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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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28
Out21

Poema Infinito (584): A rotação do fascínio

João Madureira

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A velha casa parece um corpo vazio, com esquisitos traçados de pedra, um lugar ambíguo, dentro dos seus parâmetros, mas já fora de tempo. Apenas as suas longínquas linhas se movem com a inclinação da tarde. A neblina ascende. O espaço é penetrável. O caos torna visível as formas. A primavera já pertence a outro espaço. As ruas são agora locais de fadiga, contagiadas pelos cães. Por todo o lado se espalham as memórias que gritam porque sabem que vão morrer. Os seguidores do crucificado entretêm-se a pregar ao lenho os hereges. As insónias vivem e dormem ao nosso lado. As crianças usam objetos cujas imagens mais tarde lhes provocarão solidão, brincam com druidas que lhes ensinam a cozinhar ementas de precipitação. Aprendem facilmente vários insultos de amor sem lhes perceber o sentido. Por alguma coisa de estúpido, as fadas e os anjos são loiros e têm os olhos azuis. Por isso, as prostitutas e os travestis os tentam imitar. Todos querem ser humanos angelicais, como se isso fosse possível. Por vezes é inútil dizer a verdade. Por vezes, a verdade é pior do que a mentira. Provoca mais danos e mais ausências. Escrever também provoca dor. Depois segue-se um súbito cansaço de tudo. Cansaço de ser e de não ser. Cansaço do amor. Cansaço do ódio. Cansaço da indiferença. E da raiva. Da raiva do sucesso. O sucesso é uma falsa realidade. Os teus olhos parecem escarpas onde o espaço imita o brilho dos arquipélagos. A nómadas chegaremos um dia, carregados de sítios, de voos, de percursos breves e de rostos onde emergem as ausências. E chegaremos a Babilónia, essa cidade de torres silábicas onde dizem que até a rotação do sol é erótica e que ilumina os corpos e que transforma a carne e o espírito e que está na génese da água e da luz. Dizem que lá, os homens fazem verdadeiros discursos do tempo por onde a memória flui, por onde o fascínio irrompe, onde se sente a lucidez da luz e as noites têm duplo sentido. Daqui vemos agora os montes iluminados e sentimos a pressão do oxigénio sobre os vultos. Inspiramos. Expiramos. Os sexos estão repletos.  As rugas parecem agora de fogo, como se fossem constelações. De tanto chorar, os olhos da avó enfraqueceram. Jesus também chorou. E choraram ainda muitos dos bem-aventurados. Toda a luz se tornou interior, como se fosse uma espada de raios. Nas águas do rio, os peixes nadam como se estivessem cansados. A tristeza é uma espécie de cegueira. A noite acendeu-se de forma vagarosa. Junto à lareira, os rostos parecem brasas. Fazem lembrar a pequena infância, o vinho, o instinto e os espasmos antes da violência. Arde a mesa, arde a carne, arde o vinho. Apenas as estátuas ficam frias. Cresce a angústia dentro do tempo, a substância de Deus, a inocência e os primeiros sinais de glória. As flores desenhadas nos panos de linho começam a tremer, como se fossem veias. O perdão nasce das formas, do sopro alucinado do redentor. Escuto agora o medo e o ruído das gárgulas. A madrugada começa a rolar sobre os telhados da casa, afastando a noite. As palavras que me saem da boca possuem caudas luminosas. É nos meses vagarosos que as pessoas costumam enlouquecer. Acordam gritando matérias secretas. Ainda me lembro quando no campo procurava trevos de quatro folhas. Os milagres acontecem de forma oculta. Nesse tempo eu colhia amoras maduras das silvas junto à Ribeira e sentia a doçura protetora dos beijos da minha mãe.

25
Out21

563 - Pérolas e Diamantes: Do mal o menos

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 6.jpg

 

 

Li isto de José Marti, o cubano mais cubano dos cubanos: “Éramos uma máscara, com calções de Inglaterra, o colete parisiense, o sobretudo da América do Norte e o barrete de Espanha.”

