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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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30
Jul21

História da Espionagem - Notas e relatório confidencial (Agente José Manuel) PARTE XXI

João Madureira

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Haiku nº 27: Depois de Hiroxima / as pessoas aprenderam / a escrever nas cinzas

Depois de sairmos desta noite escura, podemos passar ao arquipélago da insónia, através da “Luta Armada”, não da minha, pois esse já foi chão que deu uvas, mas a da querida camarada Isabel do Carmo. O que se segue foi sustentado nessa sua obra escrita.

Permitam-me que vos fale um poucochinho sobre o jogo de espelhos que foi a luta armada dos grupos de esquerda radical na Europa. Nomeadamente das Brigadas Vermelhas (BV), em Itália, e da Fração do Exército Vermelho (RAF), na Alemanha. Para acompanhar a leitura recomendo de novo Johann Sebastian Bach, a Missa em Si Menor, considerada por muitos “a mais grandiosa peça musical ocidental jamais composta”. Que demorou mais tempo a compor a Bach do que os quatro anos que Miguel Ângelo passou a pintar o teto da Capela Sistina e mais cinco a pintar o Juízo Final.  A genialidade é uma eterna paciência.

O líder das BV, Renato Curcio e a sua mulher Margherita Cagol (Mara), nunca deixaram de ser perseguidos pelas zonas de sombra. Diziam-se católicos-valdenses. Foram eles os responsáveis ideológicos pelo assassinato de Aldo Moro. Estas manobras de espionagem e contraespionagem só têm sentido no clima de Guerra Fria que então se vivia. É quase certo que quase todos os brigadistas foram meros peões nas táticas e estratégias da altura. O que a todos parecia ideológico era substancialmente mafioso, pérfido e, por isso, boçal. Só assim se percebe o facto de essa organização se ter tornado infiltrável, não apenas pela polícia no sentido de a reprimir, mas também por personagens que vão muito além do mero jogo de ativistas em confronto com a polícia. Convém dizer que os polícias, tal como os brigadistas, também foram meros peões no jogo de xadrez entre o leste e o ocidente.

As BV nascem em 1970 sob o signo do voluntarismo, fundadas por Renato, Margherita e Alberto Franceschini, todos jovens com menos de 30 anos. Dois de matriz cristã, tentado retornar ao cristianismo puro e pobre, e o terceiro um jovem comunista desejoso de mudar o mundo e tornar-nos todos iguais. Quase sempre este tipo de voluntarismo acaba por ser um alçapão. O laço para o enforcamento procuram-no eles com a ação. Começaram com o incêndio de um carro de um dirigente da Sit-Siemens e acabaram por abater Aldo Moro, como se fosse um cão. Depois deste ato segue-se uma onda de prisões. Por causa da repressão, passam à clandestinidade e desenvolvem uma estrutura clandestina. Nessa altura entram em cena duas personagens altamente suspeitas: Silvano Girotto (Frate Mitra – Irmão Metralha) e Mário Moretti. Silvano era um frade que esteve envolvido em lutas na América Latina. Foi proposto para treinador militar das BV. Foi ele quem inspirou os primeiros atentados, os mesmos que originaram as prisões. Personalidades eminentes da polícia do Estado informaram mais tarde os tribunais que Mitra era um seu infiltrado. Silvano era filho de um general dos Carabinieri e tinha sido condenado por delinquência. Refugiou-se na Legião Estrangeira Francesa. Mais tarde voltou para a Itália. Foi de novo preso. Resolveu então seguir o sacerdócio.  Vai como missionário para a Bolívia. Volta de novo a Itália já convertido em Che e Frate Mitra. Entra então em contacto com as BV. E também com um capitão das Forças Especiais dos Carabinieri.

