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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

29
Set21

Poema Infinito (580): A ágora das almas discretas

João Madureira

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Os santos do altar têm ar de estarem exaustos. Alguns estão de costas voltadas por já não conseguirem acompanhar as voltas infinitas da linguagem de Deus. Há pessoas que cometem erros em relação a si próprias. Não há pombas em Jerusalém. A minha oração preferida começa assim: não permitais que o ramo da oliveira tombe da mão do guerreiro da paz. O problema foi quando a pomba da paz começou a sua inclinação para cima, em vez de voar lateralmente. O seu bico ficou demasiado grande para poder segurar o ramo de oliveira sem os devotos do costume aprovarem a heresia. O mais santo dos santos, ou dos aldrabões, diz que consegue ouvir o som dos séculos quando encosta o ouvido nos montes do Fragão. O arado pode ser lento e profundo, mas a terra é paciente. Por vezes, o chão desaparece debaixo de nós e o céu torna-se enorme. Ninguém consegue voar sobre o deserto. Algumas pombas, por vezes, recusam-se a bater as asas. O seu sangue desorienta-se. Perdem o instinto. Enquanto os justos são guardados por anjos, os perversos precipitar-se-ão no vale. É difícil desmantelar o medo. Para alguma coisa deve servir a poesia. Eleva-te Little Nemo, eleva-te. Deixa as andas do outro lado do muro e vem dançar. O seu rosto parece sempre a meio de uma questão pendente. A chuva começa a cair com determinação. Todos os locais são santos. Por vezes, as estradas principais dão em becos sem saída por causa dos muros que dividem cidades e países. Ruas longas, memórias curtas. Os caminhantes encontram consolo nas caminhadas. Ajudam a moldar-lhes o pensamento. A dosear o esforço. A ter paciência. Depois já podem começar a viajar em várias direções diferentes. É bom sentir a arquitetura destas velhas casas, os seus tetos lisos, a sua cor neutra. Uma velha oliveira assinala o meio da praça. A luz começa a espalhar-se em redor da enorme fraga, numa grande auréola. Ainda me lembro de atravessar os campos e encontrar as mulheres a carregar molhos de erva às costas e de as ver regressar à aldeia passando pelo antigo poço da Ribeira. Elas, os burros e as crianças. Agora as sombras são ainda mais íngremes do que as escadarias de pedra. As noites são demasiado profundas. Já não há luzes nas janelas. Bandos de pássaros voam sobre o cemitério. Já estão lá todos os meus antepassados. Até os mais recentes. A desintegração é agora o exército da morte. Deslizando sobre os muros, o vento murmura e ecoa baixinho. A nossa terra transformou-se numa ágora de almas discretas. A candeia apagou-se num segundo. Estou agora sentado no silêncio. Lá fora, a luz diminui. Eu nasci aqui. Primeiro devemos vencer a dor e só depois tentar compreendê-la. Lá em baixo está o vale. Mais ao longe move-se o ar em redor da igreja. Fecho a porta e as janelas para que não entrem as borboletas. O tempo não espera por nós. Tento acalmar o vulcão da saudade e da tristeza. Tento. E tento mais uma vez. A extensão dos sentimentos é cada vez mais vagarosa. O pensamento repousa sobre as palavras. Nomeio os prodígios e a claridade. Junto ao rio ainda se escutam alguns ecos do dilúvio. Noé fugiu do paraíso a tempo. Juntou-se ao sussurro dos romeiros que atravessam a velha ponte romana a caminho de Santiago de Compostela. Lázaro ri-se de tristeza. Junto a si, os discípulos lavam os pés e os pecados. Tanta teologia para nada.

27
Set21

559 - Pérolas e Diamantes: A espuma das ondas

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 7.jpg

 

Ler um capítulo do Harry Potter a um filho, ou filha, antes de o aconchegar na cama, pode tranquilizar um pai com ambições políticas ou sociais, mas não faz nada pela cultura do seu descendente.

