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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

07
Fev22

577 - Pérolas e Diamantes: O teatro continua

João Madureira

Apresentação3-2 - cópia 4.jpg 

 

Tentar modernizar a mentalidade dos portugueses é como atirar bolas de neve a paredes lisas de mármore, pois limitam-se a deslizar deixando apenas um rastro húmido.  Para nós, o progresso é apenas uma palavra que nos faz sonhar. O espaço de debate é cada vez mais reduzido e protagonizado pelos tagarelas de ofício sempre enfeudados a grupos de pressão política, social e financeira. As desigualdades intensificam-se, a hierarquia social é mais rígida e a exclusão agrava-se. Sabemos menos e decidimos menos. Apenas nos pedem para decidir quem deve decidir. E dali não passamos. Andamos sempre a perder. Como dizia o Alpoim, os ladrões são os homens mais finos deste país. Há gente que se julga em missão importante, mesmo quando vai à retrete.

 

Tudo neste mundo tem o seu reverso. Agora é a esquerda que se arma em puritana e anda numa espécie de caça às bruxas, preocupada com a linguagem. Vivemos tempos tão estranhos que até parece que o sentido de humor também está a ser perseguido. É uma nova espécie de autocensura, que passa por inibir as pessoas de dizerem certas coisas que não estejam de acordo com os ditames do politicamente correto. Essas pessoas têm receio de serem vetadas e ignoradas. As pessoas civilizadas, apesar de poderem não dizer as mesmas coisas, de pensarem de maneira diferente, até em questões fundamentais, não andam por aí à bofetada.

 

Apesar disso, o teatro de bastidores continua. O manicómio é um espaço aberto.

 

E por cá andamos todos aos pulos, pretos, brancos e mulatos, europeus, africanos e extraterrestres. Demasiado anglófonos, populares, consensuais e apalermados. Demasiado herméticos, acessíveis, histéricos, liofilizados e alcoolizados pelas discussões, os méritos literários e a mais indigente das meritocracias. Ainda se confunde fazer amor com possuir. Tudo parece tortuoso. Entre o bem e o mal existe a solidão.

 

Eu agora passei a rezar para que Deus exista, pois, a ser assim, a maioria dos crentes que eu conheço vão direitinhos para as profundas dos infernos. E nem o Demónio lhes vale. Uma grande parte é corrupta, desvairada, cobiçosa e vingativa.

 

Acho que foi o poeta Eugénio de Andrade, que, a propósito do assassinato de Pasolini, escreveu que havia meritíssimos juízes que confundiam “moral com o próprio cu”. Agora, como os tempos são outros, a moral múltipla e os interesses mesquinhos, é caso para dizer que há líderes insignes que confundem política com o próprio traseiro.

 

Parece que a direita anda à procura dos costumes para se substituir à esquerda.

 

Os costumes a tudo se acostumam. Até àqueles que correm atrás deles para fazerem prova de vida política.

 

O que está a dar é misturar factos com falsidade.

 

Claro que não se podem colher os costumes como se eles fossem raminhos de cheiro. A fruta pesa e a maçã tentadora já vai para uns bons milénios que nos persegue a todos.

 

A verdade é que as suas vozes não são à prova de mentiras, são apenas a prova delas.

 

Eu já perdi a capacidade, e também a vontade, de interpretar símbolos. Quando ficamos velhos, as coisas transformam-se naquilo que são. Já nos cansámos de jogar às escondidas.

 

E por ali andam eles, nos lugares de poder, exibindo-se no parlamento, nos tribunais, nas reuniões camarárias, nos congressos dos partidos, nas repartições, nas igrejas. Depois transformam-se em monstros inamovíveis, isolados, demasiado poderosos, corruptos, ridículos e enfadonhos, capazes de fazerem discursos aborrecedores com o propósito de adormecerem o país e com o único objetivo de poderem atuar à vontade.

 

É um lindo espetáculo ver os pardais recolherem-se às grandes árvores dos largos. Antes, juntam-se nos telhados ou nos fios. Depois laçam-se em revoadas pelo ar, na tarde doirada de sol. Quando a luz começa a escassear, descem, às centenas, sobre a meia dúzia de árvores escolhidas, para aí passarem a noite, chiando muito, antes de adormecerem.

