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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

21
Out21

Poema Infinito (583): Poesia do Big Bang (Décima quarta)

João Madureira

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O Antigo Testamento começa como história mas acaba em profecia. Adão desobedece, mas o lobo viverá com o cordeiro, o leopardo ao lado do cabrito e o leão ao lado do novilho. E um menino os conduzirá a todos. Compreendemos o Antigo Testamento como uma história de desastre onde alguém clama por socorro. Foi pela desobediência de um só homem que todos se tornaram pecadores. Mas é também pela obediência de um só homem que todos se hão de tornar justos. Deus quis criar o homem para a incorruptibilidade, à sua imagem e semelhança, mas veio o Diabo com a sua inveja e a morte entrou no mundo. O exílio babilónico foi um importante sobressalto. Os cristãos leem a Bíblia como o encadeamento de quatro elementos essenciais: a criação; a queda; a redenção trazida por Cristo; e a consumação final de todas as coisas. Eu acredito no herético que ensinava que os deuses dos dois Testamentos são dois deuses diferentes: um Deus mau que criou o mundo (Antigo Testamento) e um Deus bom que o redimiu (Novo Testamento). O próprio Jesus acreditava que o seu pai era o Deus bom. Até porque o Deus mau perdia muitas vezes a paciência, mudava frequentemente de ideias e agia como o faziam os mais cruéis dos tiranos terrenos. O Deus bom e a raça humana não contradizem o Antigo Testamento, mas movem-se para fora dele. O egocentrismo cristão baseia-se, e tem a sua máxima expressão, no Evangelho de João, onde o Proclamador se tornou o Proclamado. Ou seja, Jesus passou a ser ele próprio o conteúdo da proclamação cristã. Por alguma coisa Deus fez sair o seu povo do Egito com mão forte. Deus quis que o sacrifício de Isaac, o filho favorito de Abraão, fosse substituído por um carneiro criado ao crepúsculo. Dele nada sobrou. Os tendões do carneiro foram as cordas da harpa em que David tocava. A pele do carneiro foi transformada na faixa que envolvia a cintura de Elias. O corno esquerdo do carneiro foi aquele que assinalou a revelação do monte Sinai. Já o direito, que era maior do que o do lado esquerdo, estava destinado a no futuro chamar os exilados. Nesse dia o Senhor será o rei de toda a terra. A verdade é que o corno do lado direito do carneiro, que foi criado ao crepúsculo, e que substituiu, à última hora, o filho preferido de Abraão, ainda anda em bolandas para ver quando chegará o tal dia. E nós, pobres tontos, a bufar nos assobios feitos das canas verdes do centeio. Por alguma razão, Ananias,  o filho de Ezequias, gastou trezentos barris de azeite por se deitar tarde a tentar conciliar Ezequiel com a Tora. Nós queremos acreditar que Deus costumava andar no paraíso da parte da tarde e que Adão se escondeu atrás de uma árvore, não por ter pecado mas porque gostava de jogar ao gato e ao rato. As alegorias são coisas mais difíceis porque nos levam para realidades que costumam estar em planos mais elevados. Dizem que o verdadeiro espírito toca três pontos separados no tempo, pois percebe as circunstâncias presentes, recorda os acontecimentos passados e antecipa o futuro. Empenhados na leitura alegórica, somos mesmo capazes de metaforizar aquilo que já em si é uma metáfora. Para percebermos a Bíblia é necessário inverter a ordem do tempo e até modificar os termos do discurso. A criação do universo demorou apenas três segundos.

18
Out21

562 - Pérolas e Diamantes: O pragmatismo da treta

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 8.jpg

 

Quer queiramos, quer não, o indivíduo enquanto autor da sua própria vida é o protagonista do nosso tempo, quer entendamos este facto como emancipação ou aflição. Apesar do potencial libertador desta segunda modernidade, as condições da nossa existência refletem perfeitamente uma forma de vida complicada.

 

Mas os problemas e as relações sociais continuam a estar em ponto de rutura. A queda económica continua a ser praticamente irresolúvel, o contrato social está dependente de exigências ruidosas, a ansiedade e o desespero dos políticos eleitos, mal preparados intelectualmente para perceberem os motivos das novas políticas aparentemente keynesianas, e aparentemente fiáveis, não conseguem inverter o rumo dos acontecimentos. Os políticos neoliberais chafurdam no vácuo político. Dizem que a sua ideologia política reside na sua vontade pragmática. É tudo treta.

 

Dizem que o seu credo político reside numa defesa generalizada do mercado livre contra a nova ameaça das ideologias totalitárias e comunistas coletivistas. Para eles, o fascismo é um mal menor.

 

Explicam que existe a necessidade quase absoluta de o indivíduo e do coletivo se submeterem à disciplina redentora do mercado, evitando a radicalidade das putativas formas de supervisão estatal.

 

Os neoliberais defendem que o capitalismo deve voltar à sua essência: igualdade nos direitos e desigualdade na riqueza. O comportamento dos gestores tem de estar de acordo com o interesse dos donos. A não ser assim, a horda dos bárbaros derrubará a lógica e as leis do mercado. Os indivíduos devem ser educados e induzidos à competição perpétua.

 

A verdade é que a reciprocidade de oferta e procura é muito mais adaptável do que imaginavam os teóricos de esquerda. Mas o que hoje temos é uma lógica de capitalismo que transitou da produção lucrativa de bens e serviços para formas crescentemente exóticas de especulação financeira.

 

Apesar do desemprego e da amarga pobreza das pessoas, toda a gente quer pertencer, pelo menos, à classe média.