 

Até é bonito ter uma moradia moderna e preparar refeições saudáveis, que podem durar semanas, mas... mudar a ideologia não é o mesmo que mudar as circunstâncias.

 

Num jardim zoológico ninguém é capaz de se abster de fazer caretas aos chimpanzés. E de falar nos tratados de não-proliferação das armas nucleares. E dos impostos. E do aborto. Mas o grande problema é quando uma tempestade tropical se abate sobre as calotes polares.

 

Claro que até ao momento de hoje, tal não aconteceu, mas... nas coberturas noticiosas tudo é possível. Os pesadelos lúgubres flutuam nas nossa imaginação como cadáveres adiados. Pacientes idosos encurralam-se em hospitais. Há pilhagens. E desalojados. E a esperança perde-se.

 

A vulnerabilidade dos governos é um mito envergonhado. É uma realidade encolhida.

 

Perfilho a convicção de que o nosso regime político, ora mais à esquerda, ora mais à direita, é estruturalmente uma social-democracia de refugo. Sendo que ao Presidente da República está destinado o papel de biombo do regime. Umas vezes bobo da corte institucional, outras vezes bombo da festa partidária. Limitando-se ao triste papel de protagonizador de consensos inventados e a um silêncio amargurado em nome do supremo interesse da nação. Parece o putativo chefe de uma espécie de maioria silenciosa que não vota, nem quer votar. A democracia não é uma coisa desprezível, mas é uma coisa desprezada.

 

A vitória, dizem os líderes guerrilheiros, é sempre mais importante do que a vida. Isso é que era bom!

 

Tudo o que sabemos ao certo é que não sabemos nada ao certo. A verdadeira audácia passa sempre primeiro pelo fingimento.

 

Mas, verdade seja dita, o país continua a sofrer vítima da paixão de muitos e da incompetência de outros tantos. As frases altissonantes e as certezas absolutas continuam a demonstrar o seu vazio. Não se podem condenar os atos de corrupção dos outros encobrindo os nossos. A mentira tem sempre perna curta.

 

Chega-se ao cume do poder recorrendo ao silêncio, ao cálculo e à dissimulação. Por isso é frequente as políticas desses políticos darem com os burrinhos na água. Depois cresce o desprezo. A verdade é que não é possível confiar em quem se desconsidera.

 

O Serviço Nacional de Saúde é vítima de irresponsabilidade e decadência; a educação é mais palavrório que arte e competência; e a justiça, na prática, não existe, pois passa o tempo a remediar e a esconder a sua inépcia. E, para aguentar o descalabro, o Estado pede dinheiro.

 

Os governos, entretanto, revelam predominantemente a sua incompetência e os senhores Presidentes da República vivem triunfalmente dentro da sua irrelevância.

 

A verdade é que perante Cavaco, Sócrates e Passos Coelho, até António Costa e Marcelo R. de Sousa nos parecem pessoas competentes, honradas e sérias. Depois da ruína, o que nos resta? O descalabro?

 

A verdade é que há que responsabilizar alguém pela nossa altíssima dívida pública. E o governo de Sócrates não chega. Pois também há que incluir na lista os governos de Guterres, de Durão Barroso e ainda o do inenarrável Cavaco. Em boa lógica, se formos à procura de culpados, não escapa ninguém desde o 25 de Abril.

 

Toda essa tribo ganhou um ar de respeito, adotando fato escuro ou com riscas fininhas e discretas, falando de dedo esticado, de quem nos ameaça com a sua sábia sabedoria e o seu sorriso fátuo inerente à sua inatacável superioridade.

 

Os mais intensos, deixam de fumar, começam a fazer jogging e alguns até correm a meia maratona. Deixaram de ser autoritários, reservados, austeros ou arrogantes. Dizem-se firmes nas suas convicções. Dizem-se fiéis à sua missão. E dedicam-se mais à contemplação e ao pensamento.