Como homem de treino da luta armada, marca encontros com os militantes. No terceiro compareceu a polícia que prendeu Curcio e Franceschini. Em 1999, numa entrevista ao Sol dos Alpes, confessou que disse ao seu contacto nos Carabinieri que com uma espera de mais duas semanas se poderiam prender todos. Ainda hoje se pergunta a razão de tal procedimento. A possibilidade é de que mais alguém andava a tentar infiltrar-se na organização terrorista. O chefe da polícia, o general Dalla Chiesa, já depois do assassinato de Moro, afirmou que as operações antiterroristas estavam sujeitas a uma constante influência dos infiltrados. Mario Moretti, que também devia ter aparecido, foi avisado para não ir, através, disse ele, de um telefonema anónimo. Neste jogo de espelhos, Mario Moretti é uma personagem transformado pela história num verdadeiro ator de espionagem. Esteve muitas vezes para ser preso, mas nunca o foi. Ao contrário de todos os outros seus camaradas. A própria MOSSAD estava infiltrada dentro das BV. E, já agora, também a CIA, o KGB e os serviços secretos italianos. Talvez mesmo o próprio Vaticano, que mais não é do que um alfobre de espiões. Todos espiam todos, Papa incluído. Deus limita-se a jogar com eles à cabra-cega. Outro militante infiltrado é Marra, que entrou em várias ações, entre elas a evasão de Curcio, em 1975. Muitas delas podiam ter levado a prisões imediatas, o que nunca chegou a acontecer. Uma vez, o sinistro Moretti deixou uma caixa com fotografias e negativos comprometedores – que assegurava ter destruído –, num dos esconderijos das BV, assaltado pela polícia. A localização foi descoberta através do carro da mulher de Moretti, que ele utilizou para se deslocar a uma reunião que teria aí lugar. Os elementos que estão nessa casa são todos presos. Moretti foge e passa à clandestinidade. Entretanto, a companheira de Curcio, Mara, é morta, num confronto com a polícia, após o sequestro de um industrial.

Com Curcio e Alberto presos, e Mara morta, Moretti triunfa e passa a ser ele o dirigente das BV. É depois disso que surge o sinistro e intrigante sequestro de Aldo Moro, presidente da Democracia Cristã (DC), assassinado a 10 de Maio de 1978, depois do seu partido não ceder às reivindicações das BV.

Nessa altura, em plena Guerra Fria, o heterodoxo Partido Comunista Italiano (PCI), liderado por Berlinguer, andava a tentar negociar um “Compromisso Histórico” com a DC, para acabar com a instabilidade crónica no seu país que em 35 anos teve 40 governos.

Para a política externa americana estava na altura de matar com uma cajadada só dois coelhos: decapitar o movimento revolucionário e impedir compromissos espúrios entre comunistas e cristãos. Podia ser a machadada final na divisão do mundo entre bons e maus, entre Ocidente e Leste. Com a morte de Aldo Moro todo esse esforço caiu por terra. Kissinger e Gromico, aliados ao Vaticano e à Máfia, que ocupava o estado italiano, pela mão pegajosa de Giulio Andreotti, através das infiltrações que manobraram essa organização armada, atingiram mortalmente essa autodenominada vanguarda revolucionária. De boas intenções está o inferno cheio. Aldo Moro acabou por ser um duplo prisioneiro. E por isso morreu. Por não servir vivo a nenhuma das partes.

Haiku nº 28: Regresso a casa / pelo caminho das pedras / por causa das urtigas

Sobre a RAF, convém lembrar que a radicalização dos jovens alemães,  nascidos durante a guerra ou nos seus anos finais, está relacionada com a má consciência dos pais. Considera-se que o ato fundador da violência na polícia e da resposta dos jovens teve lugar a 2 de junho de 1967, numa manifestação contra a visita do Xá da Pérsia, Reza Pahlevi. A imperatriz descuidou-se ao dizer que “o verão no Irão era muito quente e ela e a família, tal como a maior parte dos persas, iam para a Riviera persa, no mar Cáspio”. Todos os jovens estudantes da altura, sobretudo Ulrike Meinhof, pois era jornalista, sabiam que a maior parte dos persas eram camponeses com um rendimento anual que nem aos 100 dólares chegava; em cada 100 crianças nascidas, 50 morriam de fome, pobreza e doença. Muitas delas trabalhavam 14 horas por dia a fazer tapetes. Nessa manifestação, além das dezenas de feridos que resultaram da repressão policial, o jovem Benno Ohnesorg, foi morto pelo polícia Karl-Heinz Kurras, que puxou da sua pistola e disparou um tiro à queima-roupa sobre o seu ouvido direito, atravessando o cérebro e esmagando-lhe o crânio. Benno era um pacifista.

