Restam apenas os lugares comuns e os discursos políticos que são verdadeiros insultos à inteligência dos cidadãos.

 

O humanismo, a história, a filosofia, a verdadeira cultura, a razão, o pensamento, a lógica e a ciência são encaradas como injeções de penicilina.

 

O sectarismo é uma coisa detestável e em tudo distinta do apego humano às convicções.

 

Não vale a pena sermos muito fieis às nossas ilusões pois elas são as primeiras a trair-nos.

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