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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

30
Jun22

Poema Infinito (619): Incandescências

João Madureira

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A lua fica por vezes incandescente. Pequenas, pequeníssimas, imperfeições podem construir uma grande perfeição. Por isso te beijo. Por isso te amo. Cinco sereiazinhas nos levarão. Alfonsina já pode ir, vestida de mar, mas nós ficaremos para sempre, mais um pouco, juntos na aurora, a ouvir o contrabaixo de Avishai Cohen. Eu e tu e os nossos cavalos marinhos e a sereiazinha que sorri e canta ah, olá, bá e tataratatataratá. Todos juntos a chorar de tanto rir. E a rir de tanto chorar. Arrefeceram as sombras dos ciprestes ao crepúsculo. Um vento forte chicoteia o cimo da colina, dobrando as árvores. É difícil resistir à erosão. Somos pássaros no meio da tempestade. O domínio da fé necessita de muita má-fé. Os verdadeiros crentes são alucinados. Os sinais inamovíveis confrontam a tolerância, os desastres e as aventuras. Temos de continuar a procurar a história cultural do amor. O livro está cheio de vozes e do perfume das flores noctívagas e de reminiscências e de coisas extraordinárias. E de profecias. E de mitologias. E de abalos. E de tensões. De pessoas invisíveis. De histórias esquecidas. E de amores em forma de antibióticos injetáveis. Rodopio os olhos, assimilando o calor, as pessoas, os animais, as flores, as árvores. Os movimentos e a energia. Começam então os jogos mentais. O ar crepita. Fixo-me no sítio onde as maçãs caem. Frutos caídos são sempre comoventes. Parece que perdem o seu fascínio. As grandes aventuras prodigiosas acabam sempre em tragédia. Ironias são pérolas do desalento. Todos os corpos possuem o seu próprio atlas antes da posse ou da possessão. Antes do toque ou da dor. Antes daquilo que é preciso. Antes das vozes serem engolidas pela espuma. Os colibris também morrem cansados da velocidade com que batem as asas. Provavelmente Deus fala através de ironias incomuns. O tempo é agora um círculo infinito e ardente. Arcos de luz giram à nossa frente. Subo à montanha para me aliviar da dor. Olho para a terra abandonada e agarro-me às memórias. Deixo a porta aberta para que o luar entre. Deixo a porta aberta para que o sol entre. As fotografias dessa altura são todas mentais: os cabelos curtos dos rapazes, as longas tranças das raparigas, os corpos magros, os sorrisos malandros, os olhos fogosos. O ar da montanha entardece. A pele vibra. A minha aldeia é o centro do mundo, cheia de ângulos tensos e de uma energia brutal. Muito sangue antigo corre por este lugar. A guerra entre deuses rivais atenuou-se. Sussurramos os nomes dos antepassados enquanto marchamos montanha acima. Raios de luz desfocam o cume. Ajoelhamo-nos no topo do nosso mundo. Agora já podemos descer a montanha. Tataratatataratá olá ah bá canta e sorri que a sereiazinha e os nossos cavalos marinhos e tu e eu vamos escutar o contrabaixo do Avishai Gohen a navegar e depois vamos juntar a aurora um pouco mais e ficar para sempre vestidos de mar e verde e Alfonsina a levar no colo as cinco sereiazinhas por isso te amo por isso te beijo as perfeições que são tão imperfeitas e tão pequenas pequeníssimas como pó de estrelas. São estas as novas reminiscências das coisas extraordinárias. O cume da luz. Histórias invisíveis. Pessoas esquecidas. Pessoas lembradas. Pessoas amadas. Colibris a eclodir. Olá Rute. A tua luz vem lá de cima. Muito lá de cima.

27
Jun22

595 - Pérolas e Diamantes: Depois de desligar o telefone...