A 4 de abril de 1968, um fanático da extrema-direita matou a tiro Rudi Dutschke. O pistoleiro era um pintor da construção civil, Josef Bachmann, de 24 anos, que foi de propósito de Munique até Berlim para assassinar Rudi. No bolso trazia um recorte de um jornal de extrema-direita com as palavras de ordem: Stop Dutshe agora! Rudi Dutschke aparecia nos cartazes como um vulgar bandido do velho oeste.

Ulrike escrevia na revista Konkret textos radicais contra a corrida aos armamentos, de apoio à guerra do Vietname e à ditadura do Xá da Pérsia. Andreas Baader andava na agitação. Em nome da luta contra o consumismo lançou fogo aos armazéns de abastecimento de Frankfurt. Foi preso. Em tribunal defendeu-se evocando o “direito natural à resistência”.

Em outubro de 1968 foi julgado e condenado a três anos de prisão. Na cadeia recebeu a visita de Ulrike que lá tinha ido para escrever um artigo para a sua revista. Enquanto aguardava o resultado de um recurso, foi libertado. Mas o recurso acabou por ser recusado. Fugiu para Paris. Deu-se mal no exílio e voltou à Alemanha. Entrou na clandestinidade e começou a procurar armas. Como por milagre, apareceu um elemento dos círculos radicais que o convenceu a ele, e aos amigos, que tinha armas escondidas num cemitério próximo do muro de Berlim. Foram lá mas não as encontram. Voltaram na noite seguinte, porque o tal camarada dizia que estavam lá. Não as encontraram, mas à saída do cemitério tiveram um encontro imediato com a polícia. Afinal, o tal camarada, de seu nome Urbach, era um informador da polícia. Com Baader preso, os seus amigos passam a organizar-se para o libertarem. Ulrike e a sua amiga Gudrun conseguem visitá-lo com nomes falsos. Um outro camarada chegado, Mahler, continua a procurar armas. Gudrun pede a Ulrike para organizar a fuga de Baader. Numa manobra de diversão, Baader consegue encontrar-se com ela num instituto para prepararem a publicação de um livro sobre jovens alemães. Entram então no edifício Ulrike, Gudrun (namorada de Baader) e mais duas cúmplices, todos de cara tapada e armados. Libertaram Baader, mas para o conseguirem dispararam sobre o guarda, que morreu, e feriram um membro do instituto. Este ato não premeditado originou todo o rasto de violência que teve lugar a seguir, tanto da parte do Poder como da parte da Organização.

De regresso à clandestinidade, o grupo publicou um comunicado no semanário anarquista 833  anunciando a formação da Fração do Exército Vermelho (RAF), curiosamente o acrónimo da Royal Air Force, que durante a guerra bombardeou a Alemanha. Irónica provocação. São perseguidos por toda a Alemanha por causa da morte do guarda. Passam a ser conhecidos pelo Grupo Baader-Meinhof. Em várias rusgas policiais são presos 20 dos seus membros. Os dois principais líderes conseguem escapar. Em 1970, depois de convertidos à causa palestiniana, munidos de passaportes da República Árabe Unida, com o cabelo pintado de escuro para poderem passar por pessoas do Médio Oriente, foram até Amã. Juntaram-se vinte. O comandante do campo era Abu Hassan, liquidado mais tarde pela MOSSAD. Mas as coisas não correram lá muito bem, devido às más relações dentro do grupo e também às diferenças culturais entre eles e os palestinianos. Acabam por regressar ao seu país. Assaltam bancos e estabelecem casas de apoio. A organização militariza-se. A caça aos militantes do RAF torna-se um dos principais objetivos do Estado. O clima de medo instalou-se através das capas dos jornais e dos ecrãs de televisão.