 

Para caminharmos em frente temos de saber as sementes que levamos na mão para adivinharmos os frutos que a árvore produzirá.

 

O homem é tanto maior quanto maior é a sua capacidade para sonhar.

 

Não nos podemos deixar abater pelas contrariedades. O tempo só se move numa direção. Não vale a pena resistir à mudança. O poder desloca-se em direção aos que se transformam na própria mudança.

 

 

03
Fev22

Poema Infinito (598): O sentido do mistério

João Madureira

IMG_4383 - cópia 3.jpeg 

Leonardo da Vinci trabalhou em muitas das suas pinturas tardias até ao fim da vida. E fê-lo por paixão pessoal, mais do que para cumprir uma encomenda. Transportava-as sempre consigo para lhe fazer melhorias. O seu interesse incidia, principalmente, sobre os olhos, a boca e os gestos. O grande plano de São João a emergir da escuridão e a apontar para o céu confronta quem o observa de forma absoluta. Os caracóis do cabelo, pedidos emprestados a Salai, fornecem alguma ornamentação. E lá está Salai a apontar o céu, em reconhecimento da divina providência do amor. E a apontar para a fonte de luz que irradia sobre ele, para conferir vida ao papel bíblico de dar testemunho da Luz. Tudo ali é perfeito: o uso do claro-escuro, em contraste com as sombras carregadas pela iluminação expressiva, que aumenta definitivamente o sentido de mistério da cena, além de transmitir um sentimento poderoso do papel de João, enquanto testemunho vivo da verdadeira Luz. João exibe um daqueles sorrisos enigmáticos que se transformaram na imagem de marca de Leonardo, repleto de uma sedução travessa que está ausente nos sorrisos de Santa Ana e de Mona Lisa. O seu sorriso é um vórtice de atração, devido à sua maneira ardente e sedutora, e também ao seu apelo espiritual. Tudo isto confere à pintura um fragor erótico, ajudado pela aparência andrógina de João. Apesar de os ombros e o peito serem largos, são femininos. Todo o modelo de João é Salai, com o seu rosto delicado e a sua inconfundível cascata de caracóis. A técnica de pintura a óleo do Mestre, envolve a aplicação de distintas camadas finas e translúcidas de velatura, revelando uma meticulosa e vagarosa atenção. Leonardo era incapaz de apressar uma pintura. O ritmo utilizado em “São João Batista”, aprimorou a delicadeza do sfumato do Mestre. Tudo no quadro é subtil: os contornos suaves, as linhas esbatidas, as transições entre escuridão e luz. Há, no entanto, uma exceção, Leonardo pintou a mão de João com maior nitidez e clareza, à semelhança do que fizera com a mão com que Cristo abençoa o mundo em Salvator Mundi. A linha separadora do dedo indicador e do dedo anelar de João é tão nítida como qualquer outra linha das outras pinturas de Leonardo, mas, seguindo a sua teoria da perspetiva da acuidade, ele sabia que tal nitidez daria à mão um aspeto mais próximo, como que num plano diferente. Deus está nos pormenores. Existe nela uma disjunção visual, pois a mão está posicionada à mesma distância do braço, intencionalmente delineado suavemente, mas, por ser mais nítida, a mão parece saltar na nossa direção e permanecer no foco. Mais tarde transformou João-Salai em Baco numa paisagem, pintura mais tarde alterada por outros devido a motivos de decoro religioso e sexual. E ali estava São João sentado numa saliência rochosa, com a perna esquerda cruzada sobre a direita, num corpo musculado, mas um pouco rechonchudo, como o de Salai, com os olhos mergulhados na sombra, fixando-nos com intensidade. No esboço original, Leonardo representava São João completamente nu. Existem provas de ter sido originalmente representado dessa maneira também na pintura. Quando foi convertido para Baco, colocaram-lhe um tecido de pele de leopardo sobre a virilha, uma grinalda de folhas de hera na cabeça e o bastão, ou a cruz, foram substituídos por um tirso. A ambiguidade inquietante de Leonardo entre o espírito e a carne foi substituída por uma representação menos chocante de um deus pagão cuja exuberância não é herética, ou erótica.

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