Barroso

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Nas cidades medianas, as surpresas são sempre modestas, são como simples variações sobre um tema simples, acompanhadas de bonitas melodias entorpecentes e soporíferas. Quer chova, neve ou faça sol. Até os poucos turistas parecem cansados de tanta calma. A lisonja assemelha-se a uma picada de mosquito. Aqui todos os percursos são previsíveis e as pessoas pacientes. Por aqui, o saber baseia-se na intuição. Os dias passam uns a seguir aos outros e depois confundem-se e confundem-nos. Provavelmente, a monotonia é relaxante. Os dias equivalem-se e as insónias ora diminuem, ora aumentam. Os ontens luminosos onde sonhávamos com os amanhãs que cantavam apagaram-se como fogueiras à chuva. A imobilidade pode ser um incómodo. A cidade tem um acordar cada vez mais tardio. Cansaram-lhe o coração. Dominaram-lhe a alma. Enfraqueceram-lhe as pernas. Agora passeia de andarilho. Pode ser que a farpela que usa seja até de bom tecido. Mas o corpo está velho e gasto. A cidade sempre foi maior do que aqueles que a governaram. Mas as mazelas que lhe infligiram são hoje mais visíveis do que nunca. Os queques provincianos ou se fecharam nas suas casas para esconderem as maleitas ou emigraram para outras paragens. Alguns habitam nos seus apartamentos do litoral onde observam o mar até à exaustão. Por aqui, as hipóteses de progresso estagnaram. Os conhecidos de outras épocas, e os velhos amigos, vão caindo da árvore da vida como frutos demasiado maduros. A boémia é uma coisa antiquada. Todos passaram à reserva, tanto os progressistas como os reacionários. Agora viram à esquerda e à direita, à direita e à esquerda, conforme as ruas por onde passam. E outros ocupam o centro… de dia. Agora é mais tensões altas, diabetes, colesterol e triglicerídeos. Parecem pistoleiros de western sem esporas, coldre, revólver, cavalo, cabelo e dentes. Até as velhas teimosias se tornaram inábeis. Alguns assobiam canções nostálgicas como pássaros de inverno. Os sonhos de outrora são considerados insensatos. Os jovens políticos, honra lhes seja feita, proferem banalidades com elegância e apresentam-se deveras graciosos nos seus fatos-uniforme. O poder está sempre a uma genuflexão de distância. Sabem gerir, mas não governar. Estendem-se na retórica, mas desconhecem a natureza do poder. Sabem cobrar as quotas, preencher fichas de militante e administrar razoavelmente os gadgets de campanha. A administração política não se aprende no programa e nos estatutos dos partidos. Aprender línguas é fácil, o difícil é dizer algo de inteligente ou interessante com elas. À maioria deles sobra-lhes espírito provinciano, mas falta-lhes qualidade e mundividência. Aprendem o significado de um único ato político de cada vez, sem o relacionar com outros. Agarram-se ao trivial. Essa é a sua boia de salvação. Mas boiar não é o mesmo que nadar. Deixam escapar, quando interessa, meios sorrisos e muita vaidade. São bons em conjeturas e adivinhações. A sua expressão amistosa disfarça a incompetência, mas nem sempre o suficiente. A arte está em responder nem sim nem não. A suspensão da consciência, por vezes também pode ajudar a manter as coisas no seu lugar. Mentem de propósito para nos convencerem que estão a dizer verdades como punhos. A verdade e a mentira são entusiasmos. A arte da manutenção reside na repetição. Os propósitos não se julgam, mas os factos sim. O poder é como a cocaína, cria habituação. Por vezes é agradável ir à missa, participar naquilo que todos fazem e ser apenas mais um. E aquilo até dura pouco. E no fim até nos abraçamos uns aos outros como se fôssemos irmãos. O pecado da carne, atualmente já é visto como venial. Quase toda a gente pode comungar, mesmo sem se confessar. As pessoas pensam de uma maneira e exprimem-se doutra. A democracia é uma coisa boa, mas poucos percebem o seu alcance e as suas limitações. As pessoas votam de forma intuitiva, em quem lhes inspira confiança ou em quem lhes mete menos medo. E assim põem tudo nas mãos dos governantes. A verdade é que há demasiadas vozes e demasiada insatisfação. Quem lida com os políticos locais e com as denominadas forças vivas facilmente se apercebe de que a maioria se odeia e se dá muito mal entre si. Nas cidades medianas, as surpresas são sempre modestas, etc…



