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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Mai21

542 - Pérolas e Diamantes: O sonho dos lobos

João Madureira

Apresentação3-2.jpg

 

No poder, e na corte que o rodeia, nunca se é verdadeiramente sincero. Até porque se pode ser senhor de muitas terras, mas nunca de todas as terras.

 

O poder, aparentando ser forte, é essencialmente uma coisas de fracos, devido ao caráter reservado, cauteloso e enigmático.

 

O problema da república é que qualquer homem com bens se julga um rei.

 

A verdade é que os líderes democráticos até se julgam sérios, honestos e resolutos. Eu acredito que eles pensam que sim. Mas em assuntos de política as suas convicções contam pouco mais que nada.

 

O que não fazes nunca pode estar inteiramente errado. Os bons aliados são os fracos. Os aliados fortes são concorrentes. Por essa razão é que a religião é sempre o melhor dos aliados do Poder.

 

Está na altura de voltarmos à política a retalho. À política tradicional. A política das grandes superfícies deu nos Sócrates e nos populistas de direita.

 

Uma coisa vos digo, porque a aprendi à custa da observação atenta, um medíocre é sempre o mais sincero elemento de um partido, pois ninguém mais do que ele possui a consideração pelo poder. São esses os fadados para a popularidade. Esses homens, ou mulheres, de prerrogativas querem iludir-se, e iludir-nos, de que estamos sempre entre iguais.

 

Gosto de os ouvir manifestar-se espetacularmente sobre todas as causas institucionalizadas e vigentes. Apesar de ignorarem profundamente o povo, fazem-se seus heróis. A sua vileza é lenta e astuciosa. Gostam de beber champanhe pela taça de prata que os artistas antigos usavam para pintar a cena do Santo Graal, porém desconhecem que a genuína era feita de madeira, pois José de Nazaré era carpinteiro e não ourives.

 

São aqueles que depois de fazer brinde aos reis vão urinar nos vasos das flores dos corredores ou das varandas. À falta de mais vinho, ou conveniência, limitam-se a bochechar com o resto da bebida e a engoli-la.

 

O champanhe é bom para as senhoras e o conhaque recomenda-se aos cavalheiros.

 

A paixão dos políticos é sempre uma genial e sincera simulação. Gabo-lhes o gosto. E a desfaçatez.

 

A maioria da nossa classe política – sobretudo a denominada como do arco da governação, que mais do que nos governar, se governa – são como os antigos barqueiros do porto fluvial de Pataligama, célebres não só pela sua falta de habilidade como também pelo prazer de provocar desastres de toda a ordem.

 

Havia por aqueles sítios um bando considerado em toda a Índia porque dele não podia fazer parte quem não fosse filho legítimo, há três gerações, de um membro da guilda de ladrões. O latrocínio era tão lucrativo que esta guilda especial não queria que um negócio tão antigo fosse estragado por amadores.

 

Aprendia-se na altura que o povo pode não ser manipulável assim tão facilmente pelos demagogos, mas é suscetível ao suborno.

 

Antigamente o roubo era lento e imbuído de um certo cerimonial, hoje em dia rouba-se com mais pressa que dignidade.

 

No poder político triunfam os que melhor conseguem pôr e tirar a máscara sem se rirem.

 

Quando alguém usa máscara durante muito tempo acaba por ficar parecido com ela.

 

Muito tempo no poder transforma as pessoas. Acontece-lhes o mesmo que às folhas de outono, passam do vermelho forte ao ouro baço. A metáfora é ilustrativa por si só. E se não o for, paciência.

 

Os lobos sonham sempre com ovelhas.

 

Com a idade aprendemos que ouvir e escutar são coisas diferentes. Os homens sábios que nos ensinam são como a luz do sol num lugar escuro.

 

Um velho provérbio diz que um nobre persa não pode mentir mesmo quando mente. Ai a dor que isso provoca em quem tem de escutar as suas mentiras! As dores e os dilemas.

 

A verdade é que os amigos de infância se podem tornar nos nossos piores inimigos.

 

Os reis persas diziam que a sabedoria do governo estava na utilização da natureza humana. Dado que os homens têm as suas simpatias e as suas antipatias, podem controlar-se com recompensas e castigos, que são as alavancas por intermédio das quais o governante mantém a sua supremacia.

 

Temos que ser uns pelos outros.

 

Aprendi que na política nada do que se diz quer dizer bem o que parece. Só que foi tarde demais. Daí o meu engano. Aprendi sempre aquilo que não devia.

 

Mas quem não deve não teme.

28
Mai21

História da Espionagem - Notas e relatório confidencial (Agente José Manuel) PARTE XIII

João Madureira

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Haiku nº 11: No lameiro / o mugido das vacas / tem a espessura do desespero

Mas voltemos à História e, desta vez, ao logro. Vamos focar-nos nos dias que antecederam o Dia D em 1944.

