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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

11
Out21

561 - Pérolas e Diamantes: A nostalgia mentirosa

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia.jpg

 

Anda a espalhar-se por aí uma onda de nostalgia preocupante. Difundindo a mentira dos bons velhos tempos.

 

Segundo Svetlana Boym existem dois tipos de nostálgicos: os reflexivos e os restauradores.

 

Os reflexivos são estetas, colecionadores de documentos amarelos e fotografias em tom sépia e admiradores de igrejas antigas, mesmo não indo à missa. Estes nostálgicos sentem falta do passado e até sonham com ele. Alguns estudam-no e chegam mesmo a afligir-se com o seu próprio passado. Mas não querem o passado de volta, por muitas ordens de razão, muitas delas relacionadas com o facto da velha propriedade da família estar em ruínas ou porque foi sujeita a uma descaraterização que a aburguesou ao ponto de a tornar irreconhecível. E também porque sabem que não iam gostar muito dele. No passado a vida poderá ter sido mais doce ou mais simples, mas também era mais perigosa, mais chata e muito mais injusta.

 

Os nostálgicos restauradores são radicais. Muitos nem sequer são nostálgicos e muito menos gostam das fotografias antigas. São, sobretudo, produtores de mitos e engenheiros construtores de monumentos e fundadores de projetos políticos nacionalistas. Não se querem ficar pela simples contemplação do passado. E muito menos aprender com ele.

 

Segundo Boym, os nostálgicos restauradores pretendem “reconstruir a casa perdida e preencher as lacunas da memória”.

 

Muitos são tão ambliopes que não identificam o passado, mas as ficções sobre ele. Acreditam que o seu projeto é sobre a verdade. Não acreditam que o passado teve nuances e que os seus líderes eram homens com muitos defeitos e que as famosas vitórias militares da História tiveram efeitos colaterais enormemente mortíferos. Só lhe reconhecem as virtudes e apagam da sua memória os terríveis defeitos.

 

Acreditam na versão caricatural do passado. Querem viver nessa mitificação de imediato. E não o fazem para se divertir. Pretendem comportar-se como acham que os seus antepassados se comportaram, sem a necessária ironia.

 

Esta nostalgia restauradora quase sempre anda de mãos dadas com as famosas teorias da conspiração ou as mentiras de média dimensão. Muitas delas são tão simples que se limitam a invocar bodes expiatórios em vez da mais elaborada realidade alternativa.

 

A explicação é sempre a mesma: a nação enfraqueceu porque alguém nos atacou e anda a minar os pilares da nossa identidade e a esgotar-nos as forças e os recursos. E quem é o inimigo?  Os imigrantes, os estrangeiros, as elites e a União Europeia. Enfim, a Democracia. Todos eles contribuíram para perverter o curso da nossa gloriosa história e reduzir a pátria a uma caricatura do que já foi. A nossa identidade foi-nos roubada pelos invasores, com o auxílio e a tolerância dos traidores que se fazem passar por patriotas, e substituída por algo reles, abjeto e artificial.

 

A nostalgia restauradora desemboca sempre nestas teorias da conspiração, baseadas em histórias alternativas sem qualquer base de factualidade.

 

Para eles, os democratas são homens vulgares, sem ideais sublimes, sonhos redentores ou sequer talento. Por princípio, antipatizam com a ciência, a tecnologia e a modernidade. Não gostam de estrangeiros, sobretudo pretos, ciganos e muçulmanos. E de homossexuais. E de lésbicas. E de intelectuais.

 

São adeptos da religião interpretada de forma literal, da raça e da vida caseira.

 

A esquerda gosta de os ridicularizar. Mas eles não perdem a fé.

 

São adeptos das cruzadas morais e das reformas económicas assentes nos retrocessos dos direitos laborais. E lamentam o facto de a modernidade ter deixado de gerar grandes líderes.

 

Portugal, pensam eles, está a morrer. E também a cultura lusitana, a religião católica, as leis e o caráter genuinamente português. Os imigrantes estão a ameaçar a nossa identidade nacional.

