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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

31
Jan22

576 - Pérolas e Diamantes: O manto diáfano da estupidez

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 3.jpg 

 

Incomoda-me este frenesim politicamente correto, esta moda autárquica e governativa de derrubar estátuas, mudar os nomes a ruas e praças, universidades, pontes e aeroportos. Vivemos numa era de anacronismo e de revisionismo histórico. Os líderes supostamente democráticos  parecem agora os diáconos da correção política. A liberdade anda vigiada, vemo-la pelo canudo destes novos doutores da mula ruça. Incomoda-me esta horda de indignados da treta. São defensores da liberdade de cada um fazer o que eles fazem, de comer o que eles comem, de falar como eles falam e de idolatrar os seus ídolos. Afinal, tudo é tabu, menos o tabu. Coitada da Harper Lee, coitada da cotovia. E não é que a obra-prima da literatura antirracista (Não Matem a Cotovia) foi banida dos programas em escolas do estado da Virgínia, nos EUA, por ter sido denunciada por uma encarregada de educação ofendida com a utilização do termo “nigger” (preto), expressão coloquial conotada com a segregação racial em diversos trechos deste romance delicioso!? Coitado do Mark Twain, também este escritor viu o seu clássico “As Aventuras de Huckleberry Finn” ser vítima de uma nova edição censurada, onde o substantivo “preto”, utilizado 219 vezes, foi substituído por “escravo”. Como se fossem sinónimos, argumentando, o seu mentor, que assim fica mais adequado às salas de aula e pode “exprimir melhor as ideias de Twain no século XXI”, omitindo a realidade e o contexto histórico, pois o escritor viveu entre 1835 e 1910, e o seu livro foi editado em 1884, refletindo a realidade daquela época. Tom Sawyer, do mesmo autor, foi banido de várias bibliotecas norte-americanas, por conter “calão racista”. Várias escolas públicas de Barcelona anunciaram em 2019 que iriam excluir das suas bibliotecas livros alegadamente sexistas, incluindo neste seu índex histórias como o “Capuchinho Vermelho”, “A Gata Borralheira”, e a “Branca de Neve e os Sete Anões”, pois na opinião destes doutores da estupidez, estes contos são “tóxicos”. Estes são três no meio de duzentos. Duas feministas norte-americanas foram notícia porque contestaram o beijo do Príncipe à Branca de Neve, no final no filme homónimo, produzido em 1937, alegando que o beijo “não foi consentido” pois a Branca de Neve estava adormecida naquele momento, exigindo que essa alusão fosse proibida nos parques temáticos da Disney nos EUA. Em Inglaterra, em nome da igualdade das raças, “Tintim no Congo”, de 1931, foi retirado de circulação por “conter desígnios racistas”. Em Portugal, a mera hipótese de inaugurar um Museu das Descobertas, motivou logo uma forte indignação por parte  da comunidade académica, argumentando que para os não europeus, a ideia de que foram descobertos é problemática. E por isso escreveram uma carta aberta ao presidente da câmara de Lisboa. Também nos EUA derrubaram várias estátuas, nomeadamente a de Cristóvão Colombo. E na libertária Barcelona, cidade dominada pelo monumento que celebra o navegador genovês, surgiram movimentos que apelam à sua remoção, com base em acusações de genocídio.  Em Londres, a estátua de Winston Churchill foi vandalizada, o que levou a que a câmara da cidade a tivesse ocultado dos olhares públicos, tapando-a. Em Paris, a estátua de Voltaire foi atacada, sob a alegação de que o filósofo iluminista do século XVIII esteve associado à Companhia das Índias francesa, que promovia o tráfico de escravos. Em 2016 foi o ano da perseguição e do derrube das estátuas de Ghandi, que de símbolo máximo do pacifismo passou a ser um homem que contemporizou com o colonialismo. Em Portugal, um grupo de iluminados resolveu vandalizar a estátua do Padre António Vieira. E a estupidez vai-se estendendo. No Instagram foram banidas as imagens de um cozido galego, que é muito idêntico ao nosso, com a alegação de que as imagens de enchidos misturados com vegetais “ infringem as normas comunitárias”, pois contêm uma suposta “violência gráfica e linguagem visual que estimulam o assédio ou a nudez e a atividade sexual”. Ou seja, a “violência gráfica” dos enchidos e da couve troncha escandalizam os devotos das religiões fundamentalistas vegetariana e vegana.