Em maio de 1972, um habitante de Frankfurt desconfiou de três jovens vizinhos que faziam sair de casa materiais esquisitos. Resolveu alertar a polícia. Tratava-se da casa de Andreas Baader. Andavam a preparar explosivos. Foram os três presos, após uma troca de tiros. Baader ficou ferido.

A 7 de junho, uma contabilista de uma loja em Hamburgo suspeitou de uma jovem nervosa que transportava um saco que parecia conter qualquer coisa pesada. Era uma arma. O segurança chamou a polícia e dessa forma foi presa Gudrun Ensslin.

A 14 de junho, um jovem pede a um professor seu conhecido por ser sindicalista de esquerda que albergue por uns dias dois jovens. Ele diz que sim. Depois chama a polícia. No dia seguinte são presos os dois jovens. Tratava-se de Gerhard Müller e Ulrike Meinhof. Depois prenderam vários militantes e dirigentes. O julgamento que teve lugar a seguir demorou dois anos. Estiveram isolados durante meses e anos em celas com isolamento acústico e iluminadas com luz fluorescente todo o dia, vigiados por câmaras. Tudo era restringido, vigiado e censurado. Em 1974 Jean-Paul Sartre visitou Andreas Baader, na prisão.

Em 1975, Ulrike, Gudrun, Andreas e Raspe foram acusados de 4 homicídios, 54 tentativas de homicídio e organização criminosa. Durante o julgamento, a 9 de maio de 1976, Ulrike foi encontrada morta na cela de isolamento, enforcada com uma toalha torcida a fazer de corda. Em 1977, Andreas Baader foi condenado a prisão perpétua. A 18 de outubro foi encontrado morto, tal como Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe. A causa oficial da morte dos presos foi a de suicídio com tiros de pistola, em relação a Andreas Baader e Raspe, e de suicídio por enforcamento, em relação a Gudrun. Ou seja, as mulheres enforcaram-se e os homens disparam sobre si próprios. Ninguém levou isto a sério. As autoridades disseram que as armas foram introduzidas clandestinamente na prisão.

Durante o tempo da sua prisão desenvolveram-se ações na Alemanha, mas o paradigma modificou-se. Em 1974 houve greves de fome nas prisões, de que resultou a morte de um recluso, e foi assassinado um juiz em Berlim. Em fevereiro de 1975 foi  sequestrado o oficial Peter Lorenz, da Democracia Cristã. Depois do suicídio de Ulrike, em maio de 1976, a RAF matou o procurador federal e o presidente do Conselho de Administração do Dresdner Bank. Houve ainda o rapto do ex-nazi Schleyer, chefe das SS na Checoslováquia. Helmut Schmidt, desafiado, recusou encontrar-se com os raptores. Schleyer foi morto. Houve ainda ações entre os anos de 1979 e 1991. Em 1993 foram presos os últimos militantes da RAF. Encerrou-se o caso em 1998. 

Haiku nº 29: As flores do jardim  / servem o padre / e o defunto

Mesmo a ETA foi infiltrada pelos serviços secretos espanhóis, ou socialistas espanhóis (fação pantagruélica de Filipe Gonzalez), através de um basco conhecido por El Lobo, que levou à prisão de 150 militantes, à morte de outros três e à execução de Juan Paredes Manot, de pseudónimo Txik, da ETA político-militar, e de Angel Otaegi, da ETA militar, alguns meses depois. Segundo Isabel do Carmo (dirigente máxima das extintas Brigadas Revolucionárias, e grande amiga e conhecida de alguns elementos cá da casa), se alguém se der ao cuidado de estudar o efeito dos infiltrados ao mais alto nível neste tipo de organizações e a sua relação com a recrudescência de ações indiscriminadas e da sua mudança de orientação, encontrará o mesmo na Itália, na Alemanha e em Portugal. A coincidência é esclarecedora.