 

Estes nostálgicos restauradores, com as suas propostas de revisão das leis pretendem criar o caos constitucional e político.

 

Os seus ideólogos consideram que vivemos “numa disfunção sistémica das nossas instituições e sob a influência de políticos incompetentes e grotescos”.

 

Mas uma coisa todos sabemos: a retórica radicalizada e irada apenas gera ódio, guerra e morte.

 

Definitivamente, há gente que não aprende nada com a história.

07
Out21

Poema Infinito (581): Apeirogon

João Madureira

ORIGINAL.jpeg

 

É lei da Tora, no sabat é proibido arar, semear, colher ou enfaixar, debulhar, joeirar, selecionar, peneirar, moer, amassar e fazer pão. É proibido tosquiar lã, lavá-la, batê-la, tingi-la, fiá-la, tecê-la e ainda atar e desatar fios, dar dois pontos, rasgar, caçar, marcar, esfolar, salgar carne, curtir couros, raspá-los ou cortá-los. É ainda proibido escrever duas letras, apagá-las, construir ou demolir edifícios, acender ou apagar fogos, bater com um martelo, transportar um objeto do domínio privado para o público ou mesmo transportar um objeto na esfera pública. No islão existem 99 nomes para Deus. Todos belos. Muitos dos manuscritos pendurados pelo pastor Muhammad, nas grutas em torno de Qumran, foram descobertos por crianças que os usaram como atilhos para os seus papagaios até se desintegrarem e serem espalhados pelo vento. Quatro dos manuscritos do Mar Morto, comprados por meia dúzia de dólares, foram levados para Nova Iorque e vendidos, em leilão, por 250 mil dólares. Muhammad confessou que uma das coisas que mais lamentava, enquanto velho, era nunca ter encontrado o corpo da cabra que se perdeu na gruta onde descobriu os pergaminhos mais valiosos dos tempos modernos. Leio o Cântico de Salomão e continuo a considerá-lo um dos mais belos e misteriosos livros da Bíblia. Uma luz acende-se. Alguém se desloca de um canto da escuridão para outro. Alguém olha lá para fora. A escuridão é aquosa. Tento jogar um esquecido jogo infantil. Tanto entro como saio da sua própria sombra. Talvez também seja minha. A inquietação, por vezes, dificulta a articulação das palavras. Mas os enigmas prosseguem: o enigma da luz, o enigma da música e o enigma da escrita cuneiforme. Alguém parece recitar poemas, mas ninguém quer ouvir declamar versos sem aviso prévio. A noite não consegue dormir, fez-se minha companheira. As memórias ficam presas ao seu vazio. Ainda ali está o velho querubim que a mãe pintou de branco. Apeirogon é um polígono com um número contavelmente infinito de lados. O poema infinito é um texto com um número literariamente infinito de combinação de versos. Tudo é possível, até o aparentemente impossível. Cada um renasce quando volta às suas origens. Lembro-me de eu e minha mãe descascarmos e contarmos as 613 sementes de uma romã. Corria já um vento frio de outubro. Segundo alguns estudiosos da Bíblia, a romã era o fruto proibido do Jardim do Éden. Há pessoas que fazem juras ao cinismo, sendo depois vítimas dele. O cinismo tem o sabor forte e amargo do café. Quando se está em cima de uma corda bamba, e não se quer cair, tem de se olhar para longe e não para os próprios pés. Ontem houve uma invasão de mariposas na aldeia. A beleza transformou-se num pesadelo. Ainda estou a tentar amenizar as perspetivas e a simplificar as confusões que não deixam de crescer. A infelicidade é sempre possível. Já a felicidade é o caos em expansão. Depois sucede o Big Crunch. A casa continua cheia de murmúrios e de coisas estranhas. Todos os espíritos à roda da mesa. Em silêncio. Imóveis. Ocupados pelas orações e pelos símbolos. Também a loucura pode ser sagrada. E a luz. E os fabulosos órgãos do silêncio. Também o teu rosto dorme junto ao meu, como se não houvesse medo. O espírito dos espíritos cai dentro da forma e desvanece-se. A voz universal pousa sobre a terra.