27
Jan22

Poema Infinito (597): Fissuras

João Madureira

IMG_4383 - cópia 2.jpeg 

Os templos simulam o tempo e o seu despovoamento. Os mistérios estão cheios de pedras e de escombros proféticos e de arestas e de vazios e de túmulos e de almas e de olhares mágicos que se desenvolvem em espiral. O tempo não se pode polir como se fosse mármore. Nos pequenos cânticos aproveita-se a luz até ao delírio. O vento vem e desenvolve a memória das periferias e a inteligência estática das pontes e do tédio. O tédio das folhas mortas e das suas elipses, o tédio do olhar triste dos desiludidos, o tédio da arte cromada e da velocidade dos túneis. E da bebida. Tanto e tão pouco. O sexo é agora uma nova sombra da alma. Dizem que as imagens se afundam, como se fossem pedras. Também afirmam que possuem uma vida secreta. Giotto afundava-se na sedução do olhar dos ignorantes, na subtil amplitude dos detalhes dos prazeres, no sadomasoquismo da clausura e nos limites sólidos dos corpos. Fra Angélico alimentava-se de esquemas cândidos e de desenhos recolhidos do voo das andorinhas. Tudo parecia vazio. Os anjos e as suas asas de ouro, a cintilação antropomórfica do pecado e a estúpida fixação de Deus pela conceção de um filho que não deixasse nenhum rasto de sangue e sémen. Apesar da mãe ser virgem e de o pai também. Pai, Filho e Espírito Santo. Eu refugio-me na colina perto do voo das aves. Fecho os olhos e balbucio a ideia de que o amor pela violência é uma forma de ódio intrínseco. Acumula-se o isolamento e a memória e as sombras. É este um novo alvorecer antes do desfalecimento. O sol pode ser implacável, secando as terras, incendiando os pinhais. Foi em cenário idêntico a este que Van Gogh escreveu a última carta a Théo, reproduzindo a loucura, exprimindo o amarelo, a terra azul, os corvos, os pomares vermelhos, a cintilação das estrelas e os pedaços de pão que deitava aos corvos. Tudo arde em volta. Tudo arde. Volta a desabar a noite depois de cair o sol sobre o cume das montanhas. Não há coisa mais triste do que ver os girassóis a arder enquanto Kandinsky se esconde atrás das telas, brincando com as formas rigorosamente geométricas. Fecho os olhos à intensidade das chamas da manhã. Tudo arde. Até o vento. Paul Klee assa o peixe no lume repentino da sua infância, cercado pela erva, pela água, pela obscuridade transparente das anémonas. Modigliane fugiu a cavalo para ir pintar o retrato de uma mulher longilínea. Engolimos as estrelas deitados sobre a noite esclarecida de Paris. De uma janela de um quinto andar, Jeanne Hébuterne salta para junto de quem ainda julga amar. Recriamos lentamente pelo olhar os objetos pintados, as arestas das sombras, as visões místicas, a essência fascinante do trabalho. Todo o sossego é falso. Chagall liberta as pinceladas dos elementos da física, os exílios, a cor dos sorrisos, os nevões de São Petersburgo. Todos os retratos pintados são falsos. Parecem animais sacrificados à eternidade. Podem não oxidar, mas o tempo corta-os em lâminas tão finas que mais valia terem sido manchados pela luz da verdade. As vozes atravessam os sexos em potência. Os orgasmos transformam-se em sismos e os falos ejaculam lava. Depois esquecemos a desolação, os sonhos magoados, a ardência das partes incertas e vamos à procura da traição. Tudo fica escuro. Os homens levantam as mãos para se protegerem do sol. O amor provoca fissuras indeléveis.