Foi aqui nesta árvore que o Quim Parrulo se enforcou. Ninguém sabe bem porquê. A superfície do poço não reflete nada. Nem os rostos, nem os gestos de ninguém. Sinto o peso trémulo da ausência. Os olhos andam à deriva no meio de tanto céu. De tanto azul. As minhas mãos transformaram-se em pássaros. Os olhos das crianças são rápidos. O chão começa a inclinar-se. Devagar. Tudo se aprende devagar. Até o ter pressa. O chão torna a inclinar-se para o mesmo lado. O chão e as lágrimas quentes e salgadas. Voltou de novo uma sensação perturbadora de incerteza. Olho em volta à procura das palavras. Certas. Consigo sentir o espaço vazio dentro de mim. As memórias vêm cada vez mais cedo. Deparo-me, de repente, com a manhã. O tempo desfoca-nos o olhar. As partes mais ativas do passado fragmentam-se e espalham-se no chão. A imobilidade não existe. Algumas luzes amistosas ainda brilham nos locais que fomos obrigados a abandonar. Shame. Shane. As memórias estão espalmadas entre as páginas da enciclopédia, misturadas com as flores. Sempre me senti melhor com as coisas à distância. Os sorrisos estão presos nas arestas. Arestas e aragens frescas. Sorrisos quentes. Este azul salgado vem soprado do mar. Provavelmente sou um filisteu perdido nos espaços da casa e das ruas da aldeia. O amor é tão regional! Agora é tudo minimalista. Até os gatos parecem fundamentalmente inadequados, confusos, quase plausíveis. Quase felinos velhos e ineficazes. As noites aparentam conter apenas estrelas e vazio. Uma ténue brisa enruga a superfície do rio. O dia de amanhã vai ser ainda mais fundo do que o de hoje. Sentem-se as minúsculas partículas da gravidade. É por isso que a alma dói. Antigamente andava a aprender a ver as coisas que considerava impossíveis. Agora até as coisas possíveis são um enigma. Tudo rebentou em estilhaços. A confusão é a coisa mais normal do mundo. Agora vem tudo em fragmentos: a poeira, as sombras, a luz das lâmpadas. O perigo. Os olhos do pai vazavam luz, como se ele fosse santo. Reconheço o abraço. O amanhecer. O nevoeiro. Os lameiros. Depois tudo se esfuma. E desaparece, como a bruma sobre o outeiro. Fica só a emoção e a sensação geral de perda. No topo do poste da luz, um estorninho enfrenta o final. Do verão. Esta chuva a despropósito tem o seu peso concreto. A sua fúria encharca. No meio da avalanche, as palavras tentam nadar para não desaparecerem. Desloco-me no sentido contrário ao da vontade da água. As alterações climáticas hão de matar a hidrosfera. As mudanças tanto podem trazer extensões do tempo como o seu colapso. As grossas gotas de chuva ditam haikus ao vento. A tempestade parece uma composição orquestral. O Pinóquio vai ficar muito inchado. Enquanto houver caminho para andar existe a possibilidade de encontrar respostas. O gato parece que olha para as árvores, mas eu sei que os seus olhos se fixam apenas nos pássaros que nela pousam. Mesmo que as respostas desapareçam, as perguntas persistem. Nada nunca está imóvel. À nossa volta, as coisas estão prestes a ficar sem fundamento. Existe sempre uma espécie de segredo em exposição. Daí a necessidade de estar sempre a parar e a recomeçar. A vida é um movimento dessincronizado. A origem das espécies deu nisto: no Senhor Ninguém.


O respeito foi inventado para dissimular a falta de capacidade de liderança.
Ouvimos vozes. Apesar da grande prudência, na nossa sociedade passam-se mistérios de que não possuímos a chave para desvendar. Mas o sorriso subtil dos oráculos diz-nos que os amigos dos meus amigos meus amigos são. E aqui não existe vice-versa.
