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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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26
Ago21

Poema Infinito (575): A Origem

João Madureira

IMG_4383 - cópia 3.jpeg

Os pássaros começaram a aumentar no céu claro. Esqueço as fábulas, os tumultos e a frescura das maçãs. Algo está para chegar. A memória de menino queima-se com a luz do tempo. Há quem semeie pedras para colher muros e casas. O silêncio ficou branco. O espelho do rio reflete o dia. As árvores fiam o vento. Eva montou em Adão e fez-se bruxa. Foi ela que gerou o tempo e o pecado. Adão fez-se de parvo. E parvo continuou. Eva corou de indignação. Adão pensou que era apenas timidez, ou vergonha. A partir daí, o brilho apagou-se para os homens. Foi Eva que apanhou com a cólera dos filhos. Depois escondeu dentro do seu próprio corpo o pecado e a redenção. Quando encontrava razões para castigar os filhos ficava histérica. E os filhos cabisbaixos. Os primeiros subornos foram conseguidos com sorrisos e eram meramente sentimentais. A serenidade de Adão começou a arreliar Deus. Eva, porém, não baixou os olhos quando Deus a fixou com o seu olhar. A paixão provoca fascínio. Maria, a mãe de Jesus, foi a primeira a disso se aperceber sem perceber que se apercebia. A verdade é que a provocação da serpente teve origem numa falsidade devidamente premeditada pelo Senhor. A penugem azul da madrugada encontrou Adão bêbado e Eva de novo com cio. Eva então foi à procura de outro homem mas só havia aquele no mundo. No seu mundo. Foi assim que nasceu a monogamia. Depois da primeira tentação, Eva cedeu à segunda: a de se livrar do medo das palavras. O Verbo transformou-se em adjetivo e começou a falar inglês. Eva, então, começou a contrair os lábios no momento da penetração. E a verbalizar o ato de contrição. E teve enjoos. E começou a ter desassossegos. E teve várias gravidezes seguidas. Ardia-lhe a alma. E o corpo. E até o sexo. Utilizou então óleos santos e orações pagãs. Tornou-se bruxa em algumas noites de determinadas sextas-feiras. E santa aos domingos. Adão começou a escrever poemas onde enaltecia a luz esplendorosa do amanhecer e do crepúsculo, tentando imobilizar a sua tristeza. Pensava que o seu Deus o enganava.  Depois Adão fez-se ao mar e Deus começou a espalhar palavras com a ajuda do vento. E o mundo começou a oscilar, a oscilar, mas não chegou a cair. A terra, reconfortada pelo sol, reconfortava o Senhor. Adão, depois de regressar ao que antigamente tinha sido o seu paraíso, encontrou Eva outra vez grávida do seu pecado original e pôs-se a cultivar os campos, a tratar dos vinhedos, da cabana, do moinho do gado e dos marcos que testemunhavam a sua ocupação. As ordens de Deus, do velho Deus do Antigo Testamento, eram dadas em monossílabos, como gritos de guerra. E Adão obedecia, que remédio, pois o velho Deus do Antigo Testamento tinha um feitio exacerbado. Tolerava os humanos mas não os amava. Por vezes arrependia-se desta sua criação. Num momento de exaltação, deu-lhes tudo em abundância: moedas, pragas, guerras e pestes. E êxodos. E travessias do deserto. E dilúvios. E a Eva concedeu-lhe o milagre das maternidades sucessivas. E ofereceu-lhes ainda a ambição do poder e o prazer da carne e de criar riqueza. E a baixar sempre a voz quando falassem com ele. E mostrou-lhes a terceira visão: a morte, o sangue e o sofrimento. E escondeu-lhes o futuro. E eles riram e depois assustaram-se. Depois contou-lhes o seu desejo de engravidar uma mulher de forma divina e de gerar um filho que havia de morrer pregado numa cruz para redimir o mundo, etc.