A verdade é que os que se opõem à paz, especialmente entre israelitas e palestinianos, utilizam o argumento de que é necessário não confiar no outro, pois o outro é sempre o opositor, porque não é possível confiar nele e por isso é necessário vencê-lo até ao fim. Como a sua intenção é manter a guerra, a separação e o ódio, apesar de jurarem, de mãos postas e o traseiro recolhido, o contrário, estarão sempre prontos a atear o fogo quando ele dá mostras de querer extinguir-se.

Haiku nº 30: Sinto a tua / fragilidade / sobre a minha

28
Jul21

Poema Infinito (572): O olhar triste dos cavalos

João Madureira

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Entramos no longo túnel do inverno e as noites tornaram-se obsessivamente longas. Os degraus multiplicam-se. Multiplicam-se e alongam-se. Estou dentro de um quadro de Matisse. Volto de França a falar de Erasmo, por isso não vou precisar de comprar fluoxetina na farmácia. Começam então a explodir as folhas dos livros e depois as das árvores. Alguns principiam a morrer de precaução. A febre desce sobre mim como se fosse outono. Os pássaros ficam de repente mais lentos. Hoje tudo parece converter-se em chuva. A tranquilidade da água fica rápida. Respiro o frio e resvalo na sua tranquilidade. Lembro-me agora do tempo das raparigas suaves, do sol solitário das tardes de dezembro, das fotografias com o rio em agosto e das nuvens que se pareciam com mulheres iluminadas. Deus passeava, já cansado, pela beira do rio, duvidando que o pudesse atravessar caminhando pela superfície da água. Os sonhos das crianças eram feitos de férias e de pássaros que se agasalhavam com as próprias asas. Uma alegria calma pintava os beijos da mãe. E o tempo tinha as suas próprias marés. A mãe conseguia conciliar os gestos com a madrugada e ninguém se feria. Descobri hoje o valor do vento no tempo de Ruy Belo: oitenta escudos, que foi quanto lhe custou o vidro grande da janela do seu quarto. Começou a crescer-me a barba, indiferente às palavras e aos amores domésticos. Maio é um mês florido. E isso dói. Dói-me muito. A mãe morreu por essa altura e o pai em junho. O rolo compressor das manhãs circulou de forma intensiva. Ainda quando era tudo possível. Depois a intimidade começou a ser decrescente e o espanto deixou de ser anónimo. A morte passa, mas o ar da manhã fica. Especialmente se for frio. A marca do princípio também se dilui entre os rastos. A geada dá sempre cabo das pétalas, especialmente das mais coloridas. Os potros regressaram de manhã aos sonhos. Talvez viessem tarde, mas trouxeram consigo a humidade, a intensidade da luz e os campos rasos de olhares. Os cavalos são animais esguios, nivelados pelos campos, despertados pelas ervas, alternando, a seu modo, entre a luz e a sombra. É difícil imaginar os seus olhos tristes. Inquieta-me a nitidez da luz absorvida pelas crianças, as flores solitárias de Shakespeare e o amor na sua quantidade mínima. Tantos sítios. Tantas vezes. Tantos precipícios. Tantas madrugadas. Porventura, as tempestades podem ser perigosas. Depois a luz começou a subir os degraus e a procurar os buracos pelo meio das tábuas do soalho exaustas. As casas começaram a adormecer e a mãe a enredar os dedos nos fios dos novelos de lã. As mulheres acordam então no meio das páginas dos livros e com os corações repletos de palavras. O princípio das coisas não tem explicação. Todos morremos vítimas do absurdo. E então podemos ser quase gestos esquecidos. A arte de voar não depende do tamanho das asas. A relha rasga os campos. As primeiras configurações apareceram-me a caminho da escola. Pareciam borboletas ou a nossa senhora com as asas emprestadas da sininho. Descrevo o vento pela longa configuração da loucura, pela inquietação do tempo, pelo ângulo singelo das tuas mãos. Tempo é inquietação. E também uma espécie de silêncio ambíguo. Deus levanta as vestes. O seu sexo parece um pássaro inútil.

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