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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

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26
Mai21

Poema Infinito (563): Acelerações

João Madureira

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Trazemos dentro de nós alguns espaços de incomunicabilidade, pois há sempre algo que se perde no nosso interior e se afasta. É difícil revelar a magnífica e secreta coragem da sensibilidade. Lembro-me ainda das lindas mãos da mãe riscadas pelas suas veias azuis. Hoje consigo sentir as plantas a crescer, ouvir os sussurros da casa e o lamento dos animais. As imagens começam a desvanecer-se como se estivessem a perder força. A mão do silêncio começa a apagá-las. Sinto o rio nervoso, depois das fortes chuvadas. Um cavalo branco corre em círculos no lameiro enevoado. Lembro-me de a mãe usar um vestido às flores, parecendo flutuar à minha volta. Quase não tinha maquilhagem, nem joias. A sua pele sempre foi demasiado branca. O registo das suas palavras era extenso. Não consigo identificar os que me falam. A luz lá fora ficou branca, como a do deserto. Sinto a mão da mãe a acariciar-me a palma da minha como se a estivesse a aquecer. Foi quando caí pela primeira vez da bicicleta. Depois tudo se metamorfoseou e logo se impôs o silêncio e uma pequena violência distante. Tudo se acelerou. Sobretudo a tristeza, pois os mortos viajam depressa. A casa tinha a obrigação do silêncio. Os fantasmas são reais e, por vezes, quem aparece não são aqueles que chamamos. Os cães uivam na noite. Os animais possuem uma perceção que nós já perdemos. A relva cresce por todo o lado. Apenas existe um estendal com roupa em toda a aldeia. No pátio da frente há hortênsias, roseiras e amores-perfeitos. Lembro-me que não gosto destas flores, mas apenas das que nascem nos montes, com as suas cores selvagens bem à mostra. A casa costumava sorrir. Agora já não. As duas janelas da frente estão entaipadas. Cegas. A madrugada é a hora mais silenciosa. Entra uma luz ténue no quarto. A porta fecha-se como se alguém a tentasse empurrar. Sente-se uma vibração. A casa treme. Várias partes do dia vão desaparecendo. A luz florescente fere os olhos. E também as flores de plástico que preenchem os canteiros. E o cheiro a desinfetante. Os gestos das pessoas estão esgotados. A madrugada está quente. O barulho dos passos faz eco. Quando o dia termina para alguns, logo começa a noite para outros. Lembro-me de fazer bolhas de água e sabão e de a cadela olhar com curiosidade para elas. Cumprir horários causa-me desconforto. Às vezes parece que alguém canta no meio da escuridão. E a terra treme, mas só para mim. Tudo isto é incompreensível. Tenho medo. Todos temos medo. Tudo parece estranho. Mas eu aprendi a aceitar tudo aquilo que é estranho. Daqui cheira-se a tempestade. Sinto a sua eletricidade. Uma sombra escreve à sombra de uma árvore. O sol aparece e desaparece em ciclos extremamente rápidos. A mancha da realidade começa a desfocar-se. Oiço fragmentos de palavras soltas ou frases inteiras ou a ladainha das orações da mãe quando o pai morreu. A matéria escura continua a empurrar as estrelas. A verdade é que com tanta luz das estrelas, o céu não devia ser tão escuro. Três quartos do universo são escuridão. A libertação parece uma nova espécie de metáfora. O rio ficou oculto e silencioso. É tão difícil deixar de estar triste! Ouve-se o barulho dos animais. E as palavras perdidas do pai. Este tempo vem de outro local. Por vezes voar também pode ser triste.

24
Mai21

541 - Pérolas e Diamantes: Ai, a província, a província!

João Madureira

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Ai, a província, a província! A bendita província. Que tanto bem faz a quem nela habita. E a quem a ela aspira, vivendo nas grandes urbes. Ai os domingos na província! E as suas igrejas. E os coros matutinos das aleluias. E as imagens veladas. E o rezar do terço. E as comunhões solenes. E a sua atmosfera excitada de monotonia. E as mãos postas dos anjinhos. E o espírito de empreendimento das micro, pequenas e médias empresas. E os projetos de enfloração dos pomares e a poda das vinhas. E os arpejos e os gargarejos das filarmónicas e dos coros da igrejas. E o olhar tresmalhado das crianças que brincam sem saber como. E as raparigas que leem histórias aos quadradinhos e passeiam nos parques. E o fim das estações.