23
Ago21

554 - Pérolas e Diamantes: Nós, por cá (em duas versões)

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 2.jpg

 

 

Versão simpática: Apesar deste clima um pouco destemperado, a nossa cidade é quase como um conto de fadas. E evidencia quase todas as vantagens da nossa democracia. É linda. É limpa. É moderna. É rica. E é incrivelmente tentadora. Com lindos monumentos e oportunidades avassaladoras. Nós, as suas gentes, mesmo não parecendo, somos alegres, vivos e cultos. Por aqui até há poucos polícias. E muitas moradias. E extensos jardins. E centros desportivos. E clubes sociais. Também por cá existem bons motivos para se viajar. E as liberdades resistem ao doutrinamento. O senhor presidente é um homem encantador e consciencioso que apenas pode ser substituído por outro autarca consciencioso e encantador. Por aqui – a existirem, o que duvidamos – não nos apercebemos dos subalternos incompetentes, preguiçosos ou corruptos. Nós, por cá, somos muito imaginativos: inventamos interações, relatórios, contas e ajudas de custo. Aprendemos com os espiões soviéticos que quando se deixa debaixo de um banco de jardim uma casca de laranja significa que estamos em perigo e que se abandonamos lá por perto um caroço de maçã queremos assinalar que permanecemos em perigo e vamos sair da cidade. Ou mesmo do país. É claro que, por vezes, as combinações se tornam muito complexas, e transformam-se em verdadeiras farsas. Não sabemos bem se são eles a recrutar os nossos ou se os nossos é que estão a recrutar os deles. Claro que também há aqueles parvos de serviço para os quais não importa a vitória, mas apenas jogar o jogo. O problema é que por aqui há pouca gente a admirar Bach ou Haydn. As nossas petites elites gostam das viagens de recreio em Benidorm, compras no Corte Inglês e acumular o máximo de bens materiais. Sobretudo obras de arte, que, por incrível que pareça, costumam escapar às inspeções das Finanças. Um Nadir Afonso ou um escultura do Cargaleiro é fortuna acumulada. Ou em acumulação. Claro que não gostam dessas obras de arte esquisitas, preferem meninos a chorar grossas lágrimas, mas apenas os primeiros é que são considerados obras de arte e, por isso, são valiosos. Apenas por isso. Nós, por cá, continuamos apaixonados pelo nosso povo, pelos parques, pela procissões dos dias santos e feriados, pela palavra liberdade e pelos direitos adquiridos. Nós, mês sim, mês não, desabrochamos como seres humanos. E logo no meio de tanta beleza, tanta música, tanta alegria e tanta educação. Claro que existem também elementos ilusórios, mas são, quase sempre, produto de atividades particulares. Quando abrandamos o voo é para aterrar. Entretanto vamo-nos empanturrando de bolos e logo a seguir de corridas e caminhadas, muitas delas com coletes refletores e cajados de peregrinos. E partilhamos sorrisos e abraços.

Versão pouco simpática: Vivemos dentro de uma cacofonia democrática. Vivemos tempos intermédios e inconsequentes. O povo e a democracia vivem numa relação de conformismo, presos no seu cinzentismo. Somos pintassilgos que cantam como canários. Ensinaram-nos a ler a partitura errada. Uns são queridos e outros são uns merdas. Os primeiros descendem de poetas e aventureiros, pertencentes a uma linhagem que pertencia a outra. Agora estão tesos. Os outros esforçam-se por parecer muito mais estúpidos do que aquilo que são. Ambos parecem estar a regressar a casa sem nunca dela terem saído. Mas a realidade é sempre mais complicada do que a memória.  Viver na província é sempre arrebatador, porque é frustrante. Não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. A verdade é que somos demasiado simpáticos para sermos abnegados, demasiado honestos para sermos subversivos e demasiado educados para dizermos aquilo que pensamos ou, simplesmente, dizermos que não. Há por aí espalhado muito falso espontâneo. Como diz Aníbal Leites, nenhum acaso acontece por acaso. E assim nasceu Portugal. Isto da política é como um jogo de adivinhação, uma coisa para amigos. E para amigos dos amigos. E para amigos dos amigos dos amigos. Quando se chega ao quarto nível tem de se parar, senão o estrado descamba. É claro que quem consegue enganar tanta gente tem de ter valor. Vai-se para a política por quatro motivos, que são iguais ao da espionagem e sintetizados pelo acrónimo MICE: Money, Ideology, Coercion, Ego (Dinheiro, Ideologia, Coerção e Ego). Claro que também há o romance e até outras fantasias, mas... por aqui nos ficamos.

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