 

A realidade diz-nos que sem emprego não há dinheiro, nem oportunidades, nem educação de qualidade, sobrando daqui as privações, as injustiças e o desespero.

 

Apesar das décadas de crescimento digital explosivo, as divisões sociais indiciam um futuro ainda mais estratificado e antidemocrático. Como dizem os estudos, a economia assistiu à maior transferência de rendimentos para as camadas mais altas de toda a História.

 

Estamos em crer que mais de metade da população portuguesa vive em pobreza funcional.

 

Segundo Thomas Piketty, existe uma lei genérica da acumulação: a taxa de retorno sobre o capital tende a exceder a taxa de crescimento económico. Neste contexto, o economista francês identifica as formas com que as elites financeiras usam os seus lucros desproporcionais para financiar um ciclo de captação de políticos capazes de proteger os seus interesses da contestação política. Tudo em troco de reduzir legislação, cortar impostos e eliminar direitos.

 

Ou seja, tem de saber cozinhar uma sociedade democrática e capitalista em banho maria, porque o capitalismo cru é antissocial.

 

O que mais custa é o sentimento de invisibilidade. Mas o que pode ser preocupante, pelo menos ao nível teórico, é que o povo demonstra ser mais sensato do que os nossos estadistas, pois isso significa uma inversão na legitimidade tradicional das elites governantes, defendendo que quem manda sabe mais do que a ralé.

 

Apesar do conhecimento das novas gerações ser ímpar na história do nosso país, são tratadas como se fossem invisíveis. O seu futuro é como a areia, escapasse-lhes por entre os dedos das mãos. A promessa de cada jovem licenciado ter direito à sua vida, à sua independência e à sua habitação a um preço acessível não passou de um discurso de boas intenções. As promessas do sucesso do capitalismo de informação foi conversa da treta, difundido tanto pela direita como por alguma esquerda dita liberal.

14
Out21

Poema Infinito (582): A viagem

João Madureira

IMG_4383 - cópia 5.jpeg

 

Grandes incêndios percorreram estas terras desprezadas pelo mundo, desceram aos vales e entraram nos templos e consumiram e desfizeram praças e celeiros e a sabedoria dos animais impassíveis. Muitas pessoas foram para junto do lago. O tempo ficou insondável. Depois vieram os ventos das montanhas e as geadas. Tudo se reuniu para inacabar os dias e as noites. Os nómadas nunca mais regressaram e os peregrinos começaram a andar à deriva. Alguns transformaram-se em salteadores dos longos crepúsculos, em homicidas de muito talento ou em poetas delirantes. Eu permaneci entre eles, alucinado, provavelmente maldito, exausto, faminto e quase cego. Fugi quando os homens e as mulheres começaram a balbuciar interrogações obsessivas. Cavalguei durante dias na direção do vento, de lábios cerrados. Por fim fui vencido pelo sono.  Parei numa aldeia em declive, perto da primavera e cheia de claridade. Encontrei um velho espírito das águas que aqui chegou navegando num veleiro enigmático. O seu olhar era ainda mais profundo do que o mar profundo. Gostava de se entregar ao vento, quando amanhecia e de salgar os lábios na maresia e de colecionar algas e de enterrar as aves mortas. À noitinha rezava pelos viajantes desaparecidos e falava da sua memória de naufrágios e dos lugares sagrados que visitou. E também das suas viagens pelos invernos glaciares. Durante a sua companhia transformei-me num eremita. Depois juntei-me a uma grupo de trabalhadores que construíam uma acrópole num lugar íngreme. A seguir iniciei a árdua travessia das cidades sem nome onde existia um frio permanente, cheio de chuva e de neve, onde vagueava pelas velhas ruas e pelos velhos bares cheios de marinheiros alucinados que entoavam canções distantes ao som de banjos e rabecas, ou acordeões. Depois da festa, respirávamos o silêncio e víamos passar os vultos de cores difusas e sombras curvas. Ouvi e aprendi a decifrar estranhos dialetos, a consultar escrituras sagradas e profanas e testamentos e exercícios filosóficos sobre a loucura e pergaminhos já quase desfeitos pelo tempo. Aprendi a interpretar a arte da vida e a arte dos corpos. Foi então quando as cidades entraram em declínio. Desci para sul onde encontrei os terraços brancos e as tardes quentes. Tudo por lá incitava ao amor, ao sonho. E, por fim, ao genocídio. Tentei aprender com um velho sábio o conhecimento do universo, a memória das épocas de esplendor e de crise. Assustei-me. A minha sabedoria sucumbiu nas décadas de martírio e no seu fulgor. Naquela terra ardente não havia sinais de Deus, as mulheres viviam sozinhas, ou eram abandonadas na praia para que as levasse o mar ou os espíritos do mal. Começaram a ouvir-se gritos e depois apenas ecos. As árvores secaram e as terras foram sucessivamente destruídas pela passagem dos heróis. Por fim, foram-se embora em barcas iluminadas por archotes. As poucas crianças sobreviventes começaram de novo a sorrir, enquanto os seus progenitores vagueavam embebidos em raiva e surdez. Mesmo os exércitos vencedores um dia serão vencidos. Chega sempre o dia em que as crianças, já velhas, clamarão vingança, cheias de tanto desamor. Quando o tempo chega ao fim é sempre tarde ou ainda cedo de mais. Desci então devagar pela minha dor. Há sempre distintas formas de perder a fé. Quando a tribo se desfaz, as multidões costumam apedrejar os cães.

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