 

Afinal o que é que mudou? Apesar de português de Portugal, não vá algum adepto de André Ventura duvidar na minha ancestralidade, sinto que pouco ou nada se alterou em relação aos poderes mundiais. O mundo dos ricos continua a ser uma espécie de detergente com glutões.

 

Teddy Roosevelt, presidente do EUA até 1909, data em que deixou de invadir países e foi caçar rinocerontes para África, disse: “Nenhum triunfo da paz é tão grandioso como o triunfo supremo da guerra.” Por dito tão profundo foi distinguido com o Prémio Nobel da Paz.

 

Para dar razão ao seu predecessor, William Taft, invocou a ordem natural das coisas e afirmou: “Todo o hemisfério será nosso de facto, como já é nosso moralmente, em virtude da nossa superioridade racial.”

 

Depois da caça ao preto em África, da caça ao índio na América, e entusiasmado por tão pertinente aforismo de um presidente dos EUA, Hitler entusiasmou-se e decidiu, também ele, iniciar a caça ao judeu.

 

Dizem que para participarem nas guerras, os presidentes dos EUA invocam a inspiração do Céu. O presidente William Mackinley, há mais de um século, confirmou o contacto divino e resolveu partilhar a mensagem: “Deus disse-me que não podemos deixar os Filipinos entregues a si próprios, porque não têm capacidade para se governarem, e que nada podemos fazer exceto encarregarmo-nos deles e educá-los e elevá-los e civilizá-los e cristianizá-los.”

 

E o bom exemplo pegou, a seguir foram libertadas e salvas Cuba, Porto Rico, Honduras, Colômbia, Panamá, República Dominicana, Havai, Guam e Samoa.

 

Em delírio evangélico, o escritor Ambrose Bierce, assegurou aos incautos: “A guerra é o caminho que Deus escolheu para nos ensinar geografia.”

 

O poeta indiano Rudyard Kipling, nascido em Bombaim, mas fabricado em Londres, afirmava que os servos eram tão ignorantes que chegavam a ignorar aquilo de que necessitavam. E também eram tão ingratos que eram incapazes de valorizar os sacrifícios que os seus senhores faziam por eles.

 

Claro que a cristandade nada era sem o contributo insubstituível das senhoras da caridade. Por exemplo, a redenção das Filipinas contou, desde o início, com as mulheres dos altos funcionários e dos chefes militares das forças invasoras. Nas suas visitas à prisão de Manila, acabaram por se aperceber de que os presos estavam muito magros. Quando entraram na cozinha e se depararam com a comida daqueles desgraçados, caiu-lhes a alma aos pés. Era arroz selvagem, opaco e escuro. As autoridades, a rogo das condoídas senhoras, resolveram mandar vir dos EUA um carregamento de arroz civilizado, de cor branca, polido e embranquecido com talco. Nos primeiros dez meses, uma epidemia contagiou 4825 presos, matando 216. Os médicos americanos atribuíram a mortandade a algum micróbio originado pela falta de higiene que os países atrasados costumam gerar. Mas, por via das dúvidas, ordenaram que as cadeias voltassem à dieta do arroz selvagem. Como que por milagre, a epidemia acabou.

 

Nos finais do século XIX, a monarquia no Brasil morreu. Logo nessa manhã, os políticos monárquicos, por intervenção dos deuses do candomblé, acordaram republicanos. Passados poucos anos, foi promulgada a Constituição que implantou o voto universal. Todos podiam votar, menos os analfabetos e as mulheres. Como a grande maioria dos brasileiros ou era analfabeta ou do sexo feminino, quase ninguém votou. Apenas dois por cento dos habitantes do Brasil respondeu ao apelo das urnas. Do ato, resultou eleito presidente da nação um poderoso fazendeiro de café, chamado Prudente de Moraes. Deslocou-se então de São Paulo para o Rio no maior anonimato. Ninguém foi recebê-lo. Ninguém o reconheceu. Goza agora de alguma fama, pelo facto de o seu nome ter sido atribuído a uma elegante rua na praia de Ipanema.

 

Mas estas coisas já vêm de longe. Aristóteles disse: “A fêmea é como um macho disforme. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.”

 

Do mal o menos.

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