João Madureira

 

Apresentação3-2 - cópia 2.jpg 

Depois de desligar o telefone deu-me uma forte vontade de tomar uma aspirina efervescente e beber uma taça de silêncio. Estou mal disposto. Pode não parecer, mas vou para velho. Até já me chateio menos com os filmes chatos que os críticos de cinema dos jornais dizem apreciar. Ai Godard, Godard, que vontade de te apreciar. A gente de hoje gosta muito de passear de carro e de ir encalhar-se aos fins de semana em restaurantes barulhentos. Vivemos no tempo das paixões limitadas e dos costumes apriorísticos. É tudo tão politicamente correto que dá vontade de ser, pelo menos, xenófobo por uns minutos. Ler o Tio Patinhas e ouvir Júlio Iglésias são as referências culturais da nossa classe média. O Mandrake já ninguém conhece e a Chavela Vargas também não. Com crisálidas assim o eu tende a expandir-se quase até ao infinito. Ou ainda mais além. Então, o país progride ou quê? Agora é mais peixe e vegetais para combater o colesterol e melhorar os intestinos. O melhor é ir ver à Wikipédia o significado de celibato, epistemologia e transgénero, não vá o Diabo tecê-las. Toda a seriedade nos cabe dentro da fantasia. E o ventinho volta a soprar lá da serra. Um vento provisório e instável. Deu-nos agora para andarmos a reciclar Richelieus e a pô-los à frente de gabinetes. O nosso D’Artagnan não tem escapatória. Não encontra nem a história certa nem o caminho de saída. Ainda me lembro de ficar atrapalhado com a hóstia pegada ao céu da boca e eu a tentar mexe-la com a língua, dado ser pecado trincá-la, pois aquele bocadinho redondo de pão ázimo era, para todos os efeitos, o corpo de Cristo. Era no tempo em que as catequistas cheiravam a remédio e davam bofetadas por não sabermos o catecismo na ponta da língua. Era também o tempo em que nas festas recebíamos revólveres de fulminantes e corríamos pelas pradarias a dar tiros nos índios. E soprávamos gaitas de centeio. E partíamos vidros com as bolas de futebol. Mais tarde imaginávamos ser o Sandokan, o Tigre da Malásia, esse personagem lindo, moreno, de turbante, barba bem aparada, olhos verdes a combinar com o rubi no meio da testa. O nosso alimento intelectual era a leitura do Mundo de Aventuras, do Cuto, do Jacto e da revista Tintim, a cargo do Vasco Granja e do Dinis Machado. Depois meti o dente em Dostoievski e foi o cabo dos trabalhos. Mas ainda hoje me orgulho desse pequeno sacrifício. E também dos filmes que vi no cinema da minha aldeia, num pátio grande, projetados num lençol branco amarrado à parede. E nós sentados em bancos corridos de madeira. E nas nossas costas a lente do projetor que trepidava como a máquina de costura da mãe. Não era fácil aguentar duas horas de filme sentados em bancos sem costas. Por vezes a imagem desfocava, outras parava e víamos o fotograma a queimar-se com o calor da lâmpada, por entre os protestos dos adultos e os gritos das crianças. Era então quando os índios e os cobóis tinham de interromper a batalha por alguns minutos enquanto o senhor da máquina de projetar cortava e emendava o celuloide. Mas tudo acabava em bem. Depois muitas das viúvas choravam porque ninguém lhes conseguia curar a solidão. Já os homens casados bebiam na taberna vinho até não poderem mais. E assim fui crescendo, atravessando a adolescência sem dar por ela. Ou ela por mim. A mãe começou a galgar anos como se subisse escadas a custo. E o pai fumava e bebia cada vez mais. Passei a viver, no bairro, entre contrabandistas, guardas e artistas de circo. E também ao lado dos maníacos dos pombos-correios. E a mãe insistia sempre em me cortar as unhas, pois cresciam como se eu fosse um esfomeado. Ainda me lembro do poço e da capoeira e do automóvel em quarta mão do vizinho, que era o principal motivo de todas as discórdias e embirrações familiares. A verdade é que as pessoas se habituam a tudo. Até à pobreza. A seguir chegou a vida metódica, o levantar cedo para ir trabalhar, o pequeno-almoço temperado umas vezes com paciência e outras com mau-humor. E as rotinas. Emprego. Casa. Jantar. Filhos para criar. Otites. Amigdalites. Gripes. Antibióticos. E papas Cerelac. Mas não me lembro de gente desempregada. Só de donas de casa cansadas. E da tristeza das tardes de domingo. E da tristeza das segundas-feiras. E o D. Quixote sempre a acompanhar-me e a lutar contra os moinhos de vento, a lutar contra tudo isso e a perder constantemente. Os livros são um perigo.