 

Ainda me lembro dos papagaios. E do bonito convívio entre vizinhos. E da romântica estranheza dos corações apaixonados. Lembro-me dos loucos, dos gatos ao sol, dos cães a roubarem os ossos nos talhos, dos gostos agressivos das avós, das loucuras dos mais desfavorecidos, dos ciganos, dos pobres à saída das igrejas, dos remediados e dos ricos a darem as suas esmolas. E das senhoras donas curvadas sobre os genuflexórios diante da lacrimosa Senhora das Sete Espadas a passarem maquinalmente as contas do terço benzido em Fátima, ou em Lourdes, ou no Vaticano. E das criadas aos mandiletes. E dos vagabundos encardidos a dormirem nos bancos dos jardins.

 

Muitos dos sentimentos, mal nasciam, eram logo amortalhados como os anjinhos que morriam das mais variadas doenças. Os momentos de tentação eram furtivos, tal como a curiosidade pelo mundo. A comunicação era muito intransigente. Mas perdoavam-se as fraquezas e até se permitiam as mentiras. As almas mais caridosas, muitas vezes, desleixavam-se na manifestação da sua bondade. Mas daí não vinha mal ao mundo. A manifestação da sua graça estava guardada para os momentos solenes. Aí não faltavam. Viviam em íntima exaltação. Era o tempo em que se atribuía a responsabilidade do ser ou não ser ao destino de cada um.

 

As crianças mais nervosas arranhavam as borbulhas do rosto de forma maníaca e batiam nas outras.

 

As pessoas tinham a virtude – havia quem também lhe chamasse vício – da piedade. A consolação era a forma de ultrapassar a infelicidade de cada um. Era frequente as criadas limparem as pratas polvilhando-as com gesso cré, falando, quando podiam, com o seu grande sentido de plebe. As mais aventuradas, ou as mais desgraçadas, costumavam abandonar a província e ir servir para a capital. Algumas criadas engravidavam e eram logo despedidas devido ao insólito facto de a loiça lhes escapulir das mãos porque se lhes toldavam os sentidos. E lá voltavam elas para casa, sentavam-se nos mochos da cozinha e derramavam lágrimas turvas e desajeitadas. Parece que tudo se lhes podia ensinar, menos a virtude. Até o facto de  as manchas da Lua serem o castigo dado ao lenhador por não venerar o domingo, como Deus então mandava. Depois punham-se a comer pão com margarina e a beber cevada para aquecer o estômago.

 

Havia meninas ladinas, todas elas sobrinhas de alguém, que se esgueiravam ao escurecer, para trocar com os rapazes avisos rápidos ou outros encontros. Ouviam-se rumores de beijos e as folhas dos lírios a vibrarem.

 

Já os empregados dos cafés eram eficientes e cheios de manhas. Viviam sobretudo das gorjetas.

 

Os génios provincianos azedavam com o passar dos anos. Os devotos rezavam baixinho e os ímpios ficavam dementes.

 

Também era usual usar-se a bajulação velhaca. Os tempos a isso obrigavam. A verdade é que até os vexames, as cenas descompostas, os medos e os vícios tendiam para a monotonia.

 

Os patrões queriam afeição exclusiva. Não repartiam nem riqueza nem afetos. Todos papagueavam orações e ouviam os mexericos da terra. Era uma novela permanente que ajudava a passar os dias. Os mais dados ao bailarico dançavam tangos, passodobles e valsas.

 

Alguns filhos da terra rumavam caras à capital para assumir alguns cargos de prestígio, enquanto esperavam que o perigo se definisse.

 

A sociedade costuma interessar-se pouco por aqueles que trabalham, pois apenas admira o exemplo daqueles que vencem.

 

Ai província (ai, a província, a província!) é como uma bela história antiga que estaca antes de finalizar.

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