24
Jan22

575 - Pérolas e Diamantes: Afetuosidades

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 2.jpg 

Raul Brandão escreveu nas suas memórias que as nossas tropas que iam para a guerra, em dezembro de 1914, sobretudo os oficiais – que tinham consciência do ato desesperado e destemperado que estavam para comandar –, se preparavam como quem ia para o açougue. Os jacobinos, essas almas penadas, chamavam-lhes “cabides de farda”. Os portugueses incréus acreditavam que mandar tropas para França bastaria para salvar a República moribunda. Junqueiro, que se escondia atrás de uma falsa esperança, disse para quem o quis ouvir que ia passar alguns meses a Barca de Alva para escrever um manifesto sobre a República. Mas, naquela altura, a República já não arrimava nem com o mais poderoso dos manifestos. E o Junqueiro sabia disso: “Desde o 5 de Outubro que está tudo errado. Eu bem dizia ao Bernardino que tivesse cuidado com a lei da separação… Mas ele queria agradar aos radicais e ser mais radical do que o Afonso. O Bernardino é assim: a sua afetuosidade não é uma mentira, a sua bondade não é uma mentira. Mas é político e sacrifica tudo às suas ambições.” Manda a verdade que se diga que, apesar de afirmarem que o Junqueiro tinha influência no Bernardino, ele não lhe ligava nada. Basta dizer que o autor de “A Velhice do Padre Eterno” andou a pedir-lhe durante seis meses que nomeasse para o seu concelho um administrador para substituir o “sicário” que lá estava, mas, mesmo com “a palavra de honra do Bernardino, o “sicário” lá ficou a fazer as suas “sicarices”. Bernardino parece que tinha fundadas razões para libertar, e separar, as suas palavras da sua honra. “Para restabelecer o equilíbrio até mente…” Naqueles tempos de república anárquica, Afonso Costa quase morria da queda que deu ao saltar do elétrico, com medo de uma bomba; a Inglaterra olhava para nós como “para uma pescada podre”; Basílio Teles, em Matosinhos, declarava que estava a terminar um folheto e depois já podia ir salvar o país, apesar de passar fome e de se reconhecer incompetente. E os monárquicos, essas libelinhas da incompetência, mudavam de opinião sempre que falavam com uma pessoa ou liam um livro. Também é verdade que poucos se importavam com a guerra. A grande maioria do país, ontem como hoje, vivia alheada do que por cá se passava. Segundo rezam as crónicas, as damas talassas rezavam pela vitória dos alemães e junto com as orações lá iam pedindo a Deus que viesse de novo a monarquia para acabar com a maçada de ir à missa aos domingos. E as tropas, lá iam embarcando para a guerra, quase em segredo. Em Santarém, alguns oficiais recusaram-se a marchar. Mas o regimento, sob as ordens de um major e de um oficial miliciano, desfilou, enquanto as mulheres do povo atiravam esterco à cara dos oficiais do 34, que foram sob prisão para Lisboa, defendidos por uma escolta da Guarda Republicana. Os submarinos alemães meteram ao fundo, perto do Cabo da Roca, dois vapores e um lugre com bandeira portuguesa. Lisboa, quase às escuras, vivia na iminência de um saque. Nos clubes, à luz das velas, os mais intrépidos jogavam e entretinham-se com as mulheres. E já naquela altura, tal como agora, toda a gente se irritava, mas ninguém se importava que os outros perdessem tudo. Palavras de Raul Brandão: “Um banqueiro pode roubar-nos à vontade, que a turba aperta o casaco e diz com certa satisfação: – «Que não fosse tolo!» –  Mas vê-los enriquecer à nossa vista não se tolera.” Passados dois anos, num golpe de mágica, cai o Afonso Costa, foge o Alexandre Braga e todo o cenário se transforma. Agora manda o Sidónio. Os interesses são outros, mas os ódios aumentam. O povo de Lisboa que, a 5 de outubro, defendeu os bancos, aproveita a ocasião e assalta as lojas. E, por todo o lado, à semelhança dos tempos atuais, toda a gente estava farta de políticos. De monárquicos. De republicanos. As roubalheiras eram tremendas. O país estava a saque. Contava-se que o que se passava no Ministério da Guerra era pavoroso. “O general X… fez uma fortuna em arreios. No Ministério da Fazenda havia um carimbo com estes dizeres: «Despesas sem documentação.» Na província, o mesmo ou pior…” Os marinheiros revoltaram-se, cerravam-se os taipais a toda a pressa e, noite dentro, começavam as descargas no silêncio da cidade mergulhada nas trevas. De manhã falava o canhão. Depois entrava a fuzilaria até à hora de almoço. Os soldados andavam em bando pelas ruas quase desertas.  Mas depois dos desvarios, Lisboa, habituada, saía para a rua. À noite, os animatógrafos e os teatros enchiam-se.

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