Quando não sabemos lá muito bem onde queremos chegar, o melhor é ficarmo-nos pelas generalidades. A verdade é que os urbanos arranjam sempre maneira de se tornarem ridículos, pensando que ridículos são os outros. Por isso é que os olhares desconfiados tendem a aumentar.
Sinto-me inquieto ao passear nas ruas, pois agora têm ar de quartos mobilados que dão diretamente para salas de estar onde se vende roupa ou sapatos. Isso provoca em mim um contentamento muito parecido com uma nevralgia.
Perante tudo isto só nos resta a indiferença. Não percebo esta loucura de construir e de pintar. Modas e pinderiquices de novo rico. Parece que querem arrancar as raízes do nosso passado. E fingem esquecer.
Tantas pessoas a passear cães. Esta sociedade até parece feliz. E alegre. A vaidade passou a ser uma satisfação. Os donos parecem submissos aos cães.
Flutuamos entre a expetativa e a consternação. Por isso é que proliferam por aí os imitadores baratos de Nadir Afonso, pensando que a arte do Mestre nasceu do acaso. Ou por acaso.
Está na moda os inocentes rirem-se alto e bom som dos homens denominados como intelectuais. Os indiferentes, por descargo de consciência, verificam a justeza dos reparos dos críticos, evocam pequenos pormenores e acabam por lembrar as badanas dos livros importantes que não se atreveram a ler. Depois é o silêncio. A desilusão. O desperdício.
Lembram os distraídos que o mais avisado é não conceder tempo à tagarelice.
Brindemos pois a toda esta gente afetuosa. Aos que partem. Aos que chegam. Aos que permanecem.
Bravo.
A isto chamo eu falar com o coração.
É bom cantarmos todos o hino em uníssono com o Cristiano Ronaldo e com a mão direita posta no lugar do coração. A mim até as lágrimas me vêm aos olhos. Heróis do mar… contra os canhões… marchar, marchar. É arrepiante.
Hurra.
As ovações e os agradecimentos repetem-se. O Cristiano é o mais Ronaldo de todos nós. Só é pena não ser do glorioso-ocioso. Depois tudo nos acontece: as influências, as libações, as opiniões e a idade madura. E lá vamos todos para a guerra do futebol, cantando e rindo, levados, levados sim…
A nossa ciência e o nosso heroísmo baseiam-se na ideologia do negociante. E eles necessitam tanto de auxílio.
Dizem que não há salvação para os incrédulos. Mas quem não tem salvação, salvado está. Pelo menos não são hipócritas, os incrédulos.
Já os otimistas não fazem trabalho de campo, basta-lhes a esperança para progredirem. Invejo-lhes a confiança. As lendas e os mitos falam através das suas bocas. Até para a improvisação é necessário muita experiência. E há também aquelas vozes autorizadas onde tudo o que sai dos seus lábios soa a verdade. Quando dizem a verdade e quando mentem.
Tenho de confessar que os meus anjos da guarda são desagradáveis. Não sobrevoam nem esvoaçam, são daqueles que se fecham em casa. São tímidos e envergonhados. Por vezes, lançam-me um olhar rápido de entendimento. Noutras ocasiões, os seus olhos revelam deceção, pena. Ou mesmo indiferença. Mas eu já estou habituado. Resignam-se. E eu também. É tudo uma questão de hábito. Tenho de reconhecer que aos seus olhos eu sou incorrigível. Mas a verdade é que nunca me encostaram à parede. Tento reagir ao que posso como a maioria das almas que se têm por puras e nobres. Por vezes é tudo muito teórico. Outras é tudo demasiado prático. Mas eu tento sempre não esquecer os princípios e as convicções. Nisso sou como os meus anjos da guarda.
Penso constantemente numa frase de Ivo Andric sobre os lobos: olhamos todos para os seus dentes e não para os olhos.
Primeiro vem o julgamento e depois o esquecimento.
Sim, também eu, quando fixo os meus anjos da guarda, reparo primeiro nas suas mãos habilidosas é só depois olho para as asas, não vá dar-se o caso de eles serem anjos vingadores em missão secreta.
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