Aprendi na minha velha escola russa, e também na israelita, que tudo o que sucedeu foi uma brilhante operação de logro, planeada e organizada até ao ínfimo detalhe. Os camaradas russos designam este tipo de situação como maskirovka. É considerado como infeliz todo o estudante universitário eslavo ou judeu que não preste a devida importância ao “logro” no âmbito de um plano de guerra.

Os ardis são usados frequentemente no âmbito militar com dois objetivos essenciais: atrair ou forçar o inimigo a uma ação que possa ser explorada e fornecer ao inimigo uma quantidade suficiente de desinformação plausível capaz de permitir ao atacante dar um curso completamente diferente e desejável aos acontecimentos. Foi daí que nasceu a designada operação Bodyguard, definida como o Dia D.

Foi o velhinho Sunzi que escreveu: “Toda a guerra é baseada no engano. Assim, quando estamos capazes de atacar, temos de parecer o oposto; quando queremos fazer uso da força, temos de nos mostrar inativos; quando estamos perto, devemos fazer com que o adversário creia que estamos longe; quando estamos longe, temos de o fazer crer que estamos perto. Há que expor engodos para seduzir o adversário, simular desordem – e, depois, esmagá-los.”

A organização que ficou encarregada de levar a efeito o ardil decisivo para ludibriar o Alto-Comando alemão foi um único grupo denominado Equipa Aliada de Logro, mais conhecida pela inócua designação de Secção de Controlo de Londres, ou LCS.

Deixem que vos confesse que a LSC se revelou uma notável organização, nomeadamente na extraordinária tarefa de “confundir e derrotar” o pessoal dos serviços de informação alemães. Toda a equipa era composta por indivíduos excecionais. O chefe era o coronel John Bevan apoiado por homens da fibra de Dennis Wheatley, o romancista; por Sir Reginald Hoare, o banqueiro; e o tenente-coronel, e multilinguista, Sir Ronald Wingate. Segundo John Hughes-Wilson, a CLS pode gabar-se de possuir uma das mais conceituadas coleções de talentos e cérebros jamais reunidas em tempos de guerra. E possuíam um trunfo fundamental: todos os elementos que a compunham tinham uma vasta rede de contactos pessoais e vínculos com quase todos os centros de poder e influência no campo dos Aliados. O seu trabalho baseou-se na elaboração de interessantíssimas subtilezas e em distorções inteligentes destinadas a confundir e a enganar o pessoal alemão relativamente à data e ao local exatos dos desembarques e quanto ao tamanho preciso e à disposição das unidades aliadas.

Estes dados, diretamente direcionados ao sistema germânico que os recolhia com sofreguidão, estavam cheios de contradições. Alguns deles eram surpreendentemente verdadeiros, mas os estrategas alemães, por mais inteligentes que fossem, e eram-no na verdade, não conseguiam separar o trigo do joio, não distinguiam a verdade da mentira. Utilizando a linguagem atual, o objetivo da LCS consistia em submergir os serviços de inteligência alemães em ruído. Da filosofia dessas coisas até o nosso querido António Aleixo entendia: para a mentira ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade.

Para o logro ser plausível teve de ser encenado em escala natural. Para o efeito foi construído um enorme modelo de um depósito de combustível junto à costa, perto de Dover, tendo o embuste sido rematado com condutas, válvulas, tanques de armazenamento, incluindo ainda visitas de inspeção levadas a cabo pelo próprio rei Jorge VI, devidamente publicitadas na imprensa. Junto com a prenda, os alemães levavam também o embrulho.

Os intérpretes germânicos de fotografias foram também iludidos com fotografias de centenas de tanques estacionados ao longo dos pomares de Kent que não passavam de modelos de borracha insuflados, passando desse modo por genuínos tanques Sherman.

Idêntico logro foi utilizado com as embarcações de desembarque dispostas em longas filas, ancoradas em Medway, com a lavagem dos conveses realizada por supostos marinheiros.

Até dois agentes duplos, Brutus e Garbo, foram utilizados neste logro relatando todos os detalhes ficcionados aos seus controladores alemães.

O exigente aristocrata alemão Von Roenne, responsável pelo serviços de análise e inteligência alemães (que mais tarde viria a ser executado por ter participado no complot para assassinar Hitler), através do seu plano de recolha de dados, estava na posse dos principais elementos que lhe permitiam fazer uma ideia do que iria suceder. Os dados recolhidos de cariz HUMINT indicavam-lhe que se estava a desenvolver uma intensa preparação por parte dos Aliados. Os elementos de índole SIGINT confirmavam a chegada de novas informações militares ao Reino Unido. As próprias imagens aéreas ajudavam a aferir com clareza que existia uma enorme concentração de tropas e de material militar no canto Sudeste de Inglaterra.

A tudo isto podemos juntar a importância da quase certa participação do almirante Canaris, antigo chefe dos serviços militares de informação, o Abwehr, e discretamente afastado do cargo por Hitler, tendo passado à reserva.

 

 (continua...)

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