23
Jun22

Poema Infinito (618): Redemoinho de luz

João Madureira

IMG_4383 - cópia.jpeg 

Não há nada pior do que um novo medo. O medo da água de quem está habituado à terra firme. E lá vem a memória do estorvo, o triângulo das ruas, o retângulo das cores, os invernos desnivelados, a vida familiar. As ervas e os salgueiros. Os rapazes e as raparigas moncosas, em lágrimas. E as aves agitadas, as vacas balanceadas, as ovelhas peadas, a poeira suspensa, os barrancos inseguros, o fumo das casas a rebolar no ar. Os gritos densos. E os relinchos inquietos e nervosos dos cavalos. E o bater metálico das ferraduras dos seus cascos no empedrado. Surgem sombras no chão à nossa frente, como tinta espalhada sobre a terra. Anjos maus voam por cima de nós. O rio parece que se desmorona nas rochas. O espaço continua a tremer. Algumas vacas suspiram, mexem-se, soerguem-se e voltam a deitar-se. O silêncio da tarde parece incomodá-las. O céu côncavo oprime-nos. A todos. A desgraça, como um cardo agarradiço, é sempre mais certa do que a alegria. Chegámos ao fim do mundo. Subimos as escadas. E connosco sobem a saudade e as memórias. Sente-se o cheiro a calor. Ali estão as imagens fixas da mó do moinho que sustentava o lume e os potes, o escano, o louceiro, a bilha da água, a velha arca, os sussurros enigmáticos, a tristeza da mãe a um canto, junto ao gato e à vassoura de codessos. Na rua continua a soprar um vento de pressentimentos. Há silêncios que são como pedras a cair num poço sem fundo. Os tartaranhões cavalgam o vento lá nas alturas, com as asas abertas. Um crepúsculo precoce lança um feitiço sobre a aldeia. Este tempo parece infinito, vazio, gotejando lentamente. A magia da bruma já não me toca. Confundo os salmos com as canções para beber. Muito lá à frente está o futuro. Os pássaros de inverno acasalam com os pássaros da tristeza. As coisas magníficas também morrem. E sem razão aparente. As geadas precoces provocam desenvolvimentos indesejáveis. Os sorrisos de véspera desapareceram num redemoinho de luz. Por vezes, abrimos os olhos e a luz entra dolorosamente. Algumas palavras criam raízes na nossa alma. As tempestades de verão abrem as janelas para deixarem passar a água da chuva que também se acumula no chão, encharcando os tapetes. O sono passou a ser inquieto. As cicatrizes, por vezes, provocam-nos comichão. O tempo dá lugar a círculos infinitos. Uma colher no pires do chá estremece e tilinta, contagiada pelo tremor de terra. A lâmpada baloiça e as sombras dos objetos mexem-se nas paredes. Tudo vibra. Andamos a tapar buracos com a terra dos que abrimos. Agora não é a terra que treme, sou eu. A situação está clara, mas esta clareza não clarifica nada. Tudo permanece igual. Tudo vacila. Tudo baloiça. Sobretudo as sombras. Todo este espanto parece infantil. Todas as ruas levam ao rio. Apesar do sol aquecer a corrente do rio e o vento por cima do seu leito, adivinha-se um vazio aflitivo. O abandono passeia pelas ruas e praças. A casa materna é sagrada. Por causa das dietas, até as palavras ficaram anoréticas. Dividem-se as palavras por causa do desespero. Todos respiramos com dificuldade este ar puro. Até a respiração está viciada. A subitaneidade do desespero apanhou-nos a todos de surpresa. A lógica das leis da vida deixou de atuar. Habituamo-nos ao silêncio. Não à sua beleza intemporal. Esta tranquilidade é ilusória. Que enganador é o pressentimento.

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