 

Continuam a ter pena de não conseguirem tempo para a leitura, mas a obsessão pelo trabalho persiste. Citam Ortega y Gasset, por ser um bom filósofo. Dizem-se políticos, mas não passam de montagens publicitárias polidas, vácuas e inócuas.

23
Set21

Poema Infinito (579): A água do ar

João Madureira

IMG_4383 - cópia.jpeg

 

Este silêncio parece aguardar por uma resposta. Resposta que eu não tenho. Os livros da cabeceira caíram ao chão. Caíram dentro do silêncio. No deserto de Atacama, um dos lugares mais desertos do planeta, os agricultores aprenderam a recolher água do ar, para isso suspendem grandes redes para apanhar bancos de nuvens vindas da costa do Pacífico. O nevoeiro é capturado de manhã cedo, antes de o sol desfazer as nuvens. Essas gotas de humidade escorrem pelos fios de plástico e juntam-se no fundo da rede, onde são canalizadas para um tubo que conduz a uma cisterna. Os agricultores chamam a essas redes apanhadores de nevoeiro. Desviamo-nos do centro da terra. As paisagens estão cada vez mais inclinadas.  Alguém trouxe os cavalos que transportam os poemas, as profecias, os mandamentos e as inspirações. As mulheres escutam. Têm a cabeça cheia de gritos. São os seus gritos anteriores ao amor, quando as suas vozes começavam a florir e os seus olhos tinham um brilho precioso e as suas mãos tocavam ao de leve o centeio imaturo. Sentiam a distância do tempo mas não a compreendiam. Os seus lábios estavam desenhados em curvas sôfregas prontos para beijarem coisas extraordinárias. Procuravam o sol, os frutos e os milagres. Milagres, nem vê-los. O desejo também nos pode consumir. É no âmago da água, na sua magnanimidade, que descansam as almas, criaturas sem história, sem desejo e sem tempo. Cá fora, as crianças esperam o rebentar das amoras e a maviosa loucura das uvas. Os seios das mulheres grávidas enchem-se então de leite e dá-lhes uma incontrolável vontade de cantar. A gravidade dos seus seios enche-as de instinto. Depois amassam o pão, com o corpo a arder e os olhos palpitantes. Projeta-se na parede uma sucessão de imagens vertiginosas de alegria e impudor. Algumas mulheres novas cheiram a resina e conseguem acordar a erva. Outras choram quando veem as estrelas despenharem-se no céu. Os corpos iluminam-se por causa das luzes longas provocando sombras ásperas e um desejo que vem de longe. No meio do mar dormem as ilhas dos mitos onde se vela a beleza, onde principia o mundo e onde um dia há de acabar. No continente cresce a carne, os espíritos cegam e ficam abstratos. Começa o tempo. As mulheres devolvem a luz com que foram criadas. E vertem águas. E parem crianças concebidas em silêncio embrulhadas em auréolas. O desejo foi puro. O poeta escreve uma nova teoria de instintos, cheia de inocência. Aves azuis pousam sobre os trevos. Cada instante consome a sua própria eternidade. Lembro-me de beijar os olhos da esperança e depois morreu o pai. Aquele incêndio nunca mais ninguém o conseguiu apagar. Nem Deus embebido no seu minuto sobrenatural. Vivo dentro desta casa morta, rodeado de centauros e de crepúsculos agonizantes. Muitas das palavras mais amadas morrem-me dentro da boca, mesmo antes de serem articuladas. O desejo traz o perfume da noite. Sentimos a grande paz das coisas exteriores, as minúsculas raízes de sol, o silêncio e a posse. E o poder insustentável do tempo. Arde no monte um inesperado campo de urzes. Os arbustos parecem bichos iluminados. Colho o espanto com as minhas mãos dolorosas. Repouso o olhar na delicada mesa dos símbolos. A avó beijava sempre a pequena cruz antes e depois de rezar o terço. Depois tocava-me na testa e mandava-me ir deitar com os anjos.

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