04
Out21

560 - Pérolas e Diamantes: Côdeas do passado

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 5.jpg

 

A antiga vida dos pobres consistia em vestir-se de preto, sentar-se à porta a falar dos mortos e dos que cá ficavam a penar. E nos pátios, as vizinhas juntavam-se nas soleiras das portas. Os velhos sentavam-se ao sol com um cajado a seu lado e as pernas esticadas. As mulheres andavam quase sempre grávidas, coçando o ventre, com as crianças em seu redor enquanto estendiam a roupa. A água ensaboada e azul dos tanques escorria pelas valetas. Por perto farejavam os cães rafeiros que eram afastados com vassouradas amigáveis. A feira parecia uma tragédia: as fruteiras embrulhavam a fruta em pedaços de jornal e discutiam os preços, vendiam-se porcos, galinhas, louça de barro e melões. As mulheres jovens usavam blusas de ramagens que lhes cobriam os seios amplos e soltos. Gostavam de contar as coisas banais que aconteciam no seu mundo. E sorriam, curiosas, faceiras, porque gostavam do negócio. As mulheres mais velhas usavam bigodes e gestos espadanados e lentos. O seu olhar era seco. Os filhos dos ricos passavam por ali como se fossem anjos numa procissão. A voz dos pobres era azeda, cansada, assemelhava-se aos rumores agonizantes dos dias de Páscoa. O lume crepitava por entre a miséria. Tudo era agressivo: o calor, o frio, os cheiros, os animais, as vozes dos vizinhos, os ladridos dos cães, a chuva que varejava as flores e os sermões dos padres. Comia-se muita carne de porco, bacalhau cru, azeitonas e hóstias. Os inválidos dormiam o tempo todo e todas as empregadas domésticas usavam aventais. Quando o sol mudava de lugar, todos se iam embora. Até os gatos com o seu olhar frio e enigmático. As professoras de outros tempos tinham sinaizinhos na cara e usavam pó de arroz para os disfarçar. Ensinavam a uns meias letras e a outros as letras inteiras. As crianças tentavam harmonizar-se, mas eram logo propositadamente divididas para manter a sociedade viável e devidamente hierarquizada. As meninas tinham lindos cabelos e um sorriso nos lábios. Já as raparigas parecia que usavam perucas mal penteadas. Os meninos iam ao alfaiate fazer a roupa e os rapazes vestiam a que deixava de servir aos meninos. Os casais amorosos juntavam-se atrás das taipas dos portais, enlaçando-se e trocando promessas. Morria muita gente, nasciam muitas crianças, muitos casais espancavam-se, eles bêbados e elas famintas, mas todos se invejavam e amavam e se caluniavam e cometiam pecados. Os sapateiros costumavam trabalhar no meio de montes de velho calçado, botas acalcanhadas, chinelos esventrados, solas soltas e esburacadas. As mulheres gostavam muito de se pentear à porta, embebendo em água o pente que fazia um ruído arranhado quando tocava no fundo da bacia de esmalte. Os homens que tinham emprego ostentavam orgulho no brilho da sua cara depois da barba desfeita. Metiam respeito as raridades e as esquisitices das poucas pessoas que, após as refeições, lavavam os dedos em taças de cristal, ainda na mesa. A verdade é que a maioria dos indivíduos andava sempre a pensar em coisas de comer, como os rafeiros. O sino das igrejas dobrava durante o dia a anunciar o falecimento de mais uma alma. Toda a gente vestia a sua melhor farpela preta e sentava-se em cadeiras colhidas por empréstimo em toda a vizinhança e ali se abancavam martirizados pela imobilidade. Sentia-se então um cheiro forte a naftalina, a chamiços queimados, a raspas de pão azedo das masseiras. E a morte.

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